07/08/2019

rEbElo

Estou a morrer, sabes? 
Ainda no outro dia toquei na morte. Segurei-lhe a pele da face com as minhas duas mãos. Toquei-a na ponta dos dedos, no âmago da alma. Senti tudo o que vivi na vida. Naquele momento a minha vida ficou imensamente grande num tempo imensamente insuficiente. Naqueles breves segundos  olhei-a de frente para me ver. A mim. Inteiramente a mim. Sem qualquer dúvida, sem qualquer anseio. 
Senti-me triste, sabes? Infinitamente triste. 
Pensei que fosse mais fácil partir. A verdade é que sinto que meu corpo me trai, me abandona, me encerra. 
A verdade e que me dói respirar, me dói não poder falar, me angustia que tu não me entendas. Queria poder explicar-te tudo, sabes? Dizer-te hoje que não entendo porque me sinto no limite do cansaço. 
Não precisas dizer que vai correr tudo bem, não precisas de dizer que tenho de parar de tentar dizer-te tudo. A verdade é que eu não quero parar, entendes? Não quero desistir. Estou assim, tão desoladamente triste porque o meu corpo se está a despedir de mim e está a levar-me aos poucos.
Sinto a minha mente a abandonar-me também. Compreendes como isto é uma traição? 
Consegues ver como tudo isto e uma injustiça? Não quero que consideres que não é justo eu morrer porque o é. É justo para todos nós. Nascer, viver, morrer. E eu tive a bênção de nascer, o prazer de viver e reservo-me no direito devido de morrer. 
Só queria que pudesse partir inteiro dentro de mim, sabes? Que tivesse as ideias no lugar certo, as mãos na dimensão certa, a alma na serenidade certa Consegues ver como já nada disso acontece em mim?
Queria dizer-te tudo isto e não posso. Meu corpo está a abandonar-me na alma e eu já não te consigo dizer nada. Nem pela voz nem pela tinta. 
Peço-te que fiques. Que não me deixes ficar só. Ninguém deve morrer a sentir-se só, sabes? 
Perdoa-me se te peço tanto. 
Queria partir comigo inteiro dentro de mim. Mas vou partir em fragmentos de mim. Pequenas partes que vão indo até que eu termine.
Preciso que fiques aqui para confirmares que todas as partes de mim me acompanham, compreendes?

06/08/2019

vAle

olha para mim.                                  sou o reflexo da tua sede.
repete as palavras da tua oração.   em voz alta.                      até que eu ouça.
canta para mim.              contra o vento que ecoa no primeiro rasgo da manhã.
diz-me tudo o que guardas por dentro da tua condescendência. até que eu entenda. 
senta-te no lugar onde começa o fim da noite.  sou o que resta da tua certeza.  
olha para mim. sou o reflexo da noite que amanhece na tua prece.
           

04/08/2019

auReo

Estou preso dentro do meu corpo. Não me consigo mover. De cada vez que me enfrento, perco. Cada luta que travo, por dentro, comigo aflito por dentro da minha pele, comigo perdido por dentro da minha ilusão, comigo escondido por dentro da minha solidão. Estou parado dentro de mim. Sinto o sangue a correr, a pele a respirar, a angústia a permanecer. Dói-me no peito e nos olhos a certeza incerta que tenho de mim. Receio partir. Temo cair num lugar de onde não consiga voltar. Esqueço-me das palavras, dos gestos, das vozes, das certezas. Esqueço-me de tudo quando a dor me ocupa por inteiro enquanto grito sem que ninguém me consiga ouvir. As paredes, aqui, nesta sala, demasiado brancas, demasiado frias, eternamente desprovidas de vida. Não me reconheço neste corpo que me aprisiona, nesta voz que me silencia de cada vez que tento cantar, nestas mãos que não tocam se não em ar e pó das paredes que ficam quando o dia termina. Pergunto como posso continuar quando tudo me impele à queda. Como vencer o cansaço que me devasta de cada vez que tento respirar. Estou infinitamente preso dentro de mim a ver-me partir. 

LinHa

Comecei pelas linhas. Desci pelas letras até encontrar o poema. 
No poema tacteei as letras que perfazem teu nome. 
Pedi ao silêncio que te levasse ao princípio da linha. Segredei-lhe que o princípio da linha poderia ser a possibilidade do recomeço. Sussurrei-lhe que a possibilidade do recomeço poderia ser o meu princípio. 

Comecei pelas linhas mas terminei aqui. 

VeriTas

Estou despojado de fé. 

Tuas palavras seguram-me na face, prendem-me na vida.
Teu silêncio é como uma noite inteira que me beija na testa.
 Tua fé é tudo o que resta em mim quando tua voz me toca nas mãos.  

LeMe

Tua voz navega-me por dentro. 
Rasga-me do peito a certeza e, lentamente, retira e repõe fragmentos da minha inabilidade de ser mais para além de maré vaza. 
Navega-me por dentro como um barco sem leme, sem vela, sem mar, somente ao dispor do vento.
Sobe e desce na corrente que se ausenta de cada vez que tento tocar no tempo que se me esvai por entre os dedos magros da perfeita insanidade que me habita de perto.
Desce definitivamente na vertigem do abandono da terra em que fui teu porto, em que tu foste areia, em que fomos quase ilha.
Um barco que navega sem leme não tem lugar onde atracar. Não tem tempo para se encontrar. Não reconhece a madeira que o (des)faz. 
Tua voz é um lugar sem âncora numa maré irremediavelmente vazia.

Procurei por tudo o que escrevi na chuva da noite em que partiste. 





Não me encontrei em palavra alguma. 

29/07/2019

NamiB

Faz tempo que te não escrevo. 
Não que não haja sempre coisas por dizer. Não que me esqueça de ti. Não que me deixe perder no tempo que passa por mim. 
A verdade é que te não escrevo porque me assola a falta de ti. Porque meu caminho deixou de ser quando partiste e a verdade é que não me voltei a segurar. Agarro-me ao que podia ter sido diferente se ainda aqui estivesses. Como eu teria sido diferente. Como o lugar onde estou seria, tão provavelmente, um qualquer outro diferente. 
Faz tempo que te não escrevo porque me evito. Porque me cansei de estar aqui e não sei bem para onde seguir agora. 
Procuro por ti nas memórias que são cada vez mais ténues,cada vez mais difíceis, até dar por mim numa espécie de deserto, no namib, num lugar onde não há nada mas onde sei pode estar tudo. 
São já 18 os anos que conto aqui, em que tu estás já sem estares, e onde te sei para me evitar.
Faz tempo que me não escrevo.

25/04/2019

saPere

Estou a viver na aresta do tempo. Revejo-me nas partículas de pó. Encontro-me nos resquícios das folhas que se despedem do inverno. Sossego-me no aroma das flores que acordam nos amores das manhãs de março. 

