24/06/2010

estória VI

Alisa. Envelheceste, foram os anos que passaram, a correr caminhos acima e abaixo da tua altura. A lua subiu e desceu tantas vezes banhadas pelo sol e tantas outras se escondeu, aninhada, pela terra. Sabes que está próximo. Que é hoje, que é sempre hoje e não amanhã, e nem poderia ter sido ontem. Olhas-me ainda, vives-me ainda, para seres depois de mim. Acalentas o limite do teu corpo como um enamorado apaixonado no desejo de desejar, e sabes no gesto da carícia a fronteira. Alisa. Foi o tempo que se escorreu ao longo do teu corpo, moldando a erosão das lisas arestas das curvas desenhadas. Arrastas os teus pés no peso de os mover. Peso. Seguras-te a pretexto em cada toque dado em cada recanto. Pretexto. E o ar puro no fôlego que te insufla os pulmões. Fôlego. E são tão pequenas e tão longínquas as tuas sete vezes, os teus punhos, o meu sangue, a tua violência, o meu silêncio, a tua e a minha de tudo e de nada. Alisa. Envelheci. Fui sendo nos momentos e nas situações; fui colhendo sentidos e significados; fui guardando memórias e aspirações; fui aninhando amores odiados e desamando afectos; fui-me deixando aqui e além. Envelheci, vivi-me: quando chegar a hora estará tudo saldado e não haverá nada para morrer, a não ser a morte. Alisa. Falas tão poucas vezes comigo – dizes-me, silenciosamente – e esse teu comportamento infernal, agressivo é a presença que sempre foi a falta em mim. Esqueço. Hoje esqueço-me regularmente de esquecer, e tudo o que lembro vive na penumbra de um véu diáfano, que de tão presente chega a ser mais do que ser, aparência. Envelheceste.

23/06/2010

Jack

my first jack.
não te sei dizer mais do que continuo com um sorriso estúpido na cara.
e isso é mais do que suficiente para ti.
thanks littlesunshine**

22/06/2010

sem título

Poucas vezes te li, demoradamente, na página infinita, como dizias. Fui-me demorando, debruçado sobre os chinchos abertos de uma vindima que ia vazando com a maré. Mirei-te na distância da tua inquieta questão, hirta e dourada pelo sol de Agosto, de saber se no fundo do mar há o longe ou apenas o mar e o seu fundo. Admiro-te pela verticalidade caminhante, sempre alinhada com a consciência de ser, de ouvidos tanto moucos como atentos às golfadas mirradas da bílis dos adiados cadáveres. Não faço reverência. Não me ajoelho. Aceno-te no sinal que me dás com a lucerna que ofusca a escuridão da ignorância. E ainda me demorarei mais um pouco, junto às vindimas, aos chinchos abertos a jorrarem a seiva da vida.

21/06/2010

Abandono


Podia acontecer não conseguires chegar aqui.
Pode suceder-se que nada chegue a chegar aqui.
Enquanto esperava na margem do rio vi como a noite caiu sobre o mar. Eu não estava lá mas vi tudo. A maré a mover-se como só os gestos de sedução se podem mover. Eu ali a não ver porque não estava lá. Mas sabia tudo.
Pude imaginar o meu corpo deitado sobre o frio da maré da manhã. A flutuar na vertigem da ressaca que vem com a certeza do abandono.
Fui abandonado aqui. Todos os barcos partiram. Todos os portos fechados por causa das marés. Fiquei só. E é assim que (me) encontro (n)o mundo.
Sozinho. Olho de frente para quem se arrasta de costas para mim e sigo os gestos todos cinzentos pelas ruas fora.
Podia ter acontecido que eu não me tivesse apercebido de rigorosamente nada e agora estava a sorrir a olhar a água. Mas não foi assim que aconteceu. And I will blame myself for stepping inside this fucking hole. I will always blame myself .
Se tivesse conseguido, tinha-me encostado de frente a uma parede qualquer e esperava que chegasses e me devastasses com os dedos. Com a língua. Com a boca inteira. Mas nem sequer me lembro do teu nome. Nem consigo recordar a que sabe o teu odor.
Tudo podia ter sido de maneira diferente se eu tivesse estado no sítio certo. Agora não estava aqui. Não estaria aqui. Tudo teria sido bem mais simples e provavelmente ainda me lembraria de ti.
Todos os barcos partiram. Estou despido de frente a esta parede, cinzenta, e as tuas mãos não chegam. Acontece que tu não conseguiste chegar aqui. Acontece que nada chegou a chegar aqui, ao sítio onde eu sabia que já não estava mas onde ainda me encontro absolutamente só.
Podia ter acontecido tudo de outra maneira. Mas não fui capaz de mais.

