24/05/2020

nasce,
no lodo,
a imensa possibilidade da vida
terra, água, húmus, musgo,
restos mortais do outrora vivido agora a escorrer nas paredes frias
e lentas,
do lado mais pantanoso da vida.
escorre-nos
pelas mãos
o elixir do tempo
ferido.
os telhados anunciam o norte
as andorinhas indicam o caminho para sul.
respira,
no lodo,
a necessidade do regresso.
a casa.

18/05/2020

Teu corpo desfeito,
preso na madeira velha
sob as ondas do mar triste
que te leva na vida o último fôlego.

Teu olhar
terno e decidido,
entrega-se sem se render
e rende-se sem se entregar.

Nas arestas de Teus lábios
permanece a certeza da constância,
a constância da certeza,
o limite do amor.

Tuas mãos rodeiam as estrelas,
seguram o tempo no espaço aberto
tocam a pele do sangue
num gesto eterno de perdão.

Teu corpo
o testemunho
Tu'alma
a confirmação.

Nasce de tua dor,
paz e luz e
de teu olhar,
caminho e sentido.

Fazes-te o mar inteiro
no momento do abandono.
E regressas,
no mistério da alvorada,
com o suspiro da vida inteira por dentro.
Ouve minha voz enquanto te mostro o que ficou por dentro das linhas de arame negro.
Há uma besta que brame seus anseios no lugar onde a terra encontra um braço de água.
A imagem de ti suspensa no meu olhar já vazo, é o lugar onde a tinta se derrama.
Ouve a besta que me grita no desejo e me desarma o corpo no arame que se desfez na água pintada de negro.
Sente a besta que se perde em mim. 

10/05/2020

fico sentado na estrada húmida a ver minha mente desfazer-se dentro da chuva de maio.
a alvorada insistiu em levar-me pela mão até ao princípio da alegoria. até ao lugar que é o momento em que desejava, 
ardentemente,
perder-me 
verdadeiramente.
passei pela vida a caminhar no cristal fino da inquietude que dança rasgada sobre o basalto que se faz ser base sob meu caminho de lava e de vidro.
procurei tentar saber sempre mais do que o que era apenas visível aos olhos fechados, enquanto a água me lavava o corpo da angústia de se saber ser algo que um destino qualquer escreveu com tinta dourada nas linhas desfeitas da estrada molhada.
fico sentado com o corpo dormente enquanto a pedra se transforma em vidro,
enquanto a chuva se encontra com o fogo,
enquanto o vidro se entranha nas linhas da pele, 
enquanto a minha mente se entrega ao ardor.

deixo-me a arder,
até que a história termine.

09/05/2020

sibila a água
no corpo que é estrada
na estrada que é caminho
no caminho que é lugar
no lugar que é certeza
na certeza que é tempo
no tempo que é palavra
na palavra que é segredo
no segredo que é deserto
no deserto que é possibilidade
na possibilidade que é inevitabilidade
na inevitabilidade de ser
a chuva
e da chuva saber a sangue
e do sangue saber a lágrimas
e das lágrimas saberem a distância
e da distância saber a confirmação.

sibila a chuva por dentro do vento que é noite dentro de um sonho ébrio.
Sento-me sobre ti
a segurar o mundo por dentro
da extremidade mais distante
na pele

Abraço-te sob o corpo
enquanto o tempo se torna água
e a água se torna finitude
na pele

Toco-te nos lábios
e sinto-te por dentro a navegar
o lado mais estranho que me habita
na pele

Guardo teu nome
dentro da fé
que fica a suster-se aqui.
Despida.



Esta é a confirmação 
absoluta
da inevitabilidade 
da queda
que fica 
(in)sustentada
na finitude 
do por ser.

02/05/2020

deSencoNtro

podia começar a história que te queria contar, pelas letras que se cumprem na palavra em que te guardo. 
escolho começar exactamente no lugar em que te confirmo. no lugar onde agora descanso o sentido. na margem certa do rio.
podia dizer-te que debaixo desta luz, 
morna e terna, 
consigo ver tudo melhor. aqui, neste lugar onde tu eras só tu e mais ninguém tinhas que ser, e eu era só eu mas era, ainda, a possibilidade do lugar onde o rio poderia repousar.

se for um lugar de encontro o que eu verdadeiramente procuro, porque é que não consigo parar de caminhar?
pode o encontro encontrar-se no caminho daquele que não cessa de caminhar?
pode o caminho levar ao encontro mesmo se o encontro se desencontrar no caminho?
posso pedir que o caminho possa mudar e que o cansaço possa não vencer a guerra que acontece em mim de cada vez que o fogo me faz recuar, mas a verdade é que o caminho não cessa de ser caminho e a demanda não cessa de ser o caminho em si. 

podia começar a história do que acontece em mim, deitando-me sob a luz de tuas mãos, mas aqui, nesse preciso lugar, reside a certeza de que 
se me tocares me desfaço em cinzas 
se me segurares me emolo até desaparecer 
e só restaria a possibilidade eterna que permanece imóvel na linha ténue que divide a verdade, do lugar que reservei ao inferno que habito. 

se o verdadeiro significado reside no aprender a tocar os limites mais profundos da vida vivida, onde fica a possibilidade do encontro do lugar certo para o encontro se o encontro é, na verdade, tudo o que acontece em mim enquanto navego os limites das arestas do caminho de minha vida sem nunca tocar o fogo que arde nas margens do rio que desagua nas tuas mãos abertas.

