espero-te na entrada. sei que, eventualmente, acabarás por chegar.
espero-te como se me esperasse a mim mesmo. cesso todos os movimentos, até o respirar, enquanto aguardo. sinto os restos da chuva a passarem sobre meus dedos mas não sinto o frio.
recordo, lentamente, os passos que demos a atravessar as ruas, como nos perdemos das ruínas de nós no pó da terra inteira, como nos deixamos chover sem ter medo algum, como nos permitimos falar até o silêncio ter espaço para chegar, como o vento entoava melodias dentro do nosso sangue, como a poesia era tudo o que a dor deixava sentir.
poderia ouvir-te falar o resto da minha vida inteira.
poderia ser eu mesmo se existir passasse a ser o que acontece a teu lado, para o resto da vida.
espero-te na entrada, onde acabarás por chegar.
espero-te como se esperar fosse reconhecer ter encontrado o lugar de nós no que faltava desta cidade. fui saber-te tão longe, mas tão aqui, no lugar onde eu começo, no lugar onde tu começas, no lugar onde nos encontramos e conseguimos ser mais do que duas solidões perdidas no tempo.
talvez, um dia, possas regressar. talvez, um dia, te reconheças na espera e chegues, aqui, a este lugar onde eu não sei ser eu sem ti.
03/05/2015
23/04/2015
mEloDia
há música nos gestos
vida nas mãos
lágrimas no rosto coberto de lama
e pó nos lábios fechados.
há música dentro do silêncio
dança dentro da alma
uma respiração lenta e demorada.
inspira.
há estrelas a rir por detrás da noite.
lugares de coisa nenhuma cheios de nadas por completar.
há caminhos que podem terminar apenas no lugar de nós,
quando nos decidirmos a saber partir.
vida nas mãos
lágrimas no rosto coberto de lama
e pó nos lábios fechados.
há música dentro do silêncio
dança dentro da alma
uma respiração lenta e demorada.
inspira.
há estrelas a rir por detrás da noite.
lugares de coisa nenhuma cheios de nadas por completar.
há caminhos que podem terminar apenas no lugar de nós,
quando nos decidirmos a saber partir.
a noite demora.
talvez seja quase manhã lá fora mas aqui,
neste lugar reservado às coisas que se aguardam,
a noite é lenta e demora-se na pele,
demora-se nos olhos,
demora-se na incerteza do tempo.
talvez seja ainda noite lá fora mas aqui,
neste lugar reservado às almas que se perdem do tempo,
o dia teima em circular no sentido oposto e em desaparecer
por entre o nevoeiro que queda sobre as madrugadas mais frias do começo
da primavera.
a ânsia cresce por dentro.
o tempo afunila-se nas imagens do que se espera que chegue a chegar,
sem que chegue,
e a alma demora-se na languidez da possibilidade de,
dentro em pouco,
poder vir a ser manhã.
19/04/2015
chEgar
Não pares agora que a dança te
abraça na lentidão dos dias. Não cedas ao cansaço agora que a luz iniciou o
caminho até chegar ao lugar que fica reservado às coisas por dizer. Não partas
agora que quase começaste a chegar ao lugar de ti.
Olha para a frente de cada vez
que tiveres medo. Olha em frente e vê o caminho que se abre diante de ti,
diante da tua sombra, diante dos teus pés despidos. Não tenhas medo. Navega as ondas
como se dançasses sob o luar. Bebe a noite como se começasses a nascer. Diz todas
as palavras que te magoam e chora perante o que resta do mundo.
E renasce. E recomeça. E não
temas o por vir.
Não pares agora que aprendeste a
dançar(-te). Não cedas agora que começaste a olhar(-te). Não partas agora que
chegaste(-te) até aqui.
09/04/2015
deliRium
Quando chegar, vou dizer-te que o
mundo acabou. Sei que ainda não sabes, mas o mundo acabou. O que encontras
dentro da tua imagem não és tu. É apenas o delírio do resquício do que foi em si
e já não é mais nada. Quando chegar vou mostrar-te que, afinal, eras tu quem
não estava aqui. Eras tu que não estavas no lugar certo quando o mundo morreu. Por
isso não viste, por isso não soubeste. Escutas as vozes que gritam dentro de ti
e perdes-te na certeza incerta de seres tu e o outro, e os outros que são em ti
sem que queiras, para deixares de ser tu e passares a ser apenas aquilo que
resta quando paras de sentir. Quando eu chegar não estou seguro de que te vou
encontrar. Mas se o mundo morreu, tenho de chegar até ao lugar que ocupas em
mim para podermos sobreviver. Vou ser a outra voz dentro de ti que te serena e
te diz que, afinal, quem morreu foste tu e o mundo é tudo o que acontece lá
fora, onde tu já não podes estar.
dUst
olho o mundo no caminho dos passos. o vento não
cessa de me abandonar de cada vez que cedo a cair. queria poder tocar nas asas
do vento e destruí-las. queria poder tocar nas ansas do tempo e rasgá-las.
como se rasga a carne, como se abrem as feridas, como se morre morrendo, como
se entoa um cântico. queria poder tocar-me de cada vez que cedo à gravidade e
quedo, mas o corpo fica longe da minha mão. não me toco de cada vez que me
abandono e estou cada vez mais longe do lugar onde deveria estar. olho o mundo
como se estivesse a cair e na verdade é o tempo que me empurra e me deserta. queria
poder destruir-me no tempo como se destroem as asas de pó que navegam o vento. queria
rasgar-me na certeza de que amanhã a ferida estaria aberta para depois se
fechar sem ter me tocar. ou cair nas ansas do tempo e fechar as mãos tão longe
do meu corpo de pó quanto fosse verdadeiramente possível.
03/04/2015
sou o lugar de coisa nenhuma. sou o lugar onde o deserto termina e o tempo consegue parar. se olhares para mim por um momento, se me vires por um só momento, vais poder compreender tudo. vais poder perceber a essência das coisas que nos compõem, que nos fazem, que nos completam. se me conseguires olhar, se me souberes ver, vais encontrar-te no fundo e mim e vais saber, com a certeza de que o deserto também termina no tempo, que foste sempre a maior dimensão de mim.
A chuva parece ter, finalmente, partido. Os dias alongam-se nas horas e a noite queda mais lenta, como se demorasse mais a chegar.
Há uma intensidade nas coisas que acontecem lá fora, diferente do que se sucede no tempo de aqui. Aqui já nada se move da mesma forma, já nada acontece, já nenhum movimento se espera.
Das janelas vê-se, primeiro, as grades; só depois o rio, só depois o céu.
Daqui, de onde eu estou, há uma grade que me separa de tudo o que acontece fora de mim e ao que eu pareço não poder chegar.
As coisas que acontecem em mim não são as coisas que podem ser fora de mim.
Aqui já não há nada intenso, nem longo, sem ser a imensidão da solidão que me ocupa no vazio. Tudo é lento, sim, mas tudo acontece sob a forma de chuva. Chove aqui dentro e não depois de aqui. A chuva parece, finalmente, ter cessado; excepto em mim.
Há uma intensidade nas coisas que acontecem lá fora, diferente do que se sucede no tempo de aqui. Aqui já nada se move da mesma forma, já nada acontece, já nenhum movimento se espera.
Das janelas vê-se, primeiro, as grades; só depois o rio, só depois o céu.
Daqui, de onde eu estou, há uma grade que me separa de tudo o que acontece fora de mim e ao que eu pareço não poder chegar.
As coisas que acontecem em mim não são as coisas que podem ser fora de mim.
Aqui já não há nada intenso, nem longo, sem ser a imensidão da solidão que me ocupa no vazio. Tudo é lento, sim, mas tudo acontece sob a forma de chuva. Chove aqui dentro e não depois de aqui. A chuva parece, finalmente, ter cessado; excepto em mim.
