Entrou na sala como se nada o esperasse. Virou o casaco do avesso enquanto o despia. Sempre a olhar para os pés. Para o chão. Meia-luz. Velas espalhadas faziam o espaço parecer mais pequeno enquanto iludia no tamanho. Era pequeno demais. Não se recorda se havia música. Talvez. Mas não ouviu. Pelo menos não no início. Pelo menos não até ela entrar ali. Pediu qualquer coisa que o fizesse esquecer que lá fora não estava mais do que o mesmo frio que sempre o tinha perseguido desde que aqui chegou. Ali chegou. Não. Desde que aqui chegou. A esta cidade. De noite. Sim, porque chegamos sempre com a noite e partimos sempre no dia. Nada o esperava, na verdade. Ninguém se virou para o olhar quando as mãos troçavam dos gestos que o casaco não podia fazer sozinho, quando os dedos não conseguiam segurar o copo, quando as luzes já não viam o resto dos olhos. Nada o esperava nem ali nem em nenhuma outra parte. Pelo menos não nesta noite. Ou nas noites anteriores, a bem dizer. Há muito tempo que se encontrava só mas toda a sua necessidade de fuga o iludia num tom onírico fazendo-o crer que não era real. Que não estava verdadeiramente só senão nos momentos em que se sentia irremediavelmente só. Não se recorda de nada até ao momento em que ela entrou na sala. Não se recorda de nada que tenha sucedido nos minutos seguintes em que o corpo que parecia pertencer à sombra que as luzes obrigavam a aparecer se aproximou, numa lentidão devassa e a cheirar a desistida, e colocou as mãos e a solidão por cima do balcão sujo.
deixei tudo cair como se a gravidade fosse a lei mais forte a reger o este espaço.
depois do fumo que me cobriu a vontade hoje não encontrei a porta daqui. tacteie com todo o cuidado, gentilmente, todas as partes das paredes em torno do meu corpo e não encontrei a porta.remeti a minha necessidade de fuga ao saber dos condenados e permiti que o resto do tempo me atravessasse as mãos. assim. como se nada fosse.
Talvez hoje seja dia de não ser dia como se os dias que não devem ser dias pudessem deixar de o ser apenas porque não os queremos a ser. Mas não. Não podem deixar de ser o que são apenas porque em nós não cabe a sua condição de ser assim. Sonhas que os dias que não devem ser dias não sejam mais do que noites porque nas noites resta o que os dias não querem o que as palavras não dizem o que os estranhos não vêem. Estes dias são para ti a verdadeira prova de que o inferno é o que te ferve no sangue e te queima na pele. Estes dias servem para te avisar que o lugar que vem a seguir é o que sempre imploraste que não chegasse nunca. O que a areia do deserto deveria ter coberto e que não chegou a ser suficiente. O inferno dos dias é o que te corre na alma. E por isso já nenhuma noite pode silenciar as dores dos dias que não chegaram, nunca, a ser dias.
A música não é suficiente. Do outro lado da rua violência nos gestos e nas palavras colocam duas naturezas humanas em conflito. A música não é suficiente para abafar o som. A rua fria no frio da noite e depois um café de porta aberta. De paredes sujas. De sons desfeitos na antiguidade do chão e das rugas de quem lá passa. A música não chega para fazer esquecer. Depois o outro lugar. O lugar que a noite esperava encontrar longe do vazio, fora do abismo. Tu encostado ao balcão a olhar-me sem saberes porquê. A querer-me sem perceberes porquê. A seres incapaz sem quereres saber porquê. Eu na espera incapaz de quem nada espera mais. A olhar-te nos olhos que viam sem me ver e percebi tudo quando tive de te deixar vazia. É que nem a música é suficiente para nos fazer compreender que já desaparecemos há demasiado tempo para nos podermos ver nos olhos.
Olhei através do vidro e não pude ver nada. O vidro não estava lá. No lugar apenas fragmentos. Apenas partes de um todo desfeito no ar. Quando olhei para a imagem que não via compreendi tudo. Não estava nada ali. Não estava ninguém mais ali. E por isso não podia ver.
Foi quando olhei para trás que senti a chuva cair. Apenas nesse momento percebi que chovia desde ontem, incessantemente. Só aí. Quando mais nada restava. Verifiquei a pele das mãos. O lugar da boca. Os fios do cabelo. Fechei os olhos. Vezes sem conta fechei os olhos de olhos fechados e desequilibrei-me. Passo após passo e eu a perder o equilíbrio. Como se não houvesse chão ou como se ele fosse de lama de pedras de socalcos de montanhas.
Não ficou nada para me lembrar do caminho. Meu campo de visão absolutamente vazio e isso teria de ser o suficiente para saber voltar. E foi na insegurança do desequilíbrio que retomei a marcha. Pelos fios de cabelo. Pela pele da pele. De olhos fechados sobre os olhos fechados. A saber que não estava mais ninguém ali e que eu já não podia, nunca mais, regressar.
