27/07/2024

vOz

Por vezes,

a pele da tua voz 

é tecida com as linhas desfasadas dos fragmentos dos gritos e das preces que te ocupam os dedos,

dos segredos e dos silêncios que te prendem as asas,

das palavras e dos beijos velados que te restringem a essência,

da pedra talhada de mãos abertas sob o olhar da água e do abismo da escarpa.


Por vezes,

a tua voz,

tem o sabor do cansaço da tristeza.



Danço noite dentro como se caminhasse pelo silêncio fora.

19/07/2024

arranca a pele que tenho presa nas mãos nos braços na cruz do peito arranca com força sem hesitar agora sim agora não pares não podes parar agora arranca tudo com as unhas os dentes os dedos cerrados dentro dos punhos violentamente arranca a minha pele de mim até se ver a carne até sentires o sangue até imaginares a dor e não pares nem por um segundo continua continua até ao ventre rasga meu ventre abre o meu corpo a meio e tira tudo o que sobra lá dentro leva desfaz agora sem hesitar peço-te que tenhas coragem na violência que te desfaz para me desfazer a mim agora arranca a pele toda da minha alma. 

16/06/2024

pensei que podia tirar a roupa dos pés e dançar descalço nas entrelinhas das frases nunca proferidas. queria pegar nas palavras com a linha da tinta e percorrer os traços invisíveis dos papéis apodrecidos nas ruínas da casa que caiu no mar. pensei que podia tirar as palavras da boca e cola-las nos tectos das mãos até te vestir de certezas e de âncoras. fechei os olhos e sonhei o sonho que não é mais do que os contratempos dos tempos em fila de espera para se tornarem música. sonhei-te e não estavas lá.  caminhei descalço por dentro da minha boca e foi areia e conchas o que encontrei e mastiguei no sangue das gengivas feridas de letras sem ordem, sem palavras. o que são letras que não podem tornar-se palavras? o que serei eu se não estás no sonho que sonho de ti?

10/06/2024

Fico a teu lado. 

A morrer por dentro enquanto tu desapareces.

A arte de morrer de impotência é sublime. 

Morro a teu lado.

Está escura, esta noite. 

O dia passou o tempo a entoar uma melodia agónica que me desfez por dentro. Desconheço a razão, o motivo que me levou a perder a batalha. 

Às vezes (ou sempre) é preciso ter vontade e por vezes (nem sempre) o é possível.  

Caminho, desatenta das ruas vazias da cidade. Ouço apenas o que me diz a noite. Parece que sussurra um poema triste, feito de histórias inacabadas, monstros alados, sarilhos serenos, tempestades imperfeitas, desesperança...sobretudo, desesperança. 

Debaixo dos meus passos, morrem uma segunda morte as flores caídas dos jacarandás. Tudo tem um começo e, por isso, inevitavelmente terá fim. As flores de jacarandá cessam duas vezes...morrem de tempo e morrem de mim. 

Em cada passo, ouso querer adiar uma queda mas o que faço é mentir por dentro e devagar, uma flor de cada vez, construir a ilusão de que há uma razão.

Há tantas razões como há flores caídas por dentro da noite. 

Está escuro.

07/06/2024

há raios que trazem relâmpagos e razões 

para arrasar a noite


há um prenúncio de uma chuva que não vem mas traz 

as costas da aridez distante


há gritos e ventos que fustigam a pele dos ousados e arregaçam a pele 

até se ver osso


há raios que trazem trovões na voz e gritam nos ouvidos dos pecadores 

uma penitência surda

26/05/2024

Sento-me, a meu lado. Fico a olhar-me e tenho dúvidas sobre se este corpo será verdadeiramente o meu. Já não sei bem reconhecer se é este o meu contorno, se esta palidez é de minha pele ou de meu devaneio, se este corpo é do meu fogo ou do meu abismo, se estes gestos são imutáveis ou ensandecidos. Já não guardo muitas certezas. Sei apenas, neste momento de agora, que enquanto estou lado a lado comigo mesmo, respiro labaredas, rasgo o estômago com os dentes, engulo palavras em brasa, cravo as garras corcomidas na pele desalentada, conto os gritos inaudíveis que me implodem por dentro...um, dois, cento e trinta e nove, mil...

Deixo-me permanecer sentado. Olho em frente. Viro-me de costas. Dispo as roupas e vejo que tenho a pele a arder. Afinal as palavras começam a sair do silêncio dos gritos e as brasas incendeiam o caminho. Sinto o sabor do desalento na ponta dos dedos em cinza. Reconheço o aroma de fel na boca amargurada. Aperto o cilicio no peito. Um pouco mais, até escutar a prece dos ossos. Mastigo a culpa e pecado. Bebo o sangue. Contenho as lágrimas.  Deixo que o fogo tome conta do resto. 

Fecho os olhos.

Fico sentado.

Estou virado de costas para o meu corpo a arder.


24/05/2024

Há qualquer coisa a arrancar-me a pele. Quando olho o espelho, qualquer reflexo, em qualquer superfície que me veja, já não encontro partes de mim. 

Há algo que me fere longitudinalmente ao corpo inteiro e assisto, impotente, ao desabrochar sádico das chagas que me consomem e de onde emergem, triunfantes, as vísceras da minha insustentabilidade. 

A ausência esmaga-me a traqueia e as palavras ficam todas mudas, cegas, surdas, quebradas.

Começo a tentar escrever o que se passa em mim e são os dedos que me caem sobre o abismo (des)feito a tinta. As palavras estão partidas em pedaços minúsculos que não consigo ver. São os dedos, os meus, que as perseguem e acabam por se perder das mãos. 

Que outras partes de mim estarei a perder? Há coisas que não reconheço e que me arrancam a pele, me descarceram, me desossam e me pelam sem que o consinta, sem que o entenda, sem que o possa fazer parar.

Penso que estou próximo de perder a fé. Começo a perder as partes do corpo. As partes de mim. 