10/09/2014
silk
seguram-me finos fios de seda.
a chuva está prestes a chegar e eu ainda não comecei a andar. em breve terei de começar a mover-me. em breve terei de desaparecer.
rasga-se-me a pele à medida que equaciono o movimento. o sangue queda, frio, sobre a terra bafienta. está quase tudo seco aqui. está quase tudo morto aqui.
se, ao menos, escutasse a tua voz, poderia quebrar os fios que ainda me seguram e começar a correr.
mas só há silêncio, hoje e sempre, aqui, por dentro deste lugar.
a chuva está prestes a chegar e eu ainda não comecei a andar. em breve terei de começar a mover-me. em breve terei de desaparecer.
rasga-se-me a pele à medida que equaciono o movimento. o sangue queda, frio, sobre a terra bafienta. está quase tudo seco aqui. está quase tudo morto aqui.
se, ao menos, escutasse a tua voz, poderia quebrar os fios que ainda me seguram e começar a correr.
mas só há silêncio, hoje e sempre, aqui, por dentro deste lugar.
09/07/2014
13.
escuta.
espera um pouco.
espera por mim.
passou demasiado tempo. a vida passou demasiado depressa. a vida não parou e esqueci de aprender a esperar. espera por mim.
escuta. passou mais um ano. mais um sobre todos os outros que tive de passar sem estares aqui.
hoje, cada vez mais, o tempo parece que não devia ter passado. tudo seria tão diferente se tivesses ficado. se tivesses podido escolher ter ficado. eu teria escolhido teres ficado, aqui, perto, e tudo teria sido tão diferente.
e hoje não seria tão dificil. e ontem não teria sido tão sangrento. e hoje eu poderia dormir na certeza de que amanhã respiravas para eu poder viver.
resta-me segurar-te na fraqueza de mim e não te deixar partir, mais um ano.
escuta. espera por mim.
espera por mim.
espera um pouco.
espera por mim.
passou demasiado tempo. a vida passou demasiado depressa. a vida não parou e esqueci de aprender a esperar. espera por mim.
escuta. passou mais um ano. mais um sobre todos os outros que tive de passar sem estares aqui.
hoje, cada vez mais, o tempo parece que não devia ter passado. tudo seria tão diferente se tivesses ficado. se tivesses podido escolher ter ficado. eu teria escolhido teres ficado, aqui, perto, e tudo teria sido tão diferente.
e hoje não seria tão dificil. e ontem não teria sido tão sangrento. e hoje eu poderia dormir na certeza de que amanhã respiravas para eu poder viver.
resta-me segurar-te na fraqueza de mim e não te deixar partir, mais um ano.
escuta. espera por mim.
espera por mim.
01/04/2014
Cheira a cinzas e a vazio.
Faz frio aqui.
As vozes, roucas, entoam melodias há muito esquecidas.
Nesta casa não existe amanhã. Existe apenas o que sobra da
noite quando o dia decide partir. Sobra apenas a madeira antiga a rasgar a pele
dos pés despidos.
Se ouvires com atenção, reconheces que o silêncio já não
está aqui. Que há um ruído interminável a sobrevoar toda a capacidade de
respirar e deixas de querer respirar. Às vezes deixas de querer respirar e
passas a querer ser a chuva que corre do lado de fora dos vidros, das paredes,
da madeira, e transforma a terra no lodo onde te podias deixar tombar.
Se escutares com atenção o que o vento dentro da tua memória
dita, verás que as coisas que não podem ser alteradas, são como esculturas
esculpidas no gelo que existe dentro de cada um de nós. Gelo que nenhum sol
pode derreter.
Por isso faz tanto frio aqui. Por isso não podes, nunca,
chegar a ser chuva.
Por vezes não me encontro no
lugar que ocupo. Não me reconheço na imagem projectada. Não revejo os gestos dentro
do corpo como se o mesmo fosse meu. Conto o tempo e não sei onde estive. Reconto
os passos e não sei de onde vim. Atravesso as memórias difusas, em névoa,
dentro das imagens que guardei e não tenho a certeza de serem reais. Perco-me
demasiadas vezes no caminho para ter sabido ter estado ali. Preciso do que reconheço
não poder nunca chegar a ter e iludo-me na sensação de que não sou eu quem
procura. Quero olhar para mim e juro que não me encontro aqui. Eu não sou eu nem o outro, sou qualquer
coisa de intermédio, dizia o poeta morto dentro de si mesmo. Eu não sou eu
sem ti. E essa é a única verdade do universo que eu reconheço. E tu és o único lugar
em que eu existo.
12/03/2014
Estou a olhar para ti e não te encontro.
Estou a olhar para mim como que a querer ver-te a ti mas parece-me que nenhum
de nós chegou a tempo. Olho para o que sobra da tua sombra em minha pele e esqueço-me
onde estou. Inalo-te inteiro dentro do meu sangue e esqueço-me de ser. De respirar.
Esqueço-me de respirar enquanto espero que chegues. És inteiro dentro de mim
porque eu sempre fui tão pouco. E tu sempre foste o que havia de melhor no
lugar que me sobrava. Espero-te há tanto tempo que já não sei quanto tempo
passou. Na verdade, a vida não parou. Na verdade, a vida não parou em mim e eu
fui morrendo. Na verdade, esqueci-me de respirar todos estes anos e agora
envelheci inteira por dentro da alma. Sempre que me encontro no meio de mim és
tu que me ocupas. Sempre que me vejo a olhar para mim são os teus olhos que
vejo e cego por não saber como te ver e como te fazer ver-me. Esqueço-me que o
lugar que reservamos ao amor morre se não nos lembrarmos de respirar. Se não
soubermos dizer as palavras que ocupam os lugares do sentimento sentido. Se não
soubermos lutar com o guerreiro silencioso que morre em cada um nós. Esqueci-me
de te dizer todas as coisas porque nunca aprendi como dizer e o que eu não digo
é sempre tão maior do que o que sei dizer. Mas na verdade, não se sabe ouvir o
que está por dentro do silêncio quando não nos encontramos no tempo certo. Esqueço-me
de respirar cada vez que te perco e morro em mim. Vivo eternamente de cada vez
que te encontro e volto aqui. A este lugar em que não te digo tudo o que te
digo e em que continuo a morrer na espera de te rever.
20/01/2014
perdoa-me. não me encontro na imagem e ti e tu não me vês.
perdoa-me. perdi-te irremediavelmente.
perdoa-me. devia ter sabido segurar-te. era a minha fortuna e não fui capaz. perdoa-me. não fui capaz.
deus sabe que tentei, como tentei, o que perdi, o que achei que tinha encontrado, o pó e as sombras, os labirintos e as espirais, os abismos e a queda eterna. perdoa-me.
não era suposto ter caido.
perdoa a minha incapacidade e o meu cansaço.
perdoa os meus olhos cegos, a minha fala selada, o meu abismo aberto sobre ti.
perdoa-me se morri cedo demais. se falhei cedo de mais. se te perdi cedo demais. mas deus estava a ver. sabe que tentei. mais ninguem me mostrou o caminho.
perdoa-me se não soube escolher o caminho certo.
eu tentei. falhei. tentei. morreste. falhei. morri.
perdoa-me.
mastigo o vidro enrolado no sangue da lingua.
lambo a aspereza da pedra enquanto a boca se dilacera.
morro de tristeza enquanto o vidro me desfaz.
a lingua enrolada na tisteza do gelo a partir. da pele a rasgar. do sal a queimar. do mar a morrer.
a morrer enquanto ondas de sangue me dilaceram por dentro e a minha boca desaparece no silêncio da chuva que parou dentro do meu corpo.
e morro.
na tristeza de estar agora aqui.
lambo a aspereza da pedra enquanto a boca se dilacera.
morro de tristeza enquanto o vidro me desfaz.
a lingua enrolada na tisteza do gelo a partir. da pele a rasgar. do sal a queimar. do mar a morrer.
a morrer enquanto ondas de sangue me dilaceram por dentro e a minha boca desaparece no silêncio da chuva que parou dentro do meu corpo.
e morro.
na tristeza de estar agora aqui.