Era quase de manhã quando se ouviram as primeiras gaivotas. Ele abriu os olhos. Lembrou-se, de frente para o rio, o lugar exacto onde estava. Saiu do carro. Lento. Como se o tempo todo fosse a devassa lentidão. Olhou o rio de frente e sentiu vontade de mergulhar. Despido. Descalço. Só a água a recordar-lhe a inevitabilidade da existência. Estava febril. 19º cá fora. Sentia o suor escorrer frio na pele quente e tentava ignorar. Fazia por esquecer o lugar que o corpo agora ocupava nele para se concentrar apenas na vontade. Vontade de qualquer coisa. Vontade de ter vontade de sair dali. Vontade de ter vontade de ter outro lugar para onde ir. Onde chegar. Onde (se) depositar. Fechou os olhos e voltou a sentir o corpo. Na febre. Frio. Quente. Alternado nos pólos de se ser e não se ser rigorosamente nada num tempo em simultâneo. Frio de novo. Intentou um grito que podia ter sido de dança, com os olhos ainda fechados. Pensou que talvez correr não fosse a melhor ideia pelo que permaneceu. Deixou-se cair no movimento lento de quem nada espera para além do que já foi. Quando ousou abrir os olhos – na iminência da queda sobre a aresta do passeio sobre o rio – recordou-se do motivo pelo qual ali se encontrava naquele momento. Deixou a vontade para, sequer, o corpo dar um passo para trás. Olhou as gaivotas a desafiarem a lei da gravidade, cansadas na tentativa vã de encontrar peixe no rio e para se aquecerem.
Todos os movimentos lentos são frios.
Ouviu-as cantar e sentiu-as sussurrar...
... Fechou os olhos. Deu dois passos em frente. Vestido. Febril. Descalço. Na vontade de partir para o lugar que vem depois.
Não cessa de chover aqui. Os carros aceleram junto às marcas de água enquanto os dedos sangram. Há luzes e sons que não se podem compreender. Um. Dois. Três vezes que contornam a pele os dedos. Três. Quatro. Não me deixes. Cinco. Aqui. Agora que cheguei mesmo ao fim do caminho. Seis. Sei que não precisas de mim mas não agora. Por entre as árvores não há espaço para o meu corpo. Feito de terra. Coberto de lama. Deixo o sangue dos dedos cair e vejo como se dissolve na escuridão. Parece-me que desistes agora. Sete. Torna-se evidente. E eu a evitar crer. Eu a iludir-me mas a água aqui está demasiado fria para me perder numa qualquer irracional imagem onírica de que tudo irá terminar bem. Oito. Sou o que resta do corpo que atiraste à terra. O sangue dos dedos é o sangue da pele inteira. Da boca. Dos olhos que não choram. Nove. Vai. Nove. Vai. Não vai nunca mais parar de chover. Eu na linha de água a derramar o sangue na terra. Dez. Porque tu desistes.
Se alguém vos abordasse, de forma inesperada, mas voluntária, dizendo: escreva qualquer coisa que relacione «ideia», «perigo» e «Portugal», talvez a resposta mais imediata fosse: bom, eis três conceitos que não se joga, nem à bola! Ora, ideia é coisa que de tão rara eventualidade neste país, presumo que a última deverá ter ocorrido em 1755, qual epicentro genético do tremor de terra. Pronto, relacionei os três conceitos!
Mais a sério ou, dizendo com o mesmo sentido, mais perigosamente: como disse e muito bem G. Deleuze: «(...) ninguém ignora que ter uma ideia é um acontecimento que surge raramente, que é uma espécie de festa, pouco frequente". Ora, o acontecimento inerente à ideia é tanto a sua dimensão original como criativa; original enquanto fonte sempre recorrente que refresca quando as dúvidas assolam ou quando a penumbra se faz inclinação ou ainda quando a aurora se faz longe sob a promessa do anoitecer; criativa enquanto dinamismo que renova e se renova sem perder a sua identidade, mas cultivando e promovendo o imperativo da diferença como marca da igualdade. A ideia é aquilo que ao se concretizar não se esgota na situação tal e tal, mas faz de tal e tal situação pontos que se referem a um horizonte inesgotável de sentido. A ideia é o anúncio da situação (em sentido vertical do mirar o horizonte enquanto linha que espelha o infinito de perspectivas) e a situação a proposta da ideia (em sentido etimológico «aquilo que se põe à frente»).
Existem, pelo menos, três classes de ideias perigosas (senso comum) e todas elas têm por base uma matriz comum: a intersubjectividade.