Sei exactamente quem sou e depois disso sei absolutamente mais nada. 


diFerE

podia ter sido diferente
se minha travessia do deserto 
se tivesse transformado 
em mar
se teu mar
tivesse sido um pouco de 
duna.

podia ter sido um lugar 
diferente este
em que nos 
(des)encontrámos.



pAlaVra

Começo a tocar o vento com as palavras que leio nas tuas mãos. Respiro no silêncio com que tua pele me cobre e fecho os olhos sob o manto frio da madrugada. Existo para te saber. Respiro apenas para te sentir. Sou tudo o que resta da tua confirmação. 

Começo a tocar as palavras que o vento leva e que o tempo traz de volta aqui. Cada linha um recomeço. Cada letra uma certeza. Cada frase a essência da tua serenidade. 

Começo a tocar-te nos dedos até que todas as palavras sejam apenas tinta no silêncio que nos cobre. 

02/04/2019

mAlaCh

toco nas margens deste rio como se te tocasse nas asas. 
repito teu nome em silêncio. em segredo. para que ninguém possa, jamais, 
saber por onde espero. 
sinto a ponta de minhas asas já queimadas do fogo de ter já sido. 
poderei voltar a voar?
toco-te nas margens de ti até saber o rio. 
meço a distância que separa a terra e a água, 
água e horizonte,
    horizonte e eteriedade. 
sinto meu corpo abandonar o lugar e ser apenas tempo.
caminho a arrastar as asas cansadas mas não desisto de seguir. 
em frente. 
em direcção de ti. 
seguindo na linha que me separa do horizonte de ser o que está para além 
de mim. 
toco-te nas asas.
é aí que reconheço a margem certa do rio que desagua 
em mim.  

susPenso

Estou suspenso num pilar de ferro. Mãos a segurarem os cabos de aço que unem este ponto, que nos separam da queda.
Pés descalços a calcar o ar que ciranda por entre o frio do fim do inverno.
Estou suspenso em finos fios de aço que me atravessam por dentro e me seguram ao começo de mim. 
Ar e água. Por debaixo da minha nudez, só ar e água no vento frio do princípio da noite.
Seguram-me nas palavras que ouvi antes de chegar até este lugar, até este tempo que se encerrou por dentro do meu corpo. Como se estivesse parado. Como se a ambiguidade me tivesse rasgado a pele em duas partes. Uma mão a segurar no aço. Outra mão suspensa no vazio.
Que lado se escolhe?

20/03/2019

esPera

fico à espera embora não reconheça o que espero. a verdade é que não sou merecedor do que esperava que um dia pudesse chegar ao encontro de mim. 
não sou merecedor da tua misericórdia. da tua benevolência. da tua mestria. 
estou à espera de saber o que espero e não espero nada que possa ser enquanto esperar for apenas o que faço para ignorar tudo o que ficou por saber. 
espero para mais nada ter de esperar. para me iludir que não poderia ter feito mais. sido mais. construído mais. 
sei que não mereço nada do que espero e ainda assim mergulho de olhos abertos nas águas negras da minha devassidão a aguardar poder chegar a um qualquer porto. a aguardar atracar em lugar seguro. a aguardar ser o que fiquei por ser. 
não te mereço. nada do que podias ter guardado para mim, eu mereço. 
fico à espera. já não tenho muito mais tempo para absolutamente mais nada por isso escolho ficar a aguardar que o deserto termine. que as minhas chagas sequem por dentro. que minha alma se redima no silêncio secreto que existe por dentro de uma solidão consentida. 
aguardo até merecer chegar até mim. 

18/03/2019

lAbyrinThe

Não me apetece mover. 
Respiro com dificuldade. 
Esforço-me por manter os olhos abertos e o sangue a correr. Esforço-me até não poder mais. 
Contrario o movimento inteiro que a vida impõe sobre mim. 
Procuro escapar ao labirinto da minha essência para me transformar. Recomeçar. 
Falho. Repetidamente. Falho.
Arrasto a alma agrilhoada por entre uma existência que não compreendo. Arrasto-me no limiar das arestas até desfazer o corpo na certeza do abismo que me espera de seguida. Recomeço. 
Afogo-me em dúvidas para as quais tardo a encontrar respostas. 
Perco-me no caminho dos caminhos que me conduzem sempre ao ruído ensurdecedor do silêncio. 
Temo terminar sem ter chegado verdadeiramente, a ser. 

17/03/2019

doLore

A dor carrega-me em braços até ao fim da noite. Lancinante.  Dilacerante. A transportar toda a minha existência prévia em pó de cinza enegrecido. Beija-me a testa, os olhos, a face, os lábios, sem pedir. Sem piedade. Sem pudor. Desnuda-me até não conseguir distinguir meu corpo deitado sob o frio do fim da noite. Inebria-me. Até eu esquecer quem fui. Ilude-me. Até eu não saber mais o lugar onde fui. Evade-me de mim até eu, absoluta e definitivamente, desaparecer de entre mim. 

30/01/2019

T

"Terra
  sem uma gota
  de céu"

Carlos de Oliveira, Trabalho Poético, I

24/01/2019

PP

"há uma saudade que não é saudade porque fica dentro de uma despedida que é boa para as partes que se despedem." 

iLusAo

Silêncio
faz noite aqui
enquanto os pássaros dormem na quietude melancólica da maresia.
Silêncio
enquanto se despem as máscaras e se despojam as armas.
Silêncio
enquanto a vigília se apodera do que resta da minha exaustão e não consigo ver o caminho de volta ao segredo que faz magia em mim.
Silêncio
enquanto atravesso a madrugada a desejar ser sono e a não ser nada mais do que ilusão.

SaveUr

Sinto o sabor da tua boca na minha angústia. O sal da tua saliva na minha chaga. A ternura dos teus lábios na minha fealdade. Sinto como tuas mãos me atravessam a pele e o sangue e os ossos e o corpo inteiro até se desfazerem no interior de mim. Sei como teu corpo se entrega ao meu como se tudo no resto do mundo parasse, por esses breves momentos, e nada mais importasse existir para além do que te acontece em mim. Vejo como o teu silêncio se torna grito quando danças de frente para mim. Como teu caminho se torna destino quando caminhas até aqui. Como tua tristeza se torna vida quando te permites respirar. Como tuas mãos me segredam certezas sem que pronuncies uma única palavra. Sinto o sabor de teu odor na minha pele até que o dia se desfaça. Sei que tudo o resto pára quando terminas aqui.   

wIre

Crescem arames por dentro de mim. Enlaçam-me as veias e a pele e prendem-me ao chão. 
Crescem farpas e lâminas e ferro que me dilacera por dentro até não sobrar mais nada.
Sou como o negro do alcatrão nas estradas antigas que o tempo mastiga sem piedade até que os caminhos se intrinquem e se confundam e se repitam e se dispersem até à aniquilação. 
Crescem em mim certezas que não me cabem por dentro e que se apoderam do meu destino e me retêm prisioneiro deste chão. 
Sou arame em farpas na minha alma e não poderei, jamais, sair deste lugar. 

