Sonhei que minha voz
não tinha voz.
Acordei.
cantando.
por último
Amanheci nas entranhas da cidade. Cheira a frio e cansaço pelas ruas. Tudo parece ter sabor de abandono. São, talvez, imensas as formas possíveis de abandonar algo ou alguém. De nos abandonarmos.
Caminhei as ruas como se a única possibilidade fosse chegar ao destino. Caminhei com o sangue fora da pele, com o grito fora da boca, com a certeza fora de mim.
O que permanece no abandono é a despertença.
Se não pertenço aqui, quem serei eu?
Supus que a raiva iria cessar.
Acreditei como se acredita cegamente nas coisas que, na verdade, não existem senão em nós mesmos.
Mas a raiva não parou.
Escorre como um manto de lava incandescente por dentro do corpo do meu sangue. Jorra no fel das minhas palavras e consome tudo o que restava das cinzas da minha esperança.
Parei na rua por um momento, devagar, sem permitir a pressa dos dias. Escutei o sol na minha pele. Senti o silêncio que vem de dentro, obliterar o ruído da cidade. Um momento de claridade, enquanto fechei os olhos devagar, e compreendi tudo.
Vi que sempre foram os olhos teus o que me levou de volta a esse lugar. Foram sempre teus olhos [feridos], teu olhar [vivo], tua claridade [obscura], tua intensidade [efémera], tua inconstância [consistente], teu mar [meu ar] que me fizeram sempre regressar. Impelida por tua luz, atravessei às escuras o oceano, vezes sem conta, para te [me] reencontrar.
Compreendo, agora, que foi por ti [sempre] que regressei.
estou de olhos fechados. virado para a parede. nunca vi tão claramente como agora. não há nada para além de escuridão em redor. mas é agora que eu vejo. junto a pele à cal. fundo-me com a pedra. mastigo os restos de pó e deixo-me envolver pela putrefacção das formas. estou de olhos fechados a olhar para mim. só agora consigo ver tudo. cruzo os braços. quebro os ossos. vazo o interior de mim e espero. de olhos fechados. virado para ti.
Pego no vidro com as duas mãos.
Parto-o em duas partes desiguais.
Com a mão direita, seguro a parte mais larga do vidro e rasgo a mão esquerda. Até chegar aos ossos.
Com a mão rasgada, seguro o lado mais estreito da segunda parte do vidro e enterro-o na minha mão direita.
Carrego os vidros nas mãos desfeitas e caminho até à entrada do rio. Sujo a ferrugem ocre do lugar de embarque e acinzento o olhar do rio sobre meu sangue escuro.
Entro no navio que navegará a imensa vastidão do oceano durante a noite velejada ao sabor do outono triste.
O mar entoa uma melodia azul. Uma melancolia inevitável.
Fecho os olhos para escutar as ondas e o escorrer de mim.
Quando chegar a meio do oceano, estarei exangue.
Quando atracar, o vidro estará inteiro.
talvez
seja
o momento
este
em que partes
o momento
exacto
no qual
o esboço se consubstancia em forma
a palavra se molda de silêncio
o olhar se declara em certeza
o tempo se revela irrecuperável
a agonia liberta suas asas
e
talvez seja
esse
o momento
preciso
em
que
eu me desfaço em invisíveis fragmentos de desespero
me desato em nós de argumentos esquálidos
e reconheço
na cegueira impura das minhas mãos atadas
o tamanho inteiro do irremediável que habita a minha impossibilidade.
houvesse forma de te libertar
arrancava as asas aqui mesmo
houvesse forma de te conter
faria de meu corpo barragem de ferro e betão
houvesse forma de te salvar
tornar-me-ia definitiva condenação
houvesse forma de te suster
cederia toda a respiração
houvesse forma de te sangrar a gangrena
faria de mim chaga eterna
houvesse forma de te parar o fogo
seria sarça
houvesse uma forma de te reescrever
derramar-me-ia em tinta
se houvesse forma
qualquer forma
se
houvesse
de bom grado
ta daria.
Podiam dar teu nome à próxima tempestade. Um fenómeno atmosférico não particularmente raro mas incomum, que se encontra de olhos fechados em lugares obscuros ou de olhos abertos na claridade do mundo.
És a serenidade envolvente das areias das estepes africanas. A lânguida sensualidade do arder da pele e da boca, dos dedos e dos olhares, do tudo e do nada. És o grito gélido dos fiordes do norte. Água feita gelo, feita montanha, feita impossibilidade. Distância e austeridade tecidas da mais abissal profundidade do azul contido à força na feroz atrocidade do ser tempo.