20/06/2010

Day Old Hate - City and Colour

So let's face it this was never what you wanted
And I know its fun to pretend
Now blank stares and empty threats
Are all I have, they're all I have.

So drown me and if you can
Or we could just have conversation.
And I fall, I fall, I fall down
But I found you, before I drift away

Now you still speak of day old hate
Though your whole world has gone up into flames
And isn't it great to find that you're really worth nothing
And how safe it is to feel safe.

So drown me and if you can
Or we could just have conversation.
And I fall, I fall, I fall down
But I found you, before I drift away

The things we do just to stay alive
The things we do just to stay alive
The things we do just to stay alive
The things we do just to keep ourselves alive

The Death of Me - EP - 2004

18/06/2010

milimetrico (05/2007)


Pensa. Quando a dor for quase a rasgar. Aperta. Quando o tempo estiver a chegar. Cessa. Quando a lua aparecer. Cobre. Quando os restos não importarem. Grita. Quando os mortos te tocarem. Sorri. Quando a chuva não parar de cair. Dança. Quando o sangue parar de escorrer. Guarda. Quando os riscos forem desenho. Esculpe. Quando todos os pássaros levantarem voo. Pousa. Quando o vento levar tudo. Continua. Quando as palavras faltarem. Escreve. Quando tudo deixar de ser suficiente. Procura. Quando nada chegar a ti. Escava. Quando te perderes. Sente. Quando encontrares. Esquece. Quando começares a sentir. Sossega. Quando tudo acalmar. Naufraga. Quando as marés descerem. Navega. Quando os barcos partirem do porto. Mergulha. Quando chegares à ilha. Submerge. Quando te sentires chegar a terra. Voa. Quando tiveres de partir. Espera. Enquanto puderes esperar. Prepara. Quando puderes ficar. Segue. Quando tiveres de chorar. Adia. Quando não conseguires esperar mais. Agarra. Quando fizer falta. Segura. Quando voltar a fazer falta. Chama. Quando faltar um milimetro para caires. Chora.

16/06/2010

"can you please just say


hello?"






das melhores cenas do "I am Legend". há minutos, na tv.

15/06/2010

15/06

são agora 9 os anos que te levaram ao principio da queda. ao começo do fim.
e 9 são os anos que não passam. foi tudo ontem. foi como se fosse, como se tivesse sido, tudo hoje. agora. vai ser sempre assim por todos os anos que faltam para mim.







sometimes I wish I could have also been there.

14/06/2010

mistake

show me again where it hurts














I didn't get it right the first time

13/06/2010

refúgio de domingo



24 City


"Chengdu, China. Uma fábrica estatal de produção de motores de aviões, fecha e demite todos os seus 420 empregados para que seja construído no local o "24 City", um condomínio de apartamentos de luxo. A partir daqui o realizador revisita o passado através três gerações de trabalhadores daquela fábrica e, através das histórias de oito pessoas, conta os últimos 50 anos da História da China.Misturando muitas imagens de arquivo e entrevistas com representação, Jia Zhang-ke ("Plataforma", "Prazeres Desconhecidos", "O Mundo", "Still Life - Natureza Morta") cria um "documentário ficcionado" sobre a(s) história(s) do seu país."



confesso que fechei os olhinhos durante uns minutos...
talvez vários minutos.
mas o essencial ficou.
tive de mudar de lugar 2 vezes porque as pessoas me estavam a incomodar. quem diria?!
sindrome pós-santos??!!
não recomendo ver...a não ser que não haja mais nada para ver...

