04/08/2019

LinHa

Comecei pelas linhas. Desci pelas letras até encontrar o poema. 
No poema tacteei as letras que perfazem teu nome. 
Pedi ao silêncio que te levasse ao princípio da linha. Segredei-lhe que o princípio da linha poderia ser a possibilidade do recomeço. Sussurrei-lhe que a possibilidade do recomeço poderia ser o meu princípio. 

Comecei pelas linhas mas terminei aqui. 

VeriTas

Estou despojado de fé. 

Tuas palavras seguram-me na face, prendem-me na vida.
Teu silêncio é como uma noite inteira que me beija na testa.
 Tua fé é tudo o que resta em mim quando tua voz me toca nas mãos.  

LeMe

Tua voz navega-me por dentro. 
Rasga-me do peito a certeza e, lentamente, retira e repõe fragmentos da minha inabilidade de ser mais para além de maré vaza. 
Navega-me por dentro como um barco sem leme, sem vela, sem mar, somente ao dispor do vento.
Sobe e desce na corrente que se ausenta de cada vez que tento tocar no tempo que se me esvai por entre os dedos magros da perfeita insanidade que me habita de perto.
Desce definitivamente na vertigem do abandono da terra em que fui teu porto, em que tu foste areia, em que fomos quase ilha.
Um barco que navega sem leme não tem lugar onde atracar. Não tem tempo para se encontrar. Não reconhece a madeira que o (des)faz. 
Tua voz é um lugar sem âncora numa maré irremediavelmente vazia.

Procurei por tudo o que escrevi na chuva da noite em que partiste. 





Não me encontrei em palavra alguma. 

29/07/2019

NamiB

Faz tempo que te não escrevo. 
Não que não haja sempre coisas por dizer. Não que me esqueça de ti. Não que me deixe perder no tempo que passa por mim. 
A verdade é que te não escrevo porque me assola a falta de ti. Porque meu caminho deixou de ser quando partiste e a verdade é que não me voltei a segurar. Agarro-me ao que podia ter sido diferente se ainda aqui estivesses. Como eu teria sido diferente. Como o lugar onde estou seria, tão provavelmente, um qualquer outro diferente. 
Faz tempo que te não escrevo porque me evito. Porque me cansei de estar aqui e não sei bem para onde seguir agora. 
Procuro por ti nas memórias que são cada vez mais ténues,cada vez mais difíceis, até dar por mim numa espécie de deserto, no namib, num lugar onde não há nada mas onde sei pode estar tudo. 
São já 18 os anos que conto aqui, em que tu estás já sem estares, e onde te sei para me evitar.
Faz tempo que me não escrevo.

25/04/2019

saPere

Estou a viver na aresta do tempo. Revejo-me nas partículas de pó. Encontro-me nos resquícios das folhas que se despedem do inverno. Sossego-me no aroma das flores que acordam nos amores das manhãs de março. 

Sei exactamente quem sou e depois disso sei absolutamente mais nada. 


diFerE

podia ter sido diferente
se minha travessia do deserto 
se tivesse transformado 
em mar
se teu mar
tivesse sido um pouco de 
duna.

podia ter sido um lugar 
diferente este
em que nos 
(des)encontrámos.



pAlaVra

Começo a tocar o vento com as palavras que leio nas tuas mãos. Respiro no silêncio com que tua pele me cobre e fecho os olhos sob o manto frio da madrugada. Existo para te saber. Respiro apenas para te sentir. Sou tudo o que resta da tua confirmação. 

Começo a tocar as palavras que o vento leva e que o tempo traz de volta aqui. Cada linha um recomeço. Cada letra uma certeza. Cada frase a essência da tua serenidade. 

Começo a tocar-te nos dedos até que todas as palavras sejam apenas tinta no silêncio que nos cobre. 