És o vento morno que embala a ardência inebriante da vastidão cheia de vazio no deserto. És lamentação tornada, divinamente, em muro de papel e pedra, de esperança e desventurança, de crença e de perdição. És a chuva torrencial que devasta vales e casas, lugares e memórias, encontrando sempre o caminho da água. O caminho que regressa, inevitavelmente, ao lugar primordial. Onde tu começas e onde só podes terminar.
És viagem que está sempre a partir. Viagem que se incendeia até conseguir chegar. Viagem que viaja para encontrar tanto quanto para se perder. Viagem que não sabe onde terminar. Viagem que regressa ao princípio para poder repousar. Viagem que nunca se conclui. Que não satisfaz. Que deixa espaços por preencher.
Imagino tua sombra a calcorrear as ruas das cidades na magnificência da cor que só o começo do outono traz no sol.
Cinematografo tua sombra como uma folha de plátano que cai, pela noite fora, do ramo mais alto. Dança com a gravidade, beija o luar, até que o chão lhe toca, com dedos finos e envelhecidos, e o vento a empurra, sem questionar, ainda que com a mais leve das brisas, para longe da copa da sua árvore... Assim caminhas tu. De braço dado com a vontade, de olhos cravados no desejo, as mãos abertas para o sonho, os pés voltados no sentido da fuga.
Preenches a possibilidade de um futuro nas noites com um corpo outro desnudado que inala o possível e exala o impossível. Que respira futuro e padece de abandono. Que te segura na ponta dos dedos e não ouve as palavras escritas nas cinzas.
Tu não respiras de noite. Olhas esse corpo escolhido que deitaste ao lado do teu e viajas por dentro de ti mesmo. E queres ficar tanto quanto precisas de partir. E queres partir tanto quanto precisas de ficar.
E terminas a viagem com a bravura de um soldado que parte no desconhecido e enfrenta a bruma, os canhões, os silêncios e a devastação, a saudade e a (des)consciência de si.
E regressas, a arder, a arrastar cinzas, a recompor desiginios, a redesenhar desejos, a reconstruir as paredes desfeitas, a guerrear contra a guerra.
E chegas ao teu lugar de mar para cessar o fogo, reencontrar o caminho e, com a paciência impaciente de um poema, atenuar a emergência do que te falta ser.
Talvez a tempestade que acontece em ti possa fechar os olhos na obscuridade desse lugar e, ainda assim, vislumbrar os rasgos de claridade.
sento-me com um copo numa mão e a miséria na outra. bebo de ambas as mãos como se sorvesse os restos da vida. reconheço os gestos de ingratidão que teimo em exacerbar cada vez que se me abre a boca para falar. queria poder permanecer num silêncio mudo e cego. deixar passar o tempo até que nenhuma parte do meu corpo ousasse mais mover-se. deixar que todos os cabelos quedem nos tons de cinzento, toda a textura da pele se mistifique no desespero das rugas. que toda a sabedoria me caia no colo e eu possa, de uma vez por todas, reconhecer que não fui digno de viver. bebo da miséria da minha existência os tragos de vida que deixei por ser vivida. bebo do copo para esquecer a miséria. bebo a miséria para abandonar o copo. e assim sigo, silencioso, pelo interior da noite.
Considerei a possibilidade de permanecer imóvel. Fingir que já não respirava. Ficar completamente parado.
Por vezes deixamos de respirar. São breves segundos mas deixamos de respirar. Talvez esses segundos sejam suficientes para que me deixes partir em paz. Para que não me vejas vivo e te esqueças de mim. Que olhes meu corpo lívido e me abandones na terra. Que retires essa sombra sempre tão escura de cima de minhas mãos e me deixes terminar, à minha maneira.
Será que permanecendo assim, cingido à ilusão da mortalidade, te poderei iludir? Será possível moldar a tua visão da realidade à minha pura intenção de me libertar? Será quebrar algum laço de fidelidade jurada em silêncio sofrido se te trair e insistir para que me deixes?
Penso que já não me importa o que sentes, o que pensas, o que precisas. Sempre foste água que precisava de terra para conseguir parar de correr numa tempestade frenética. Eu fui sempre terra que precisou de água para respirar. Até este momento. Agora andamos no reverso da nossa inteireza. Quebrámos partes. Fizemos um lugar de barro.
Por isso permaneço imóvel. Deixamos, por momentos, de respirar.
Deixo-te passar em torrentes incessantes de mar salgado numa beleza imperturbável.
Deixo-te ir.