16/12/2013
Quando olhares para mim já não me
vais encontrar. Vou ser eu aqui sem ser eu aqui. Não vou ser mais do que o que
já fui e o que deveria ter sido e o que ficou no meio do caminho. Vou ser mais
mas vou ser menos que mais. Vou ser o que sobra das coisas que não findam. Vou ser
como o sol no inverno e a chuva no verão. Vou ser eu sem ser eu. Vou ser nada
depois de mim. Vou chegar a ser o que nunca fui e não ser nada mais além do que
o que devia ter sido. Vou ficar por ser o que era para ser sem ter chegado a
ser em momento nenhum. E isso terá de ser o suficiente. Se voltares a olhar
para mim.
12/11/2013
Segura-te bem. Isto
é o começo do fim. Todas as linhas de aço que te seguram estão já corroídas do
tempo e da chuva que não chegou, nunca, a cessar. Segura-te bem. O fim é o
momento que vem depois de agora.
Não precisas
temer nada do que possa vir. Não vai ser muito diferente do que viveste até
aqui. Não vais questionar. Não vais querer mais. Vai ser tudo igual.
O mesmo cubo de
onde não vais, nunca, chegar a aprender a sair. Paredes que nunca vais aprender
a deitar abaixo. Portas que nunca vais aprender a abrir. Tectos que nunca
pintaste de mais nenhuma cor que não o mais negro dos negros que a noite pode
ter.
Segura-te bem. Os
fios estão a estilhaçar o que resta do tempo que falta. Um. Dois. Mais um.
Tudo termina
muito em breve. Segura-te bem.
Não te consigo ouvir. Escutar cada movimento teu é uma parte
de mim que morre em agonia. Não tenho para onde fugir nem sequer já tenho a
força que precisava para o fazer. Perdoa-me.
Não me consigo mover desta cadeira. Respiro lenta e
brevemente. Não tenho a certeza de estar vivo. Só o caos me atravessa em
chicotes improváveis. E mais nada posso tolerar depois de hoje.
08/08/2013
in media vita, mortus sumus
olho para trás. miro a vida desenhada numa linha sinuosa,
de contornos de avanços e de recuos, de becos sem saída e de autoestradas de
vias percorridas, de veredas calcorreadas a pé descalço ao fruto de suor e de escorridas felicidades. uma linha de vida traçada ao fio de grãos de areia:
imponente e impotente ao abraço da brisa que sopra ao rés-do-chão da vida. foi.
olho para trás. e toda a linha é uma extensão desalinhada
e alinhavada com pedaços colhidos e deixados para que o peso fosse suportável.
Miguel Torga tem uma expressão invejável pela sua imagem completa: será que
desta vida fica ao menos uma baba como a do caracól que possa reluzir quando o
raio do sol nela toque? permanecer.
olho para trás. em nenhures da linha escrevi que entre a
autenticidade (a vida do espírito) e a efectividade (a vida da acção) da vida
existia um hiato tão grande que nele cabiam outras tantas vidas. somos tantos e
tão diferentes a viver a mesma vida, a aguentar a areia desta linha desalinhada
de direita – ser tantos de um e um em tantos: estou aqui sentado.
diferentemente.
olho para trás. ser é ser incomunicável: por maior e mais
alto que seja o grito existencial, ele soará sempre a silêncio. escutar.
olho para trás. há momentos em que tudo corre alucinante
de tão rapidamente que só é comparável à lentidão imóvel de outras ocasiões. a
clareira de um sorriso dá sentido à floresta inteira, porque há sorriso e há floresta
em não haver. respirar.
a meio da vida estamos mortos: olho para trás e aí miro a
extensão da linha defronte; poderia ser maior ou mais curta, mas é tão-somente a
extensão onde descansar o peso que, na tal-vez, seja incomportável ou ainda o
lugar onde erguer uma montanha de movimento. interlúdio.
tudo o que puder ser, desafiando a impossibilidade,
repousará sobre os ombros do meu mirar e desse peso farei a minha sepultura.
esperar.
23/07/2013
@
Quanto mais a corda do tempo se estica e se dilata, maior é
a lucidez do lugar nunca ter sido diferente donde fomos para sermos - morremos
novos demais e velhos de menos – e será nesta redoma que me diluo e - talvez -
eu seja mais eu do que eu.
18/07/2013
twelve
Conto os anos que passam sobre a pele dos dedos e já não
chegam. Nas mãos o tempo já passou vezes demais. Anos demais.
Há 12 anos que te guardo no medo de te poder perder. Não te
posso, nunca, perder.
07/07/2013
longE
Foram os anos que sobre nós passaram
todos estes anos.
Estamos na esquina de um largo da cidade
e cessamos de respirar.
uma apneia para nos sabermos reconhecidamente ali,
naquele lugar,
tão infinitamente longe.
todos estes anos.
Estamos na esquina de um largo da cidade
e cessamos de respirar.
uma apneia para nos sabermos reconhecidamente ali,
naquele lugar,
tão infinitamente longe.
06/07/2013
fuga
Não há nenhum lugar para onde se
possa fugir quando não se sabe onde se está. Se não sabes onde estás não podes
saber, nunca, para onde vais. Assim, não podes saber por onde passar para te
esqueceres que existes, pelo menos por um momento.
E se não consegues esquecer-te
que existes, não consegues esquecer-te de quem és. E se te reconheces em ti sem
te saberes bem no lugar que ocupas, o mundo enfraquece em todo o seu sentido.
Não esperes que eu saiba voltar
ao lugar em que estávamos antes de chegar aqui. Já não sei o caminho de volta
porque me esqueci de tentar lembrar. Nem tu nem eu podemos fugir. Eu de mim. Tu
de ti. Eu de ti.
Não podemos mais fugir porque
nenhuma de nós sabe onde está. Não há luz nenhuma aqui.
vidRo
é como se partisses tudo em que tocas
como se todas as peças de todos os gestos
fossem meros restos de vidro
como que pisados
como que esmagados
tudo em que tocas desfaz-se perante o olhar meu que te olha
por mais que tente compreender a que lugar pertence cada fragamento,
não consigo
como se fosse um puzzle incompleto a que
infinitamente,
faltará sempre
pelo menos,
uma peça
como se todas as peças de todos os gestos
fossem meros restos de vidro
como que pisados
como que esmagados
tudo em que tocas desfaz-se perante o olhar meu que te olha
por mais que tente compreender a que lugar pertence cada fragamento,
não consigo
como se fosse um puzzle incompleto a que
infinitamente,
faltará sempre
pelo menos,
uma peça
caminho com as mãos descalças sobre os vidros de ti
rasgado a carne da pele para me saber
a quase morrer.
03/04/2013
estar estando
Estou sem estar como se estar
significasse estar estando sem ter chegado a estar porque não chego a estar no
lugar certo para se estar estando.
Se não estou não tentes que
esteja porque vou estar sem estar a estar e isso não significa nada.
Queria que estivesses a estar
estando sem teres de estar em nenhum outro lugar.
Se estivesses a estar aqui, agora,
dir-te-ia que estou a estar estando sempre a estar sem ter de voltar a estar em
nenhum outro lugar enquanto estiveres estando a estar aqui.
02/04/2013
Sento-me e aguardo. Fecho os
olhos sobre os braços e canto em vez de chorar. Espero que a noite não seja mais
dia mas o dia parece não querer terminar hoje. Guardo a confusão do mundo num
lugar quieto e ainda assim…não pára. Aguardo. A noite vem sem ter vindo porque
o corpo parece não querer ceder ao cansaço. Quero ceder ao cansaço. Sento-me e
aguardo. Coloco a iluminação no mínimo possível para provocar uma saída. Inutilmente.