29/04/2020

tira-me da roupa, 
amor.
despe-me até eu ficar desprovido de tudo o que me é em demasia. 
roda em torno de mim até que a fúria da vida se encha inteira de minha mansidão e aprenda a parar.
preenche-me de noite. depois vaza-me até caber o dia inteiro dentro das ruas que são teus olhos e o meu sonho.
descobre-me, 
amor, 
até que reste pouco
que meu tempo já está surdo e quase, mesmo quase, a chegar ao seu fim. 
seu eu morrer, 
amor, 
segura-me na alma, 
respira-me na ausência, 
despede-te de mim em risos e melodias, 
leva meu corpo por dentro da tua memória até que só sobre o pó e eu permaneça inteiro do lado que fica aquém do conflito do momento que me fez saber a verdade do mundo. 
tira-me de dentro de mim, 
amor, 
e faz-me livre enquanto beijas a minha vida. 
deslizo para a linha do porto que me amansa
e o rio diz-me que faz falta o mar por dentro.
resvalo na incerteza do amor à memória do que não esqueço
e o mar canta-me um poema de abandono.
mergulho na boca inteira do mundo que sonhei
e o tempo abandona-me na falta do poema. 
dispo-me do que faltava antes de ter chegado  
e invento a antítese de meu desespero. 
é vã e lisa a linha da mansidão do porto 
onde meu rio repousa até o mar ser tudo o que fica da memória de um abraço.  

23/04/2020

pesa-me o corpo submerso no peso do dia.
sento-me sobre a beira da janela à espera,
pacientemente,
que a noite passe.
não a oiço no silêncio que faz por dentro de mim. não a vejo na imagem que tenho dentro de ti.

deito-me de costas no chão de madeira fina e espero que o pó me cubra.
sinto teus dedos tocarem minha pele, tão leves como se fossem palavras que se dizem no vento que chega antes das marés de Setembro.
imagino-te deitado a meu lado, como se fosses o prolongamento de meu corpo. como se fosses a continuidade da minha certeza incerta. como se pudesses ser uma frase solta num poema aberto.
sinto como aqueces o pulsar do sangue que quase morria em mim e como o meu corpo começa a dançar submetido à tua devassidão.
ou será a tua devastação?

espero o momento exacto em que começas a cantar-me ao ouvido.
tua voz pousada sobre minha nuca,
tua melodia a descer-me sobre a pele das costas,
tuas mãos a desertarem por dentro da minha alma despida.

tudo o que acontece aqui, fica sob o peso da noite que espera,
pacientemente,
que uma janela se feche.

22/04/2020

se eu pudesse escolher

se me fosse dada a possibilidade de escolher entre o céu e o inferno, hoje escolhia o inferno
escolhia deixar-me queimar até ao último fôlego, 
decidia permitir-me rasgar até ao ultimo milímetro de pele
deixava-me dançar nua até perder o controlo
perdoava a minha incerteza e caminhava descalça até cair desfeita em cinzas.

se eu pudesse escolher entre o feio e belo, hoje escolhia o feio
deixava-me corromper até não sobrar nada da minha alma
permitia-me aniquilar até não ser mais do que pó ao abandono da chuva de abril
pintava-me de cinzento até desaparecer por completo por dentro da náusea do mundo
desfazia-me de tudo e deixava só o erro

se me fosse possível escolher entre eu e tu, escolhia o eu
deixava-me caminhar as estradas da minha ilusão
desfazer-me em lágrimas surdas até me ouvir cantar
entregar-me ao prazer infinito da ausência de critica
deixar-me vestir de pecado e caminhar pelas páginas do teu livro

se me fosse dada a liberdade de escolher, 
escolhia chegar cada vez mais próximo de ti
enquanto me afastava.


11/04/2020

priMus vEr

Março está a chegar ao fim. Ainda nada terminou mas tantos outros momentos já iniciaram a sua marcha. A primavera foi anunciada antes das chuvas de Abril e está sentada entre nós. Aguarda, pacientemente, o momento em que possamos parar para a vermos. 
Hoje sou como uma criança a dançar no campo de flores que sempre residiu dentro de minha pele. 
Calcorreio as pedras da calçada, danço no ar que beija as copas das árvores do jardim, pinto-me do vermelho que repousa na madeira antiga dos bancos. Atravesso as gentes até chegar à beirinha do mar. Aí, devoro-me na contemplação do tempo e agradeço o que a vida me deixa ficar nas mãos, todos os dias. 

moMentO

Diz-me, onde fica a verdade? 

Onde fica quando tudo o resto parece não ser mais do que um cenário idílico numa película antiga a rotar dentro da tela numa sala de teatro vazia. 

Diz-me, onde fica a verdade?

Quando tudo parece ser a antítese da possibilidade da salvação. Em que tudo começa a confundir-se e a tornar-se cada vez mais cinzento, mais ilimitado, mais profundo, terrivelmente triste.