12/06/2010

away


this could be me never coming
back.
As palavras podem ser o lugar certo para se poder morrer.
Hoje.

passado


Não te encontrei onde esperava encontrar-te.
Não viste nada do que esperava que tivesses visto.
Estavas exactamente no mesmo lugar onde te deixei ficar e não onde queria que estivesses.
Olhaste para mim sem me veres e não respiraste. Não o suficiente.
Não encontraste reduto possível. Olhaste a porta e saíste. Como da primeira vez. Como se nada pudesse mudar. Como se fosse a única coisa que sabes fazer.
E eu fiquei a olhar-te partir de costas voltadas para a tua ausência e a saber que não me encontro no lugar onde esperava já ter chegado.

10/06/2010

cheiro a chuva

Cheira a chuva.
Das portadas brancas abertas sobre a sala cheia de fumo, cheira a chuva.
A terra molhada a dar o sinal e a levantar a possibilidade de se sentir a liberdade de ser qualquer coisa mais do que o resto que não interessa já continuar a ser. Chuva.
A sala cheia de sombras. De cigarros acesos a desafiar a lei da gravidade e a subir ao tecto que parecia não terminar. Meia-luz. Meia voz. Gente a olhar de frente um qualquer fado escrito nas teclas de um piano ao fundo. Ao fundo o piano que, também ele, cheira a chuva quando encontra uns quaisquer dedos furtivos a desafiar o silêncio com a alma inteira. Uma voz a encher a sala enquanto as sombras todas tentam silenciar as coisas todas que se não podem dizer quando se olha de frente para o que é belo. Tão simplesmente belo.
Cheira a chuva.
Cheirou a chuva toda a noite. E a chuva foi o que se entranhou na pele. Foi o que se entranhou na alma.
E hoje ainda cheira a chuva. E à noite ainda vai cheirar a chuva.
E isso é tudo o que importa quando se olha pelas portadas brancas abertas sobre todas as salas.

07/06/2010

des.er.to.

Era de tarde, bem ao fim da tarde, quando chegaste.
O caminho vinha de um céu vermelho que mais ninguém conseguia ver.
Teu corpo a mover-se, lentamente, no cair do dia sobre o deserto quente.
Teu vulto a escudar-se de outros antes de embater contra as rochas. Tua sombra a segredar-te esconderijos onde ninguém mais que não conheça a necessidade da fuga pode, vez alguma, saber chegar.
Sombras, sombras, a rodearem-te a pele e os contornos do rosto e a certeza dos gestos certos por desfazer.
Mais uns minutos e já não chegavas a tempo. As ruas começaram a fechar-se sobre si mesmas e a vida a parar no tempo que não chegou.
Passos de dança lançados no vento de olhos fechados como se não houvesse, já, mais nada para ver.
Um deserto inteiro aberto sobre as ruas. Sobre a noite. Sobre o tempo.
Um deserto inteiro aberto em ti onde a areia não se move de encontro ao resto. A areia parada de frente para o tempo.

Era já bem tarde quando chegaste na dança que vem com o vento. De olhos fechados. De mãos abertas. De frente para noite vazia.
As ruas inteiras fechadas sobre o que não chega nunca. As ruas fechadas na certeza de não terem lugar para onde ir.
Talvez, na verdade, não haja nem segredos nem promessas guardados nas esquinas. Nas calçadas. Na sujidade do chão.
Talvez, de verdade, não estejam milagres a aguardar a sua vez nas chuvas cinzentas.
Talvez, em definitivo, não fiquem marcas na areia dos passos que se ousam ensaiar de frente para o calor. Talvez a areia não chegue a ser mais do que essas sombras paradas sobre os pés, sobre olhos, sobre os restos do que resta.
Mas no cair da tarde, de olhos fechados a dançar sob o vento, pode haver lugar a um céu vermelho que ninguém vê.
Se voltares a chegar tarde, não pares de encontro às sombras mas de frente para o tempo. E o deserto aberto em si mesmo vai encontrar um limite que não tem limite nas ruas que sempre tiveram lugares diferentes para onde ir.

