Podes esperar?
Sei que vou demorar. Mas se puderes esperar, nem que seja um fragmento milimétrico de um segundo, talvez chegue a chegar perto...talvez eu acabe por chegar. Perto...
Podes esperar?
Até eu desaparecer?
Prometo que vou demorar.
Perdoa-me, amor.
Mas vou continuar a caminhar no lado em que se deita a sombra. No canto mais longo do jardim. Nos caminhos onde não haja outros passos. Junto das flores selvagens e das ervas que danam. No lugar onde a lama permanece porque ninguém se interessa. Onde há pó. Onde há covardia.
Não vou ousar os caminhos cheios de sol. Não quero estar ao calor nem a ver os pássaros que fogem.
Não sei caminhar longe da gravilha e do lodo. Não sei caminhar os teus passos.
Vou ficar aqui e ser aniquilada pelos leões. Os leões só devoram aqueles que ouvem os seus rugidos e temem entrar na caverna...
"O amor é
uma palavra
suada
entre os meus dedos"
Ondjaki
Se o amor é uma palavra suada entre meus dedos, são minhas mãos a prova da essência que soa, ressoa e entoa quando ouso segurar-te na pele.
Trago nas mãos a palavra que te guarda do interior de minha alma. Trazes na água a antítese da tese sintetizada onde tudo é irremediavelmente intransponível.
Se te dissesse as letras da palavra sem ser no suor dos dedos, iria chegar-te à garganta um grito ácido que se corroeria por dentro e te iria impelir à fuga para mar alto.
Há almas que nasceram na gutural eterna insatisfação de não ser possível tolerar ser-se amado. Nem no suor dos dedos, nem no sangue das palavras, nem na profundidade dos gestos guardados no sentido das mãos…
És meu alimento quando vens. Meu naufrágio quando partes. Meu alimento quando partes. Meu naufrágio quando chegas. Queria poder dizer-te palavras que suam como lágrimas e soam como preces. Não digo. És profeta e herege. Salvação e condenação. Bênção e pecado. Não te posso dizer. Pois queres tanto quanto não queres. Podes tanto quanto não podes. Desejas tanto quanto não desejas. Começas tanto quanto terminas. Terminas tanto quanto começas. Tens tanta vontade de chegar como a vontade que tens de partir.
E eu permaneço na silenciosa intenção de ir em busca das estrelas que brilham na gargalhada que desperta do âmago da escuridão que te habita a alma.
Entranço o cabelo.
Dispo-me das roupas. Devagar.
Desfaço-me do dia. Sem sentir pressa.
Lavo a pele fendida nos ganchos que me sustêm até não sobrar sangue.
Deito-me no chão frio da madeira que sustenta o grito do inverno e permito-me desaparecer no som dos passos que ecoam no ranger do caminho.
Sei que não poderei mais regressar.
Aceito.
Fecho os olhos.
Entrego-me ao silêncio da noite.
Até que minha pele se funda com a agonia da madeira e nada, depois do vento do norte sibilar, possa sobrar.
sou o que resta do naufrágio.
morro na solidão da madrugada, num canto deixado à sombra na praia. tal como os animais de água que perdem o rumo. como todas as coisas que naufragam no alto mar. como todas as peças que se perdem. encalhada nas rochas.
tenho a boca cheia de água. tenho o ar cheio de água. tenho a pele encharcada. tenho os braços abertos. como todos os pássaros que morreram dentro da minha voz. de asas abertas. de mãos fechadas. com as penas negras nas letras das palavras.
devia ter mantido o silêncio no segredo e ter aberto as mãos enquanto fechava os braços. vai fazer sempre noite dentro da água que se me arrasta no sangue. vai ser sempre sombra no lado mais recôndito da praia de calhau negro.
sou o naufrágio do que resta.
Apetece-me gritar a dor e fazer parar o tempo.
Cheira a limões acabados de colher e a mortes acabadas de anunciar.
Sei como ruem as vidas suspensas na certeza de que não é o tempo que se move. Eu quero que seja tempo do tempo se mover e da vida poder parar. Se pudermos parar, agora, talvez a morte que te acaricia a pele possa cessar, possa deixar-te ficar.
Quero gritar até que pare a dor do tempo não parar.
permaneço parado
nas sombras do inverno.
seguras-me com um dedo
para,
quase de imediato,
me afastares com as duas mãos abertas.
chegas aqui
no gesto lânguido das palavras mortas
para logo não estares
nem aqui nem em lugar nenhum em que eu possa ficar parado.
o inverno é isto.
pedires-me para me mover
mas se ousar um passo,
um passo que seja,
nada encontro para além do abismo de frente ao vazio.
volto atrás.
vou recuar até me cruzar com os ventos áridos
avançar na direcção oposta
ao lugar que o inverno reserva para ti.
estou a arder por dentro.
vou consumir o pouco
o que resta
antes do primeiro grito da primavera.
Juro que sou fiel
à tua ausência
ao teu silêncio
a todas as formas como te libertas dos correntes da minha férrea existência.
Juro que permanecerei em silêncio enquanto
teu grito me despir
tua boca me esquecer
tua voz me abandonar agrilhoada nas palavras sem sangue.
Despe-me
vou virar-me de costas
deixar que se esbata o que permanece depois das marcas da tinta ocre sobre as linhas de chuva de um qualquer pincel já deixado pelo tempo
pois não irá sobrar mais do que um esquiço rude da forma que me definia na linha das tuas mãos antes de me teres deixado parado no caminho.
Juro que sou fiel ao silêncio que fica por dentro da inevitabilidade da ausência de ti
enquanto as palavras pintadas de uma oração que se acorrentou ao grito que guardo dentro da boca me dançam na insanidade de se não poder ser mais do que esta ténue linha ressequida nas mãos de ferrugem onde antes havia cabido o mar inteiro.
São insignificantemente significativas as coisas que faltam. As coisas que não estão nos lugares que consideramos como certos. Que não são quando as julgamos ser. Que não estão quando estávamos absolutamente seguros de que estariam.
São partes que faltam. Membros. Peças. Sentidos. Pele. Espaços. Lugares.
E depois, pelas coisas que faltam, as coisas que são deixam de ser as coisas que deviam ser e tudo parece, de repente, pintado nas labaredas mornas do inferno que sabemos sempre, sempre, tão próximo da pele.
E aí, no momento em que entendes que nada pode retornar a ser o que havia já sido, tudo adquire um significado incontornável.
Ficam presos na garganta...
As ausências. As distâncias. As perdas.
Os cárceres. As lacunas. As angústias.
As incertezas. Os desvarios. As impurezas.
Os segredos. As obstinações. As intempéries.
Os sacrifícios. As tristezas. Os irremediáveis.
As culpas. As desventuras. Os erros.
As inevitabilidades. As consequências. Os castigos.
As sentenças. Os pesos. As fugas.
Os silêncios.
Tudo agrilhoado no lugar onde habita a voz e se enlevam todos os finos filamentos do silêncio.