Assisto, na primeira fila, à minha própria decadência. Sou eu no palco, em fragmentos. Sou eu o meu próprio público e não há nada mais que possa dizer. As palavras, os dedos, a tinta, tudo me abandonou.

Há qualquer coisa a arrancar-me pele. 

Há qualquer coisa a terminar em mim. 







23/05/2024

queria 

ter

podido

dizer

todas

as 

palavras

que

suavam

na

lingua

minha

foram

só 

as

balas

tudo

o

que 

te 

deixei

dito

dentro

da

tua

boca.

27/04/2024

Fecho as gavetas todas. Queria vazar a casa. Retirar todas as partes.

Ficar despido de objectos.

Queria deixar a chuva entrar de forma a ocupar todos os espaços que restassem. 

Ficar desalojado de ar. 

Fecho os olhos e cubro a face com as mãos molhadas.

Queria, somente, que o tempo parasse para eu conseguir voltar a andar. 

15/04/2024

TG

Canto risos para vos iludir. Para dizer à tristeza que a tristeza não tem lugar nesta triste demanda em que me precipito, dia após dia. 

Canto para me iludir. Para dizer ao tempo que chegou o tempo de garantir que o tempo possa ter tempo para ser tempo. Mas este meu tempo já não é meu. Já não me pertence. Nem sei bem se estou no mesmo lugar que o tempo que me foi destinado...Talvez tenha perdido a métrica ao tempo e agora só resta fingir-me aqui.

Fugi da minha solidão. Encetei todos os movimentos que julguei sempre serem uma violação directa da natureza de mim, andando para trás,  com os punhos cerrados e os olhos em gritos. Fugi abraçada ao medo. Temia as rochas mas às rochas regressei. Ostracizei o mar e ao mar regressei. Repeli meu passado e a seus braços regressei. Canto para me iludir, para me sustentar,  para não cair. Para poder ficar. 

Não sei bem quem somos quando deixamos para trás, numa terra que fica para além de quilómetros de oceano que nos separam do que fomos, uma vida inteira de caminhos reunidos. Virei costas. Fechei a porta. Só D'eus sabe como me tremiam os dedos e a boca me sabia a cinzas. Só D'eus me ouviu o pranto e o vazio naquele momento em que o dia, por instantes, se revestiu do negro mais fundo da noite insana. 

O que sobra de mim agora? Sou quem fui e fui quem sou. Não encontro o lugar que ficou a meio. Sou eu mas na verdade estou incompleta. Faltam-me as penas das asas e já não posso voar. Estou calada, de frente ao oceano que a ilha recorta nas suas reentrâncias, nas suas entranhas, e não vejo mais a terra de que sou/fui feita. Voltei ao lugar que me nasceu. Morrerei aqui. Desapegada. Desviolentada. Desasada. Despedaçada. Sem inteirezas que possam resistir aos actos de coragem e de cobardia que me cobriram no meu precipício.

Canto para iludir o vazio. Ocupamos os espaços vazios, os espaços cada vez mais brancos que (me) persistem na existência, com todas as tintas que pudermos encontrar. 

Sou agora uma réstia do que fui e não espero mais ser nada. Estou a meio de mim. As memórias que me assolam são histórias contadas de quem fui e de quem quis ser mas, ainda, as histórias do que não fui, de quem não fui, de quem não cheguei a poder ser. 

E agora estou aqui. Neste lugar que é um lugar de outros. Entregue à vontade de D'eus manifesta na vontade de quem me assiste. A minha vida depende, agora, da vida que os outros me dispensam.

E eu fico a cantar para preencher os espaços vazios de tudo o que de mim tive de deixar partir. 

14/04/2024

Tenho o respirar quase a cessar. Está sob uma mão firme, pesada, persistente, esmagadora. Desde quando, não sei bem mas agora parece estar a terminar o tempo.

Tento virar-me. Para um lado. Para outro. Fugir. Por um lado. Ou por outro. E ela sustem-me contra a parede. Determinada. Quente. Imperativa. Subjuga-me.

Mantenho os olhos fechados. Talvez não a queira ver de frente. Temo descobrir se me confronto ou se me conforto. Comigo. Com ela. 

Aos poucos, com uma suavidade triste, o corpo vai perdendo a força.  Esquecendo a vontade de lutar. Incapaz de dignificar qualquer gesto. Fica fria, a pele. Fica escuro, o sangue. Fico perdida, eu. 

Decido que tento tocar a mão que me asfixia. Queria dizer-lhe, baixinho, como se fosse o maior segredo dos mundos, que não estou preparada. Na verdade, que ainda não quero. Que me pode violentar, me deve castigar, me pode desfazer, quebrada em pequenos seixos, mas que me deixe continuar a respirar.

Desafio todas as probabilidades. Escolho a audácia para o gesto final. Não é coragem, nem determinação e talvez nem seja sequer vontade. Audácia. Levanto a minha mão direita, já lívida e profundamente cansada, e deixo-a cair sobre o meu cárcere.  Espero, breves segundos...espero...Abro os olhos. 

Cessa. 

Assim. 

De repente. 

O mundo todo. 

O respirar.

Eu. 

11/04/2024

deixei cair. uma parte. inteira. enquanto me debrucei. era uma fina aresta. que me separava de mim mesmo. um breve reflexo. espelhado numa escarpa profundissima. um abismo. eu. de frente. a mim. à rocha. ao véu negro. deixei cair. uma parte fundamental. não vou poder.mover-me. agora. em breve. não poderei ir a lugar algum. não vou. é urgente reencontrar. não vou poder. olhar-me. inteiro. não mais. não vou poder ir. inteiro. nunca mais. deixei cair. uma parte inteira.

04/04/2024

Não sei se é a noite que está cansada ou se sou eu que sou o cansaço da noite.

Talvez não seja necessário continuar a escrever a negro sobre o negro. Não ficam palavras escritas, fica apenas a sombra da noite que as palavras carregam.

Assim, não sei se é a noite que me consome se sou eu que me consumo de noite.
Hoje queria ter tuas mãos dentro da minha angústia. Obrigar-me a fechar os olhos e, por tanto tempo quanto me fosse permitido ser possível, esquecer que a noite existe dentro da minha solidão. Parar de me consumir de noite.