02/04/2019

mAlaCh

toco nas margens deste rio como se te tocasse nas asas. 
repito teu nome em silêncio. em segredo. para que ninguém possa, jamais, 
saber por onde espero. 
sinto a ponta de minhas asas já queimadas do fogo de ter já sido. 
poderei voltar a voar?
toco-te nas margens de ti até saber o rio. 
meço a distância que separa a terra e a água, 
água e horizonte,
    horizonte e eteriedade. 
sinto meu corpo abandonar o lugar e ser apenas tempo.
caminho a arrastar as asas cansadas mas não desisto de seguir. 
em frente. 
em direcção de ti. 
seguindo na linha que me separa do horizonte de ser o que está para além 
de mim. 
toco-te nas asas.
é aí que reconheço a margem certa do rio que desagua 
em mim.  

susPenso

Estou suspenso num pilar de ferro. Mãos a segurarem os cabos de aço que unem este ponto, que nos separam da queda.
Pés descalços a calcar o ar que ciranda por entre o frio do fim do inverno.
Estou suspenso em finos fios de aço que me atravessam por dentro e me seguram ao começo de mim. 
Ar e água. Por debaixo da minha nudez, só ar e água no vento frio do princípio da noite.
Seguram-me nas palavras que ouvi antes de chegar até este lugar, até este tempo que se encerrou por dentro do meu corpo. Como se estivesse parado. Como se a ambiguidade me tivesse rasgado a pele em duas partes. Uma mão a segurar no aço. Outra mão suspensa no vazio.
Que lado se escolhe?

20/03/2019

esPera

fico à espera embora não reconheça o que espero. a verdade é que não sou merecedor do que esperava que um dia pudesse chegar ao encontro de mim. 
não sou merecedor da tua misericórdia. da tua benevolência. da tua mestria. 
estou à espera de saber o que espero e não espero nada que possa ser enquanto esperar for apenas o que faço para ignorar tudo o que ficou por saber. 
espero para mais nada ter de esperar. para me iludir que não poderia ter feito mais. sido mais. construído mais. 
sei que não mereço nada do que espero e ainda assim mergulho de olhos abertos nas águas negras da minha devassidão a aguardar poder chegar a um qualquer porto. a aguardar atracar em lugar seguro. a aguardar ser o que fiquei por ser. 
não te mereço. nada do que podias ter guardado para mim, eu mereço. 
fico à espera. já não tenho muito mais tempo para absolutamente mais nada por isso escolho ficar a aguardar que o deserto termine. que as minhas chagas sequem por dentro. que minha alma se redima no silêncio secreto que existe por dentro de uma solidão consentida. 
aguardo até merecer chegar até mim. 

18/03/2019

lAbyrinThe

Não me apetece mover. 
Respiro com dificuldade. 
Esforço-me por manter os olhos abertos e o sangue a correr. Esforço-me até não poder mais. 
Contrario o movimento inteiro que a vida impõe sobre mim. 
Procuro escapar ao labirinto da minha essência para me transformar. Recomeçar. 
Falho. Repetidamente. Falho.
Arrasto a alma agrilhoada por entre uma existência que não compreendo. Arrasto-me no limiar das arestas até desfazer o corpo na certeza do abismo que me espera de seguida. Recomeço. 
Afogo-me em dúvidas para as quais tardo a encontrar respostas. 
Perco-me no caminho dos caminhos que me conduzem sempre ao ruído ensurdecedor do silêncio. 
Temo terminar sem ter chegado verdadeiramente, a ser. 

17/03/2019

doLore

A dor carrega-me em braços até ao fim da noite. Lancinante.  Dilacerante. A transportar toda a minha existência prévia em pó de cinza enegrecido. Beija-me a testa, os olhos, a face, os lábios, sem pedir. Sem piedade. Sem pudor. Desnuda-me até não conseguir distinguir meu corpo deitado sob o frio do fim da noite. Inebria-me. Até eu esquecer quem fui. Ilude-me. Até eu não saber mais o lugar onde fui. Evade-me de mim até eu, absoluta e definitivamente, desaparecer de entre mim. 