Diz-me, 
onde estamos, 
na verdade?

mAs...

"Para aquele que ama, não será a ausência a mais certa, a mais eficaz, a mais viva, a mais indestrutível, a mais fiel das presenças?" (Marcel Proust)

mas eu não sei  o que me sucedia se tua voz parasse de cantar por dentro da minha alma
não sei o que seria de mim se deixasses de existir aqui
não sei para onde poderia ir pois não se pode conceber qualquer sinal de vida num mundo em que tu não te encontres. 

02/04/2020

Kv


Começas no momento exacto em que o sol desponta na miragem do prenúncio do dia e terminas quando o corpo te segreda a necessidade de parar.

Guardas em ti o silêncio que é mistério, que é segredo, e que dança nas margens indefinidas (indecisas?) da verdadeira magia de se ser apenas inteiramente seu.

Como se fosses feito de água por dentro, navegas à deriva das margens do rio que defines ser necessário atravessar, até que encontres o lugar de terra - não areia, terra - onde possas, enfim, serenar. 
Procuras e tocas para logo te esconderes por dentro das árvores que cantam nessa terra acre (ou doce?) do teu sul, até que consigas regressar ao norte que te orienta.

És lugar de luz onde a noite aceita repousar como se fosse feita da harmonia mais imperfeitamente perfeita que reside na certeza incerta do que permanece por dentro das sombras. 
Guardas as arestas finas da fé e a rugosidade da distância que vai de ti até ao lugar em que precisas saber-te. E acabas (quase?) sempre por te reencontrar.

Tão claro como a água do rio que te desfaz por dentro, olhas através de ti para evitar ver-te em toda a imensidão do que fica por entre as margens. Evitas chegar ao lugar em que te sabes ser- absolutamente - como se não quisesses saber-te - finalmente - inteiro.

Danças sobre a tua angústia de braços abertos ao tempo que te conduz como um cavalo a correr o vento na terra quente, na esperança (vã?) que o resto do pó que te cobre te abandone e te permita (re)começar.

Amas com a intensidade de quem vai partir e partes com a imensidão de quem precisa parar.

És lugar onde pode terminar a ânsia e onde as palavras cobertas de lágrimas se podem tornar música, e a música se pode fazer silêncio sem medo de morrer. Lugar onde a espera cessa de ser e a incerteza regressa ao lugar reservado às coisas que se podem deixar partir. 

És verdade que se guarda na sombra dos dias e na margem das noites, onde o silêncio acaba e onde o silêncio tem espaço para regressar. 

É lugar onde outros aprendem a respirar e em que lhes seguras, na sua frágil vulnerabilidade - com as pontas leves dos dedos esguios - a amargura da sua inconstância e lhes permites pousar em terra branda. 

Começas o dia no primeiro fôlego de luz e terminas quando o mundo se permite cobrir de esperança e pó de estrelas. 
Repito as palavras como se fossem memórias.
Repito e repito para que possa, jamais, vir a esquecer. 

31/03/2020

"Se não nos amas pelo que somos, ama-nos por tudo o que lembramos de ti, de tudo o que foste, de tudo o que poderias ter sido, e ter podido ser não será um pouco, enquanto o pensavas, o mesmo que ter sido?"

Marcel Proust
Argumento

sIriA

perdoa se não sei dizer o teu nome. teu nome é o teu lugar, o que te define, o que te é, o que te diz. perdoa se não o entendo, se não o vejo e se não o aprendo. sabes bem como, por vezes, há coisas que nos são tão difíceis de (a)prender. coisas que são apenas demasiado imensas para se poderem guardar. falta espaço, por vezes, por dentro de nós. perdoa se não te sabemos dizer. teu nome é o que te faz ser. e és demasiado grande para caberes dentro deste aqui. 

30/03/2020

mUrO

Ontem comecei a construir um muro em torno da casa.
Peguei nas pedras e no barro. Moldei a ideia nas mãos molhadas de terra branda e desenhei tudo até não caber mais nada por dentro do sonho.
O campo a estender-se para além da linha do horizonte e eu a cavalgar o vento no momento exacto em que o sol começa a descer na seara.
Sinto o pulsar da crina negra do cavalo que me conduz por entre as linhas dos limites que impus ao tempo.
Observo a casa que desejo em mim e refaço o muro em pedras de granito enquanto o barro me arde nas mãos. 
Deixo minhas mãos mergulhadas na água branda até que nasçam jarras onde vou colocar as roseiras e os ventos que emergem com o sol do sul que é o meu caminho inteiro. 
Ontem comecei a construir um muro em torno da casa para nada ficar fora do sonho. 

29/03/2020

o que tu fizeste, amor,  foi abandonar-me nua a dançar por dentro do fogo.





e isso não tem perdão. 

mAr

Às vezes faz escuro no lugar onde te guardo.
Tão profundamente escuro
como se fosse o lugar mais fundo do mar.
Não se vê,
também não se consegue tocar,
nada se pode ouvir
e não há forma de respirar.
Às vezes,
lembrar-me de ti
é morrer
numa dança lenta.

