as cortinas continuam fechadas.
não para de chover dentro das palavras.
esqueço tudo.
escorre-me a tinta pelas mãos e não consigo segurar as letras.
em que palavra recomeça a possibilidade de um só verso do poema?
encosta a lâmina na minha pele
dos lábios
encosta a pele da tua mão no sangue que escorre
de mim
como chuva
pela longitude dos cabelos
deixa cair a lâmina dentro do que falta até que consigas encontrar o destino do último gesto contido na incerteza de eu ainda estar aqui
encosta tua pele rasgada no asfalto ocre que exala do meu hálito e sente tudo a arrefecer com a noite
guarda as asas nas mãos
a lâmina na boca
dilacera o que resta de todas as palavras
e cobre tua pele do sangue que termina
em mim.
este é
definitivamente
o derradeiro gesto
de ti
na minha pele.
que lugares são esses, os que teimas em esquecer?
que memórias são essas, as que intentas apagar?
porque viajas na viagem, se o ir é apenas encontrar a razão para voltar?
o que fica de quem és quando o calor evapora na noite e as estrelas se desvelam
tímidas
contidas
na imensidão do negrume abissal do espaço que te rodeia?
gritas no silêncio de terra
de barro vermelho
esperas ventos do norte para permitires que a tempestade de areia te cubra os olhos
a pele
o respirar.
que lugares são esses em que te devastas para te lembrares do caminho até ao lugar de ti?
talvez regresses
talvez não possas regressar
mas se o lugar voltar a ser o mesmo
o que restar de ti, já não vai lá estar.
Por vezes,
só por vezes,
sinto-te na falta
como se fosse devastadora
a tempestade
que acontece em mim.
Preciso
regressar a ti,
apenas por um breve momento,
pelo tempo que me possas dar,
apenas o suficiente
para eu
voltar a respirar
em mim.
Preciso
reter(-te) nas mãos,
só por um breve momento,
a água que me traz de volta.
Limpa-me nas lágrimas.
Beija-me nos olhos.
Segura-me nas mãos.
Acende-me nas labaredas.
Apaga-me no anoitecer.
Suspende-me no tempo.
Mata-me ao amanhecer.
Recorda meu nome.
Cala-me na boca.
Repete-me no arrepender.
Desvasta-me no corpo.
Fere-me na língua.
Serena-me nas marés.
Enrola-me na areia.
Suspende-me no tempo.
Grita-me no devir.
Diz-me que me queres.
Compreende-me na dor.
Deixa-me a queimar.
Arrepia-me no ouvir-te.
Canta-me no poema.
Faz-me partir.
Ajuda-me a chegar.
Mostra-me no caminho.
Atira-me ao mar.
Alimenta-me de ti.
Rasga-me a roupa.
Mata-me na sede.
Prolonga-me no momento.
Silencia meu grito.
Puxa-me para mais perto.
Suspende-me no tempo.
Deixa-me cair.
Volta para trás.
Olha para mim.
Cala a minha dor.
Limpa-me nas tuas lágrimas.
Vou começar a queda com a dor suspensa nos asas dos lábios que seguram o grito em vácuo.
Todos os passos chegam para chegar ao mesmo destino. Cair.
O corpo sucumbe o zunido persistente que habita o interior da minha resistência.
Minha voz não tem som. Se tentasse falar, soariam notas de um piano que se desafina no preciso momento em que embate de encontro às rochas do tempo já sido.
Percorrem-me palavras arrepiadas pela pele do corpo. Sinto-me prestes a sangrar, por dentro. A chorar, por fora. A cair, simplesmente a cair.
o que queres de mim
é o que habita o lado errado de quem eu sou.
a perversão. a sujidade. o odor a fel, a sexo, a cinza e a lodo.
o que amas de mim
é o que reside no lado errado do que precisas.
a mão que fere. o olhar que nega. a pele que arrepia. o dominar do tempo. o espaço ocupado com todos os balaustres da tua forma. as paredes pintadas de negro. as feras à solta nos dedos. os gritos obscenos velados no silêncio da indiferença. a ternura que mente.
queres que seja o que desejas que eu não chegue a ser.
só sendo o que não deveria ser poderei ser o que queres que seja.
o fosso. o abismo que te invoca à queda livre até
que embates na realidade do que não te posso ser e me deixas
despido
devassado
desmembrado
no golpe fatal que repousa,
sereno, omisso, desalmado, silencioso,
na profundidade atroz das tuas mãos.
Sonhei o teu corpo despido em contra-luz na janela do jardim.
De seguida, sonhei um tigre branco que atravessou o ar e me tocou nas mãos e se deitou aos pés do tempo.
Depois, sonhei-te com uma outra mulher que sorria segura pelos fios das tuas mãos trémulas.
A seguir vi a minha sombra a atravessar o jardim, descalça, a passar sobre o pêlo do tigre que dormia na alegoria de (eu) ser uma ilusão, a arrastar os fios quebrados presos no tempo da pele, a caminhar, sorrindo, em contra-luz.
