07/10/2015

seGunDo


Leva apenas um segundo a desentorpecer a revolução visceral que acontece dentro de ti. Leva apenas um segundo se puderes aguardar. Começo por retirar a carne das unhas. Depois rasgo-te o peito com a navalha que me veleja a pele. A seguir corto-te o que restar do cabelo até perderes a força. Depois ajoelho-me nas tuas costas e peço-te perdão baixinho, em segredo, para que quase não me possas ouvir enquanto a dor te doer em todos os cantos da tua violência. Entoo uma melodia de embalar enquanto te flagelo com as lanças que me consomem os pensamentos. Cubro-te com um pano negro para esconder o sangue enquanto gritas por dentro. Transformas-te no animal que tens escondido dentro da tua angústia depois de todo o tempo que navegou por entre nós. Recordas os mortos que te fazem falta e cais de joelhos a meu lado. Podemos chorar aqui que ninguém nos ouve. Podemos acabar de dilacerar o que resta de nós nesta vida morrida sem ter sido vivida. Perdemos demasiado tempo a tentar perceber o porquê de sermos assim. Perdemos demasiado tempo. Resta apenas um segundo. Um segundo para nos refazermos dentro da miséria que reside em nós e a recomeçar a tentar viver.

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