quando
o medo
se instala
dentro
da
pele
desce
devagar
até
às
veias
e
mergulha
no sangue
reveste
os músculos
entranha-se
nos
ossos
e
segreda
baixinho
o lugar
onde
começa
o fim.
Tenho a tristeza presa nos cabelos molhados. Levo as pontas ao sabor da boca e não é mar nem sol nem liberdade nem certeza o sabor em que a tristeza arde.
Afogo a voz dentro das palavas dentro da tinta dentro das páginas dentro da gaveta. O silêncio segura as pontas das correntes e dos grilhões e as palavras passam a saber a ferrugem e a cinzas dentro da pele.
Cerro os punhos encarcero os dedos dentro das mãos coloco as mãos dentro do vazio dos bolsos.
Revisito a localização dos objectos das memória dos desejos da vontades dos por vir. Reavalio os pontos de fuga abro janelas fecho portas abro portas fecho janelas cavo buracos coloco arame farpado abro as cancelas encerro os fossos cubro as arestas estilhaço os vidros e descalço a pele.
Afino a estratégia. Abro as portas e as janelas ao vento e deixo que o ar reclame o lugar de tudo o que não possa levar. Abandono o que resta no calor devastador da promessa e escolho a banalidade do mal que reside nos meus cabelos.
Viro-me para trás encerro tudo fico apenas eu dentro do lugar de dentro e peço que finalmente o resto me abandone enquanto peço que se ardam os cabelos no segredo violento que guarda o calor desta noite.
quero arrancar os olhos de dentro das lágrimas e escavar um buraco tão fundo quanto as minhas unhas aguentem escavar o ferro fundido de que se revestem as paredes da minha miséria.
quero arrancar as lágrimas de dentro dos olhos até escavar por mim adentro até encontrar o fundo em que lágrimas e sangue me encontrem o sufocar.
Por vezes,
a pele da tua voz
é tecida com as linhas desfasadas dos fragmentos dos gritos e das preces que te ocupam os dedos,
dos segredos e dos silêncios que te prendem as asas,
das palavras e dos beijos velados que te restringem a essência,
da pedra talhada de mãos abertas sob o olhar da água e do abismo da escarpa.
Por vezes,
a tua voz,
tem o sabor do cansaço da tristeza.
arranca a pele que tenho presa nas mãos nos braços na cruz do peito arranca com força sem hesitar agora sim agora não pares não podes parar agora arranca tudo com as unhas os dentes os dedos cerrados dentro dos punhos violentamente arranca a minha pele de mim até se ver a carne até sentires o sangue até imaginares a dor e não pares nem por um segundo continua continua até ao ventre rasga meu ventre abre o meu corpo a meio e tira tudo o que sobra lá dentro leva desfaz agora sem hesitar peço-te que tenhas coragem na violência que te desfaz para me desfazer a mim agora arranca a pele toda da minha alma.
pensei que podia tirar a roupa dos pés e dançar descalço nas entrelinhas das frases nunca proferidas. queria pegar nas palavras com a linha da tinta e percorrer os traços invisíveis dos papéis apodrecidos nas ruínas da casa que caiu no mar. pensei que podia tirar as palavras da boca e cola-las nos tectos das mãos até te vestir de certezas e de âncoras. fechei os olhos e sonhei o sonho que não é mais do que os contratempos dos tempos em fila de espera para se tornarem música. sonhei-te e não estavas lá. caminhei descalço por dentro da minha boca e foi areia e conchas o que encontrei e mastiguei no sangue das gengivas feridas de letras sem ordem, sem palavras. o que são letras que não podem tornar-se palavras? o que serei eu se não estás no sonho que sonho de ti?
Está escura, esta noite.
O dia passou o tempo a entoar uma melodia agónica que me desfez por dentro. Desconheço a razão, o motivo que me levou a perder a batalha.
Às vezes (ou sempre) é preciso ter vontade e por vezes (nem sempre) o é possível.
Caminho, desatenta das ruas vazias da cidade. Ouço apenas o que me diz a noite. Parece que sussurra um poema triste, feito de histórias inacabadas, monstros alados, sarilhos serenos, tempestades imperfeitas, desesperança...sobretudo, desesperança.