03/01/2019

seGreDo

Sinto tuas mãos segredarem-me na pele a tristeza que há no lugar em que te perdes. 
A certeza incerta que reside na presença de quem está quase sempre absolutamente ausente. 
Os navios apartam do rio. Faz frio na madrugada que me impele ao recuo e me impede a queda.
Coloco-te no lugar solitário que se reserva indefinidamente à imperfeita perfeição do silêncio que morre por dentro dos segredos. 

cOMo DormEm os pOmbOs

sento-me numa aresta da noite para saber o frio inteiro. tenho despidos os pés e as mãos.
sento-me no princípio da noite. a olhar o espaço que vai de mim até ao lugar em que finda o mundo. 
curvo-me sobre mim mesmo a contemplar a imensidão do vazio que subsiste dentro de cada aproximação à plenitude.
é como se faltasse sempre algo mais. qualquer coisa mais. uma inquietante imperfeita e interminável insaciabilidade.

cubro a pele das costas com as asas cansadas. escuras. feitas de pó e de luz. feitas de tudo e de nada. dos princípios e das coisas que terminam. das causas e das consequências. das feridas e dos sorrisos. asas cansadas mais ainda vivas, a pulsar por dentro, a saberem tudo por dentro.

oiço o canto da noite e permaneço imóvel, a perscrutar o sono, a evitar a vigília, a escutar-me, com todo o meu corpo curvado sobre as asas inteiras, imóvel, com os pés despidos a tocarem o arame, imóvel, em suspenso, apenas sobre um fino fio de tempo, sem temer a queda aberta sobre a possibilidade permanente de um abismo incomensurável.

sento-me como se navegasse o rio agora. suspenso no frio da madrugada. a evitar tocar as asas.em segredo. em silêncio. absolutamente imóvel como um pombo, sobre os arames da vida, coberto em si mesmo. impenetrável. seguro. como se nada pudesse, em momento algum, desfazer a sua serenidade cansada sobre as asas escurecidas na noite. 

é como dormem os pombos. assim permaneço eu. suspenso sobre um fino fio de vida. 

19/12/2018

pRaça

Respiro a humidade que abraça a noite. Penso em ti. Em mim. No que ficou por saber.
O tempo foi a lâmina que se atravessou no caminho que nos uniu. Que nos despedaçou. Que nos cravou na pele o nome de cada uma das angústias que nos definiu. 
Sinto como o frio te atravessa a pele. Sentado no jardim. A escutar o silêncio que chega quando a noite cede ao peso do mundo. Tu e eu sentados de costas, com o jardim a desvanecer na memória que nos veio a atraiçoar.
Somos lágrimas feitas da mesma areia. Areia caída do mesmo deserto. Deserto sabido em cada alma. 
Somos o mesmo lugar sem lugar. O mesmo tempo sempre sem tempo. O mesmo espaço por completar.
Tu e a sombra de mim defronte das árvores cansadas do inverno. À espera de um milagre. À espera de uma nova noite.
Eu, de frente para ti, sem que me vejas. Sem que me oiças. Sem que te apercebas que, na verdade, nunca saí do mesmo lugar. 

09/11/2018

Mapa Mundi _ mais ou menos isto

"o amor não é compaixão
o amor não é comiseração
o amor não é dedicação

o amor é franqueza
o amor é disponibilidade. 
e é tudo. "

"Mapa Mundi" - teatro
Companhia Maior
CCB

in(F)Verno

Há um odor a desenhar-me o abandono por dentro da alma. Cheira a cinzas e a morte. Sabe a fel e a desamor. Sabe ao desespero que vem quando o inverno queda sobre os ossos da terra. Há um sabor a dissolver-me por dentro enquanto a náusea me acaricia, enquanto as vísceras me atormentam e se elevam até à língua para depois cederem à gravidade que me empurra de encontro ao húmus. Sou como uma folha de plátano esquecido na rua deserta a apodrecer na chuva que parou de cair. Sou, neste exacto momento, o lugar onde reside o sofrimento inteiro enquanto as paredes se encerram. Sobre mim. Enquanto me dilacero nas tuas palavras. Enquanto me assassino na tua angústia. Enquanto o teu desespero me encurrala e o meu me faz cair. Há um desenho a abandonar-me no odor da terra. O desenho de meu corpo a desaparecer angústia de ser eu, aqui, agora, a saber que a vida está no fio ténue de uma linha de seda que este in(f)verno vai fazer, em breve, desaparecer. 

05/11/2018

aBandOno

Toca-me. Na pele. Devagar. Sem pressa. Na ponta dos dedos. Lambe-me. A pele. Sem tempo. Na ferida aberta. Segue-me. Sem correr. Na ferida do tempo. Sente-me. Sem temer. Na esperança de recomeçar. Guarda-me. Sem creres no milagre que te abençoa. Desfaz-me. Sem amor. Até te saberes em chaga. Guarda-me. Na escuridão da noite. Até te saberes perdida. Perde-me. Para sempre. No dia em que me conseguires deixar. Toca-me. Na pele. Até poderes partir.

ad EterUm

Esperei como se esperar fosse tudo o que podia fazer.
Esperei como se parar fosse apenas o que podia querer. 
Esperei como se chover fosse a única possibilidade.
Esperei como se fosse um não lugar.
Esperei como se esperar fosse tudo o que poderia ser. 
sou o lugar em que te moves
                                                  sem medo
o espaço em que te encontras
                                                  sem tempo
o momento e que sangras
                                              sem segredos
o tempo exacto em que paras para respirar

cisNe

Sento-me na beira do monte a ver a chuva cantar. A terra húmida sobre os dedos, o céu em pranto e eu a parar. Sento-me na beira de mim enquanto o monte cessa de dançar. Morrem as flores e os pássaros. Canta um cisne que só a mim é permitido ouvir. Sento-me na chuva que não cessa de cair até encontrar o abismo aberto em mim - cheio de terra por dentro, lodo e lama e húmus - e choro sem parar até aí por dentro me deixar cair. 

inoMinávEl

Há um lugar em que não te encontro. Vejo-te mas não te sei. Sei-te mas não te toco. Toco-te mas não te sinto. Sinto-te mas tu não estás. 
Há um lugar em que quedas infinitamente longe e onde eu não consigo - jamais - chegar.
Há um lugar em que não é possível eu existir contigo. Não lhe sei o nome. Não lhe encontro a origem. Desconheço como lá chegamos mas sei, como se sabem todas as coisas que queimam a alma por dentro, que é ao lugar a que este caminho nos conduz.

qImEra

pensei que podia olhar-te nos olhos sem ter medo. que podia falar-te no tempo sem ter pressa. que podia juntar as palavras mesmo sem tinta.
pensei que podias ser o lugar em que o tempo cessava e recomeçava a contar. que pegava nas peças e reconstruia os lugares. que pegava nas asas desfeitas pelo pó e retomava o voo.
pensei que serias o lugar onde me encontrava depois de me ter perdido. o espaço que me recebia sem me ter. o tempo que me sabia sem me saber.
pensei que podia olhar-me nos olhos sem ter medo. que me podias falar sem que o tempo terminasse.
mas não chegou o tempo
e o deserto não me devolveu ao caminho 
e a quimera desfez-se.