22/03

seriamos,hoje, irmãs de tempo. eu e tu a segurar a vida inteira nas mãos. a olharmos para o que fizemos, para tudo o que escolhemos, a determinar até onde isso nos havia trazido. até ao dia de hoje. a decidirmos, depois, para onde iríamos amanhã. 
se aqui estivesses,perto de mim, neste caminho da vida que atravesso, talvez eu não tivesse tido tanto medo. talvez eu tivesse sido melhor. 
se me pudesses ver agora, o que encontrarias tu no caminho que eu fiz sem ti?

26/03/2020

ninguém pode desaparecer de onde nunca chegou a estar
Sento-me à beira da janela a ver a cidade em silêncio.
Olho a rua por debaixo de meus pés enquanto nenhum movimento parece acontecer. 
Se fechar os olhos, estou certo de que encontro o momento exacto em que o mundo se equilibrou num fio de seda.

Penso em tudo o que cessou de acontecer. Como tudo, de repente, pareceu ficar mais lento,mais inteiro, mais sereno. 
Mais verdadeiro. 
Quem não podia parar, parou. 
Quem não conseguia mudar, virou.
Quem não queria ver, entendeu. 
Hoje parece estar tudo diferente. Mas, na verdade, está tudo exactamente igual. 

O medo tomou conta das ruas e das vidas. 
A consciência assolou todos, enquanto os pássaros passaram a viver mais livres. 
O mundo abrandou e recomeçou a respirar. Suavemente. 

Na outra parte da cidade, longe desta janela, é o cenário bélico que se impõe contra o silêncio.
Os heróis que sempre o foram, são homenageados no segredo da noite, nas preces entoadas no som da esperança, no sangue, no suor e nas lágrimas de quem escolhe - como se vivesse nas asas dos pássaros - não parar. De quem não pode parar porque parar é a impossibilidade de quem se debate na guerra. 
O mundo está agora dividido em dois lugares confinados aos segredos mais obscuros que se escondem nas asas do medo - a incerteza e a esperança. Dois lugares irmãos, dois lugares inimigos. Dois extremos da mesma carne. Dois sentir do mesmo fundo. 

Sento-me na beira da janela a ver o silêncio que se instala no mundo. 

19/02/2020

ap

sabemos o que é melhor para nós os dois.
e o melhor, é uma coisa triste. 

17/02/2020

A vida corre por entre as amendoeiras que se abrem nos caminhos em flor.
Tudo começa exactamente no lugar em que um outro terminou seu tempo.
E tudo, um dia, termina na certeza de que algo novo despontará de um ramo, num qualquer caminho, em direcção a um novo lugar.

27/01/2020

emunah

diz-me,  
Senhor de mim, 
como chegarei ao lugar certo da tua perfeição se não me encontro para além da escuridão que insiste em repousar em torno 
- e por dentro - 
de tudo o que me fez ser 
- inteiro -
assim?

.

toco no final de cada palavra que te não ouvi dizeres.
sinto, 
na ponta de meus dedos, 
a letra escrita a tinta negra por dentro da memória que guardo do que não chegou a ser dito.
construo,
por dentro dos meus olhos cerrados, 
a  história que não chegaste a contar.

sinto saudades da praia que corre por dentro da tristeza do inverno,
do abraço da areia nos pés enregelados enquanto a pele corre mais lenta que o vento que navega o voo das gaivotas cansadas.
sinto a tristeza inteira a desfazer-se em pó das estrelas que quedaram,
sem nenhum nome,
na noite do firmamento.


toco-te no final de cada palavra que te não disse.
sopro, 
na tristeza da tinta que me escorre dos olhos, 
o vento que te leva nas asas das gaivotas,
de volta até ao mar cansado do inverno. 

26/01/2020

pArtIr

deito as mãos no rio enquanto partes.

se te olhasse agora, sabia reconhecer que nunca estiveste - verdadeiramente - aqui.
se te olhasse a sair, saberia como nunca tinhas chegado a chegar aqui.


mas a verdade é que te não olho.

olhar-te seria ter de me ver a mim e tudo o que permiti que acontecesse aqui
e isso seria como cravar a água inteira do rio - gelada - por dentro do meu sangue 


até eu desaparecer. 


por isso deito as mãos no rio na esperança vã que todo o meu corpo parta na maré do princípio da manhã
e que tudo o que me trouxeste ao lado errado de mim, desapareça nos primeiros raios de luz que trazem a possibilidade da salvação nas asas da sua verdade.

se te olhasse agora, seria eu inteiro como um rio porque me desfaria em lágrimas frias da maré do que houve no lugar do meu sentir de ti
até tu me condenares ao lugar mais solitário de todos - aquele em que nos enganamos e nos perdemos de nós na consciência fera de termos visto tudo sem querermos ver nada. 


deito as mãos ao rio enquanto me gela o sangue
e parto nas ondas da maré,
até começar em mim um novo dia.

18/01/2020



aguardo que entregues teus dedos na pele da minha alma.




esPerA

Espero a esperar sem saber que espero e espero a esperar o que espero.
Quero sem dizer que quero o que quero sem o querer.
Evito o inevitável sem saber como o evitar.
Grito sem ouvir a voz até que o silêncio seja tudo o que permanece por dentro do grito. 
Caminho sem me mover até que o caminho seja o tempo em que parar é tudo o que pode ser caminho. 