Construo e desconstruo os muros de cimento e aço e sal e emoções confusas que me habitam a pele e acabo sempre no mesmo lugar.
Talvez seja assim que a vida funciona. Passamos tanto tempo à procura do que fica por detrás da nossa própria sombra que acabamos por nos esquecer de que é feita a matéria que nos cobre o existir.

Somos como os barcos parados na aridez das docas a aguardar que mãos abençoadas possam reconstruir as partes que lhes permitam regressar ao mar.
Somos tão frágeis como fusíveis que se queimam,  incêndios prontos a iniciar. Somos a combustão perfeita de todas as imperfeições que se salientam dos cascos que nos definem.

Já não sei se é a noite que se cansa de mim ou se sou eu que me canso da noite.
Anseio pela aurora enquanto permaneço a agitar-me nas ondas frias das marés que me despem e me jogam de encontro aos vazios que me compõem.
Evito cruzar-me comigo nesta jornada no deserto de cada noite em que me confronto, face a face, com a solidão de mim.

Talvez, um dia,  possa encontrar nas minhas próprias mãos,  a serenidade do casco remendado de um barco limpo cujo leme não teme atravessar as marés enegrecidas.
Talvez, no dia em que me reconheça nas sombras do que ficou por ser, encontre o que é, e que isso possa ser o suficiente para voltar a respirar, de olhos abertos, de rescaldos sossegados, de mãos a segurar um leme feito da matérias da noite que trazem todas as divinas possibilidades de cada nascer de dia.

É de noite.
Agora
Estou cansado.
Amanhã.
Amanhã recomeço. 

27/03/2024

quando olhas para a vida, do lado de dentro do vidro, não entendes como ela é curta. como tudo passa e despassa tão velozmente... e cresces na iludida certeza de que és eterno, invencível, inacabável, permanente. mas a vida é ceifada como todas as coisas que nascem e crescem na terra. também a nossa vida é levada, colhida, devassada, estrupada, desfeita, assassinada, violentada, eviscerada, devastada, aniquilada. 

mais tarde ou mais cedo, terminamos. e quando terminamos, não há nada que nos traga de volta. somos pó e ao pó regressamos. e regressamos vazios, despidos, desprovidos de riquezas, desproprietados, como os sem-terra, a caminhar nas terras de barro vermelho num país de longe de aqui. somos todos sem-terra. todos sem lugar. somos lugar nos lugares dos outros. somos terra sem terra na terra dos outros.

somos quem somos porque estamos num determinado tempo e espaço. como uma flor num jardim. como uma árvore numa floresta. somos um fruto do contexto em que nascemos e em que aprendemos a ser. somos apenas mais uma peça da imensidão de uma construção e que, na verdade, quando desaparecemos, fazemos falta às peças a que estávamos ligados ou agarrados, mas a construção não cede um milímetro. não cai. não desfalece. só nós é que partimos. talvez as peças que ficam, aquelas a que estávamos ligados, percam uma parte de si mesmos pois as peças que se interligam carecem das partes das outras para serem. somos os lugares nos lugares dos outros. somos as terras nas terras dos outros. somos individualidade porque nos reconhecemos no colectivo. somos quem somos em parte por causa de quem nos faz ser. e por isso há muitas pequenas partes das peças que saltam da estrutura quando um de nós parte. e a triste verdade, é que todos partimos, eventualmente. 

passamos a compreender a finitude a que estamos condenados quando perdemos alguém que nos é mais significativo. aí, por vezes, agarramos a intenção de dar mais valor à vida. mais importância às restantes peças que nos agarram, a que nos agarramos... mas logo a vida volta a acelerar, volta a correr e de novo...de novo, voltamos a esquecer que, afinal, tudo terminará em breve.

depois é o corpo que nos volta a recordar, que nos revela o segredo...as dores que começam a assolar o acordar, a pele que se pinta de tempo e se enruga de medo, o corpo que se estende na dimensão das coisas lentas e aumenta ou diminui sem pedir licença, a velocidade que reduz todas as intenções de todos os movimentos, embora estejamos com o pé sempre no acelerador... a vida começa a ficar mais lenta. o prenúncio de que tudo vai, em breve, cessar. e metemos a cabeça dentro das areias que resvalam dos nossos pés e fingimos que não entendemos e voltamos a iludir a ilusão procurando todas as razões para nos sentirmos mais jovens, de novo. enganamos o corpo. mentimos por dentro, para dentro, seduzimos as peças interligadas e fingimos, teatralizamos, levantamos o pano da pantomima. pintamos os lábios e os cabelos e dançamos até de madrugada para esquecer as linhas que a pele insiste em esculpir nas mãos, no peito, no sorriso mais tímido da face. 

passamos a vida a fugir da morte e a morte passa a vida a nosso lado. a soprar palavras meigas, ou brutas, aos nossos ouvidos no auge da noite cerrada. a cerrar os punhos quando iludimos a vida. quando desperdiçamos tempo. quando não nos deixamos encantar pelas coisas que nos rodeiam. quando ignoramos as peças a que estamos ligados e que nos fazem ser quem somos. ela fecha os olhos e sofre com o nosso sofrimento. é gentil e conselheira no frio da noite. faz-nos recordar o motivo de estarmos por aqui. uma planta no jardim. uma árvore na floresta. uma peça do puzzle. uma realidade no plano imaginado de um qualquer autor. uma parte limitada da existência. uma partícula de pó. a morte também é cruel, nunca nos abandona. suspende-nos neste fragmento do tempo e limita-nos a vida, ou faz-nos viver demais, ou qualquer coisa de intermédio. 

passamos a vida a correr. 

um dia, muito em breve, tudo cessa de se mover. 

fica só o pó de nós sobre as peças que estavam à nossa volta.  