Deixo-me ir.
vem.
espero por ti.
vem.
cobre meus olhos.
ata-me nas mãos.
vem.
despe-me da pele
com os dentes
até aos ossos.
vem.
deixa sair o grito. por dentro do beijo.
violenta-me como se me amasses.
oferece-me a dor.
vem.
cobre-me a boca.
pisa o sangue que me escorre do ventre
e pinta o resto do tempo.
vem.
rouba meu grito com a ponta dos dedos.
entrega-te à minha desventurança.
oferta-me a violência com que te alinhavo.
vem.
não espero por ti.
emparedaste o caminho com fogo. não posso passar.
vedaste meus lábios com gritos. não posso falar.
pintaste minhas asas com crude. não posso voar.
ataste-me as mãos ao cimo. não posso tocar.
quebraste os galhos e as minhas pernas. não posso sustentar.
roubaste-me os segredos com facas. não posso sonhar.
incendiaste a porta com indiferença. não posso sair.
devastaste-te a promessa na ausência. não posso ficar.
olhaste as sombras nos olhos. viste-me desaparecer.
Lambi a ferrugem dos grilhões que arrastas dentro da noite segregada a ouvidos adivinhadores
tenho a boca a saber ao ferro
a alma a saber a miséria
sinto-te na falta
tenho-te em falta mas não tenho falta de nada de ti
tenho os dedos a saber a tempo e a desventurança
o sexo a gritar saudade e a secar por dentro da desesperança
a pele a queimar inteira a poesia da incerteza e a cobrir o vazio do vento frio da serra triste.
tenho galhos secos em lugar das mãos
ferrugem no lugar do sangue
amarras no lugar das lágrimas
pudor ao invés de amor.
Lambi a ferrugem do tempo e fiquei parada.
procuro formas de regressar às formas e parece que tudo foge dos dedos, dos galhos, do sangue enferrujado, do silêncio dos gritos contidos, das desventuranças da incerteza de saber sentir do lado certo da alma.
Talvez encontre o caminho de volta ao vento que sopra de feição às ondas e às folhas. ou talvez permaneça somente assim, a arrastar-me quieta no interior da noite.
Fiquei à espera que chegasses.
O dia inteiro. Que chegasses inteiro.
Fiquei na espera que regressasses com o tempo e me explicasses o sentido da vida.
Queria ouvir-te rir da estupidez do mundo, hoje, enquanto aguardavamos a luz do cair do sol. Talvez seja aquilo que queda, o que traz sentido ao que se sustém. Se não entendermos a fragilidade da sustentabilidade, jamais poderemos compreender a vida.
Talvez tenha sido essa a derradeira lição. Aprender que as coisas que caem, que desaparecem, são o arquétipo que prova o sentido da existência.
Pergunto-me, ainda assim, porque nos recusamos a aprender?
Porque insistimos em desafiar as leis da gravidade, num permanente complexo de deidade?
Seremos todos, no fundo, apenas cobardes disfarçados de heróis? Ou heróis disfarçados de cobardes?
Seremos apenas sombras, puras sombras de tudo o que poderiamos ter sido.
Quando voltaremos a brilhar?
Fiquei à espera que chegasses. Para saber. Para ouvir. Para entender.
Tenho a tristeza presa nos cabelos molhados. Levo as pontas ao sabor da boca e não é mar nem sol nem liberdade nem certeza o sabor em que a tristeza arde.
Afogo a voz dentro das palavas dentro da tinta dentro das páginas dentro da gaveta. O silêncio segura as pontas das correntes e dos grilhões e as palavras passam a saber a ferrugem e a cinzas dentro da pele.
Cerro os punhos encarcero os dedos dentro das mãos coloco as mãos dentro do vazio dos bolsos.
Revisito a localização dos objectos das memória dos desejos da vontades dos por vir. Reavalio os pontos de fuga abro janelas fecho portas abro portas fecho janelas cavo buracos coloco arame farpado abro as cancelas encerro os fossos cubro as arestas estilhaço os vidros e descalço a pele.
Afino a estratégia. Abro as portas e as janelas ao vento e deixo que o ar reclame o lugar de tudo o que não possa levar. Abandono o que resta no calor devastador da promessa e escolho a banalidade do mal que reside nos meus cabelos.
Viro-me para trás encerro tudo fico apenas eu dentro do lugar de dentro e peço que finalmente o resto me abandone enquanto peço que se ardam os cabelos no segredo violento que guarda o calor desta noite.
quero arrancar os olhos de dentro das lágrimas e escavar um buraco tão fundo quanto as minhas unhas aguentem escavar o ferro fundido de que se revestem as paredes da minha miséria.
quero arrancar as lágrimas de dentro dos olhos até escavar por mim adentro até encontrar o fundo em que lágrimas e sangue me encontrem o sufocar.