cAsa

seguras o silêncio que se apodera da casa quando ninguém está por perto. ficam os fantasmas a deambular nos espaços vazios a insistir nas memórias, a recriar os lugares antigos.
guardas o que esperas que não regresse a ti no lugar mais antigo a que consegues chegar e disfarças a tua existência com o que fica ainda por vir.
deixas-te seduzir pela tua distância até poderes esquecer que existes aqui.
desapareces, lenta e minuciosamente, enquanto a casa adormece nos braços dos que partiram na distância e se mantêm esculpidos na tua melancolia.  

oPositE

Troquei tuas mãos pelo asfalto.
Fui à procura da chuva quando o vento te trouxe do deserto e parti na direcção oposta
- não - 
errada
- não - 
oposta.
Troquei tua morte pela minha exaustão
- não - 
pela tua solidão
- não - 
pela minha eterna aniquilação. 
Perdi-me do caminho.
Perdi-me no deserto que havia dentro de ti
- e agora - 
não posso mais regressar.

19/09/2018

juNho

dispo-me da angústia enquanto sangro por dentro dos teus dedos.
cais como chuva sobre minha pele. 
guardo teu odor dentro da minha alma e por dentro de minhas mãos até o dia terminar de existir por entre a memória-cada vez mais vaga - que sei ser a imagem de ti.
dispo-me de todas as imagens enquanto escorrem meus dedos na chuva do teu sangue. 

17/09/2018


rasga-me na chuva até não soçobrar nada que seja audível

fOliE

toco-te na ponta da língua.
levo os dedos até ao fim do teu delírio e quedo.
há um vazio incomensurável dentro deste teu innuendo
um abismo que te separa do lugar onde eu consigo ser o que posso ser.

toco-te na ponta dos dedos
lambo-te a pele até te desfazeres em pó, até te aniquilares em cinzas, até te encontrares inteira. de verdade.
c'est solement la folie.

c'est toi qui va dancer sur la nuit et sous cet oubliance
c'est moi qui est en train de disparaitre a cause de mon angoise.


je vais rester sur le chemin que je connais. je te vais laisser partir, a ton vide, sur mon abime, jusqu' a la folie que reste en moi. 
a verdade é
que vai sobrar muito pouco de mim
quando tu chegares ao fim

16/09/2018

esTrAda

Começo a caminhar sem ter nenhuma intenção de parar. A pele de meus pés geme sobre o asfalto enquanto o verão devora a estrada. Finjo não ouvir. Escolho não sentir.
Começo a correr a tentar desafiar o vento. Falho. Necessariamente que fracasso. Reduzo o passo. Retomo o caminho na lentidão da dor que ignoro. Carrego no peito a certeza de que não chegarei a lugar algum. Carrego-me na certeza irredutível que não tenho mais lugar aqui. Consola-me saber que posso não chegar. Que me permito não chegar.  Que escolho continuar a andar sem ter onde chegar. 
Espero que as chagas me ocupem o corpo inteiro. Que o sangue jorre até findar. Que minha pele se desfaça na estrada, até não sobrar nada de mim.
Continuo a caminhar até que a estrada tenha, sem si mesma, um fim. 

UltIma

Ouço o canto negro das gaivotas. Cheira a morte. À impossibilidade do retorno. Como se a morte fosse o lugar final. O último reduto. Igual para todos, sem excepção.
Meu corpo não se move. Desde há horas que não me consigo mover. Sei que ainda respiro. Que ainda respiro por dentro. Mas nada em mim se move. 
Tenho os olhos fechados e as mãos abertas. Espero que tudo aconteça. Espero que tudo ocorra fora de mim. Para eu não saber. Para não sentir. 
Ouço o canto negro por dentro de mim. Num bater de asas. A abraçar-me na voz. A tocar-me na alma. A invadir-me na pele. A agrilhoar-me no respirar. 
Tudo acontece, afinal, em mim. Por uma última vez. Agora que não me consigo mover é que tudo acontece em mim. Como se não houvesse outra forma. Como se deus não tivesse outra forma de me dizer que já não respiro por dentro e que tudo me chegou, num só canto, às minhas mãos abertas. Pela última vez. 

28/08/2018

cOmo Se

O tempo escorre-me na pele. Secam os lábios e os dedos no calor da insanidade. Perco-te no momento exacto em que te sinto. Perco-me na certeza de não haver retorno desta levada. 
O tempo chove-me nos dedos e no pensamento. Corro atrás de ti como se fosse a última possibilidade de te perder. Como se não houvesse alternativa e tudo se tornasse a razão única de ter chegado até aqui. 
Escorre o tempo por dentro de mim enquanto morro lentamente. Seca-me a alma no momento em que te perco em definitivo e o tempo se torna uma parte inteira da chuva que me ensandece.

cOrpUs

Meu corpo é o lugar em que respiras. em que retomas o lugar da queda sobre o teu abismo. em que te reencontras. em que te esqueces, 
por um momento efémero,
do que és antes de chegares aqui.


mAio

navegas-me na pele até eu ser só sangue.

desfazes-me no tempo até eu ser só tinta.

arrasto-me no lugar de ti até eu ser só pó.

ficas a inundar-me a alma até eu ser só angústia.

16/08/2018

NieNte

Não te reconheço no lugar em que o abismo que se abre entre o que somos me conduz ao delírio.
Escrevo as linhas que se apagaram de minhas mãos. Escrevo nas mãos que desapareceram nas linhas em que me esculpi até ser.
Não conheço este lugar de não encontro entre meu caminho e o teu. 
Não me reconheço no que é esperado de mim e não sei como ser de forma a que eu não aconteça desta forma em mim. 
Quero erguer-me sobre as labaredas do que se arrasta na minha mágoa até terminar em cinzas por sobre a terra molhada. 
Não te reconheço no lugar que resta na angústia de ser o que sou e não escrevo as palavras que podiam caber nas linhas em que desapareço.