Espero a esperar o que quero evitar no grito silencioso do caminho que ainda não o é. 

14/01/2020

sou uma espécie de saltimbanco que se arrasta nas misérias do teu esquecimento.
meu mundo é o que fica por dentro de ti e que tu guardas tão longe, 
imensamente longe de mim. 
deixei o corpo à espera de chegares mas foi o vento que assola o inverno que me cobriu,
que me amou, 
que sussurrou meu nome na voz que padecia dentro da pele da minha inteira comiseração.
cantei à noite o meu fado triste até me desfazer em lágrimas e perder a voz pelo caminho. 
no fundo, pensei sempre que não ficarias tão perdidamente longe, 
que eu não teria lugar no teu esquecimento, 
que o caminho te traria de volta na primavera.
agora, a verdade é que salto de memória em memória até me esquecer qual era o caminho que te levaria de volta até aqui. 
e perco, na voz que era teu nome, 
toda a esperança de me reencontrar.

06/01/2020

Respiro a saudade do momento exacto em que ensandeci.
Recordo como tudo foi claro, 
como tudo em mim encontrou sentido, 
como todas as palavras se alinharam no poema, 
como todos os fragmentos de meu corpo se entregaram, sem medo, nas asas do mar.

Reflicto, agora, a pureza do lugar preciso em que perdi a memória do outrora.
Aquilo que fui, tudo o que havia no antes, 
remetido ao mais longínquo exílio,
ao mais profundo dos aniquilamentos,
o mais recôndito dos lugares que podem ser lugar. 

Respondo o silêncio que o mundo me entrega sobre as mãos, do mesmo modo que a paz responde aos ventos bélicos: 
a repetir meu nome,
até que a exaustão tome posse de vós e vos conceda um sofrimento semelhante ao que persiste em mim. 

Mergulho, enfim, na certeza da serenidade que repousa nas asas renascidas em meu corpo e seguro-me no lugar mais insano que reconheço
completamente,
como o único em que posso, 
verdadeiramente,
existir.  

03/01/2020

Caminho descalço sobre a pedra. A pele a arder sobre o frio da madrugada.
Caminho como se parar fosse a mais impensável de todas as possibilidades.
Pe ante pé, numa aresta feita de gelo fino que atravessa o lugar mais recôndito do interior da minha alma.
Caminho como se caminhar fosse o único prenúncio possível. Como se seguir fosse a última inevitabilidade. Como se continuar pudesse ser o meu derradeiro reduto.

Sinto no corpo a vertigem que vem com a inevitável certeza da queda sobre o abismo que se abriu por dentro de mim.
Há uma distância que o meu corpo sente como intransponível e minha razão aceita como a condenação perfeita da salvação adiada.
Caminho sem saber qual o destino que me aguarda do lado invisível das coisas que ficam por dizer.
Guardo cada memória pelo tempo absolutamente necessário, até conseguir libertar-me do medo.
Anseio reconhecer em mim os sinais do retorno da certeza que residia no lugar de mim.
Correm lágrimas pela minha pele a lembrar-me que o caminho é feito do que ficou na dor e no frio do ter podido ser.

Caminho descalço sobre meu próprio corpo feito em pedra.
Um aroma a jasmim na noite enovoada pela insónia.

Cheira a jasmim enquanto tudo arde por dentro da vertigem.

13/12/2019

se me pudesses tocar, 
neste preciso momento, 
só encontrarias vazio.
sabes que há um silêncio indelével que só vem com a noite?
a cidade reduz o seu pulsar e as aves adormecem sobre as árvores despidas do inverso do inverno a anunciar o fim de mais um dia. 
o tempo é como o vento rasteiro que se arrasta hoje pelas ruas enquanto o frio se eleva ao esplendor máximo da insanidade. 
tens o corpo a tremer e as mãos vazias. 
procuras o silêncio que te abraça enquanto a noite fica, 
e permanece, 
lenta e lânguida, 
até que venha de novo a manhã. 
sabes que há uma noite que não vai terminar antes do dia recomeçar no cenário bélico que acontece em ti de cada vez que silêncio se rasga...

02/12/2019

deZembrO

é a margem deste rio que me salva de mim quando me aproximo demasiado da aresta da minha culpa
toco a água com a certeza da pele a arrefecer no lugar que fica entre minha angústia e minha distância.
a chuva, hoje, permitiu-se dar tréguas no seu combate e o sol permitiu-se ficar
sem medo, 
neste dia de um dezembro que se anuncia lento e escarpado.
é na margem do rio que me salvo de mim mesmo quando toco no frio da minha insuficiência
da minha incapacidade
da minha eterna impossibilidade de ser lugar onde o sol pára para tocar. 

toco-me na água 
na verdade
para confirmar a minha condenação.  