02/06/2010


rio


Havia um rio à volta destas casas. Era um rio largo. Era um rio cheio.
Desde que as chuvas pararam a água, aqui, nunca mais correu. Tentei fechar os olhos e ver o que faltava mas não encontrava o lugar certo das coisas. Já não encontrava o lugar.
Havia um rio à minha volta. É um rio agora seco. É um rio sem corrente.
Desde que eu parei que a água não corre. E agora eu sou o deserto, aqui, aberto à volta destas casas. Desta terra. E já não há lugar ao lugar que era certo das coisas.

31/05/2010

tu

Foste tu. Sempre. Tu. Em todos os momentos. Tu. Eu a respirar. Tu. Eu a crescer. Em ti.
Eu a ser quem sou por intermédio de ti.
Foste sempre tu.
Em todos os dias. Em todas as noites.
Sempre.
E serás. Tu. Até não haver mais eu.

ruido

Foi um grito.
Um grito dentro da minha surdez.
Um grito fora do meu espaço de silêncio.
Um acto de violência. Uma condenação.

Um grito e eu perdi o que me restava da esperança.
E compreendo agora, neste preciso momento em que o silêncio é tudo o que pode acontecer em todo este ruído, que não posso, nunca mais, esperar por nada.
E isso não pode ter qualquer importância.

condenação

Perdi-te como se perde a vida.

E nunca mais, nenhum de nós, vai poder voltar.

15/05/2010

turquia - V
















dante

O inferno é isto que me escorre na pele hoje. Nada mais do que isto.
Não há inevitabilidade maior que o regresso depois da partida. Não há inevitabilidade mais cruel.
O mundo insiste em dilacerar o que resta da minha pele e das minhas sombras. Se não estivesse prestes a morrer do cansaço, morreria da queda imensa aberta em mim.
Não posso dizer nem mais uma palavra hoje. Estou dentro de uma chama dantesca. E daqui não parece ser possível partir.

request

Se me pudesses olhar neste preciso momento em que o sol se põe poderias ver de que cor é a minha alma. Poderias saber a que sabe a minha solidão. Se chegasses aqui agora, no preciso momento em que o dia se despe e a noite me serena o corpo verias o meu sexo derramado sobre a areia. A ferir-se dentro da areia. E não serias capaz de me pedir rigorosamente mais nada.

solitudine

há um momento, longamente breve, na vida que permite reconhecer uma absoluta solidão perante o resto do mundo.
e esse momento é o mais cruel e mais solitário de todos os momentos.

13/05/2010

"wherever a pain is, the remedy goes there; wherever a lowland is, the water runs there."

final do verso 1935 da Mathnawi de Mawlana Jalal Al-Din Rumi

terra

talvez se te tivesse visto noutro lugar
talvez se me tivesses visto noutro olhar
talvez tivesse sabido continuar.
hoje olho para esta terra estranha que me cobre os pés e a boca e não encontro mais do que esta incomensurável falta de tudo o que não soube ser.

Turquia - IV
















Turquia - III
















Turquia II











turquia







12/05/2010

29/04/2010

estória V

Senti-me pequena enquanto me sabia morrer no teu abraço. Percebi que já não fazias força. Já não tinhas a ira na ponta dos dedos nem no sangue dos olhos. Não te olhei de frente. Não te podia olhar de frente, ficarias a ganhar. Senti que o meu corpo cedia à fraqueza. Teria comido hoje? Que dia é hoje, realmente? Não me recordo de ter vivido mais do que isto tudo que vivi agora. Até ter entrado nesta sala imunda. Ou terei eu vivido rigorosamente nada e agora isto seja apenas o começo do que já tinha terminado tanto tempo antes? Senti-me confusa. Larguei-me dos teus braços e fechei os olhos antes de saber que ias pedir que olhasse para ti. “Olha para mim”, disseste. Comecei a sangrar. Olho para ti com a coragem inteira de quem não tem o que esperar e foi a ela que vi. Alisa nos teus olhos. Tua face não estava lá. Estava lá sem realmente lá estar. Ela. Apenas ela. Como me poderia algum dia encontrar em ti se não és tu quem eu vejo em ti? Estou a sangrar. Nas pernas. Entre as pernas. Na boca. Entre os dentes. Estou a sangrar. Teu punho já não estava cerrado mas encontrou-me na boca enquanto repeti o nome dela vezes sem conta. Uma vez, Alisa. Duas vezes, Alisa. Três vezes, Alisa. Quatro vezes o teu punho na minha boca. Reconheci os teus pés. Cinco vezes, Alisa. E o chão sujo e molhado da minha chuva, do meu vazio, do meu sangue. Ouvi alguém dizer para parares. E eu a dizer que não eras tu, não fazia mal porque não eras tu. Seis vezes, Alisa. No baixo-ventre senti a mesma dor de antes. A mesma dor que só uma mãe sabe sentir inteira. Nunca tive medo. Depois de ti, não há lugar ao medo. Sete vezes. Alisa.