29/07/2018

desenho-te na linha do vento. junto ao mar.
procuro encontrar a razão do momento exato em que me viste nos resquícios do que sobrava de mim.
senti o silêncio inteiro dentro da tua voz e tudo o que era o resto do mundo cessou de existir.
guardei na ponta dos dedos a memória do teu lugar para nunca me perder de mim.

soLitudiNE

desvaneço no canto triste de uma gaivota enquanto a manhã é ainda deserto
Sento-me numa aresta do tempo a imaginar o por vir.
Não espero que nada me dilacere.
Não temo o vento que me leva sobre asas sem conhecer, ao certo, o chão do meu caminho.
Vejo tudo o que o acontece em mim tão claramente como se voasse sobre a água.
A praia está deserta de memórias de mim e sou eu quem a desenha nas linhas do horizonte que cabe, por inteiro, nas minhas mãos abertas.
Inalo o sabor do tempo enquanto defino, de novo, um sentido para continuar.
Permaneço no lugar exato em que me encontrei e remeto a escuridão para o silêncio que se entrega às coisas que não sabem ser livres.
Evado-me no ruído dos outros e encontro tudo na liberdade que abraça o meu único segredo.
Desfaço-me do que fui antes de ser aqui.
Despojo-me do que resta de tudo o que não me toca.
Guardo na memória o momento exato em que tudo mudou por dentro e o mundo inteiro se tornou um lugar que só eu conheço visceralmente.
Talvez tenha construído um lugar que me sustêm nas madrugadas em que a noite me conduz tão lentamente que demoro a sentir que o deserto terminou. Mas sento-me na linha do horizonte e não temo nada do que me espera a seguir.

28/07/2018

Tocas-me na voz ate me encontrares inteiro nos fragmentos da minha tão breve existência

13/05/2018

és poema que nasce 
e desaparece

que se faz
e me desfaz

que começa no lugar exacto
em que tudo pode terminar

e que termina no momento
em que a chuva cessa de chorar.

beAst

Sento-me no silêncio escuro a ouvir a besta que respira dentro de mim.
como um lobo ensandecido. como um demónio.
como uma tempestade em que navego até me afundar por dentro.
Sento-me no escuro a mergulhar por dentro do silêncio até que nada aconteça dentro de mim.
Choro em silêncio o mar inteiro onde naufrago 
em silêncio. por dentro. no escuro. 
a tentar silenciar a besta que vive em mim e me dilacera sem piedade.

pRantO

é meu pranto que o sal das ondas esconde quando a praia inteira está a arder.
estou a arder.
por dentro.
a chegar às cinzas.
de novo.
perdi-me no caminho. 
de novo.
agora ardo como se morresse, choro como se me desvanecesse em sal, canto como se fosse hoje
a última vez.

21/02/2018

Seguro-te na tristeza que chega com os dias do fim da chuva.
Ouço-te no pranto do vento quente que nos persegue nos sonhos cansados.
Escrevo-te nas letras que se escondem no silêncio que grita por dentro da distância em que nos perdemos do Norte.
Seguro-te na chuva triste que segreda teu nome até não ser possível gritar mais.

18/02/2018

Ici

dou 
por
mim
a
procurar
por
ti
dentro
da
minha
solitude
enegrecida.





até sangrar.

AnGelus

Fecho o olhar sobre a tua pele. Sei quem sou quando existo em ti, quando respiro em ti, quando me vejo no teu olhar. Fecho a minha pele sob o teu olhar e sei o mundo inteiro a acontecer por dentro de mim. Sei exactamente quem és  quando me seguras por dentro até te recordares que tens de me deixar seguir.

11/11/2017

suNset

Cesso. 
Termino.
Recomeço. 
Respiro. Inalo a maré inteira. De pele descalça sobre a água gélida, tremo.
Renasço.
A areia por dentro da sombra e do sangue.
Reacendo.
Olhos fechados a ver tudo por dentro. Espaço. Tempo. O que foi. O que há de vir. Onde estou. O lugar de mim. O espaço que ocupo por dentro da alma incendiada. 
Renasço das cinzas. 
Sinto o sabor acre da minha desilusão dentro da boca, dentro da pele, inteira dentro de mim, a escorrer-me no peito, a salgar-me as palavras.
Daqui a pouco cai a noite sobre mim. Mas talvez já não seja importante, não agora. 
Ao fundo, escuto vozes que se perdem no vento frio de outono. 
A luz atravessa-me inteiro.
Espero.
Reponho a angústia no lugar certo. 
Esqueço.
Esqueço-me.
Perdoo-me.
Sinto o frio nos pés que caminharam esta vida por inteiro.
Recordo os gestos.
Reponho, mentalmente, as imagens do caminho.
Invade-me a certeza absoluta da minha solidão imensa. 
Evado-me no bater das ondas.
Renasço.
A areia a doirar na queda da tarde e o frio a crescer por dentro deste abismo.  
Esqueço-te.
Solto as palavras com um lápis de carvão e compreendo, finalmente compreendo, que não preciso ser mais do que isto que reside inteiramente em mim. 
Temo que o sangue cesse de respirar. Preciso mais tempo para descobrir o que falta. Para encontrar mais um caminho. Para desfazer uma solidão mais clara. 
Escuto o embater das ondas na areia e é o som das coisas tristes.
Recomeço.
O mar inteiro repete o meu nome e eu escuto por dentro. De olhos encerrados por dentro.
Respiro.
Esqueço. 
Perdoo.
Recomeço a partir do silêncio que faz dentro de mim. 

j'attend

Aguardo cada pormenor do dia para te encontrar.
É nos detalhes mais ínfimos de tudo o que faço o lugar em que te encontro. Quando menos espero. Quando menos quero. 
Sei-te como se sabem as feridas que não saram nunca. 
Escuto-te como o silêncio que me invade a noite.
Guardo-te como se guardam as coisas mais sagradas.
Queimo-te para que te desfaças de mim e não regresses aqui, nunca mais. 

24/10/2017

16/10/2017

Preciso falar-te. Ouvir-te na voz. Sentir-te na pele. Saber-te por dentro da alma.
Preciso escutar-te. Saborear-te nos silêncios intermináveis. Roubar-te a essência nas palavras sorridas. Perscrutar-te por dentro até encontrar a paz.
Preciso saber-te no lugar em que me desfaço. Sentir-te onde a angústia pode terminar. Guardar-te num lugar sagrado. 

14/10/2017

Não me sinto no lugar que ocupo.
Não me reconheço nesta dor, nesta angustia.
Não me sei quando me toco.
Comecei no lugar exacto do fim e não consegui avançar nem um passo.
Balanço na corda que divide o mundo de dentro e tudo o que sucede aqui e não consigo atravessar.
Sofro no silêncio dos deuses as coisas todas que não posso contar.
Estou inteira e absolutamente só.

13/10/2017

cai sobre ti o meu pensamento. pergunto-me o que pensas neste momento preciso e onde caem os teus sonhos e a tua confusão.
vejo-te a sorrir pela névoa das lágrimas que abraçam a noite e fecho os olhos por dentro. quase que te sinto por dentro.
escuto os movimentos da noite sobre a cidade enquanto anseio que o silêncio se instale aqui.
fico atento a todos os movimentos e a todos os gestos de todas as sombras até chegar a ti.
penso-te. penso em nada. penso no vazio que te incompleta e na solidão imensa que te atormenta.
aguardo até ouvir a tua voz na cidade emersa no silêncio que faz por dentro da noite que reside eternamente em ti. 