Os olhos pesam sobre os braços e as feridas do dia começam a pulsar na pele. A dançar
no pensamento. A electrificar a impossibilidade de parar. Sento-me e aguardo,
em vão, que a noite me leve, quieto, até ao dia de amanhã recomeçar.
01/04/2013
é sempre inverno agora.
há uma primavera a querer começar e não há tréguas.
a chuva queda como se amanhã não houvesse mais do que a possibilidade de
continuar um dilúvio puro para lavar a terra que ficou nas mãos cansadas depois
da guerra.
hoje foi mais um dia deste dilúvio contínuo. caíram serras e montanhas dentro do mar revolto.
cairam marés dentro da areia afogada em si. caíram homens dentro das suas próprias almas.
a maré cinzenta a consumir a cidade das cidades e a sombra das sombras. as
mãos da terra e as terras das mãos.
o céu a enegrecer cada fragmento bélico no ar e a não ser possível respirar sem
medo.
não olhes para o céu agora que é da cor da terra nas tuas mãos antes do
mar chegar no resto da maré do dilúvio cansado e lavar tudo.
guarda tudo o que não queres que o inverno devaste porque já falta pouco
tempo para tudo voltar a terminar. mais uma vez.
se o dilúvio de lágrimas em que o céu se desfez terminar, já não se recuperam as almas mas volta a ser possivel respirar o ar das marés, sem medo de cair na areia e se afogar.
não olhes para o céu. agora. espera.
31/03/2013
fico em silêncio porque nunca soube dizer bem as coisas certas. guardo o silêncio dentro da minha incapacidade e deixo que tudo parta para longe do lugar onde permaneço incapaz.
perdoa a minha incapacidade.
perdoa nunca ter sabido dizer tudo o que queria ter dito há já tantos anos.
percebo que me tenhas deixado ficado aqui, no meu lugar sem lugar a ti, mas nunca soubeste porque tiveste de o fazer. eu nunca te expliquei.
todos os dias te vi e te revi, te vivi no lugar vazio que sempre tive dentro de mim. és o meu destino desde que te conheci e por ser tão pequeno face a tudo o que eras, desisti de tentar ser o que não poderia ter sido.
não te mereci. nunca te mereci e ainda hoje não mereço mas a verdade é que te não esqueço nunca e parte de mim sobrevive pela memória de ti.
guardo o que me restou bem dentro do meu lugar vazio e encho-o do que poderia ter sido. e isso terá de me bastar.
talvez um dia me possas reencontrar no lugar em que te deixei partir.
és o lugar onde eu acabo e não sou nada além do lugar de ti.
04/12/2012
Encontro-te no resto do carvão
que guardo nas pontas dos dedos. Estive a desenhar-te na chuva enquanto
esquecia a imagem de ti. Estive a ver-te caído entre as letras, entre as palavras
das páginas esquecidas entre gavetas e as estantes perdidas nas ruas que te
levaram para longe de ti.
Guardo-te no carvão dos dedos
enquanto te escrevo no desenho do ar. Sopro o pó negro da pele sobre o papel arrefecido
pelo cheiro da chuva e é o que eras que aparece escrito.
És as palavras todas que estão
por dizer, por escrever, por saber. És o que falta acontecer em ti e fechas os olhos
de carvão enquanto a chuva cai. Talvez possas perder o medo de ti e te
reencontres nas ruas sem teres de olhar para trás.
Talvez te (re)escrevas com o carvão
dos olhos na pele dos dedos e (re)saibas desenhar-te caído sobre as páginas de
ti.
29/11/2012
24/11/2012
as mãos apertadas nos braços cerrados e a noite a cair. a emenda impossivel do erro consagrado com o silêncio de uma solidão antiga. derramar os resquicios do pó sobre a terra para lembrar como a chuva deveria cair.
as mãos cerradas sobre o abraço apertado e o reconhecimento absoluto da incapacidade total de se poder ser um pouco além do expectável.
a certeza, a infeliz certeza, de que a competência nula sobre si mergulha e invade cada fragmento da sua tentativa.
reconheço o que perdi desde que aqui regressei. reconheço e reservo o segredo do que sei ter perdido.
talvez me tenha exaurado sem saber porquê, talvez tenha entregue o corpo à sede e a alma à fome e tenha, em verdade, perdido quase tudo.
não tenho a coragem que guardava em mim enquanto frente ao deserto infinito.
não tenho a força que tinha junto ao mar de sal imenso.
não tenho a segurança que tinha no caminhar sombrio das noite bélicas.
e agora tenho medo de dormir. agora tenho medo de encontrar. agora canalizo para o lado errado de mim e não encontro a saida. não encontro o caminho. o sentido. a vontade. não encontro a noite nem o sul. invento desculpas como quem esculpe a pedra. num poço sem fundo luto desesperadamente pela tona, pela superficie.
e espero. e procuro. encerro as mãos sobre um abraço fechado
e canto.
as mãos cerradas sobre o abraço apertado e o reconhecimento absoluto da incapacidade total de se poder ser um pouco além do expectável.
a certeza, a infeliz certeza, de que a competência nula sobre si mergulha e invade cada fragmento da sua tentativa.
reconheço o que perdi desde que aqui regressei. reconheço e reservo o segredo do que sei ter perdido.
talvez me tenha exaurado sem saber porquê, talvez tenha entregue o corpo à sede e a alma à fome e tenha, em verdade, perdido quase tudo.
não tenho a coragem que guardava em mim enquanto frente ao deserto infinito.
não tenho a força que tinha junto ao mar de sal imenso.
não tenho a segurança que tinha no caminhar sombrio das noite bélicas.
e agora tenho medo de dormir. agora tenho medo de encontrar. agora canalizo para o lado errado de mim e não encontro a saida. não encontro o caminho. o sentido. a vontade. não encontro a noite nem o sul. invento desculpas como quem esculpe a pedra. num poço sem fundo luto desesperadamente pela tona, pela superficie.
e espero. e procuro. encerro as mãos sobre um abraço fechado
e canto.
23/11/2012
não te reconheço quando entro na mesma casa de sempre. és tu mas não és tu.
és o que resta de ti e o que eu vejo que resta de ti.
eu já não sou eu inteiro porque perdi o que falta agora em ti.
sou o que resta do que resta do que eras.
quando entro aqui, um dia depois do outro dia, depois da noite que vem depois do dia seguinte, um dia mais do que o dia anterior, não te reconheço em nenhum deles.
olhas para mim sem olhares para mim e sei que também já não me reconheces.
e sei que vou perder, agora e nos dias que faltam, o resto que resta de ti.
és o que resta de ti e o que eu vejo que resta de ti.
eu já não sou eu inteiro porque perdi o que falta agora em ti.
sou o que resta do que resta do que eras.
quando entro aqui, um dia depois do outro dia, depois da noite que vem depois do dia seguinte, um dia mais do que o dia anterior, não te reconheço em nenhum deles.
olhas para mim sem olhares para mim e sei que também já não me reconheces.
e sei que vou perder, agora e nos dias que faltam, o resto que resta de ti.
14/05/2012
«Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender. O sentido da frase é por
vezes difícil de atingir.
Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais
se pensa, mais se analisa, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.
Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é
compreender bem o que é exposto – uma atitude estática, pois que queremos
compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou
não verdadeiro, sem que vajamos mais no que compreendemos senão a forma exacta
do que foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.
Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para
agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões
alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso».
Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, p. 243
23/02/2012
Faz-me falta olhar para ti. Olhar para ti para ver o que vês em mim. Faz me falta ouvir-te dizer absolutamente nada quando chegas e quando partes. Quando olhas para mim mergulhado em silêncio e me abandonas de olhos cheios dos nadas que te e me compõem. Sou o reflexo do que vês e nunca sei o que é, só porque não me dizes rigorosamente nada. Há já tanto tempo. Faz-me falta saber-te mas a tua distância ditou o reflexo do que deixei de ser para ti e esse silêncio, o que vem daí, só a mim pertence.
19/02/2012
ch.e.gar.a.tem.po
Pensei que dava tempo para chegar a tempo. Apesar de ter feito o tempo parar por aqueles breves segundos, não foi o suficiente. Não cheguei a tempo e isso agora é tudo com o que posso contar. Era suposto ter chovido hoje para evitar o que o verão vai trazer. Era suposto ter acontecido tudo hoje mas nada chegou a ser. Não cheguei a tempo. Como sempre.
Ainda assim quis recordar exactamente há quanto tempo ando a cavalgar este deserto e não consegui. O tempo disse-me, em tempos, quanto tempo já tinha passado pelo tempo mas esqueci. Deixei de conseguir lembrar. Como tu deixaste de conseguir lembrar.
Talvez também não tenhas conseguido chegar a tempo do tempo. E por isso não te consigas recordar mais de nada do que o tempo te trouxe e te levou.
Também pode ser que tenhas sempre chegado a tempo do tempo mas que não tenhas querido nada com o tempo porque este passou por ti sem te dizer adeus uma única vez e tu não soubeste nunca perdoar. Ainda hoje não o sabes. Embora já nem te recordes do que é que não te consegues esquecer de nunca perdoar. Hoje parece que é já uma eternidade que fez com que o que restava do tempo me deixasse cair na areia quente. E como tu não recordas nem queres mais nenhuma vez recordar, também eu hoje me esqueci de há quanto tempo ando por aqui. Mas não teve importância, como vês. Nunca chego a tempo. E hoje, não foi possível haver qualquer excepção apesar de eu ter conseguido,
por breves ridículos momentos,
ter conseguido sossegar o tempo.
20/01/2012
aBandOn_O
Deixaste-me ficar
em suspenso
num lugar que não queria conhecer
à espera.
Aguardei que as noites pudessem terminar,
Pelo menos por um momento.
Esperei sempre que o teu regresso fosse a minha libertação
e agora encarcero-me na chuva que não chegou a cair.
Guardo cada fragmento do tempo
deste tempo todo
e coloco-o no lugar que é mais fundo em mim,
antes de me deixar esquecer.
Respiro no respirar de uma apneia
demorada
E seguro o último resquício da minha voz
Em silêncio. Sempre.
Não reconheço o lugar onde caí
e nada me resta senão segurar a distância em ambas as mãos e correr até
poder voltar a cair. Sem esperar.
Uma e outra vez.
Até deixar de sentir o resto que falta.
Abandonado em mim.
em suspenso
num lugar que não queria conhecer
à espera.
Aguardei que as noites pudessem terminar,
Pelo menos por um momento.
Esperei sempre que o teu regresso fosse a minha libertação
e agora encarcero-me na chuva que não chegou a cair.
Guardo cada fragmento do tempo
deste tempo todo
e coloco-o no lugar que é mais fundo em mim,
antes de me deixar esquecer.
Respiro no respirar de uma apneia
demorada
E seguro o último resquício da minha voz
Em silêncio. Sempre.
Não reconheço o lugar onde caí
e nada me resta senão segurar a distância em ambas as mãos e correr até
poder voltar a cair. Sem esperar.
Uma e outra vez.
Até deixar de sentir o resto que falta.
Abandonado em mim.
rest.AR
Há restos de comida no chão. Cheira ao que ficou de ontem. Cheira a noite vazia. A esterco. São restos aqui e ali. Coisas que faltam em coisas outras que não as que não chegaram a chegar aqui. Há restos em todas as divisões desta casa. Restos de ti. Restos dos restos que restaram de mim. Em todas as paredes os sinais que só a sujidade que carrego sabe deixar dançar sobre a ideia de claridade da luz. Mas não há luz aqui. Só os restos.
pEl.E
Estou cansado. Limpo os olhos e as mãos da terra vermelha que chegou no vento frio da tarde. Coloco os dedos fechados nas palmas e o resto nos bolsos. Abro, lenta e dolorosamente, os olhos à medida que sinto o resto a aproximar-se. Estou cansado. Tenho as pernas a ranger no soalho apodrecido. Tenho o corpo frio como o inverno que confirmo existir somente em mim. Cumpro ordens das memórias soltas que me devastam num sol quente de um deserto esquecido em terras de uma África distante. Não tenho fé. Nem tenho já tempo para a aprender. Tenho o que penso ser um qualquer fim a chegar-me aos pés e decidi não fazer absolutamente mais nada para o impedir. Nem sequer fechar os olhos. Vou queimar-me das memórias inteiras e olhar o devir de frente. E mais nada seria expectável deste deserto que amanhece na areia vermelha da minha pele.
03/01/2012
nevo.a
o corpo fundido na
incerteza escura do
nevoeiro que se abateu pela cidade
hoje.
caminho como se arrastasse
correntes presas na pele
dos ossos.
há ruidos
insuportáveis
a moldar-me os pés
a ferir-me nos olhos
a abandonar-me na terra
dos jardins vazios.
sou a névoa do nevoeiro
hoje
e abandonei-me da
na
cidade.
hoje.
incerteza escura do
nevoeiro que se abateu pela cidade
hoje.
caminho como se arrastasse
correntes presas na pele
dos ossos.
há ruidos
insuportáveis
a moldar-me os pés
a ferir-me nos olhos
a abandonar-me na terra
dos jardins vazios.
sou a névoa do nevoeiro
hoje
e abandonei-me da
na
cidade.
hoje.
26/08/2011
Adeus
"É um adeus...
Não vale a pena sofismar a hora!
É tarde nos meus olhos e nos teus...
Agora,
O remédio é partir discretamente,
Sem palavras,
Sem lágrimas,
Sem gestos.
De que servem lamentos e protestos
Contra o destino?
Cego assassino
A que nenhum poder
Limita a crueldade,
Só o pode vencer a humanidade
Da nossa lucidez desencantada.
Antes da iniquidade
Consumada,
Um poema de líquido pudor,
Um sorriso de amor,
E mais nada".
Miguel Torga
17/08/2011
s.A.l.A.
Esperar. Esperamos nas salas de espera das salas de espera da espera. Olhamos, de olhos entreabertos, a clareza absurda das cadeiras adoecidas pelo passar do tempo e dos corpos. Esperamos a esperar o que vai chegar e fingimos que sabemos exactamente o que pretendemos esperar sem que realmente o esperemos. Caras caídas sobre os colos cansados distribuídos, sem qualquer harmonia, sobre as cadeiras dispostas em filas sem fim. O chão branco a lembrar o frio do inverno que não tarda a chegar e que demora tanto a partir. Esta é como as outras salas. Uma sala onde esperar se tornou outro lugar diferente. Uma sala onde mais não há do que o corpo de quem esperar vazio de vontade de esperar.
paradise
- não tenho vontade nenhuma de viver. por mim dava já um tiro na cabeça.
- quero. vai já e dou já o tiro na cabeça. à tua frente.
- onde é que tens a arma?
- não tenho. mas arranjo. -queres que te vá comprar uma agora?
15/08/2011
secretum
Tenho no corpo um segredo guardado.
Rasgo cada aresta da minha pele enquanto embato de cabeça na areia molhada deste deserto em que me deixei ficar.
Não chove aqui. Não nascem flores, nem arbustos, nem nada que possa cobrir o resto das minhas cinzas.
Esta terra é negra como o sarro que as minhas mãos ocupam e tenho no corpo um segredo que ninguém pode conhecer. Cada poro respira e jorra sangue vivo. Sangue cansado. Sangue sem sangue.