26/03/2024

são feitas de pus e sangue 

as lágrimas que lavam

as feridas abertas 

no sal da carne apodrecida


o tempo é tão implacável 

como o vento

desfaz as coisas que estão feitas

leva os restos para a lonjura 

    das coisas perdidas

    dos choros esquecidos

    dos corpos abandonados

    dos jardins queimados

    das feridas tristes

    das lágrimas contidas até à exaustão do sangue.


terá de ser suficiente

tudo o que já foi 

até este momento.  


sou feito de pus e de sangue 

estou a apodrecer por dentro 

estou parado no lugar das coisas que se perderam

    levado pelo vento

    esquecido e abandonado na exaustão das cinzas


ateia o fogo. 

    deixa-me 

por fim

    desaparecer. 

25/03/2024

diz-me. 

o que é o abandono.


é este sabor acre que me escorre negro pelo interior da pele

ou

é o aroma negro do alcatrão quente que me calcifica as veias

ou talvez

o peso da sombra da vetusta angústia que exala a infinidade do silêncio do mundo

ou talvez seja apenas 

somente e apenas

o lugar que ficou vazio depois de me teres calado na tua voz. 


talvez haja sempre uma qualquer forma de abandono por dentro das vozes que se calam de nós. 

um silêncio que permanece. 

sempre. 

é abandono. 



08/03/2024

Queria ter podido mostrar-te as cores todas. Talvez tenha faltado uma. Já não fui a tempo. Foi implacável, o vento que levou todas as flores de todas as laranjeiras. Talvez tudo agora seja apenas de uma só cor. A que quiseres. A única que eu não te soube dizer. 

26/02/2024

há uma certeza cada vez mais certa.

tudo é já demasiado incerto.

23/02/2024

EStRaDa

Se olhares em frente

no asfalto

no caminho

só se encontram corpos em sangue


esquartejados

dilacerados

devastados

aniquilados

eviscerados

sem piedade 

no cansaço negro do asfalto

sem poderem voltar a olhar para trás.


Se olhares em frente

é sangue inteiro

o que não vês 

no âmago desta estrada.

21/02/2024

STaRLiGhT

Caiu uma estrela. 
No céu aberto sob o véu negro da noite. 
Em frente do meu olhar. Negro. Caído. 
Não sei bem o que pensar sobre as estrelas que se precipitam no abismo nocturno da incomensurável vastidão celeste. 
O que, verdadeiramente, acontece às estrelas cadentes? 
Morrem? 
Desmaterializam-se? 
Desfazem-se? 
Eclodem? 
Colidem com as sombras das coisas invisíveis? 
Desistem? 
Desencontram-se do lugar onde deveriam ser e por deixarem de se reconhecer, deixam de existir? 

Talvez, no (a)final, sejamos todos estrelas. 
Destas que quedam. 
Das que se precipitam. 
Das que se desencontram. 
Das que colidem com tudo.  
Das que nunca encontram o lugar onde deveriam ser. 
Das que não voltam a brilhar. 

Vi cair uma estrela esta noite.
Diz-me...


Eras tu?

31/01/2024

alivia-me. teu abandono. alivia. ainda fere. o teu silêncio.  ainda fere. creio não poder ser de outra forma ou a forma não teria qualquer sentido. talvez ainda espere. na distância dos gestos deformados. talvez espere. mas esperar sem ficar à espera na espera é esperar sem esperar que a espera seja esperada. talvez. pesa-me. o alivio do teu abandono. pesa-me. a inglória desconsideração do teu silêncio. pesa-me o alivio que reconheço no abandono de mim. alivia-me. compreendo a ausência do significado da forma. talvez ainda fira. talvez. ou alivio-me na certeza de que vou esperar, distante, a continuidade da ferida aberta que é o alivio deste silêncio abandonado na noite.

28/01/2024

Ponho a cafeteira ao lume. Agora resta esperar. Fico, descalço, a tentar compreender o porquê de ser tão frio este mármore. Espero. Creio que estou a respirar mas não posso garantir. Não sei ao certo os movimentos que meu corpo ainda insiste em fazer. Fico, parado, à espera que algum aroma emerja dentro da minha apatia.

Sinto que a pele dos pés grita no silêncio que anuncia o vazio deste lugar. As dores mais fundas não se gritam, só se sabem. Penso em como tudo, de repente, adoeceu. As palavras atropelam-se e desferem golpes fatais sobre as bocas e as (des)esperanças. As mãos trazem veneno nos abraços ludibriosos ( ou ludibriados?) e já nenhuma parte de parte alguma quer ficar para (re)encontrar uma possibilidade que seja de (re)haver um todo. Os olhos trazem a (des)ilusão e o (des)anúncio. Temo que já não queira mais ver. Talvez também tenha chegado o mármore ao meu olhar e eu acabe a morrer de frio por dentro. 

Tenho o corpo descalço e a pele fria. Tenho o olhar cego a aguardar que este lugar fique emerso num aroma que me faça (des)acreditar que podia estar noutra parte de outro (des)lugar. 

Espero. Sorvo o café com os lábios cansados dos gritos que se (des)aconchegam dentro da boca. Compreendo agora a razão do frio que emana do mármore despido sobre meus pés (des)esperançados. 

25/01/2024

ao corpo 

invade

quando menos se espera                                                                                                                                                                                            (deseja)

toda a sua contida dor                                                                                                                                                                                              (miséria) 

em pontos específicos                                                                                                                                                                                               (cardeais) 

nos momentos                                                                                                                                                                                                        (repetidos)

mais inusitados                                                                                                                                                                                                  (deliberados) 

que se prolongam                                                                                                                                                                                                    (sustêm) 

irremediáveis                                                                                                                                                                                                           (abissais) 

até que a voz                                                                                                                                                                                                            (o grito) 

seja tudo                                                                                                                                                                                                               (somente) 

o que é possível                                                                                                                                                                                                          (ainda). 

24/01/2024

O silêncio ficou preso nos novelos atabalhoados de palavras incompletas, engasgadas do lado de dentro da garganta ferida.

Cá fora, só sobram gritos e frases desfeitas.

17/01/2024

Fui lá fora para ouvir. O vento. 