10/10/2017

Sento-me no lugar mais escuro que encontro por dentro e espero.
Tento acalmar o pensamento entorpecido pela sucessão interminável de imagens erradas.
Respiro fundo.
Conto até não me lembrar mais dos números, até ficar sem poder respirar.
Sento-me no lugar mais fundo de mim e espero.  

29/09/2017

en passant

Perscrutei todas as memórias antigas. Senti-me por dentro, como antes, no teu corpo.
Deleitei-me com as angústias esquecidas. Deixei-me ficar.
Deixei-me sangrar. Vazei-me de intenções e de realidades e silenciei a dor.
Terminei por aqui.
O passado é o lugar reservado ao que não consegui guardar.
Senti-me por dentro até desaparecer no pó.

27/09/2017

bellow

"Há pessoas que não podem esperar para se verem livres de si próprias, enquanto outras não aceitam deixar partir ninguém."

Saul Bellow
Morrem Mais de Mágoa
Quetzal
2010
pp 416

jaNela

Queria ouvir-te dizer meu nome. Queria ver-me na tua voz, nas tuas mãos, no tempo que fica entre o lugar de aqui e o lugar em que te deixei.
Havia uma janela e a tua imagem por detrás da sombra. Olhos vazos. Corpo desprovido de sentido. Pele sem pele. Desnudado perante o frio que faz na montanha em que ascendo até me desfazer em cinzas.
Guardo o tempo na certeza de que não vou poder voltar a ti. O nosso tempo terminou.
Resta-me, agora e apenas, esperar o momento em que te vou reencontrar. Em que te vou poder escutar e em que a tua solidão poderá abraçar a minha da mesma forma de antes.
Vou esperar que não partas antes de regressares até ao lugar que és em mim.

26/09/2017

maR

penso na forma como te moves.
como falas.
como o silêncio te preenche nos espaços vazios.
pego no gesto que tenho memorizado na minha pele e quase que te sinto na voz.
conto os passos que me levam de encontro ao mar e espero o momento certo para parar de respirar.

27/08/2017

obliVio

quero dizer-te que nesta praia onde nos esquecemos de ter sido, fomos tudo o que podíamos ser. mais não teria sido possível.
o mar leva o que resta do que ficou por dizer.
podes até ter esquecido os traços do meu corpo, mas jamais poderás esquecer as cicatrizes do que lhe infligiste ao longo de todos estes anos.
agora está tudo em ruína. agora está tudo a respirar sal pelas feridas e a ceder à lei da gravidade que o tempo comporta por dentro da vida. agora tudo apodrece e se desfaz nas nossas mãos.
quero dizer-te que é o mar que leva as palavras e me afoga. quero dizer-te que o tempo deixou tudo por dentro de minhas mãos e sou eu agora que ruo perante as cicatrizes de minh’alma e perante a memória do que foste.

Oblívio tudo o que jaz perante a luz morna desta lua de outono e entrego-me à certeza de que não posso ser mais do que o pó apodrecido desta praia ferida. 

distÂncia

sinto-te na ausência mais próximo do que alguma vez antes. 
penso no que pensarás agora que o silêncio se instalou aqui e eu já não posso falar mais. 
penso no que te assola a vontade agora que a agonia começou a desaparecer. 
diz-me o que fica entre estes vales e não chega ao rio. diz-me o que repousa sobre as cinzas da terra e sobre o fogo do teu olhar. diz-me como fazes para superar a tristeza que vem quando se perde o lugar certo. ensina-me a estar nesta distância. 
o silêncio atravessa-me no tempo antes do sino tocar. ergue-se a igreja de frente para um céu que não vejo inteiro. que não sei completo. que desconheço onde termina.
em frente há tudo sem haver nada. uma descontínua continuidade de qualquer coisa que ainda não sei bem o que é, o que será, o que poderá vir a ser.
seguro na ponta dos dedos a esperança. inalo no fumo a instabilidade que chega com o desconhecido de nós. confronto-me com o pó dos dias e a névoa que caiu sobre este espaço.
seguro o silêncio na ponta dos lábios enquanto aguardo as palavras certas.

23/08/2017

fiNe

procuro as palavras para te dizer que agora já não regresso aqui. 
procuras os gestos para me mostrares que tu permaneces. aqui.
como se dois caminhos não chegassem nunca ao mesmo lugar.
como duas linhas paralelas que nunca se tocam no mesmo ponto. 
assim ficamos nós. 
como se tudo o que foi já não tivesse espaço para ser mais. 

podemos terminar aqui. 

21/08/2017

dEstitueEre

Sinto que não sei dizer o que sinto. Não sei sentir o que sinto. De cada vez que te ouço. De cada vez que as palavras que dizes me atropelam por dentro e eu deixo de sentir. De querer sentir. Sinto sem sentir. Sem poder sentir. Sinto sem saber que sinto. Não quero sentir e por isso encerro-me sobre a ausência de mim mesmo e espero. Pego nas minhas mãos em silêncio e seguro-me por dentro. São finos fios de seda que me seguram por dentro. Sinto que sei que sinto o que não sei que sinto mas que sinto sem saber como sinto, onde sinto, porque sinto e sinto que não sei sentir como se sentir não fosse mais do que a própria existência em si e se eu não sinto talvez eu não exista e tudo aconteça aqui sem que eu faça realmente parte seja do que for desta confusa circunstância em que me encontro. Sinto que não sei sentir e sinto o vazio da existência inteira que se ausenta do interior de mim. Fico destituído de quem sou de cada vez que me penso e que me confronto comigo e deixo de querer sentir. Sinto que há pouco a que me segurar de cada vez que me permito sentir. Como se sentir não fosse mais do que o acto de morrer em agonia. Guardo-me. Escudo-me. Escolho parar. Tenho as mãos em silêncio e o pensamento em fuga. Não sei onde estou. Acordo suspenso na memória do que fui e onde estive antes de chegar aqui. Surpreendo-me quando meus pés tocam neste mesmo chão e desperto para o que me espera no caminho. Não me encontro em nada do que dizes. Tuas palavras são lanças projectadas sobre a minha incapacidade de ser mais, de sentir mais, de querer mais. Confundo-me e divido-me. Atropelo-me e desfaço-me na estrada em que começo agora a caminhar. Olho em frente e procuro encontrar algo a que me possa agarrar sem ter medo de me perder. Pego no silêncio que resta em mim para recomeçar a sentir. A sentir que posso sentir sem medo do que posso sentir. Sem me confundir. Pego na ausência de mim e sinto que posso começar. De novo. A sentir-me. 

16/08/2017

aGony

Tenho medo do que sinto. Não sei descrever o que se passa dentro da minha interpretação do que acontece em mim hoje. Confundo-me nos sons e nos olhares. Cesso. Espero. Perco-me nas mãos e nos corpos. Procuro por ti no meio das multidões e do fumo. Procuro por mim por dentro até que me afogo. Espero. Recomeço. Sinto o ar desaparecer por dentro. Tudo por dentro. Como se mais nada existisse. Como se mais nada pudesse ser depois disto. Esvazio-me por completo e não compreendo o que me assola. O que me agoniza. O que me aniquila. Procuro-te no meio da multidão e encontro-me, sozinho, suspenso no tempo, a olhar para um lugar vazo de sentido, na esperança eterna de que amanhã possa ser menos difícil estar aqui. 