28/11/2019

neVoa

deita-te a meu lado. vou dizer-te porque não importa se morro agora. 
deixa-te ficar um pouco. prometo que não me alongo na explicação de que tudo isto se resume a um lugar que tu não conheces. 
nada tem de mudar esta noite. nada tem de ficar diferente. 
é só ficares aqui um pouco mais e vou ser capaz de te mostrar, nas palavras e nos gestos, no fundo do meu olhar, porque é que não importa se partires amanhã quando o dia cair de debaixo da neblina do rio. 
por muito que te possa dizer tudo o que tenho para te dizer, não quero que chores. por favor não chores. não suporto ver-te sofrer. 
abraça-me na angústia das palavras que não me dizes e deixa-te repousar na estranha sensação que tenho quando te sinto a ficares sem ar por dentro da ausência que reside em ti. 

deita-te a meu lado. prometo que morro antes da manhã chegar. 

25/11/2019

I'll faut que tu peux comprendre ce je que je ne peux pas te dire avec des mots.
Ça c’est que je vais t’ aimer jusque a la fin, sans jamais te toucher.
Je sais que je t’aime en plus, pour cela. 
E je vais t‘aimer sans, jamais, avoir connue ton âme par dedans.
Et ça, ne pourra pas changer.

23/11/2019

trazes na ponta dos dedos os contornos do meu abismo. o desenho das minhas costas. as sombras do meu corpo. 
trazes nos contornos das mãos, a minha indelével obra.

quando olho para dentro do que há em ti, revejo-me nos passos que dás quando me deixas ficar só.
quando partes.
quando me abandonas.
mas é quando eu te abandono que reconheço os lugares certos de tudo. 

trago nos dedos o começo do teu deserto. o contorno da tua face. a luz da tua alma. 
trago nas mãos o tempo que tivemos junto ao mar e escrevo teu nome na areia. 
desenho-me no voo das asas de uma gaivota enquanto aguardo que o tempo chegue. 
de ficar.

ou de partir?

trago-te nas mãos de tinta que verto sobre a maré até desaparecer no voo das ondas. 

21/11/2019

saLida

desces as escadas. de pedra. as paredes, em torno, brancas. as escadas da cor de terra.
paras a meio do caminho. o peito a latejar. um som persistente por dentro a pedir que não pares. o corpo a consentir continuar.
o frio consome-te por dentro da pele. faz frio neste lugar. mas continuas. no sentido descendente. a aguardar que saibas o momento certo para sair por uma porta. 
intentas desafiar a intuição e cedes em cada patamar. anseias que algo te indique o caminho. 
portas fechadas. paredes fechadas. o corpo fechado. 
desces o frio do caminho. por dentro do que acontece em ti. em torno das paredes que te albergam. 
decides que não paras até encontrares o caminho. 

20/11/2019

é a náusea a começar por dentro. o peito a latejar. a boca seca. a dor...

toca-me. 
se puderes. 
toca-me.
se conseguires.
leva-me.
se tiveres força.

é a náusea a tomar posse de mim. por dentro. a apodrecer-me por dentro. a levar-me para dentro. a destruir-me.

conduz-me.
se souberes como.
salva-me.
se puderes.
sossega-me
se conseguires.

sinto por dentro o mundo inteiro a consumir-me. a apoderar-se de mim. a afogar-me. a escurecer-me mais. um pouco mais.

toca-me
se puderes.
salva-me
se conseguires
respira para dentro de mim
se souberes como. 

17/11/2019

PorTo

A incapacidade de dormir queda sobre a cidade como cacimba. As ruas humedecem com a dança da chuva e as pedras ficam mais escuras. 
As folhas nas árvores cinzentas projectam-se sobre o pavimento dos espaços por onde caminhas, como pétalas de flores esquecidas pelo tempo.
A cidade tem camélias por detrás dos muros antigos onde nascem e vivem memórias de outros passos. 
Há um aroma a saudade e a tempo. Tudo te sabe a vida e sentimento.
Atravessas as ruas despidas sobre o frio que vem com o fim de Novembro e não sabes, ao certo, para onde te diriges. Talvez norte. Talvez sul. Talvez apenas a possibilidade de ir seja tudo o que te basta neste preciso momento.

A cidade adormece, inteira, em teus braços, assim que a noite chega. 

14/11/2019

segura-me na ponta da língua. 
despe-me, até não ficar nada sobre a pele. 
ama-me como se amanhã não pudesse existir e não houvesse mais nada em que fosse possível crer.
toca-me como se o mundo inteiro parasse por dentro das tuas mãos. 
acolhe-me até eu ficar sossegado. 
abraça-me até ao fim da noite inteira. 
ama-me até não ficar nada por dizer. 
canta-me enquanto houver música por dentro de ti. 
vaza-me de tudo o que não importa, até a esperança ficar a dançar de frente para nós. 
guarda-me no silêncio sagrado que existe na tua voz até meu abismo não ser mais do que um grão de areia na praia que é teu corpo. 
cobre-me com o manto de água que é tua liberdade até eu ser mais do que chuva. 
ama-me enquanto eu me desfaço dos segredos e me separo do peso que insisto em carregar pelas estradas que me levam até ti. 
segura-me na boca. 
despe-me nas mãos. 
ama o que resta de mim enquanto eu posso. 
se eu soubesse, teria ido mais longe
se eu soubesse, teria chegado mais fundo
se eu soubesse, teria sido mais longe
se eu soubesse, teria sido mais fundo
se eu soubesse, teria tentado mais,
sido mais, 
querido mais, 
lutado mais. 
se eu tivesse sabido, 



teria sido tudo diferente. 