10/04/2010

estória IV

É tão duro e tão frio o som deste silêncio ao longo da sala e mesmo assim olho para ti como não suportas ser vista. E agora, que fazemos?, perguntei-te, numa pergunta tão inútil quanto necessária: continuei sentado, com uma mão em cima do balcão e outra de punho cerrado, olhando-te fixamente, lendo-te mais do que queiras, mais do que pensavas possível. Quero esquecer tudo, já esqueci tudo, nada aconteceu quando aconteceu nada!, respondeste tu numa voz carregada, com um olhar fixo e uma lágrima regando a tua face. E quando aconteceu nada foi a dor e o abismo, foi a carne rasgada e a foz solta em grito, foi o inacreditável possível, foi viver o fim e permanecer para ser depois do fim: nossa filha Alisa (אליסה) ensanguentada e morta, jazendo entre o silêncio que nos acalenta e que faz eco no ventre com cheiro a sexo e a giesta. Já não suportas a maneira como olho para ti mas quando olho para ti, vejo na tua presença a ausência que é jamais, que é estar depois do fim. Abraça-me, disseste-me. E o vazio expandiu-se ainda mais, foi mais fundo e mais além – foi sem tudo, para ser sem – : foi nada. Só te tenho a ti agora, disse-lhe, como se diz aquelas frases quando não se tem nada a dizer e tudo o que pudesse ser dito seria apenas um dizer de merda. Olhaste para mim e disseste: «Tu e eu a viver o fim e a ser depois do fim (אני חי אתה), a ser sacrifício e a ausência de redenção: viveste-me».

21/03/2010

estória III

III.

Já não suporto a maneira como olhas para mim. A julgar ver-me. A julgares saber-me. Sabes que fui e voltei sem ter voltado. Sei que as tuas mãos caídas neste balcão querem procurar as minhas mas eu não quero. Olhas-me como se eu estivesse chegado de dentro da chuva. Teu olhar parado no lugar que os meus pés ocupam neste chão imundo onde tantas vezes te vi cair. Se os meus dedos chegassem à tua pele como antes desta manhã ter começado…mas já não tens pele que eu saiba tocar. Sinto-me irritada. Desfazada. Fora de tempo. Enquanto entrava nesta sala já te sentia o cheiro e já te queria não encontrar apesar de ter a certeza – porque há coisas que se sabem por dentro sem se saber nunca como se sabem antes de se saberem realmente – que estarias mesmo ao balcão como a que não esperar que eu chegasse. É como se nos tivéssemos sempre encontrado no mesmo lugar…apenas a dois mundos de distância. Olhas para mim de forma verdadeiramente insuportável. Há anos que te digo isto e tu não consegues nunca. Às vezes preferia que cegasses. Sim, que cegasses para deixares de olhar para mim. Assim. Desta maneira sempre igual. Vejo-te sem te olhar de frente e encontro tudo o que resta da tua solidão. O lugar onde eu não cheguei a estar durante todos estes anos. Se te olhasse nos olhos veria tudo o que precisas de me perguntar. Apesar de saberes que te não responderia a nenhuma pergunta – ainda que gostasse que, pelo menos, voltasses a ter coragem de tentar – sei que te dilacera a necessidade de saberes. Disse-te que ia ao Alentejo. Que vou sempre lá. Sei que sabes que eu não tenho ninguém enquanto te disse que tenho uma família por ali, numa qualquer terra do sul, entre a seca e a sombra. Na verdade, se te olhasse agora, diria que te digo tudo o que espero conseguir acreditar. Mas fico em silêncio. Agora só as tuas mãos e as minhas neste balcão.