Por vezes,
a pele da tua voz
é tecida com as linhas desfasadas dos fragmentos dos gritos e das preces que te ocupam os dedos,
dos segredos e dos silêncios que te prendem as asas,
das palavras e dos beijos velados que te restringem a essência,
da pedra talhada de mãos abertas sob o olhar da água e do abismo da escarpa.
Por vezes,
a tua voz,
tem o sabor do cansaço da tristeza.
arranca a pele que tenho presa nas mãos nos braços na cruz do peito arranca com força sem hesitar agora sim agora não pares não podes parar agora arranca tudo com as unhas os dentes os dedos cerrados dentro dos punhos violentamente arranca a minha pele de mim até se ver a carne até sentires o sangue até imaginares a dor e não pares nem por um segundo continua continua até ao ventre rasga meu ventre abre o meu corpo a meio e tira tudo o que sobra lá dentro leva desfaz agora sem hesitar peço-te que tenhas coragem na violência que te desfaz para me desfazer a mim agora arranca a pele toda da minha alma.
pensei que podia tirar a roupa dos pés e dançar descalço nas entrelinhas das frases nunca proferidas. queria pegar nas palavras com a linha da tinta e percorrer os traços invisíveis dos papéis apodrecidos nas ruínas da casa que caiu no mar. pensei que podia tirar as palavras da boca e cola-las nos tectos das mãos até te vestir de certezas e de âncoras. fechei os olhos e sonhei o sonho que não é mais do que os contratempos dos tempos em fila de espera para se tornarem música. sonhei-te e não estavas lá. caminhei descalço por dentro da minha boca e foi areia e conchas o que encontrei e mastiguei no sangue das gengivas feridas de letras sem ordem, sem palavras. o que são letras que não podem tornar-se palavras? o que serei eu se não estás no sonho que sonho de ti?
Está escura, esta noite.
O dia passou o tempo a entoar uma melodia agónica que me desfez por dentro. Desconheço a razão, o motivo que me levou a perder a batalha.
Às vezes (ou sempre) é preciso ter vontade e por vezes (nem sempre) o é possível.
Caminho, desatenta das ruas vazias da cidade. Ouço apenas o que me diz a noite. Parece que sussurra um poema triste, feito de histórias inacabadas, monstros alados, sarilhos serenos, tempestades imperfeitas, desesperança...sobretudo, desesperança.
Debaixo dos meus passos, morrem uma segunda morte as flores caídas dos jacarandás. Tudo tem um começo e, por isso, inevitavelmente terá fim. As flores de jacarandá cessam duas vezes...morrem de tempo e morrem de mim.
Em cada passo, ouso querer adiar uma queda mas o que faço é mentir por dentro e devagar, uma flor de cada vez, construir a ilusão de que há uma razão.
Há tantas razões como há flores caídas por dentro da noite.
Está escuro.
há raios que trazem relâmpagos e razões
para arrasar a noite
há um prenúncio de uma chuva que não vem mas traz
as costas da aridez distante
há gritos e ventos que fustigam a pele dos ousados e arregaçam a pele
até se ver osso
há raios que trazem trovões na voz e gritam nos ouvidos dos pecadores
uma penitência surda
Sento-me, a meu lado. Fico a olhar-me e tenho dúvidas sobre se este corpo será verdadeiramente o meu. Já não sei bem reconhecer se é este o meu contorno, se esta palidez é de minha pele ou de meu devaneio, se este corpo é do meu fogo ou do meu abismo, se estes gestos são imutáveis ou ensandecidos. Já não guardo muitas certezas. Sei apenas, neste momento de agora, que enquanto estou lado a lado comigo mesmo, respiro labaredas, rasgo o estômago com os dentes, engulo palavras em brasa, cravo as garras corcomidas na pele desalentada, conto os gritos inaudíveis que me implodem por dentro...um, dois, cento e trinta e nove, mil...
Deixo-me permanecer sentado. Olho em frente. Viro-me de costas. Dispo as roupas e vejo que tenho a pele a arder. Afinal as palavras começam a sair do silêncio dos gritos e as brasas incendeiam o caminho. Sinto o sabor do desalento na ponta dos dedos em cinza. Reconheço o aroma de fel na boca amargurada. Aperto o cilicio no peito. Um pouco mais, até escutar a prece dos ossos. Mastigo a culpa e pecado. Bebo o sangue. Contenho as lágrimas. Deixo que o fogo tome conta do resto.
Fecho os olhos.
Fico sentado.
Estou virado de costas para o meu corpo a arder.