Saber que dizia o vento. Ouvir.

Abracei a tempestade e agarrei a chuva com as mãos fechadas. 

Nunca tive coragem de medir quantas coisas podem caber dentro de uma mão fechada. Nem o que pode ficar. 

Numa mão que se fecha, há grades ou liberdade? 

Vou perguntar ao vento. 

Vou arrancar a verdade à tempestade com meu abraço enferrujado, colérico, infernal. Vou tentar saber o que falta.

Nos caminhos frios da noite, cairam muros e árvores e rochas e lama e flores e carros e rios e almas. Cairam pela noite dentro, pelo vento adentro, no coração da intempérie, sem fé nem amarras nem tempo nem sombras de qualquer possibilidade de salvação. 

Vou escutar o vento. 

Saber porquê. Saber porque partem as coisas, as das mãos fechadas e as que não cabem nas mãos. 

Vou ficar cá fora, pelo vento adentro. Talvez me leve por mim afora

03/01/2024

Mastigo o tempo, engulo as ofensas, sorvo os abandonos. Não serei mais do que o fel e a bílis despojados no lodo do pântano que habita na minha mão direita

01/01/2024

rECoMeÇo

Deitas a cabeça sobre o colo da noite enquanto procuras pelas estrelas. O céu desapareceu. Não restou nada.

Bebes o vinho que a ilha entrançou na minha boca e seguras um cigarro como se fosse um segredo. Inalas a verdade da mentira, guarda-la fundo, bem fundo, onde tudo arde sem morrer.

Entendes agora que o inevitável é não precisar começar de novo

30/12/2023

EnD

You can try to save me from everything...



But you can never save me from myself.

28/12/2023

perdoa

amor

mas não aprendi como se colhem os seixos 

feitos de matérias invisiveis

feitos de silêncio 

que deixas caídos 

nas orlas espancadas das praias

dessas que só encontram lugar 

nesse lugar

onde se fecham

as tuas mãos

e se dilacera

o teu coração. 

27/12/2023

Quero pegar neste cavalo ensandecido que galopa a minha mente e largá-lo nesse lugar deserto que é teu sentir.

Reconheço que tenho a boca conspurcada, as palavras sujas, a tinta que me corre nos dedos contaminada e talvez, apenas talvez, queira violentar-te, (ab)usar a tua pele, permitir tua pomba voar sobre o que restar de mim e jamais compreender teu desejo.

Talvez queira que não pares mais aqui. Que escorras sobre mim e me abandones no deserto. 

Talvez escolha morrer da sede do que vinha depois e não deixar cair a dignidade das penas sobre a maré vazia.

Vou deixar que este cavalo galgue a incerteza das areias e caia, em silêncio, sobre o abismo da minha solidão

26/12/2023

Sinto que há uma besta alada de angústia a percorrer-me inteiro por dentro do sangue. Não sei como nomeá-la, não lhe reconheço a forma, não chego a entender os contornos dos seus limites nem consigo segurar o exacto momento em que começou a voar em mim. Mas traz nas suas asas um sabor às coisas que findam antes do tempo. Parece trazer um fim sem que me tenha sido permitido, sequer, um rasgo de princípio. Ela navega-me ao ponto de não conseguir voltar a tocar terra firme. 

Tudo é areia. Tudo é água. Já nada parece ser seguro e eu não tenho asas.

As sombras da noite parecem resvalar nas arestas dessa angústia e invadem, de asas abertas, as portas dos meus sonhos.

Já nem sei bem de onde vem o fogo, o fumo, o suor, este aroma a sexo aberto sobre a minha fantasia moribunda.

Quero parar e esperar por mais. Saber até onde posso chegar. Talvez saber onde poderei respirar. Saber, exactamente, onde vou terminar. De olhos fechados. De mãos abertas sobre o barro. 

Acabo por permitir que esta besta veleje por mim adentro, até eu já não me recordar mais do que trouxe a este lugar. 





23/12/2023

Pego no fogo com a ponta da lingua. Rememorizo teus dedos a navegarem sem vela sobre meu ventre vazio.

Quando encontro estrelas, reencontro o aroma da tua pele. 

E é aí que permaneço até terminar a noite

17/12/2023

Repito uma memória de ti

no vestido que tuas mãos despiram na minha pele

nas palavras desobedientes que te correram dos dedos

num caminho que nos levava a nenhum lugar.


Por vezes

repito o sabor da tua indiferença na boca

para poder parar todas as palavras

de imediato

como um poema antigo.

12/12/2023

PaRáBoLa

um leitor ávido tem de ler todas as palavras do livro. até ao fim. completar a história. 

quando um livro não termina de contar a história, um leitor ávido pode tornar-se um leitor paciente. um leitor paciente, no entanto, se a história não chega nas palavras a contar o principio do seu fim, pode vir a tornar-se impaciente. 

o que pode fazer um leitor impacientemente a aguardar o final da história que o livro lhe entregou?


és água. eu sou deserto. e é apenas nessa medida que necessito de que existas em mim. não almejo nenhum oásis, não creio que possam coexistir na natureza que me baliza. preciso apenas das gotas que servem à terra o respirar. e, se não correr nenhuma água sobre a minha pele gretada, perecerei mais rapidamente na secura agreste que me assiste. mas sigo agarrada aos ventos e permaneço a rodear dentro da areia quente até chegar ao final de mim. 

07/12/2023

Pega na minha voz 

e grita.  


Segura o meu silêncio 

e reza.


Come da minha carne 

e arrepende-te.


Separa as minhas partes 

e funde-te.


Mascara as minhas falhas 

e encontra-te.


Invade o meu abismo 

e sossega.


Escuta o meu abandono 

e adormece. 




05/12/2023

Diz-me

pode a dor superar a cor do fim do dia?

pode o corpo sucumbir quando o dia terminar?

poderemos, alguma vez, esquecer tudo o que dia devastou em nós?


O Outono começa a criar raízes dentro das minhas mãos,

nos sulcos da minha pele que já se cansa tanto,

na tormenta crescente dos dias minguantes que são já tantos caídos em cima deste corpo que parece ter perdido o Norte.