10/03/2010

estória I (cont.)

E o balcão encontrou todo o tacto das minhas mãos como se fosse uma memória vívida que assola quando menos se espera e não sabemos de onde vem e se nos pertence ou se somente sobrevém simplesmente por ela ter entrado na sala – trazias o cheiro a cidade; à hora de ponta e à transpiração do metro; a tua cara escorria outras caras cansadas, gastas, sofridas, sorridentes, crentes, imaginadas, suicidas, indecisas, sonhadoras, perdidas ou simplesmente empalidecidas; os teus braços tombados ao longo da tua fisionomia direita até à ponta dos teus dedos (só hoje te vi tão alta, tão mais alta do que eu; talvez porque somente hoje te vi); os teus pés molhados, sim, da chuva, seria da chuva?, soltavam gotículas incertas e indefinidas pela sala. Não te senti sair hoje de manhã, pensei, mas hoje de manhã é já tão longe, tão distante de nós, tal como a distância que vai de mim, do balcão, até ti, aí, na sala: estás aí, não estás? Ou imagino que estás? Sim, estás, estás enquanto aqui estou: não te decides em ir embora, regressas sempre e eu não me decido ficar, estou sempre de partida. Tens os pés molhados e o seco desaparece pouco a pouco, seria da chuva?, os teus pés molhados e as tuas idas ao Alentejo. Dizias que tinhas lá família. Vim a descobrir anos mais tarde que és órfã; os teus pés molhados e a sala a contar com a tua presença. Coloco as mãos no balcão e a solidão por cima do balcão sujo. (cont.)

situação

Presenciei uma discussão sobre Deus e o Diabo, e fiquei calado; calado como se a minha voz fosse uma arco de silêncio em toda a sua extensão; que poderia eu dizer? que deveria eu calar? fiquei assim, vendo de um lado gente e do outro gente, gente de humanidade e humanidade na gente, vendo a raiz a ser decepada em nome de um tal Deus diabólico e de um Diabo deificado. Esta não é decididamente a minha luta - nem de perto, nem de longe - , o chão onde me movo, o som que faz sinfonia na minha existência: quero mais além de Deus e do Diabo, e mais além é nem um nem outro - quando dei por mim estava sentado na ribeira da Fonte, junto às açucenas em flor, às bananilhas de cheiro inconfundível e o meu olhar perdia-se nas águas límpidas e cristalinas que escorriam na Granja, e o meu pensamento parecia um pousio, uma Terra do Centeio em inverno continuado; presentei uma discussão sobre Deus e o Diabo, e só me apetecia estar sentado de pés descalços dentro da água da ribeira, vendo-a levar o que restou em excesso carente de mim.

02/03/2010

estória

I
Entrou na sala como se nada o esperasse.
Virou o casaco do avesso enquanto o despia. Sempre a olhar para os pés. Para o chão.
Meia-luz. Velas espalhadas faziam o espaço parecer mais pequeno enquanto iludia no tamanho. Era pequeno demais.
Não se recorda se havia música. Talvez. Mas não ouviu. Pelo menos não no início. Pelo menos não até ela entrar ali.
Pediu qualquer coisa que o fizesse esquecer que lá fora não estava mais do que o mesmo frio que sempre o tinha perseguido desde que aqui chegou. Ali chegou. Não. Desde que aqui chegou. A esta cidade. De noite. Sim, porque chegamos sempre com a noite e partimos sempre no dia.
Nada o esperava, na verdade. Ninguém se virou para o olhar quando as mãos troçavam dos gestos que o casaco não podia fazer sozinho, quando os dedos não conseguiam segurar o copo, quando as luzes já não viam o resto dos olhos.
Nada o esperava nem ali nem em nenhuma outra parte. Pelo menos não nesta noite. Ou nas noites anteriores, a bem dizer. Há muito tempo que se encontrava só mas toda a sua necessidade de fuga o iludia num tom onírico fazendo-o crer que não era real. Que não estava verdadeiramente só senão nos momentos em que se sentia irremediavelmente só.
Não se recorda de nada até ao momento em que ela entrou na sala. Não se recorda de nada que tenha sucedido nos minutos seguintes em que o corpo que parecia pertencer à sombra que as luzes obrigavam a aparecer se aproximou, numa lentidão devassa e a cheirar a desistida, e colocou as mãos e a solidão por cima do balcão sujo.
a continuar se a imaginação assim o permitir...