15/08/2017

NightiNgale

Sento-me na pedra da janela a sussurrar a solidão. A noite abraça-me na sua pele quente e tremo. Pego nos fios do tempo suspenso entre o que foi e o que me espera e entranço-me na certeza de que o tempo não vai chegar.
Tenho os pés sujos de tanto caminhar descalço. Tenho as mãos feridas de tanto tactear o espaço que vai deste lugar que agora ocupo, até ao lugar que reservei ao meu fim.
Sinto o corpo ficar dormente. Sinto a boca a secar nas palavras enroladas, inventadas, perdidas, fundidas e as esquecidas. Sento-me à janela enquanto o fumo se dissipa no ar e entra na minha pele. Cheira a noite e a solidão.  Tudo sabe a acre e a desilusão. Tento falar mas guardo-me em silêncio. Não há ninguém a ouvir.

Cheira a solidão o abraço da noite de hoje. Sabe aos fios do tempo que se enlaçam e se desfazem e se aniquilam como se mais não fossem do que um sussurro a desaparecer no lugar reservado às coisas que permanecem na ausência. 
Sento-me na noite e aguardo o momento em que me desfaço no ar. 

nAuseaR

doí-me no corpo a desesperança. 
em todos os gestos, minha ideia de mim desfaz-se no ar.
tenho pouco que esperar deste lugar. pouco por que aguardar. 
tenho a náusea a navegar-me a alma. a segurar-me na pele. a dilacerar-me por dentro. 
reside uma quase total inexistência e mim. um pensamento único invade-me cada momento do tempo e furta-me o espaço de outro caminho.
tremo de frio enquanto lá fora não chove e tudo parece arder. 
estou a desfazer-me por dentro. doí-me a náusea inteira dentro de mim.

4 waLLs

Há coisas que se movem dentro de palavras e dentro de movimentos que se repetem dentro de mim ate à exaustão. Que se repetem até à minha decadência. Palavras e sentimentos que não se podem organizar. Olho-me no espelho e não me reconheço. Penso que estou a morrer nos momentos em que o mundo inteiro me diz que estou vivo. Acredito que estou vivo quando o mundo inteiro entende que morri. Sou o que começa e acaba sem ter chegado a ser. Sou o lugar de partida, a meta, o percurso que vai daqui, deste lugar que me parece que ocupo, até um qualquer ponto em um qualquer lugar onde seria suposto eu chegar. Perdoa o meu desconforto, mas não me encontro. Nem aqui nem fora de mim. Nem neste lugar nem em nenhum outro. Há movimentos que se perpetuam dentro do que penso. Coisas que me tocam, onde eu chego com a ponta dos dedos. Coisas que e fogem e que não recupero se não cair mais fundo no abismo que se abre ininterruptamente em mim. Coisas que me definem e que em mim definham. Coisas que começam. Outras que terminam. Outras que ficam a meio caminho entre mim e o resto. Um intermediário interminável e intransponível. Um homem sentado numa cadeira dentro de quatro paredes que se tocam apenas com a pele, que se lambem com o respirar, que se encerram na voz, que definem o tamanho de dentro da minha solidão. Sou o poema e a sua antítese. Sou a teoria e sua falha. Sou a constelação e a estrela que queda e se desvia. O fogo e as cinzas. O deserto e a mar. E tudo acontece em mim a uma velocidade incontrolável e com uma força que apenas parece inabalável. Sou a sombra e a luz. A noite e a alvorada. O meio do caminho. Não chego a partir nem chego a chegar. Há coisas que se movem dentro de mim em palavras que eu não conheço, de lugares que eu não compreendo completamente e que me conduzem eternamente a uma exaustão abissal na mais profunda das solidões possíveis.  

14/08/2017

sanGre

Caminhei descalça no asfalto quente até não poder mais sentir. 
Peguei nas palavras todas que dançavam dentro do meu pensamento e deixei-as no lugar reservado às cinzas. 
Viajei por dentro até embater numa parede inominável. Perscrutei o espaço onde o deserto se instalara e ouvi tudo o que me dizia o silêncio que me dilacerava a pele. 
Caminhei por dentro do meu pensamento até sangrar. 

Respiro pesadamente
aqui
onde o tempo não permanece 
aqui.

Respiro imensamente
enquanto procuro
sem procurar
o lugar onde
por mais uma vez
me esqueci.
aqui.

Não pertenço 
a este lugar
de aqui.

Respiro liminarmente
aqui
onde uma ultima vez
me perdi. 
De aqui. 

siLênCio

Seguro nos dedos o silêncio.
Lá fora, tudo permanece num movimento incessante.
Ouço tudo  que acontece fora de mim. Tudo o que permanece fora de mim.
Fecho as mãos sobre os dedos.
Silêncio.
Abro os olhos para me saber vivo. Seguro-me, imutável.
Inalo o ar pesado da tarde ardida em labaredas que não cessam nunca. Limpo as cinzas do cabelo e desfaço-me por dentro.
Seguro o  silêncio na ponta dos lábios. Não digo o que sinto. Não me sinto no que fica por dizer.
Há granito nas minhas mãos queimadas. Granito que se desfaz em cinza de cada vez que me ouço por dentro.
Sento-me na distância de mim e abro as mãos.
Fecho os olhos.
Silêncio.

tiNta

posso pegar na folha e chegar a lado nenhum. ler todas as palavras em todas as letras de todas as linhas e não chegar a lado nenhum. podia voltar a tentar, começar do principio, pegar pelo fim, acreditar que tudo ia mudar e, mesmo assim, não chegar a lado nenhum. 
projecto-me sobre o rio e caio na água fria. faz frio aqui quando abro os olhos, quando me levanto, quando pergunto por ti e não ouço nada de volta. deixo-me cair na água com o peso inteiro do mundo sobre minha pele. deixo-me diluir na água com o peso inteiro de ti sobre o pensamento. e quase me afogo. quase me desfaço. quase que me vejo impossibilitado de começar de novo.
escrevo as palavras sobre a água do rio enquanto faz frio dentro de mim. pensei que podia começar a chorar quando a minha voz perguntou por ti. mas não. hoje não. hoje começo partindo do fim e termino (n)as palavras todas.

31/07/2017

não há espaço para existir aqui

não há espaço para existir aqui. só paredes e este corredor que meus passos excedem e que não conduz a lugar nenhum. não há espaço para respirar aqui. para gritar. para correr. para voar. as grades circundam o ar a lembrar que não é possível fugir. o tempo que se suspende no corpo a lembrar que não é possível sonhar. não há espaço para existir aqui e eu morro um pouco mais cada noite que passa. respiro um pouco menos. movo-me até não ser mais possível e acabo por me fundir no lugar que ocupo. como se fosse nada. como se em nada me transformasse. como se ao nada finalmente regressasse. não há espaço para existir aqui por isso me morro. por isso desvaneço. por isso cesso de respirar até ser absolutamente nada.