11/11/2019

CarCerEm

Tenta compreender...
se eu sair, vai ser insuportável voltar. Estou fechado há tanto tempo que quase esqueci a vida que havia lá fora, quando eu era livre. Compreendes?
Se eu sair, mas tiver de voltar, vai ser absolutamente insuportável.
Compreendes agora?

MarGe

o teu lugar não guarda espaço para o lugar de mim.
tuas mãos atravessam meus cabelos como se eu não existisse.
teu olhar evita o meu como se eu carregasse o inferno inteiro dentro do peito. 






respiro debaixo de água para segurar a ânsia de te abandonar no leito do rio. 

MaTer

Desapareces, aos fragmentos, de cada vez que o vento sopra de nortada. 
O vento invadiu a praia, teu corpo, tua essência. 
Também chove por dentro de ti. Sempre choveu. Uma tempestade incessante que nunca te deu tréguas. Que nunca te trouxe paz. 
Olhas, com o olhar vazo, o mundo que te consome. Tudo voa nas asas do vento. 
Hesitas no passo. 
Transportas o peso inteiro do mundo preso, agrilhoado em ti, imutável. 
Por mais que tenhas - antes da nortada chegar - tentado fugir deste lugar, não te foi possível. 
Não tem importância agora.
Vou tentar seguir-te neste caminho à sombra do vento que vem do norte, até chegar o momento certo de voarmos com o resto.  

04/11/2019

hiEr

deita-te sobre meu corpo. 
serei teu leito. 
adormece nas minhas costas. 
serei teu sonho.
respira na minha pele. 
serei teu ar.
navega-me na alma. 
serei teu leme.
despe-te nos meus olhos. 
serei teu corpo.
silencia-te. 
serei tua voz.
viaja sem medo de não regressar.
serei teu mapa.
vem.
serei tua confirmação. 




01/11/2019

esperei que os caminhos se encontrassem no final da viagem.
entendi que não importava o quão depressa se vai porque, na realidade, é a vontade de ir que conta.
tudo se move do lado de fora da noite. danças até esqueceres que existes. gritas até emudecer. desfazes-te no vidro até deixares de ser.

31/10/2019

KeeV

a dor escurece tudo o que está por dentro do mundo de ti. 
dilacera. 
devasta. 
comprime.
aniquila.
revela o momento em que se te abre nas mãos, se deita - áspera e gélida - sobre as mesmas, e te conduz numa dança 
insane
incessante
interminável.
leva-te sobre estilhaços de vidro que te dá a beber, que coloca sobre tua pele em gestos lânguidos, sobre os quais te arrasta nos pés descalços.
transporta-te até ao olhar vazio que se guarda na verdadeira desesperança. 
desafia-te. 
angustia-te. 
dilacera-te. 
abraça-te por dentro até que cesses de querer continuar a abrir os olhos. 
deixa-te a um passo do abismo e aí, nesse preciso momento, abandona-te. 
abres os olhos, recuas, regressas até ti para logo ela te segurar de novo, arrastando-te até ao lugar mais vazio de ti.
dança sobre o teu corpo. até que quedes. 
porque é que continuas a cair?
fala-te ao ouvido coisas que recusas escutar. já não recuperas as palavras - as tuas. ela silencia-te enquanto te dança na voz. deixa-te longe de ti.
sentes o corpo a abandonar-te e a entregar-se à dança ébria. e tudo escurece em ti. 
para não te perderes, para que ela não te leve a alma na dança incessante do corpo ébrio e delirante que desespera na insaciabilidade fera da crueza da sua essência, imaginas-te a caminhar nas areias de Masada.
resistes
persistes
insistes
até que deixe de haver vidros, até que deixe de haver dança, até que deixe de haver escuridão. 
até que suas mãos deixem o teu corpo e retomes a respirar.
até que teu corpo serene no teu próprio abraço.


até que ela regresse.

30/10/2019

fOliUm

Começo pelo fim e, no fim, vou dizer-te que não te direi mais nada. 


Vou esperar que o outono termine e, consigo, todas as folhas quedem. Vou acabar por me reduzir às cores que vêm com o céu do inverno e desfazer-me na terra.
No fim, vou dizer-te que já não há mais folhas no lugar que eras em mim e que tudo permanece despido, simplesmente a aguardar o regresso de ti. 


No caminho, digo-te tanto quando te digo sem te chegar a dizer quase nada. Temo que me leias nos intervalos do silêncio que se faz em nós quando chegamos perto dos limites que nos impomos. 
Todas as palavras que coloco nas folhas, guardam o significado que lhes entrego e o que tu lhes dás. Palavras escritas nas folhas que quedam sobre a terra molhada pelas chuvas que anunciam a necessidade imperiosa do recolhimento. Palavras escritas nas folhas que escurecem sob o sol que se despede dos dias que terminam antes de o queremos. Palavras escritas nas folhas que se transformam em si mesmas para poderem renascer. 