Queria poder saber fazer nascer qualquer coisa desta abrupta ruptura entre o que sou e o que fui e não encontro forma. Nem geométrica, nem forma sem forma de forma nenhuma.
Amei como se amam as coisas que têm sempre que partir e fiquei na espera que elas regressassem aqui. Mas o que parte desta terra de areia não volta mais.
Tremem-me as mãos na incerteza de ser possível dormir hoje. Os ossos rangem no silêncio que só quem foi abandonado assim sabe ouvir. O silêncio é imenso. Ininterrupto. Voraz e absorve-me de toda a capacidade de respirar.
Aqui não nasce vida. Não cresce nada. Por causa deste segredo que morreu dentro da minha pele e que jamais alguém poderá chegar a saber.
10
Morri há tanto tempo que nem me lembro de ter chegado a estar vivo.
Os anos, os dias, os segundos detêm todos a exacta medida das coisas que não estão no seu lugar. A exacta medida do não haver nada. Morri morrendo sem saber que morri e aqui está o que sobrou.
A determinada altura esqueci o que me descrevia. A prepotência da humanidade em querer nomear tudo. As palavras a não serem menor que sinais, que descrições, que caminhos, que certezas, que penas e fados. Morri morrendo sem saber que estava vivo. Desde que te perdi. Não. Desde que partiste. Não. Desde que te perdiste. Partiste. Perdeste. Perdi. Já nem sei bem a palavra para nomear a tua ausência. Pensei que ia cheirar eternamente a flores aqui. No lugar em que te deixei ficar estes 10 anos. Mas já não cheira. Tenho o olfacto tão envelhecido como os cabelos que se branqueiam sobre o meu olhar cansado. Conto os anos pelos dedos das mãos. 10. 10 dedos. Sigo-te na linha ténue de um pensamento enfraquecido pela desfragmentação do tempo e quase, quase te ouço rir. Faz-me frio dentro de mim quando insisto em negar que o tempo passou assim sobre a tua ausência de mim e eu não cesso, e eu não paro para esquecer. Às vezes queria esquecer. Às vezes queria lembrar que existe um lugar onde eu não esqueço que a dor termina. E a dor não chega a terminar nunca porque eu não chego a esquecer. Porque tenho medo de esquecer por não querer mesmo nunca, chegar a esquecer-te. Morro morrendo na certeza de que a morte me abandonou aqui quando te levou. E quando a olho nos olhos, todas as noites que me penam a adormecer, quase te ouço rir. E quase chego a recordar que há um lugar onde a solidão terminava.
10/08/2011
inquestionabilidade
Não sei porque insisto em ficar quando tudo insiste para que eu vá.
aprendi a não olhar para trás
a não ceder ao medo
a ouvir as portas que rangem e que se batem
aprendi a questionar o inquestionável e a ter sempre dúvidas
a ouvir e a escutar as palavras dos outros
a perder
aprendi a perder
a deixar partir
a saber deixar partir
a esquecer de saber sentir
a sentir e a saber esquecer
aprendi a aceitar e a não ter fé
a escrever o apocalipse
a remendar o passado e a construir a possibilidade do futuro
a saber resolver o irresolúvel
a prendi a cair e a levantar
a andar de pé descalço na areia
e sobre as fendas dos estilhaços
a roubar o fogo aos deuses e não aos homens
a tactear o começo e fim da escuridão inteira
aprendi a não olhar nunca para trás
a perdoar o mundo
a não me perdoar a mim
aprendi a não saber aprender a aceitar que o mundo é um lugar que eu não quero mais conhecer. abandono o que sobra do que conheci, cada segundo que passa, para dentro da areia do meu deserto. Encerro os lugares da memória, da vontade e da inquestionabilidade e vou quedando. Vou deixando cada pegada revelar a minha necessidade de fuga e vou, de frente para a tempestade, aprendendo a desistir de conseguir ser mais do que isto.
03/07/2011
rio.
Nasci com uma incapacidade incomensurável para amar. Tornei-me em algo abjecto, sem cor, sem carisma. Um saco plástico a boiar na sujidade do Tejo e nada mais do que isso.
A humanidade causa-me agonia. É-me insuportável escutar, ouvir, dizer, calar. É –me nauseante tolerar a presença do outro humano sobre a minha pele, a escorrer-me no suor, a doer-me nos ossos. Cansa-me. A humanidade. Tu. O outro. Eu mesmo. Nada mais que um fragmento de um nada qualquer a vaguear no sujo destas águas em que sonho que me afogo, agora mesmo, neste momento em que procuro – triste infantilidade esta – remeter-me à ilusão da solidão absoluta materializada pela possibilidade da inexistência de outros seres humanos no mesmo espaço que eu ocupo.
Valho muito pouco sobre e fora das águas deste rio cansado. Tão pouco que nada - nem mesmo o silêncio que habita em mim- me reconhece.
Não sei bailar, não tolero o corpo em que me alojo, porque não lhe compreendo as dores e a amargura. A humanidade devasta-me. Queria poder ser água, agora, neste momento em que o rio se afoga em si mesmo.
26/05/2011
dragon slay
Podia ser a manifestação de um qualquer tipo de melodramatismo ou comédia trágica a forma como caminhavas na rua todas as noites. O teu andar era como se não soubesse que andava. Toda a magnitude do teu corpo se afastava dos outros transeuntes sem os ver, sem os saber – realmente – frente a si. Caminhavas como caminham as pessoas que perderam a esperança, que esqueceram a vontade. Era como se tivesses perdido algo que nunca conseguiste perceber, com rigor, do que se tratava.
Observei-te desta janela alta durante todo o tempo que te levaram os passos a percorrer a rua. Um ano? Uma vida? Breves minutos? Não percebi quanto tempo foi e se era uma imagem que repetia, repetidamente, na minha memória ou se era um movimento prolongado, verdadeiramente, no tempo. O certo é que te observei como se observa o vazio do céu de verão. Vi como arrastavas uma ausência presente em cada gesto, uma tristeza inerente a cada sorriso, o cansaço absorto nos movimentos que pareciam fazer doer tanto. Observei como o teu caminhar rapidamente se tornou uma força inerte. Era como se uma gravidade elevada ao expoente máximo da incapacidade para o movimento te trouxesse, de forma quase imperceptível ao olho destreinado, de encontro à terra fria. Nem sequer te apercebias do caminho. Se pudesse arriscar dizer alguma coisa sobre este assunto, ousaria referir que nem sequer querias saber o caminho que tomavas. Talvez fosse um qualquer tipo de gesto mecanizado que te levava a percorrer esta rua em particular, desta maneira em particular. Ou talvez não. De qualquer forma o conteúdo não tem importância.
- O quê?
- Estava a dizer que o conteúdo não tem importância. Já a forma, a forma é que traduz tudo o que precisamos saber.
- A questão anterior a essa que colocas não seria saber se há algo a saber em toda esta questão?
- Não.
