Foi um grito. Um grito dentro da minha surdez. Um grito fora do meu espaço de silêncio. Um acto de violência. Uma condenação.
Um grito e eu perdi o que me restava da esperança. E compreendo agora, neste preciso momento em que o silêncio é tudo o que pode acontecer em todo este ruído, que não posso, nunca mais, esperar por nada.
O inferno é isto que me escorre na pele hoje. Nada mais do que isto. Não há inevitabilidade maior que o regresso depois da partida. Não há inevitabilidade mais cruel. O mundo insiste em dilacerar o que resta da minha pele e das minhas sombras. Se não estivesse prestes a morrer do cansaço, morreria da queda imensa aberta em mim. Não posso dizer nem mais uma palavra hoje. Estou dentro de uma chama dantesca. E daqui não parece ser possível partir.
Se me pudesses olhar neste preciso momento em que o sol se põe poderias ver de que cor é a minha alma. Poderias saber a que sabe a minha solidão. Se chegasses aqui agora, no preciso momento em que o dia se despe e a noite me serena o corpo verias o meu sexo derramado sobre a areia. A ferir-se dentro da areia. E não serias capaz de me pedir rigorosamente mais nada.
Senti-me pequena enquanto me sabia morrer no teu abraço. Percebi que já não fazias força. Já não tinhas a ira na ponta dos dedos nem no sangue dos olhos. Não te olhei de frente. Não te podia olhar de frente, ficarias a ganhar. Senti que o meu corpo cedia à fraqueza. Teria comido hoje? Que dia é hoje, realmente? Não me recordo de ter vivido mais do que isto tudo que vivi agora. Até ter entrado nesta sala imunda. Ou terei eu vivido rigorosamente nada e agora isto seja apenas o começo do que já tinha terminado tanto tempo antes? Senti-me confusa. Larguei-me dos teus braços e fechei os olhos antes de saber que ias pedir que olhasse para ti. “Olha para mim”, disseste. Comecei a sangrar. Olho para ti com a coragem inteira de quem não tem o que esperar e foi a ela que vi. Alisa nos teus olhos. Tua face não estava lá. Estava lá sem realmente lá estar. Ela. Apenas ela. Como me poderia algum dia encontrar em ti se não és tu quem eu vejo em ti? Estou a sangrar. Nas pernas. Entre as pernas. Na boca. Entre os dentes. Estou a sangrar. Teu punho já não estava cerrado mas encontrou-me na boca enquanto repeti o nome dela vezes sem conta. Uma vez, Alisa. Duas vezes, Alisa. Três vezes, Alisa. Quatro vezes o teu punho na minha boca. Reconheci os teus pés. Cinco vezes, Alisa. E o chão sujo e molhado da minha chuva, do meu vazio, do meu sangue. Ouvi alguém dizer para parares. E eu a dizer que não eras tu, não fazia mal porque não eras tu. Seis vezes, Alisa. No baixo-ventre senti a mesma dor de antes. A mesma dor que só uma mãe sabe sentir inteira. Nunca tive medo. Depois de ti, não há lugar ao medo. Sete vezes. Alisa.
É tão duro e tão frio o som deste silêncio ao longo da sala e mesmo assim olho para ti como não suportas ser vista. E agora, que fazemos?, perguntei-te, numa pergunta tão inútil quanto necessária: continuei sentado, com uma mão em cima do balcão e outra de punho cerrado, olhando-te fixamente, lendo-te mais do que queiras, mais do que pensavas possível. Quero esquecer tudo, já esqueci tudo, nada aconteceu quando aconteceu nada!, respondeste tu numa voz carregada, com um olhar fixo e uma lágrima regando a tua face. E quando aconteceu nada foi a dor e o abismo, foi a carne rasgada e a foz solta em grito, foi o inacreditável possível, foi viver o fim e permanecer para ser depois do fim: nossa filha Alisa (אליסה) ensanguentada e morta, jazendo entre o silêncio que nos acalenta e que faz eco no ventre com cheiro a sexo e a giesta. Já não suportas a maneira como olho para ti mas quando olho para ti, vejo na tua presença a ausência que é jamais, que é estar depois do fim. Abraça-me, disseste-me. E o vazio expandiu-se ainda mais, foi mais fundo e mais além – foi sem tudo, para ser sem – : foi nada. Só te tenho a ti agora, disse-lhe, como se diz aquelas frases quando não se tem nada a dizer e tudo o que pudesse ser dito seria apenas um dizer de merda. Olhaste para mim e disseste: «Tu e eu a viver o fim e a ser depois do fim (אני חי אתה), a ser sacrifício e a ausência de redenção: viveste-me».