Existe o sujeito que é a origem da ideia e o sujeito no qual a ideia faz eco enquanto deveria ser dele (a), poderia ser dele (b) e é nele (c). No primeiro caso e o mais comum – penso que não existe necessidade de efectuar um referendo para se saber «ab initio» que é assim – porque aquilo que o outro efectua é uma irrupção no tecido amorfo da mesmidade quotidiana e que dá origem ao diferente, de tal forma original e criativo que colide e ilumina as arestas a-limadas da minha existência. No segundo caso, temos a situação do «está mesmo debaixo da língua» e por muito que lá esteja, se não conseguimos verbalizar, fazê-lo exterior à interioridade do sujeito, a ideia é apenas uma possibilidade intencional – e como sabem, de intenções, boas ou más, está o inferno cheio delas; note-se que o inferno é a consciência ela-mesma e não qualquer zona geograficamente determinada por uma mundividência moral. O último caso, é uma raridade não só conceptual, mas sobretudo real; é a tal festa de exótica frequência que Deleuze refere. A ideia, original e criativa, de um sujeito poder «ser» noutro sujeito só ocorre quando sobrevém o que chamo de «estética dos idiotas»: somente através da noção de simetria ou proporção (seja do belo ou do feio) é que é possível evidenciar uma conexão entre «diferentes» (o sujeito e o outro).
Depois de tudo isto, ficam de fora os encadeamentos lógicos – caracterizados mais pela esperteza do que pela inteligência e, por isso mesmo, são enunciados vazios... – do que comummente se chama de «ideia» ou de «ter uma ideia», os quais soçobram perante a realidade pela pobreza miserável de sentido, mas que proliferam pela grandeza da humanidade demasiado humana.
o vento na tua sombra a desenhar o rasto de um passado sem cor.
tu desenhado no carvão da estrada. nas linhas da areia do deserto.
tua voz a guiar o meu corpo para um lugar onde só há restos. onde só há cinzas. onde só cabem as coisas que não se podem nomear.
as tuas mãos desafiam o ar na imperfeição dos gestos de fuga que evitas desesperadamente revelar. mas tudo em ti revela o incontornável. o indefinivel. o inevitável.
neste espaço resevado às sombras eu não tenho lugar.
há pessoas que não têm lugar aqui. nem ali. nem em sitio nenhum que possamos conhecer em pormenor. pessoas especiais, emagrecidas, violentadas, desfragmentadas, desencontradas, desesperadas, destranquilas, desmoronadas, desventuradas, descontroladas, desvirtuadas, descoloradas, desmoralizadas, desgovernadas, desdramatizadas, descarbonizadas, desregradas, despidas, detestadas, desgraçadas, destronadas...sem eira nem beira, sem ir e sem voltar, sem lugar, em trapézio sem rede, em mar sem maré, em rio sem corrente, em voo picado no desejo da gravidade. pessoas que não cabem nos lugares que formatamos, nos espaços que compactamos, nas redes que desenhamos. pessoas que não são daqui, não são dali, são de onde nunca conseguiremos chegar e as nossas mãos jamais poderão tocar a sua essência e contornar toda a sua inocência magoada...
podíamos ter a oportunidade de dizer adeus as vezes que fosse necessário dizer adeus como se a palavra adeus não tivesse a etimologia que tem e significasse apenas o que diz. adeus.
não que queira despedir-me de ti de cada vez que te encontro mas chega a ser algo muito parecido com isso. sim. com dizer-te adeus de cada vez que te despedes de mim nesse silêncio que só tu sabes dizer.
talvez queira mesmo é despedir-me de ti. não todas as vezes. apenas uma última vez. desta vez. porque agora já chegámos ao lugar em que eu já não te encontro e se te vejo não te sei e por isso não significa nada o que não dizemos um ao outro neste silêncio que nos violentou de todas as vezes. talvez seja isso. dizer-te adeus como se nunca mais a ti voltasse. era - talvez - isso que te queria dizer se te encontrasse hoje.adeus.
hoje é o fim não precisas de dizer nada. não precisas de olhar para mim hoje é o fim de ontem podes dizer que chegou o momento certo. porque é este o momento certo se não estivesse aqui estaria no deserto. tenho sede do deserto...tanta sede... se não estivesse aqui estaria no lugar certo.e não estou. podes dizer que é verdade. podes olhar-me nas costas. hoje é o fim daquilo que começámos há tanto tempo. chegou depressa. não demasiado. mas chegou e agora está à nossa frente tudo o que restou disso. cheira a restos. a fumo. a cinzas. cheira a ti derramado em mim e cheira a chuva. nas ruas já não há sangue. hoje não há sangue. talvez não haja mais do esta sinestesia de nós no fim das coisas. talvez não haja realmente nada de importante no fim das coisas. hoje é hoje e hoje termina o ontem e começa o que vem depois da noite. e nada disto tem qualquer importância porque amanhã vai estar tudo igual e não há nada que nenhum de nós possa fazer contra isso. deixa-me ficar aqui. o silêncio é mais fundo aqui. talvez consiga ver o deserto em mim. talvez consiga cheirar a areia e possa abandonar a chuva. talvez a noite não chegue a terminar e tu olhes de frente para o lugar onde eu já não consigo estar enquanto a tempestadde continua. e talvez...por uma qualquer possibilidade amanhã eu já não esteja aqui.