Digo-te quase nada para não te dizer tudo. 


Perco-te nas folhas quando me confundes na incerteza do que vês em mim e de que esperas de minhas mãos. Toco-te em segredo, em silêncio, e guardo tua mão sobre a minha face no lugar onde se guardam as coisas sagradas. 
Abro os olhos e reconheço que, na verdade, tu não estás no lugar onde eu quedei, onde os significados se deixam cair com as folhas. 


Encontro-te numa encruzilhada. Não tenho vontade para avançar porque o tempo me trouxe insegurança e meus passos são cada vez mais lentos. Olho-te nos olhos e ouço-te na voz com que cantas, toda a noite, e sei-te tão perto dos anjos, tão longe de um qualquer lugar de mim que possa chegar até aí. 
Talvez, na verdade, sejas apenas uma doce e mágica ilusão com que minhas palavras dançam. Talvez tudo o que acontece na poesia de ti que me toca por dentro , não seja mais do que folhas que quedam por dentro do outono que subsiste em mim, e se  possam reencontrar na possibilidade divina de recomeçar.


Vou dizer-te que não te direi mais nada até que as folhas de outono terminem de cair por dentro de mim.

kArMan

há uma linha invisivel que separa terra e ar, espaço e matéria.
uma linha que define o espaço invisivel que se coloca entre o ser e o ter sido.
a linha que só existe porque reconhecemos a necessidade de impor o limite. de ser o limite. de viver no limite.
se não houvesse uma linha a separar espirito e matéria, que seriamos nós?
que restaria de nós?
se eu não estivesse do lado da terra e tu do lado do ar, onde estaríamos nós agora?

20/10/2019

sMokE

Exalo o fumo de um cigarro.
Faz noite aqui dentro. Debaixo das cinzas. Por entre a chuva. 
Toco nas mãos da janela - fria - para me saber. Pés descalços na pedra branca. Corpo despido na tela vazia. 
Inalo o ar da noite inteira. 
Fecho os olhos por um momento breve. Fecho as mãos sobre os lábios. Remeto tudo ao lugar certo. 
Consigo tocar o que fica dentro da certeza do silêncio. Enquanto me reencontro. Enquanto me sonho. 
Respiro até que a noite se desfaça em fumo. 

vIagEm

"há viagens que muito gostaríamos de fazer e que, apesar de tantos planos, não acontecem"
há lugares que tanto precisávamos de saber e que, apesar da vontade, não chegam ao lugar certo
há certezas que se desvanecem na dúvida, quando o tempo se alonga na demora
há verdades que se cristalizam por dentro das rochas quando, sem querer, nos revemos numa qualquer ilusão 
há esperas que terminam precisamente no momento exacto em que se chega a um outro lugar 
há voos que se prolongam no ar até que os lugares se transformem e a luz que vem com o cair do sol conduza as andorinhas de volta a casa
há viagens que terminam sem sequer terem começado 
há, simplesmente, viagens que não podem acontecer. 

15/10/2019

atracas o barco na doca.
resgatas a intensidade do mar nos olhos fechados sobre a tarde que arrefece.
esperas que a noite comece para te deitares no chão de madeira. até sentires o corpo a ceder. até não ouvires mais do que o silêncio que guardas nas mãos fechadas.

                                                                       a lua sorri, hoje, para quem a souber olhar

13/10/2019

ruNNing oUt oF tiMe

o tempo é uma linha fina. ainda assim, não a conseguimos transpor. 
olhas para mim enquanto eu olho para o vazio e vês o que não vejo quando me fecho por dentro de ti. 
o tempo é uma lâmina fina. rasga-te na pele e na carne quando o tentas atravessar. ainda que andes para trás ou que tentes chegar antes, o tempo desce sobre teu peito a sua lâmina fria e tens de parar. 
olho para ti quando olhas para mim e é nos teus olhos que vejo o tempo a ceder. 
neste preciso momento em que a chuva (quase) queda sobre a tua angústia, sobre o meu silêncio, percebemos, sem ser preciso dizer uma única palavra, que ficámos sem tempo.  

09/10/2019

aTa

és janela por onde se vê um mundo que tantas vezes parece ter deixado de poder existir.
poeta caminhante na vida dos outros que se (quase) perdem.

mãos que seguram a terra e a tristeza como gotas de água e a transformam em barro
e o barro em vida
e a vida em recomeço.

és porta por onde se pode entrar e chegar ao lugar mais próximo de onde o sol se deita
de onde a luz  repousa
onde o abraço serena.

és voz que entoa nas angústias e as dissolve em jasmim.
água que transforma o deserto em possibilidade.
tempo que se transforma em vida.

és eternidade em obra feita,
palavra que resgata marinheiros da beira das escarpas, 
navio que transporta passos, quedas, risos, ilusões, o cansaço ou a efemeridade, e devolve tudo na certeza da possibilidade do milagre.

és anjo que caminha a arder por dentro do homem, 
sem cessar,
até que te encontres na janela por onde se vê todo o mundo que és. 


07/10/2019

siLênciO

pego nas tuas palavras e coloco-as sobre os meus lábios fechados.