21/02/2010

tacto

o tempo escorreu-me dos dedos hoje.
não segurei nem uma parte.
deixei tudo cair como se a gravidade fosse a lei mais forte a reger o este espaço.
depois do fumo que me cobriu a vontade hoje não encontrei a porta daqui. tacteie com todo o cuidado, gentilmente, todas as partes das paredes em torno do meu corpo e não encontrei a porta.remeti a minha necessidade de fuga ao saber dos condenados e permiti que o resto do tempo me atravessasse as mãos. assim. como se nada fosse.

15/02/2010

diurno

Talvez hoje seja dia de não ser dia como se os dias que não devem ser dias pudessem deixar de o ser apenas porque não os queremos a ser. Mas não. Não podem deixar de ser o que são apenas porque em nós não cabe a sua condição de ser assim.
Sonhas que os dias que não devem ser dias não sejam mais do que noites porque nas noites resta o que os dias não querem o que as palavras não dizem o que os estranhos não vêem. Estes dias são para ti a verdadeira prova de que o inferno é o que te ferve no sangue e te queima na pele. Estes dias servem para te avisar que o lugar que vem a seguir é o que sempre imploraste que não chegasse nunca. O que a areia do deserto deveria ter coberto e que não chegou a ser suficiente. O inferno dos dias é o que te corre na alma. E por isso já nenhuma noite pode silenciar as dores dos dias que não chegaram, nunca, a ser dias.

14/02/2010

músicanoite

A música não é suficiente.
Do outro lado da rua violência nos gestos e nas palavras colocam duas naturezas humanas em conflito.
A música não é suficiente para abafar o som.
A rua fria no frio da noite e depois um café de porta aberta. De paredes sujas. De sons desfeitos na antiguidade do chão e das rugas de quem lá passa.
A música não chega para fazer esquecer.
Depois o outro lugar. O lugar que a noite esperava encontrar longe do vazio, fora do abismo. Tu encostado ao balcão a olhar-me sem saberes porquê. A querer-me sem perceberes porquê. A seres incapaz sem quereres saber porquê. Eu na espera incapaz de quem nada espera mais. A olhar-te nos olhos que viam sem me ver e percebi tudo quando tive de te deixar vazia. É que nem a música é suficiente para nos fazer compreender que já desaparecemos há demasiado tempo para nos podermos ver nos olhos.

12/02/2010

delirio

fico em silêncio agora que não estás.
fujo da minha sombra contornando os obstáculos que criei na tua ausência.
lambo os dedos e limpo na roupa o que resta quando sais.
depois, fico a olhar o mar no desejo de que as ondas aqui cheguem e me levem de encontro às rochas.
e nada ouço.
nada digo.
fico em silêncio como se o mar não estivesse dentro de mim.

11/02/2010

vidro

Olhei através do vidro e não pude ver nada. O vidro não estava lá. No lugar apenas fragmentos. Apenas partes de um todo desfeito no ar.
Quando olhei para a imagem que não via compreendi tudo.
Não estava nada ali.
Não estava ninguém mais ali. E por isso não podia ver.

Foi quando olhei para trás que senti a chuva cair. Apenas nesse momento percebi que chovia desde ontem, incessantemente. Só aí. Quando mais nada restava.
Verifiquei a pele das mãos. O lugar da boca. Os fios do cabelo. Fechei os olhos. Vezes sem conta fechei os olhos de olhos fechados e desequilibrei-me. Passo após passo e eu a perder o equilíbrio. Como se não houvesse chão ou como se ele fosse de lama de pedras de socalcos de montanhas.

Não ficou nada para me lembrar do caminho.
Meu campo de visão absolutamente vazio e isso teria de ser o suficiente para saber voltar.
E foi na insegurança do desequilíbrio que retomei a marcha. Pelos fios de cabelo. Pela pele da pele. De olhos fechados sobre os olhos fechados.
A saber que não estava mais ninguém ali e que eu já não podia, nunca mais, regressar.