 

Caminho pelo princípio da possibilidade de reencontrar a cor bela do final dos dias…a noite é uma amante fera que vem agora aniquilar todas as cores tão ferozmente rápido…

Com a noite chega esta tristeza que me abraça e me não larga mais,

com a tristeza vem a dor que angustia cada fragmento da minha alma,

com a dor regressam os fins de tarde que partiram dentro das memórias que inadvertidamente se vão obliviando…

 

Diz-me

pode Deus edificar um castelo nestas minhas mãos? Pode Deus assentar pedra por dentro desta minha permanente ausência?

 

Diz-me

quando esta dor poderá terminar de doer…

quando o outono poderá terminar dentro de mim…

quando poderei voltar a encontrar o Norte das palavras e a direcção do caminho?

 

15/11/2023

Queria ter-te aqui para ser pérfido e devasso. 

Para te corromper e logo te abandonar.

Para te chamar e não te tocar. 

Para te cheirar e deixar cair.

Para te arrancar as palavras do papel e o sangue das mãos. 

Para te atirar às areias negras do poço velho.

Para não mais pensar em ti.

Queria ter-me amarrado na armurada à espera que me agrida a raiva contida das ondas ferozes do inverno. Elas cavam abismos dentro da minha mente, dia após dia. Só me resta aguardar que levem o resto de mim.

Não te quero aqui. Não mais. 

Tenho absolutamente mais nada para dizer. 

14/11/2023

ImPaSse

Teu segredo está esculpido nas encostas de basalto. 

É negro por dentro. 

Cor do fogo por fora. 

Cor de ti nos contornos. 

Cor de vazio no peso. 

Pedra negra a desenhar as linhas impossíveis das coisas inevitaveis. 

És sarça que arde no lugar mais fundo das almas. 

Consome-te o fogo, dilacera-te a ânsia, devasta-te a solidão das insónias. 

Sentes aquele medo que se rasga nas mãos quando se deixou de ter medo. 

Aflige-te a certeza da finitude e o teres chegado com tuas mãos feitas de água ao limite da linha do mar. 

Não sabes que caminho tomar. Não queres escolher. 

Talvez , afinal, tenhas medo de ter medo e seja o medo que te impele à indecisão. 

És feito de água. E a verdade é que escorres sempre em direcção ao mar. 

És ribeiro, riacho, rio, oceano, és gota de orvalho, gota de chuva. És tempestade inteira. 

Terás de embater de frente às rochas. Espalhar na pele o negrume do orvalho e no grito a intensidade do fogo. 

Talvez tenhas de consumir o que te destrói para poderes renascer das cinzas

10/11/2023

Quero sentir na boca o frio 

e as tuas garras a arrancar o sangue quente de dentro do meu ventre

Vou agarrar a noite com os dentes para me libertar das mãos e dos pântanos que me consomem

Vou respirar o lodo com a pele dilacerada e abraçar os cardos que cavalgam o que resta dos meus sonhos 

Vou escancarar a fornalha e gritar as labaredas dentro do peito

Vou deixar que os cavalos corram desenfreados na minha liberdade condicionada a estas escaras que eu cavei com os dedos ásperos da esperança 

Quero deitar-me nos contornos de qualquer pele inscrita no carvão enquanto umas quaisquer mãos ditem o caminho da minha (re)condenação 

Quero compreender o silêncio que o fogo tem nas crinas do meu sangue

Espera...

Não...

Quero compreender nada.



27/10/2023

Morreste.

Teu corpo não podia mais. Secou. Sofreu. Desligou-se da dor. Parou. 

Tu ficaste. 

Ficas sempre. 


09/10/2023

Invejo o vinho que te acaricia os lábios 

Cobiço os dedos que seguram os copos e as palavras e os corpos e as vozes

Ambiciono os caminhos que conduzem aos lugares onde nunca se chega a chegar

Tenho sede do mar das mãos que são tuas e da fantasia que é a minha 

e seguro-me no calor errado deste outono para calar a dor

para serenar a ânsia

para alimentar a fome

para reconhecer o desenho do ar dentro do meu peito

Reconheço os grilhões onde sucumbiu a minha liberdade e o vazio em que caí na tua paixão 

Invejo, agora, os lábios que te acariciam o vinho e reconheço que já não sou digno de ter lugar

na imensidão de tuas mãos

na ruidosa calamidade do teu sentir

no caminho que conduzia ao lugar de ti.


25/08/2023

São insignificantemente significativas as coisas que faltam. As coisas que não estão nos lugares que consideramos como certos. Que não são quando as julgamos ser. Que não estão quando estávamos absolutamente seguros de que estariam.

São partes que faltam. Membros. Peças. Sentidos. Pele. Espaços. Lugares.

E depois, pelas coisas que faltam, as coisas que são deixam de ser as coisas que deviam ser e tudo parece, de repente, pintado nas labaredas mornas do inferno que sabemos sempre, sempre, tão próximo da pele.

E aí, no momento em que entendes que nada pode retornar a ser o que havia já sido, tudo adquire um significado incontornável.

09/08/2023

What do you think I would see 

if i could walk away from me?

07/08/2023

por vezes

a falta de ti

é um abismo aberto dentro da minha 

garganta 

enquanto minhas mãos percorrem 

loucas 

todas as possibilidades 

de todos os gestos 

que me aproximam da 

salvação


por vezes

a falta de ti é 

apenas

a falta de tudo

o que possa ter sido

coisa qualquer.  

31/07/2023

O único cenário que me permito vislumbrar na partida, é o manto de luzes que alumiam as encostas da Ilha e que revelam os caminhos de regresso a casa.

Talvez seja no lugar mais escuro da noite, este em que agora me encontro, que procure encontrar o que te ilumina dentro do olhar que é o meu. 

Escavo fundo o abismo que minhas mãos temem ter em ti e recuo, vagarosamente, quando entendo que não poderei encontrar lugares além destas areias que se movem incessantes. 