Debaixo dos meus passos, morrem uma segunda morte as flores caídas dos jacarandás. Tudo tem um começo e, por isso, inevitavelmente terá fim. As flores de jacarandá cessam duas vezes...morrem de tempo e morrem de mim.
Em cada passo, ouso querer adiar uma queda mas o que faço é mentir por dentro e devagar, uma flor de cada vez, construir a ilusão de que há uma razão.
Há tantas razões como há flores caídas por dentro da noite.
Está escuro.
há raios que trazem relâmpagos e razões
para arrasar a noite
há um prenúncio de uma chuva que não vem mas traz
as costas da aridez distante
há gritos e ventos que fustigam a pele dos ousados e arregaçam a pele
até se ver osso
há raios que trazem trovões na voz e gritam nos ouvidos dos pecadores
uma penitência surda
Sento-me, a meu lado. Fico a olhar-me e tenho dúvidas sobre se este corpo será verdadeiramente o meu. Já não sei bem reconhecer se é este o meu contorno, se esta palidez é de minha pele ou de meu devaneio, se este corpo é do meu fogo ou do meu abismo, se estes gestos são imutáveis ou ensandecidos. Já não guardo muitas certezas. Sei apenas, neste momento de agora, que enquanto estou lado a lado comigo mesmo, respiro labaredas, rasgo o estômago com os dentes, engulo palavras em brasa, cravo as garras corcomidas na pele desalentada, conto os gritos inaudíveis que me implodem por dentro...um, dois, cento e trinta e nove, mil...
Deixo-me permanecer sentado. Olho em frente. Viro-me de costas. Dispo as roupas e vejo que tenho a pele a arder. Afinal as palavras começam a sair do silêncio dos gritos e as brasas incendeiam o caminho. Sinto o sabor do desalento na ponta dos dedos em cinza. Reconheço o aroma de fel na boca amargurada. Aperto o cilicio no peito. Um pouco mais, até escutar a prece dos ossos. Mastigo a culpa e pecado. Bebo o sangue. Contenho as lágrimas. Deixo que o fogo tome conta do resto.
Fecho os olhos.
Fico sentado.
Estou virado de costas para o meu corpo a arder.
Há qualquer coisa a arrancar-me a pele. Quando olho o espelho, qualquer reflexo, em qualquer superfície que me veja, já não encontro partes de mim.
Há algo que me fere longitudinalmente ao corpo inteiro e assisto, impotente, ao desabrochar sádico das chagas que me consomem e de onde emergem, triunfantes, as vísceras da minha insustentabilidade.
A ausência esmaga-me a traqueia e as palavras ficam todas mudas, cegas, surdas, quebradas.
Começo a tentar escrever o que se passa em mim e são os dedos que me caem sobre o abismo (des)feito a tinta. As palavras estão partidas em pedaços minúsculos que não consigo ver. São os dedos, os meus, que as perseguem e acabam por se perder das mãos.
Que outras partes de mim estarei a perder? Há coisas que não reconheço e que me arrancam a pele, me descarceram, me desossam e me pelam sem que o consinta, sem que o entenda, sem que o possa fazer parar.
Penso que estou próximo de perder a fé. Começo a perder as partes do corpo. As partes de mim.
Assisto, na primeira fila, à minha própria decadência. Sou eu no palco, em fragmentos. Sou eu o meu próprio público e não há nada mais que possa dizer. As palavras, os dedos, a tinta, tudo me abandonou.
Há qualquer coisa a arrancar-me pele.
Há qualquer coisa a terminar em mim.
Fecho as gavetas todas. Queria vazar a casa. Retirar todas as partes.
Ficar despido de objectos.
Queria deixar a chuva entrar de forma a ocupar todos os espaços que restassem.
Ficar desalojado de ar.
Fecho os olhos e cubro a face com as mãos molhadas.
Queria, somente, que o tempo parasse para eu conseguir voltar a andar.
Canto risos para vos iludir. Para dizer à tristeza que a tristeza não tem lugar nesta triste demanda em que me precipito, dia após dia.