28/07/2017

vEnto

Deixei de poder escrever. 
As letras saíram das palavras e perderam o caminho de volta. Não há retorno quando tudo cessa de respirar. Não há possibilidade de retorno quando se deixa de poder existir.

As folhas voaram no vento da noite. Sabes que faz vento aqui? Sabes que tudo se funde com a noite quando tudo se extingue numa espiral insane pelo vento dentro e não encontra o caminho de volta?

Vês as minhas mãos na pele? Vês as minhas mãos nos espinhos? Conta-me os passos enquanto me dirijo até ti. Conta-me nos momentos em que eu quase que desapareço do teu olhar e tu perdes o caminho de volta. Para mim. De mim. Em mim.


Deixei de te poder escrever. Escrevi-te metade da minha vida inteira e agora não consigo mais. Cheguei ao fim do caminho. Não encontro os passos de volta. Leva-me o vento. 
Extingo-me na noite.

26/07/2017

forGive

Perdoa meu embaraço. As palavras confundem-se dentro das vozes e as vozes confundem-se dentro dos olhos e os olhos dentro das mãos e as mãos dentro da distância e a distância dentro de mim. Perdoa minha angústia. Sou o que fica quando tudo termina, os restos da pele sobre a terra molhada, as sombras das folhas que o tempo fez cair, a penumbra dos lugares onde a luz nunca poderia ter chegado. Perdoa meu desespero. O facto de respirar apenas porque o corpo continua a seguir, continua a continuar a não parar a não ceder a não serenar. Perdoa a minha certeza. A de que vou chegar ao ponto em que existir sem viver não pode mais continuar a ser o lugar que me cabe. Perdoa quando eu partir. 

25/07/2017

Toquei-me na esperança que o dia terminasse. Contei as tábuas do caminho enquanto a chuva me macerava a ausência. Falei incessantemente para uma parede vazia e nada do que disse chegou a fazer sentido algum. As palavras só têm significado no escutar dos outros.


Se as palavras não forem ouvidas, de que vale serem proferidas?

escutA-me

escuta-me.
são sombras que te atravessam a pele. são restos de memorias vividas que te invadem e te colocam no espaço caótico em que te revês.
Escuta-me.
este é o lugar em que te reconstrois, em que recomeças, em que te podes reencontrar com quem eras antes de ti.
Escuta-me.
são apenas diabos a perseguirem-te por dentro mas tu tens escolha. Tens onde te segurar.
Escuta-me.

não precisas de desistir agora. Estamos quase a chegar. 

21/07/2017

ágUa

comecei por colocar os dedos sobre a água até deixar de ser.
perdi a pele sobre o tempo até deixar de ver.
troquei os passos pela dança até enlouquecer.
comecei no principio das coisas terminadas até ter destruído tudo
comecei por colocar a água sobre as mãos até adormecer.

18/07/2017

antÍtese

Não tenho que fazer nada. Não tenho de me mover. Lá fora tudo acontece, tudo está em movimento e eu aqui parado. Cessei no tempo que não passa. Tudo em torno de mim se move excepto eu mesmo. Estou, talvez, na antítese do lugar que havia construído antes de chegar aqui. Tracei as linhas certas do caminho certo mas acabei aqui, neste qualquer outro lugar que me é profundamente estranho e onde não me sinto. Tacteio a pele dos pés sobre o vento frio do norte para me saber vivo. Olho a noite que abraça o céu e revejo-me no reflexo deste tempo que me olha sem me ver. Penso no espaço que vai deste lugar até ao centro do universo, até ao lugar onde se termina de respirar e perco-me nas barreiras da angústia. Tudo acontece fora de mim enquanto eu respiro na incerteza de que o ar exista, na inválida insegurança de que pode chegar o dia em que eu possa, por fim, quedar-me deste lugar e encontrar o centro da noite. 

me myself & i

sou um lugar em que nada começa e em que tudo termina e não cresce, em que tudo nasce sem razão e em que não há razão em nada do que sinto e o que sinto são coisas imensamente distantes e estranhas e confusas e difusas e o que vejo são precipícios em que me quase que quedo e em que me quase que despedaço sem ter nunca começado verdadeiramente a caminhar e em que o caminho é sangue em feridas abertas ao sal das lágrimas que, em silêncio, desvelo e em que a terra que penso ter sobre os pés é apenas areia e em que os meus passos são apenas as sombras do que resta de mim quando tudo o que acontece por dentro me rouba as palavras e me desfaz a linha do pensamento e que dança dentro de mim e eu perco o norte e perco o sul e perco todos os pontos cardeais e deixo de poder contar seja com o que for, seja com quem for, e em que não encontro nada porque tudo o que está em mim está além de mim e aquilo que sofro ninguém entende nem ouve nem sente e eu não me consigo tocar nos dedos não me consigo tocar nas feridas não me consigo encontrar dentro de mim e sou um lugar em que termino sem ter chegado a começar porque de cada vez que dei lugar ao movimento, caí dentro de um vórtice dentro de uma aresta, dentro de um degelo dentro de um abismo, dentro de uma solidão tão estranha em mim, e procurei - confesso que procurei - por mim em todas as vozes em todos os ruídos em todas as pessoas que se puseram entre mim e mim e entre mim e o fim e entre mim e o começo e entre mim e outro lugar em que eu não precisasse de acordar, em que eu não precisasse de ser, em que eu não precisasse de nada para poder continuar, mas algo em mim me consome e dilacera, me termina e me assusta e me conduz a um lugar que não conheço dentro de mim e que não sei explicar e que não gosto e que me segura com garras fundas de noites inacabadas em que a única coisa que me podia salvar eram os que não estiveram não entenderam não souberam ouvir não quiseram ficar e não me agarraram nas mãos nem na alma, que me podiam ter segurado nestes finos fios de seda que ainda me prendiam à vida e por isso sou o lugar em que já nada pode começar porque tudo já teve o seu lugar e agora sou o que sou dentro de mim e não tenho as palavras que me possam libertar deste lugar em que uma parte de mim permanece sem poder fugir e outra onde me desfaço na mais absoluta solidão dentro do que resta de mim.

17/07/2017

comecei pelo fim. sangrei-me nas mãos e na alma até me diluir inteiro na chuva. comecei incessantemente a terminar no dia em que percebi que o acto de existir era superior a mim. ninguém viu quando tudo em mim ruiu pela primeira vez. quando deixei de saber sorrir. quando deixei de saber falar sobre o que acontecia em mim. comecei a terminar da primeira vez que me vi e deixei de ser eu e desde então, atravesso desertos que não terminam nunca e rasgo o meu corpo para saber que existo para além de tudo isto que não sei explicar mas que acontece em mim.