Já não suporto a maneira como olhas para mim. A julgar ver-me. A julgares saber-me. Sabes que fui e voltei sem ter voltado. Sei que as tuas mãos caídas neste balcão querem procurar as minhas mas eu não quero. Olhas-me como se eu estivesse chegado de dentro da chuva. Teu olhar parado no lugar que os meus pés ocupam neste chão imundo onde tantas vezes te vi cair. Se os meus dedos chegassem à tua pele como antes desta manhã ter começado…mas já não tens pele que eu saiba tocar. Sinto-me irritada. Desfazada. Fora de tempo. Enquanto entrava nesta sala já te sentia o cheiro e já te queria não encontrar apesar de ter a certeza – porque há coisas que se sabem por dentro sem se saber nunca como se sabem antes de se saberem realmente – que estarias mesmo ao balcão como a que não esperar que eu chegasse. É como se nos tivéssemos sempre encontrado no mesmo lugar…apenas a dois mundos de distância. Olhas para mim de forma verdadeiramente insuportável. Há anos que te digo isto e tu não consegues nunca. Às vezes preferia que cegasses. Sim, que cegasses para deixares de olhar para mim. Assim. Desta maneira sempre igual. Vejo-te sem te olhar de frente e encontro tudo o que resta da tua solidão. O lugar onde eu não cheguei a estar durante todos estes anos. Se te olhasse nos olhos veria tudo o que precisas de me perguntar. Apesar de saberes que te não responderia a nenhuma pergunta – ainda que gostasse que, pelo menos, voltasses a ter coragem de tentar – sei que te dilacera a necessidade de saberes. Disse-te que ia ao Alentejo. Que vou sempre lá. Sei que sabes que eu não tenho ninguém enquanto te disse que tenho uma família por ali, numa qualquer terra do sul, entre a seca e a sombra. Na verdade, se te olhasse agora, diria que te digo tudo o que espero conseguir acreditar. Mas fico em silêncio. Agora só as tuas mãos e as minhas neste balcão.
E o balcão encontrou todo o tacto das minhas mãos como se fosse uma memória vívida que assola quando menos se espera e não sabemos de onde vem e se nos pertence ou se somente sobrevém simplesmente por ela ter entrado na sala – trazias o cheiro a cidade; à hora de ponta e à transpiração do metro; a tua cara escorria outras caras cansadas, gastas, sofridas, sorridentes, crentes, imaginadas, suicidas, indecisas, sonhadoras, perdidas ou simplesmente empalidecidas; os teus braços tombados ao longo da tua fisionomia direita até à ponta dos teus dedos (só hoje te vi tão alta, tão mais alta do que eu; talvez porque somente hoje te vi); os teus pés molhados, sim, da chuva, seria da chuva?, soltavam gotículas incertas e indefinidas pela sala. Não te senti sair hoje de manhã, pensei, mas hoje de manhã é já tão longe, tão distante de nós, tal como a distância que vai de mim, do balcão, até ti, aí, na sala: estás aí, não estás? Ou imagino que estás? Sim, estás, estás enquanto aqui estou: não te decides em ir embora, regressas sempre e eu não me decido ficar, estou sempre de partida. Tens os pés molhados e o seco desaparece pouco a pouco, seria da chuva?, os teus pés molhados e as tuas idas ao Alentejo. Dizias que tinhas lá família. Vim a descobrir anos mais tarde que és órfã; os teus pés molhados e a sala a contar com a tua presença. Coloco as mãos no balcão e a solidão por cima do balcão sujo. (cont.)
Presenciei uma discussão sobre Deus e o Diabo, e fiquei calado; calado como se a minha voz fosse uma arco de silêncio em toda a sua extensão; que poderia eu dizer? que deveria eu calar? fiquei assim, vendo de um lado gente e do outro gente, gente de humanidade e humanidade na gente, vendo a raiz a ser decepada em nome de um tal Deus diabólico e de um Diabo deificado. Esta não é decididamente a minha luta - nem de perto, nem de longe - , o chão onde me movo, o som que faz sinfonia na minha existência: quero mais além de Deus e do Diabo, e mais além é nem um nem outro - quando dei por mim estava sentado na ribeira da Fonte, junto às açucenas em flor, às bananilhas de cheiro inconfundível e o meu olhar perdia-se nas águas límpidas e cristalinas que escorriam na Granja, e o meu pensamento parecia um pousio, uma Terra do Centeio em inverno continuado; presentei uma discussão sobre Deus e o Diabo, e só me apetecia estar sentado de pés descalços dentro da água da ribeira, vendo-a levar o que restou em excesso carente de mim.
Entrou na sala como se nada o esperasse. Virou o casaco do avesso enquanto o despia. Sempre a olhar para os pés. Para o chão. Meia-luz. Velas espalhadas faziam o espaço parecer mais pequeno enquanto iludia no tamanho. Era pequeno demais. Não se recorda se havia música. Talvez. Mas não ouviu. Pelo menos não no início. Pelo menos não até ela entrar ali. Pediu qualquer coisa que o fizesse esquecer que lá fora não estava mais do que o mesmo frio que sempre o tinha perseguido desde que aqui chegou. Ali chegou. Não. Desde que aqui chegou. A esta cidade. De noite. Sim, porque chegamos sempre com a noite e partimos sempre no dia. Nada o esperava, na verdade. Ninguém se virou para o olhar quando as mãos troçavam dos gestos que o casaco não podia fazer sozinho, quando os dedos não conseguiam segurar o copo, quando as luzes já não viam o resto dos olhos. Nada o esperava nem ali nem em nenhuma outra parte. Pelo menos não nesta noite. Ou nas noites anteriores, a bem dizer. Há muito tempo que se encontrava só mas toda a sua necessidade de fuga o iludia num tom onírico fazendo-o crer que não era real. Que não estava verdadeiramente só senão nos momentos em que se sentia irremediavelmente só. Não se recorda de nada até ao momento em que ela entrou na sala. Não se recorda de nada que tenha sucedido nos minutos seguintes em que o corpo que parecia pertencer à sombra que as luzes obrigavam a aparecer se aproximou, numa lentidão devassa e a cheirar a desistida, e colocou as mãos e a solidão por cima do balcão sujo.