04/10/2024

Há um homem que desce a rua da mesma forma que sempre desceu a rua. Anos seguidos. Mas agora fala em voz alta.
Há um taxista que para o carro e fica, ali, parado. Só parado. Mais nada. Todas as noites. Parado. 
Há doentes que saem a pé depois do tratamento e atravessam a noite da rua. Desconheço o lugar de onde encontram a força para andar. Talvez não tenham alternativa. Talvez estejam sós. Depois de se terem desfeito do sangue numa qualquer máquina. Atravessam sozinhos a noite doente. 
Há uma chuva timida que vai caindo e embaraça. Uma chuva que enevoa os olhos. Embacia os vidros dos carros. Não lava nada e fica a latejar sobre a pele que ainda tem sabor de verão. Uma chuva que não chove, será chuva?
Há baratas a correr desorientadas de folha em folha. Para longe dos pés.  Para perto do lixo. Para junto dos restos que sobram dos restos. Arrastam o que resta de uma asa morta de um pombo morto e parecem fazer um festim de morte. Uma asa morta. Um pombo morto. Insectos que vivem de morte. 
Uma mulher passeia o cão e olha em frente. Sempre em frente. Nunca olha para baixo. Não olha para trás nem atravessa olhando para os lados. Segue. Em frente. Como se não houvesse nenhuma alternativa possível. Quem olha apenas em frente, conseguirá ver?
Numa varanda há vozes que se riem. Não têm cara, apenas contornos feitos de vida e de movimento. Há música que salta detrás das janelas abertas e recordam anos idos de juventude. Riem de palavras vivas e ignoram o mundo. Um lugar sem conflito. Pode haver um lugar no mundo, esta noite, onde não haja conflito?
Há um aroma a jasmim na rua. Na varanda do vizinho. Os pássaros dormem na varanda do vizinho. Presos na gaiola fechada. A aguardar o nascer de novo dia. Não cantam agora. A noite canta sozinha. Porque perdem os pássaros a voz e o voar com o cair da noite?
Um gato preto atravessa o alcatrão da estrada e navega a solidão profunda da noite. Procura restos de comida. Procura gestos de vida. Talvez deseje afecto. Uma mão quente que o cubra de esperança.  Ou talvez não.  Os olhos amarelos a brilhar e a contrariar a escuridão. Os gatos são o contrário da escuridão?
Há um outro homem que parece um gato. Também tem os olhos abertos na noite enquanto procura lugar para deixar dormir o corpo. Nas arcadas dos prédios. A urinar de encontro a um lugar esconso. Talvez ninguém veja. Eu vi. Talvez mais ninguém veja. Terá uma mão, comida, chuva, coragem. É preciso coragem para dormir na noite aberta,  sem tecto. O que pensa um homem que não tem um tecto debaixo da noite?
Há pessoas que sairam e talvez não regressem a casa. Pessoas que regressaram e talvez jamais possam sair. Pessoas que não sairam. Pessoas que circulam a caminho de aqui ou de ali. Que trabalham nos segredos. Que preparam o dia. Que velam pelo resto dos que dormem, descansados. Há quem durma descansado?
Há portas fechadas e janelas abertas. Carros e aviões que não param de avançar.  Como o tempo, sabes. Como o tempo. O tempo que avança e a impossibilidade do recuo. Como a mulher que só olha em frente.
Há um homem que desce a rua da mesma forma como sempre desceu a rua. Mas agora fala sozinho.
Eu também desço a rua. A mesma rua. Há muito anos. Estarei eu a falar com quem?


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