Segurei o corpo nos dedos inteiro enquanto te via fechar a janela. Tantos anos que passo por esta mesma rua . Não sei bem porquê. Uma vez por um motivo esquecido pelo tempo. Outra vez por um acaso. Outra por um propósito despropositado. Outra e outra e outra sem saber porquê. Mas de todas as vezes ela permanecia nessa janela nessas águas furtadas que me conduziam de forma inevitável e recorrente, a um lugar imaginário onde havia espaço para guardar até um dragão. A janela pequena, de madeira corroída e ela detrás. Uma imagem, um vulto apenas. Não lhe compreendo os contornos do rosto ou do colo. Não lhe adivinho a cor dos cabelos. Uma presença na distância de seis andares. Esta rua, sempre a mesma, igual há tanto tempo e sempre ela ali. A olhar-me. Penso que a ver-me. A saber-me. Pode não ser mais do que uma ilusão infantil mas parece que há uma serenidade aqui e que o meu corpo me descansa na alma que desiste. Esta rua é serena na imagem dada a esta distância. Sinto que o meu corpo se podia tornar mais pesado, até mesmo cessar, se ela não estivesse a velar por mim sobre as copas das árvores que sustentam o caminho. Desvio-me para não embater no ser esvaziado de si que vem de encontro ao meu vazio. Sinto um lugar por dentro semelhante ao dele. Também me arrasto. Aqui, agora, desde há tanto tempo. Um passo semelhante ao de tantos outros. Uma ausência presente de forma incontornável. Arrasto os pés na tentativa de prolongar o momento. Para que me saibas a passar. Mais uma vez. Se pudesse dizia-te que tenho uma banda a tocar uma melodia azul na minha cabeça. O céu é um imenso vazio no verão. Deves ver melhor dai. Estás mais perto (d)aí. Olho-te na ilusão de que estás (estarás) nessa janela para ver reflectida a certeza inexacta da violência da minha existência. Podia bater à porta da tua janela se soubesse subir ás arvores sem o peso do meu corpo nos dedos.
- A questão está sempre na forma que temos. Que fazemos. Que repetimos. Que (re)criamos. Como nos movemos e como reflectimos o movimento no olhar do outro.
- Tudo o que sei sobre ti é o que leio nos teus gestos frágeis, fugidios, lentos.
- Querias dizer-me algo?
- Não. Repliquei na certeza de que não me poderias ouvir aí. Faz frio aqui em cima, sabes, como se não fosse nunca verão. A madeira está velha e cansada. O chão quase toca no tecto mas ainda cabem dragões. Asseguro-te que ainda cabem. Mas tudo vai cedendo à tentação da queda.
- Temos uma inevitável tendência para a queda, não sentes?
- Podia disparar o meu corpo desta janela. A queda definitiva.
- Até ao lugar para onde agora atravesso?
- Talvez. Mais um pouco acima, talvez. Ou uns passos abaixo. Junto à terra. De forma definitiva.
- De novo a forma.
- a forma é o lugar onde reside o sentido. Sabias?
- Então vem. Espero-te aqui. Se aí não estiveres o meu corpo cessa. Se aqui chegares, caio junto a ti.
- Pode demorar o tempo que leva um dragão a morrer.
- Volto amanhã. Com o propósito de ter um propósito para atravessar, de novo, a mesma rua.
19/05/2011
s.pin.e
se houvesse um rasgo de espaço entre o que em mim deve e o que em mim pode,
eu seria o que me falta conseguir ser.
se eu pudesse medir, em rigor milimétrico, o espaço exacto que vai de mim até ao que de mim não chegou a ser,
caminharia sobre as mãos toda a distância medida até me reencontrar.
se o torporeocansaçoedesfalecimentoesolidãoeador que me afoga hoje pudesse desvanecer sob o eterno inverno que parou aqui e já não parte nunca,
eu saberia andar, de novo, sem desequilíbrio na marcha, sem temor.
bastaria apenas conseguir respirar por tempo suficiente.
sem me enganar.
sem me esquecer.
e talvez todos os hiatos que persistem pudessem encontrar
um qualquer fim.
salga
Tentei saber o motivo pelo qual nunca pude andar sobre a terra molhada como os outros todos fazem. Perceber porque nunca andei sobre nada que não tivesse arestas, lâminas afiadas a beijarem a pele dos meus pés descalços.
Quando chove consigo ver melhor que o meu chão não é igual ao teu chão.
Que o meu corpo não é igual ao teu corpo.
Que a minha voz soa tão diferente da tua.
Que a minha memória dura tão menos tempo do que tu.
Sabes que o tempo não chega para eu chegar aqui a tempo de todas as vezes que assim o intento.
Nasceste da chuva – não, eu nasci da chuva – da terra – não, da lama – não, eu da lama tu da areia – não – os meus pés sobre o teu rosto molhado de mar – não, de chuva – não, de lama, de lama a salgar-te o olhar com que me tocas nas noites vazias – como esta – como eu – como o lugar que não tenho para posar os pés. O engano. Tu sabes que chego sempre aqui por engano, por me confundir de olhos fechados sobre os caminhos todos. O engano - da ausência da recordação - em que me deixei cair e agora não sei saber onde estou. Talvez não esteja em lugar nenhum enquanto te não encontrar e tu não me explicares porque é que os meus pés descalços não serenam na areia – não, na terra – e são assim, chagas abertas ao mar à espera que chova para conseguir ver o resto do caminho que – repetidamente – esqueço.
25/04/2011
caLçada
Os espaços são pequenos. Às vezes, as ruas não chegam para fazer passar tudo.
Vagueias, abandonado, pelas calçadas desfeitas desta Lisboa esquecida. Noite após noite, passas por aqui e por ali sem saberes bem para onde vais, mas a reconhecer os odores todos. Segues todas as ruas que vêm de onde estás até onde chegas e, por breves instantes, esqueces tudo o que não faz falta lembrar.
Passeias livremente agrilhoado à tua solidão. Sabes o que te espera. Conheces o retorno inteiro e deixaste de o conseguir temer.
Aceitas uma mão estranha sobre tua face envelhecida e fechas os olhos para saberes esse momento inteiro. Começas a medo e, de forma lenta e ponderada, deixas-te serenar.
Se pudesses, ficarias onde a mão que te toca te é segura. Mas não podes.
As ruas que te separam de onde estás até aqui, até este lugar exacto, são demasiado distantes.
19/04/2011
Retratos de Mulheres
"Fotografias de mulheres por três artistas distintos: Jorge Martins, Man Ray e Julião Sarmento. Até 30 de Abril na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, em Lisboa. |
"The Fifty Faces of Juliet" é a série de retratos apresentada do norte-americano Man Ray (1890-1976), que foca a mulher do artista, Juliet Browner, fotografada entre 1941 e 1955. Já Jorge Martins nunca pensou em mostrar fotografia, actividade que tem paralelamente à pintura. Nesta exposição revela " Eros cromático", um conjunto de 20 registos de modelo feminino, feitos em Paris, entre 1964 e 1073. Algumas das fotografias apresentadas foram realizadas no ateliê parisiense de Vieira da Silva. Por fim, Julião Sarmento exibe 62 fotografias de 31 mulheres, realizadas ao longo de 42 anos. Um núcleo de imagens, sua maioria inéditas e realizadas entre os finais dos anos 60 e os dias de hoje, escolhidas pelo artista e pelo comissário Sérgio Mah. S.Po. (PÚBLICO)" |
exposição na fundação arpaz szenes - vieira da silva
vista domingo. ao sol. no jardim das amoreiras.
18/04/2011
ecoar
Ela estava completamente nua quando entrou na sala. Trazia areia no cabelo. Trazia vidros nas mãos. Olhou para mim como se olham as coisas que não estão no sítio certo e perguntou o que eu ainda fazia ali.
Nem eu sabia. Estaria ainda ali? Quanto tempo teria passado desde que cheguei?
Lá fora ecoava o riso da tempestade que se abateu sobre a cidade. Sem aviso. Sem qualquer sinal. Que eu visse. Que tenha percebido. Assim como o que ela me dizia. Não consegui compreender e ela compreendeu que eu não havia compreendido nada e simplesmente virou as costas e saiu da sala. Não tive opção nenhuma para além de guardar as mãos no saco junto com o resto das coisas que achei que deviam, eventualmente, poder fazer falta. Guardei dois livros. Não sei quais. Era como se não tivessem capa, nem letras, palavra nenhuma, só as páginas amareladas. Penso que guardei o caderno, o relógio, as bolachas que ela tanto odeia. As chaves. E as mãos.
