Podiam dar teu nome à próxima tempestade. Um fenómeno atmosférico não particularmente raro mas incomum, que se encontra de olhos fechados em lugares obscuros ou de olhos abertos na claridade do mundo.
És a serenidade envolvente das areias das estepes africanas. A lânguida sensualidade do arder da pele e da boca, dos dedos e dos olhares, do tudo e do nada. És o grito gélido dos fiordes do norte. Água feita gelo, feita montanha, feita impossibilidade. Distância e austeridade tecidas da mais abissal profundidade do azul contido à força na feroz atrocidade do ser tempo.
És o vento morno que embala a ardência inebriante da vastidão cheia de vazio no deserto. És lamentação tornada, divinamente, em muro de papel e pedra, de esperança e desventurança, de crença e de perdição. És a chuva torrencial que devasta vales e casas, lugares e memórias, encontrando sempre o caminho da água. O caminho que regressa, inevitavelmente, ao lugar primordial. Onde tu começas e onde só podes terminar.
És viagem que está sempre a partir. Viagem que se incendeia até conseguir chegar. Viagem que viaja para encontrar tanto quanto para se perder. Viagem que não sabe onde terminar. Viagem que regressa ao princípio para poder repousar. Viagem que nunca se conclui. Que não satisfaz. Que deixa espaços por preencher.
Imagino tua sombra a calcorrear as ruas das cidades na magnificência da cor que só o começo do outono traz no sol.
Cinematografo tua sombra como uma folha de plátano que cai, pela noite fora, do ramo mais alto. Dança com a gravidade, beija o luar, até que o chão lhe toca, com dedos finos e envelhecidos, e o vento a empurra, sem questionar, ainda que com a mais leve das brisas, para longe da copa da sua árvore... Assim caminhas tu. De braço dado com a vontade, de olhos cravados no desejo, as mãos abertas para o sonho, os pés voltados no sentido da fuga.
Preenches a possibilidade de um futuro nas noites com um corpo outro desnudado que inala o possível e exala o impossível. Que respira futuro e padece de abandono. Que te segura na ponta dos dedos e não ouve as palavras escritas nas cinzas.
Tu não respiras de noite. Olhas esse corpo escolhido que deitaste ao lado do teu e viajas por dentro de ti mesmo. E queres ficar tanto quanto precisas de partir. E queres partir tanto quanto precisas de ficar.
E terminas a viagem com a bravura de um soldado que parte no desconhecido e enfrenta a bruma, os canhões, os silêncios e a devastação, a saudade e a (des)consciência de si.
E regressas, a arder, a arrastar cinzas, a recompor desiginios, a redesenhar desejos, a reconstruir as paredes desfeitas, a guerrear contra a guerra.
E chegas ao teu lugar de mar para cessar o fogo, reencontrar o caminho e, com a paciência impaciente de um poema, atenuar a emergência do que te falta ser.
Talvez a tempestade que acontece em ti possa fechar os olhos na obscuridade desse lugar e, ainda assim, vislumbrar os rasgos de claridade.