Canto para me iludir. Para dizer ao tempo que chegou o tempo de garantir que o tempo possa ter tempo para ser tempo. Mas este meu tempo já não é meu. Já não me pertence. Nem sei bem se estou no mesmo lugar que o tempo que me foi destinado...Talvez tenha perdido a métrica ao tempo e agora só resta fingir-me aqui.
Fugi da minha solidão. Encetei todos os movimentos que julguei sempre serem uma violação directa da natureza de mim, andando para trás, com os punhos cerrados e os olhos em gritos. Fugi abraçada ao medo. Temia as rochas mas às rochas regressei. Ostracizei o mar e ao mar regressei. Repeli meu passado e a seus braços regressei. Canto para me iludir, para me sustentar, para não cair. Para poder ficar.
Não sei bem quem somos quando deixamos para trás, numa terra que fica para além de quilómetros de oceano que nos separam do que fomos, uma vida inteira de caminhos reunidos. Virei costas. Fechei a porta. Só D'eus sabe como me tremiam os dedos e a boca me sabia a cinzas. Só D'eus me ouviu o pranto e o vazio naquele momento em que o dia, por instantes, se revestiu do negro mais fundo da noite insana.
O que sobra de mim agora? Sou quem fui e fui quem sou. Não encontro o lugar que ficou a meio. Sou eu mas na verdade estou incompleta. Faltam-me as penas das asas e já não posso voar. Estou calada, de frente ao oceano que a ilha recorta nas suas reentrâncias, nas suas entranhas, e não vejo mais a terra de que sou/fui feita. Voltei ao lugar que me nasceu. Morrerei aqui. Desapegada. Desviolentada. Desasada. Despedaçada. Sem inteirezas que possam resistir aos actos de coragem e de cobardia que me cobriram no meu precipício.
Canto para iludir o vazio. Ocupamos os espaços vazios, os espaços cada vez mais brancos que (me) persistem na existência, com todas as tintas que pudermos encontrar.
Sou agora uma réstia do que fui e não espero mais ser nada. Estou a meio de mim. As memórias que me assolam são histórias contadas de quem fui e de quem quis ser mas, ainda, as histórias do que não fui, de quem não fui, de quem não cheguei a poder ser.
E agora estou aqui. Neste lugar que é um lugar de outros. Entregue à vontade de D'eus manifesta na vontade de quem me assiste. A minha vida depende, agora, da vida que os outros me dispensam.
E eu fico a cantar para preencher os espaços vazios de tudo o que de mim tive de deixar partir.
Tenho o respirar quase a cessar. Está sob uma mão firme, pesada, persistente, esmagadora. Desde quando, não sei bem mas agora parece estar a terminar o tempo.
Tento virar-me. Para um lado. Para outro. Fugir. Por um lado. Ou por outro. E ela sustem-me contra a parede. Determinada. Quente. Imperativa. Subjuga-me.
Mantenho os olhos fechados. Talvez não a queira ver de frente. Temo descobrir se me confronto ou se me conforto. Comigo. Com ela.
Aos poucos, com uma suavidade triste, o corpo vai perdendo a força. Esquecendo a vontade de lutar. Incapaz de dignificar qualquer gesto. Fica fria, a pele. Fica escuro, o sangue. Fico perdida, eu.
Decido que tento tocar a mão que me asfixia. Queria dizer-lhe, baixinho, como se fosse o maior segredo dos mundos, que não estou preparada. Na verdade, que ainda não quero. Que me pode violentar, me deve castigar, me pode desfazer, quebrada em pequenos seixos, mas que me deixe continuar a respirar.
Desafio todas as probabilidades. Escolho a audácia para o gesto final. Não é coragem, nem determinação e talvez nem seja sequer vontade. Audácia. Levanto a minha mão direita, já lívida e profundamente cansada, e deixo-a cair sobre o meu cárcere. Espero, breves segundos...espero...Abro os olhos.
Cessa.
Assim.
De repente.
O mundo todo.
O respirar.
Eu.
Não sei se é a noite que está cansada ou se sou eu que sou o cansaço da noite.