Olhei para o outro lado da sala para perceber se ela voltaria atrás e me diria algo que eu pudesse, realmente, entender. Mas não.
Nada.
A última imagem que poderia levar comigo era o seu cabelo cheio de areia despida. E a certeza de que o sabor do corpo dela desapareceria de mim e toda a sua dimensão se desvaneceria assim que eu tocasse a chuva.
Segurei o saco nas mãos guardadas e desci as escadas sem olhar para trás. É preciso saber deixar as coisas. Aprendi a saber deixar as coisas assim, em silêncio, no torpor da trovoada, nos corpos despidos, nos resquícios das páginas por escrever.
Desci a rua como se fizesse parte da chuva. Como se não houvesse mais nada, naquele momento e para todo o sempre, que não a certeza da chuva.
Passaram 5 anos. E o rosto dela de costas para mim ainda ecoa no trovão das minhas mãos guardadas em silêncio.
13/04/2011
rigoletto
entras e sais da noite de mim como se mais que uma sombra nos meus olhos não fosses e,
de todas as vezes que chegas,
eu sei que te vou deixar partir de imediato.
e é assim que tu e eu seremos sempre:
palavras por dizer na névoa do que nos
eternamente
separa.
06/04/2011
laranjeira
Perguntas porque é que as coisas nunca são fáceis.
Cheira a flores de laranjeira mesmo aqui à porta. Mesmo aqui, no coração da cidade coberto de fumo negro. Cheira a flores de laranjeira e as pétalas quedam no avançar das asas dos melros sedentos.
Começa a primavera e tudo se mantém pouco simples. Parece que as coisas na vida não podem ser simples para alguns de nós. Como se fosse importante passar cada dificuldade como se de um teste se tratasse, como se de uma demanda nos torneássemos. Como se não houvesse, definitivamente, nenhuma outra alternativa possível.
Houve um tempo em que esperei que te tornasses em algo que se parecesse com as asas de um pássaro vestido de negro. Houve dias e noites em que iludia os sonhos, os compassos de tempo, as melodias inventadas em silêncio, numa ilusão perfeita de que eu era, e podia ser, mais do que isto que efectivamente reconhecia ser. E não era. E nunca fui. E nunca cheguei a ser. Sabes que o odor das flores destas laranjeiras acaba tão rápido. Remete-me para a infância e logo me arranca a carne da cara e me atira contra o muro de cimento que construí, dia após dia, ao longo de todos estes anos.
As coisas não são fáceis. Não podiam ser fáceis. Para ti, que arrastas uma existência mascarada pela necessidade de conseguires ser aquilo que te não compete, nem pertence, ser. Não podias querer mais do que o que te foi destinado e ainda assim insistes em remeter tudo ao carnaval insano que acontece nas ruas da tua amargura. Se olhares para dentro com os olhos de quem sabe ver, encontras o ponto exacto em que as coisas deixaram de ser simples, deixaram de ser fáceis.
Aprendemos, tão cedo, a saber deixar partir. A assimilar a perda como apenas mais uma componente de nós. A aceitar a queda como uma necessidade inevitável. A sorrir perante o que se tornava adverso e nos atingia como uma tempestade em alto mar. Estamos sempre nas vagas do mar alto a enfrentar a chuva e o vento das coisas que acontecem em nós e que ninguém vê. Sei que sabes que ninguém, por mais perto que esteja, pode ver o que acontece em ti. O que acontece quando as pétalas da flor da laranjeira caem sobre as pedras frias da calçada, levadas por asas pequenas de abelhas atarefadas ou asas grandes de pardais e melros chilreantes.
Porque é que as coisas nunca são fáceis?
Porque hoje não temos direito a que as coisas sejam fáceis mas amanhã…amanhã, pode sempre haver a simplicidade do odor a flor de laranjeiras mesmo aqui, à porta de nós.
09/03/2011
k
Não sei o que vou ser quando sair daqui.
Não sei quem posso vir a ser se conseguir sair daqui. Sabes que há demasiado arame farpado em torno deste lugar que me ocupa. Inteiro.
Eu mato-te e tu sabes que eu sou capaz de te matar. Se olhares para mim. Se me tocares. Se me não deixares passar. Tenho lâminas nas mãos e no corpo inteiro. Mato-te, a ti e a todos os que se puserem no meu caminho e não me deixarem gritar como eu quiser. Eu vou gritar como eu quiser. Não preciso que ninguém me diga o que fazer. Fui criado na rua. Na rua vive o mais forte. O que não tem medo. Tenho as marcas na pele para te mostrar que não tenho medo. Consegues ver? É bom que consigas ver porque é o que tenho para te mostrar.
Não te vou dizer nada que queiras ouvir. Não vou dizer nada do que queriam que eu soubesse dizer. Vou colocar o meu braço sobre a tua traqueia e vou começar a fazer força e vou fechar, devagarinho para que percebas tudo o que está a acontecer. Vou fechar.
Contas os segundos ou queres que seja eu? Conta. Vá. Conta enquanto eu faço força e tu deixas de conseguir respirar.
Estão a ver? Isto era o que queriam que eu não fizesse. Este é o meu arame farpado. O arame que me tem à volta dos olhos, à volta das mãos e dos dedos, dentro de mim. É o que sei de melhor.
Sabes tão bem quanto eu que nenhum de nós vai chegar a sair daqui. Não há espaço lá fora. Entre os meus braços e o teu respirar já há pouca coisa para nós.
Não vou ser nem um bocadinho melhor que isto com este arame farpado em volta. Vou só fechar os braços até ao fim e dizer-te adeus.
24/02/2011
No.TH.ere
Fecha os olhos. A noite deve estar quase, quase, a terminar. Apesar das janelas abertas podes fingir que não sentes o inverno a entrar. Podes fingir que eu já não me importo de te ver a tremer. Se puderes, deixa as mãos abertas para te ver a agarrar o nada que te sobrevoa o corpo como se te tivesses afogado na tua própria saliva. Talvez não devas falar tanto. Ou respirar. Talvez devas remeter todas as palavras que não chegaste a dizer para o mesmo lugarzinho do teu corpo. Podes cortar a pele se quiseres. Não me faz qualquer diferença. Podes cuspir o sangue inteiro que te leva a escrever coisas que eu não sei o que querem dizer que eu não me importo. Que eu não quero saber. Podes até segurar o ar com a tua serenidade que eu vou continuar a gritar. Fecha os olhos, merda. Tenho-te a olhar-me de frente quando sabes que já te não queria estar a ver. Desaparece. Vê se me importo que desapareças. Eu fecho os olhos porque a noite, em breve, vai acabar e eu posso finalmente saber onde estou. Aqui não vejo grande coisa…aqui não sei bem onde tenho os dedos, a pele, os olhos. Podes fingir que não vem frio daqui. Podes fingir. Não me importo mais. Agora não falas? Não tem mais saliva para me afogar? Estás aí?
Talvez seja verdade que já tenhas ido embora e eu ainda esteja aqui deitado, a fingir que não me importo que tenhas já partido com a chuva.
importance
Hoje és como o espaço que sobra nas coisas vazias.
O que resta do que resta quando já resta pouco.
O que sobra do que sobra quando nada sobra das sobras.
O que chega quando o resto se vai.
O que vai quando já coisa nenhuma chega.
A importância de se ser o lugar que se não é, é como uma revelação divina, é como uma linha preta numa folha branca, como uma palavra começada numa frase vazia, como um azulejo numa parede ferida pelo tempo, como um lápis de carvão a furar as linhas, como uma nuvem lisa a desafiar o inverno.
A questão que se encontra em se ser o que se não é e em querer ser o resto do que não sobra, é maior que o vazio que se encontra quando se arrisca abrir os olhos sobre o abismo da vida. E tudo isto, hoje, podia ter-te tido a maior importância.
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