Jaz um estorninho no feio cinzento do manto de uma qualquer rua pérfida desta cidade.
Não há nenhum canto de nenhuma ave a entoar no silêncio obscuro deste dia.
Em cada lugar de cimento a desfazer-se do tempo como acontece aos ferros de ferrugem que seguram a ponte, encontro a memória de ti.
Em cada agressão da voluptuosa dinâmica da cidade cheia, deparo-me com a lembrança da tua voz.
Em cada folha caída, raiada de vermelho, tingida do receio do inverno, encontro tua pele.
Em cada momento perdido da iminência antecipada da angústia da chuva que faz quedar todos os anjos do céu numa devastadora agonia concertada pela falência certa da humanidade, encontro tua língua.
Em todos os sabores de todos os ventos de todas as ruas e vielas tristes, ou entusiastas, perco tua mão.
Jazem os pássaros, as ruas, as folhas e os mantos de água nas minhas mãos gravosas.
Caminho desavinda de lugar nenhum.
Percorri as ruas vazias da minha inquietude e foi a este lugar que cheguei.
Não reconheço nada.
Não está aqui ninguém.
Há apenas o silêncio que se escuta debaixo de água e
cheiram a podre e a lixo estas ruas que desenham os traços e os troços do resto que ficou de mim.
Há sujidade por todo o lado. Minhas mãos estão cobertas de terra apodrecida, barro negro que me escorre nas veias da pele e dentro da boca.
Escavo estas ruas dentro do peito até aquietar o desassossego de quem não tem lugar.
Por tudo o que vejo, permanece a água que escorreu das iras do tempo. Água que lava e que leva tudo o que encontra. Até o silêncio que se aquieta por dentro de si mesma. Até percorrer os caminhos e chegar, vinda de um qualquer lugar, ao lugar onde eu já não caminho.
Recolhes-te
dentro da tua angústia
por debaixo dos seixos negros
na orla da costa que respira a lava que
quem
olha de fora
não consegue
ver.
Fechas
teus olhos
como quem
fecha as mãos
e
ficas
virado para o interior das tuas ausências
com a dor
a apontar
o caminho
que
fica
para
norte.
Seguras
em silêncio
todas as mágoas do mundo
que colide
com todas as areias
perdidas
nos caminhos
do deserto
que te devasta
por dentro
a cegueira do caminho
que
de frente para ti
te foge das mãos
fechadas.
Somente
o tempo
vestido do negro dos seixos
despido do silêncio do mar alto
te poderá
trazer
de volta
ao caminho
onde
deixaste
teus olhos
abertos.
Toca-me.
Mais uma vez.
Prometo que não fico.
Prometo
que
não volto.
Deito-me, despido, sobre o beiral do tempo. Conto cada dia
que passou nos dias que foram noites e sei o tempo todo que estive suspenso na
tua sede.
Sei a fina lâmina que me lambe o lugar escondido que tuas
mãos ocuparam no interior de meu corpo vazio.
Deleito-me na sôfrega certeza (ou somente memória) da
vontade de me vestir dos contornos da tua desvontade.
Intento entregar-me (nu, descalço, com labaredas a emanar
dos contornos da pele), à fealdade da violência que abraça a tua ausência
quebrada no lugar vulnerável da condição de se não poder ser nada para além de
selvagem.
Mas tua voz é sempre o meu lugar de redenção. O lugar onde o
sol repousa. Onde o mundo para de gritar.
Sorvo cada som vibrado da tua fala, cada tom a saber
tornar-se nos fios com que me defino na forma inteira, e tuas palavras e o
aroma de tua pele nos meus dedos, são tudo o que me alimenta.
Transcendo a essência do ar que respiras longe de mim.
Quero-te tanto quanto te não quero.
Desejo-te tanto quanto te não suporto.
Toco-te.
Uma última vez.
Prometo
que
não
volto.
quedam
desenfreadamente
sem rédeas ou amarras
rajadas oceânicas de chuva
que limpam esta terra
e nela desferem seus golpes impiedosos
disfarçados nos fragmentos da névoa que tudo abraça
cegamente
no rescaldo do ruído do cinzento
e a única coisa que me podia salvar
do dilúvio
seria
se o por do sol que reside dentro da tua voz
pudesse chegar até ao aqui.
Toca-me
no canto mais putrido de minha pele
no ângulo mais sujo de meu abismo
no resto mais devastado da minha continuação
na letra mais tosca da única palavra que me habita a lingua.
Diz-me tudo o que sabes
sobre as linhas tortas do meu destino tortuoso
sobre a cor da sombra dos meus dedos arrefecidos na queda do dia
sobre a rugosidade dos calhaus secos que me colhem a pele e me cobrem os olhos abertos
Grita
no meu ouvir
no que já não sei sentir
no que é sem ser e é por já ter sido
e
depois
peço-te
abandona-me ao vento.