Pensei que iria haver chamas, labaredas, velas, candeias, lume, mas há apenas os ventos áridos devastados pelos segredos inventados das planicies ocres do deserto das mãos que são as tuas. 

Tanta água e tanta areia no mesmo lugar... Tanta luz e tanto breu...Tanto de divino como de luciferano, mesmo sendo lucifer o anjo que perdeu a luz e as asas, tu és o lugar devastado da devassa ausência de esperança. 

Perdes, a cada momento, a vontade, a tolerância, a sabedoria da espera e a vertigem da demanda. 

Corres sempre, somente, no sentido de enganar o temor de parar. 

Perdeste já o sentido das minhas mãos. Já te não fazem falta.

Eu creio ter perdido o sentido da tua alma,  as linhas da tua pele, o sabor das tuas palavras, o sentido do teu sentido.

Encontramo-nos cada vez mais longe. Tu a correr o deserto coberto de mar. Eu a escavar a luz que mergulha no âmago da noite.

Já não vamos saber encontrar o caminho de volta.

30/07/2023

A noite cai de forma lenta sobre o abandono da ilha.

Não há âncoras. Não há costa. Apenas o movimento ininterrupto das marés e dos naufrágios.

Estive sentado sobre a orla do dia a aguardar que chegasse tua voz nos indícios do vento quente.

Não há âncoras. 

Não há regressos possíveis. Quando se parte, não se regressa jamais da mesma forma. Quando se regressa, não se regressa inteiro, nunca mais.

Não há nenhuma âncora. Apenas o deserto do mar e da imaginada linha que o separa do céu.

Assim me aparto eu.

Creio que jamais saberei regressar do naufrágio deste abandono ao crepúsculo.

25/07/2023

começa do começo. 

conta a história como se contasses o ar. respira como se escrevesses as letras todas das frases inteiras. ignora a saudade que sentes. cessa o silêncio da ausência que te devasta as vísceras e cede à tentação da insanidade. repele o branco do vento e guarda a ferrugem do rancor dentro dos bolsos da pele.

começa do começo. 



onde?

16/07/2023

Se, no absurdo, nos retiram a normalidade, o que é que sobra da nós?


07/07/2023

tenho o fogo a arder e não sei como parar este corpo que se alastra

03/07/2023

Podias ter adormecido a tua voz nas minhas mãos

até eu cegar do mundo.

Tiveste sempre presas as palavras 

dentro do cansaço. 


Deixaste-me 

sempre

à deriva no mar alto 

preso aos dedos cegos

do mundo que silenciou a tua voz.

31/05/2023

canta-me numa morna

suspende-me nas notas quentes

e tristes

da velha guitarra com que choras. 


canta-me numa morna

prometo que morrerei devagar.

23/05/2023

vejo-te as lágrimas caídas sobre a madeira que reveste a mesa. 

talvez não haja, de facto, fim para o que se sofre por dentro da voz, no interior mais fino das planícies desérticas da solidão. 

a sombra das coisas que foram coisas antes de serem apenas as sombras das coisas que eram, vertem seus silêncios, em segredo, por entre os veios tristes da madeira velha. 

não há nada que nos segure a queda. nem a liberdade. nem a gravidade dos gestos. só a força dos agueiros. só a paixão do apelo quente do abismo. mas nada que nos segure nos braços. 

vejo o que permanece distante no reflexo triste das tuas lágrimas. 

não há palavras

nem gestos

nem madeira

nem água

que possa calar o silêncio das sombras. 

22/05/2023

 (...)

Darkness starts inside of things

but keeps on going when the things are gone.

(...)

Darkness Sarts by Christian Wiman

21/05/2023

Tenho-te nos braços quando acordo só e me imagino à deriva. 

Trago-te na saliva quando a apneia me reduz ao sentido da asfixia.

Levo-te nas mãos quando mergulho na altura inteira do mar que me esconde das marés. 

Guardo-te sobre a epiderme para me vestir da tua essência e conseguir respirar.

Inalo o aroma da tua voz e deixo ecoar dentro de mim toda a gravidade solene da poesia que reside na melodia de ti. 

Olho os outros que se movem na correnteza suja da cidade e penso como sou indiferente à névoa de cinza que se abate sobre o tempo.

Tenho só a pele dos braços quando acordo à deriva, no mar alto de cinzas apagado, sem me lembrar de como respirar.

09/05/2023

há fogo a devastar os silêncios

os segredos

as ausências

os erros

os infortúnios. 


há fogo a lavrar os campos

as colinas

as serras

as marés

as palavras.


há lava a cravar a pele

os dentes

as bocas

a saliva

a direcção. 


há fogo a queimar o interior

de mim

de ti

de nós

de vós

de todos. 


resta

esperar

em apneia

pelo regresso 

do prenúncio

da chuva. 

07/05/2023

pousa a mão na terra. 

a pele no alcatrão. 

os dedos no fogo e os lábios no carvão. 

pousa o corpo na terra.

o calor no chão. 

a água no tempo e o tempo na mão. 

larga o sangue na terra

e a despedida calada.


a partida 

depois de chegada

deixa de ser partida. 

28/04/2023

Procuro as palavras certas para te poder ouvir. 


Mas é somente silêncio 

aquilo que trago cerzido na voz.

21/04/2023

Choveu uma chuva sem alma
Nao lavou as ruas. 
Mas trouxe lama e lodo. 
Para cobrir o sangue. 
Para silenciar as palavras.
Para esconder os passos.
Para levar o tempo.

O que fica quando a terra secar?

19/04/2023

Ce qu'il manque c' est la pluie.

Il faut de l'eau. Pour laver le sang des rues e des rues de mon chemin.

J'ais besoin d' eau dans le sang de moi.

15/04/2023

Podes esperar?

Sei que vou demorar. Mas se puderes esperar, nem que seja um fragmento milimétrico de um segundo, talvez chegue a chegar perto...talvez eu acabe por chegar. Perto...

Podes esperar?

Até eu desaparecer?

Prometo que vou demorar. 

