Deslizo
pela viagem de tua voz
até perder o norte.
Desfaço-me
na memória da tua pele
antes de atravessar o sul do deserto que acaba
precisamente
antes do lugar de mim.
Há um negrume que se instala no azul do céu de uma tarde cansada. Anuncia a certeza de que a chuva regressa, em breve. As gaivotas choram o canto dos abandonados enquanto esvoaçam, erráticas, desamparadas, num rasto de um qualquer caminho...para terra, ou para o mar? Debatem- se com a incerteza segura de que a vida é uma escolha permanente e que, por fim, termina na causalidade escolhida. Em cinza. Ou em abismo.
Penso em ti enquanto caminho o chão de areia. Talvez seja a água que choras de dentro da pele, aquilo que te tenha transformado os pés em barro.
São sombras dos teus gestos que reencontro na chuva que me desenha a pele.
Fecho os olhos
e fecho as mãos.
Deixo-te partir
mas trago-te,
durante um momento,
agarrado aos dedos fechados sobre as minhas mãos.
Um momento
é o que me basta
para suster
a ilusão,
consentida
de que
é possível
segurar(te)
a água.
E,
logo de seguida,
largar.
Neste momento, na noite ébria, queria apenas sentir teu corpo na minha língua, nas minhas mãos, na minha pele...
Não há, neste preciso momento, mais nada que me possa fazer sentido senão a incontornável ausência de tua voz.
Emana, de mim, o aroma a lima, a mosto e a fumo e é nesse lugar, sombrio de tão vivo, que me cruzo com a certeza do lugar de ti.
E termino, nos resquícios do verão que abandona este lugar, a ansiar pelo que me não pode chegar a ser.
Estás longe.
Num lugar de mar alto onde eu já não posso chegar.
Num lugar onde já não há terra para eu ter lugar. Onde já não posso ouvir-te na voz porque já não há nada que me queiras dizer. Onde minhas mãos está vazias e já não podem tocar. Onde o silêncio da distância ausente transfigurou tudo.
Já estou demasiado longe.