30/01/2019

T

"Terra
  sem uma gota
  de céu"

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, I

24/01/2019

PP

"há uma saudade que não é saudade porque fica dentro de uma despedida que é boa para as partes que se despedem." 

iLusAo

Silêncio
faz noite aqui
enquanto os pássaros dormem na quietude melancólica da maresia.
Silêncio
enquanto se despem as máscaras e se despojam as armas.
Silêncio
enquanto a vigília se apodera do que resta da minha exaustão e não consigo ver o caminho de volta ao segredo que faz magia em mim.
Silêncio
enquanto atravesso a madrugada a desejar ser sono e a não ser nada mais do que ilusão.

SaveUr

Sinto o sabor da tua boca na minha angústia. O sal da tua saliva na minha chaga. A ternura dos teus lábios na minha fealdade. Sinto como tuas mãos me atravessam a pele e o sangue e os ossos e o corpo inteiro até se desfazerem no interior de mim. Sei como teu corpo se entrega ao meu como se tudo no resto do mundo parasse, por esses breves momentos, e nada mais importasse existir para além do que te acontece em mim. Vejo como o teu silêncio se torna grito quando danças de frente para mim. Como teu caminho se torna destino quando caminhas até aqui. Como tua tristeza se torna vida quando te permites respirar. Como tuas mãos me segredam certezas sem que pronuncies uma única palavra. Sinto o sabor de teu odor na minha pele até que o dia se desfaça. Sei que tudo o resto pára quando terminas aqui.   

wIre

Crescem arames por dentro de mim. Enlaçam-me as veias e a pele e prendem-me ao chão. 
Crescem farpas e lâminas e ferro que me dilacera por dentro até não sobrar mais nada.
Sou como o negro do alcatrão nas estradas antigas que o tempo mastiga sem piedade até que os caminhos se intrinquem e se confundam e se repitam e se dispersem até à aniquilação. 
Crescem em mim certezas que não me cabem por dentro e que se apoderam do meu destino e me retêm prisioneiro deste chão. 
Sou arame em farpas na minha alma e não poderei, jamais, sair deste lugar. 

03/01/2019

seGreDo

Sinto tuas mãos segredarem-me na pele a tristeza que há no lugar em que te perdes. 
A certeza incerta que reside na presença de quem está quase sempre absolutamente ausente. 
Os navios apartam do rio. Faz frio na madrugada que me impele ao recuo e me impede a queda.
Coloco-te no lugar solitário que se reserva indefinidamente à imperfeita perfeição do silêncio que morre por dentro dos segredos. 

cOMo DormEm os pOmbOs

sento-me numa aresta da noite para saber o frio inteiro. tenho despidos os pés e as mãos.
sento-me no princípio da noite. a olhar o espaço que vai de mim até ao lugar em que finda o mundo. 
curvo-me sobre mim mesmo a contemplar a imensidão do vazio que subsiste dentro de cada aproximação à plenitude.
é como se faltasse sempre algo mais. qualquer coisa mais. uma inquietante imperfeita e interminável insaciabilidade.

cubro a pele das costas com as asas cansadas. escuras. feitas de pó e de luz. feitas de tudo e de nada. dos princípios e das coisas que terminam. das causas e das consequências. das feridas e dos sorrisos. asas cansadas mais ainda vivas, a pulsar por dentro, a saberem tudo por dentro.

oiço o canto da noite e permaneço imóvel, a perscrutar o sono, a evitar a vigília, a escutar-me, com todo o meu corpo curvado sobre as asas inteiras, imóvel, com os pés despidos a tocarem o arame, imóvel, em suspenso, apenas sobre um fino fio de tempo, sem temer a queda aberta sobre a possibilidade permanente de um abismo incomensurável.

sento-me como se navegasse o rio agora. suspenso no frio da madrugada. a evitar tocar as asas.em segredo. em silêncio. absolutamente imóvel como um pombo, sobre os arames da vida, coberto em si mesmo. impenetrável. seguro. como se nada pudesse, em momento algum, desfazer a sua serenidade cansada sobre as asas escurecidas na noite. 

é como dormem os pombos. assim permaneço eu. suspenso sobre um fino fio de vida.