14/04/2023

Deixa teu veneno de frutos silvestres na ponta da minha língua.

Quero morrer emersa na agonia de ti. 

acordo

com todas as dores

de todas as preces,

vossas,

nos ossos

na carne

no sangue 


na incerteza da alma 


até nao haver

mais lugar

para doer.

12/04/2023

Paro no meio da rua só para escutar as vozes do mundo. 

Por vezes, 

meu único desejo 

é que tudo se cale.

08/04/2023

Perdoa-me, amor. 

Mas vou continuar a caminhar no lado em que se deita a sombra. No canto mais longo do jardim. Nos caminhos onde não haja outros passos. Junto das flores selvagens e das ervas que danam. No lugar onde a lama permanece porque ninguém se interessa. Onde há pó.  Onde há covardia. 

Não vou ousar os caminhos cheios de sol. Não quero estar ao calor nem a ver os pássaros que fogem. 

Não sei caminhar longe da gravilha e do lodo. Não sei caminhar os teus passos. 

Vou ficar aqui e ser aniquilada pelos leões.  Os leões só devoram aqueles que ouvem os seus rugidos e temem entrar na caverna...

30/03/2023

GaRgalHaDa nO eScUro

"O amor é 

uma palavra 

suada 

entre os meus dedos"

Ondjaki


Se o amor é uma palavra suada entre meus dedos, são minhas mãos a prova da essência que soa, ressoa e entoa quando ouso segurar-te na pele.

Trago nas mãos a palavra que te guarda do interior de minha alma. Trazes na água a antítese da tese sintetizada onde tudo é irremediavelmente intransponível. 

Se te dissesse as letras da palavra sem ser no suor dos dedos, iria chegar-te à garganta um grito ácido que se corroeria por dentro e te iria impelir à fuga para mar alto. 

Há almas que nasceram na gutural eterna insatisfação de não ser possível tolerar ser-se amado. Nem no suor dos dedos, nem no sangue das palavras, nem na profundidade dos gestos guardados no sentido das mãos

És meu alimento quando vens. Meu naufrágio quando partes. Meu alimento quando partes. Meu naufrágio quando chegas.  Queria poder dizer-te palavras que suam como lágrimas e soam como preces. Não digo. És profeta e herege. Salvação e condenação. Bênção e pecado. Não te posso dizer. Pois queres tanto quanto não queres. Podes tanto quanto não podes. Desejas tanto quanto não desejas. Começas tanto quanto terminas. Terminas tanto quanto começas. Tens tanta vontade de chegar como a vontade que tens de partir. 

E eu permaneço na silenciosa intenção de ir em busca das estrelas que brilham na gargalhada que desperta do âmago da escuridão que te habita a alma. 



29/03/2023

Entranço o cabelo.

Dispo-me das roupas. Devagar.

Desfaço-me do dia. Sem sentir pressa.

Lavo a pele fendida nos ganchos que me sustêm até não sobrar sangue.

Deito-me no chão frio da madeira que sustenta o grito do inverno e permito-me desaparecer no som dos passos que ecoam no ranger do caminho.

Sei que não poderei mais regressar. 

Aceito. 

Fecho os olhos. 

Entrego-me ao silêncio da noite. 

Até que minha pele se funda com a agonia da madeira e nada, depois do vento do norte sibilar, possa sobrar.

27/03/2023

Deixaste-me o sol. 

Espero que regresses antes de eu recomeçar a chover.

23/03/2023

sou o que resta do naufrágio. 

morro na solidão da madrugada, num canto deixado à sombra na praia. tal como os animais de água que perdem o rumo. como todas as coisas que naufragam no alto mar. como todas as peças que se perdem. encalhada nas rochas. 

tenho a boca cheia de água. tenho o ar cheio de água. tenho a pele encharcada. tenho os braços abertos. como todos os pássaros que morreram dentro da minha voz. de asas abertas. de mãos fechadas. com as penas negras nas letras das palavras. 

devia ter mantido o silêncio no segredo e ter aberto as mãos enquanto fechava os braços. vai fazer sempre noite dentro da água que se me arrasta no sangue. vai ser sempre sombra no lado mais recôndito da praia de calhau negro. 

sou o naufrágio do que resta. 

18/03/2023

CeRtEzA

Os pássaros deviam morrer sempre de asas abertas e olhos fechados.

14/03/2023

o anúncio da primavera grita efusiva por todos os poros

de todas as peles

de todos os lugares 

de todos os movimentos deste mundo. 


já só sinto falta do outono. 

13/03/2023

Apetece-me gritar a dor e fazer parar o tempo. 

Cheira a limões acabados de colher e a mortes acabadas de anunciar.

Sei como ruem as vidas suspensas na certeza de que não é o tempo que se move. Eu quero que seja tempo do tempo se mover e da vida poder parar. Se pudermos parar, agora, talvez a morte que te acaricia a pele possa cessar, possa deixar-te ficar.

Quero gritar até que pare a dor do tempo não parar. 

11/03/2023

Danço ao som da tua melodia.

Mas a música parou. 

04/03/2023

Que pode o melro fazer, 

andando num qualquer chão,

em fuga, 

com uma asa partida na impossibilidade do voo?


Que posso eu fazer 

com a alma enrelhada

 no interior das penas pretas 

de uma asa que já não voa?


sEntIdo

permaneço parado

nas sombras do inverno. 


seguras-me com um dedo 

para,

quase de imediato, 

me afastares com as duas mãos abertas. 


chegas aqui

no gesto lânguido das palavras mortas

para logo não estares 

nem aqui nem em lugar nenhum em que eu possa ficar parado. 


o inverno é isto.

pedires-me para me mover

mas se ousar um passo, 

um passo que seja,

nada encontro para além do abismo de frente ao vazio. 


volto atrás. 

vou recuar até me cruzar com os ventos áridos

avançar na direcção oposta

ao lugar que o inverno reserva para ti. 


estou a arder por dentro.

vou consumir o pouco 

o que resta 

antes do primeiro grito da primavera.