És feito de água
e escorres,
por dentro do ruído do teu silêncio,
tão lentamente,
mas tão precipitadamente,
que nenhuma mão aberta
nem nenhuma mão fechada,
te poderia,
vez alguma,
segurar.
Deparo-me com o crepúsculo que descende de um lugar que ninguém sabe onde começa e que traz o anúncio de uma noite que se prevê de um breu intransponível.
Conto os dedos das mãos para me recordar do teu toque. A perfeição de teus lábios a dizerem meu nome deitados sobre a minha pele desfeita pela angústia que se esconde dentro do oceano.
Deixei que teu olhar me sussurrasse a certeza do que existe no preciso momento em que pronuncias o meu nome e me tocas com a profunda honestidade do que resta dentro de tua alma.
Conta-me uma história para eu adormecer na espera que me desfaz enquanto espero que voltes a entrar pelo cinzento que se abate sobre o portão desta casa triste e que anuncia o começo de mais outra noite de vigília.
a memória do aroma de tua pele andou navegar-me a noite.
rasgou o mar de silêncio que repousava dentro de mim e devastou tudo até ao limite da ânsia. a vigília apoderou-se do kairos que insisto em evitar e ligou o que restava de mim ao lugar de calhau negro que define a insula.
recordo o som de tua voz a lamber as chagas de minha lascívia e o sabor de teus dedos a tocar-me na alma. o sussurro das palavras que me ofertaste e tudo o que teu corpo me disse. num momento que perdura na certeza plena da sua inevitável finitude.
memorizei cada cêntimetro da tua pele e o sabor de ti insiste em permanecer, numa languidez indelével, numa dança lenta, sobre a minha limitada capacidade de sentir.
são teus lábios o que sinto a desfazer-me por dentro.
um momento foi quanto bastou para saber. um momento foi quanto bastou para terminar.
sento-me na janela do segredo desta noite quente de um agosto que termina e anuncia o começo do outono e reconheço a insatisfação que emana das feridas que se instalam com o silêncio que aumenta por dentro. kronos instala-se e recorda-me como o tempo é um lugar reservado às tormentas da viagem e como tão celeremente o deixamos escorrer pelos dedos de uma mão que nos toca na face e nos recorda de quem somos.
a noite leva-me de volta ao aroma de ti e fico a navegar, em mar alto, até voltar a encontrar a orla de calhau negro.
Vejo teus braços desenhados no contorno da orla da ilha. Como se me abraçasses quando iças as velas e partes pelos caminhos da vida.
Ouço os pássaros que sobrevoam o começo do crepúsculo e fecho os olhos.
Terá o silêncio outro sabor quando o silêncio é o reflexo da ausência?
Há já sinais de um Outono lânguido que se imiscui por dentro dos raios de luz deste Verão despido de sentido.
Queria poder ouvir-te na voz, talvez tocar-te no som das asas, mergulhar no oceano que repousa no teu olhar e esperar, por um momento, que navegássemos no mesmo lado da ilha.
entrego as feridas ao sal. ao quente da terra. às lâminas do mar que imagino por dentro de meus olhos.
toco com os dedos no ar quente que a noite sopra e sinto como se estivesse a navegar na proa de um navio que me leva para longe de todos os aqui, de todos estes agora, de todos os (des)tempos.
a maré traz por dentro um qualquer vento soprado a norte. faz as ondas dançarem num aroma lânguido que se deita com as areias do deserto plantado ao sul de minhas chagas.
danço, como um dervixe enamorado de um qualquer Deus que se oculta de minha fé.
pondero os passos. remeto tudo ao sabor do sal. lambo o sangue do chão e mergulho,
a dançar,
nas ondas que só existem dentro de meus olhos.
Das janelas viradas a sul,
de frente para a noite aberta,
ouço as vozes que se desprendem de corpos leves,
estranhos,
alheios a mim e
distantes do lugar em que me sei.
Vozes que entoam risos,
ébrios ou reais,
melodias, sons, tons e texturas
que não sou capaz de reconhecer e
que,
talvez,
não saiba sentir.
Penso que talvez sejamos o que a nossa história
- tudo o que nos antecede antes de sermos nós mesmos -
nos faz ser,
nos permite ser,
nos induz a ser,
nos ilude a ser,
e talvez tantos de nós,
justa ou injustamente,
não possamos nunca saber a real possibilidade da dimensão do mundo
de tudo o que é além de nós,
do que está além de cada janela aberta.
Talvez sejamos todos um lugar de silêncio
e um lugar de risos,
um espaço de tempo de parar
e um espaço de tempo para calcorrear as estradas dos caminhos da vida.
A verdade é que muitos paramos na beira da estrada
no fronteira limítrofe que não vemos mas sabemos,
com toda a certeza que se reconhece nas coisas imutáveis,
estar ali.
Deixamos de saber que
a montante,
somos nascente e
a jusante,
podemos ser rios a correr até aos lugares mais distantes de nós.
Das janelas viradas a sul,
de frente para a noite quente,
reconheço que existem
sempre
outras (im)possibilidades em nós.
Penso em como tudo o que se sucede aqui é vago e é vazo
é simultaneamente intenso e intensamente despido de significado
profundo como um mar, quente como as dunas de qualquer deserto mas fugaz e dificil como o vento do norte
é claro como a água da nascente que emerge do âmago da terra e turvo ao ponto de deixar tudo a saber a lodo
é de uma felicidade pueril mas que dura tão pouco no tempo. Não se sustém. Não se sustenta. Perece e não permanece.
Chegas inteiro e partes aos pedaços. Aterras em fragmentos e partes em poeira. És intensamente nada enquanto és tudo. Olhas para mim como se o lugar certo do mundo fosse neste preciso instante e, depois, todo o mundo pesa sobre o todo de ti e a dúvida remete este lugar à insuficiência da insatisfação.
Penso em como tudo isto é vazio e é vago e é cheio e é sóbrio. É tanto sem ser quase nada. É nada por ser tanto.
Na verdade, não desejo que chegues e que partas sempre inteiro. Mas não sei pegar em tantos pedaços espalhados debaixo da pele de meus pés sem que se abram chagas que nenhuma palavra poderá pode curar.
O que seremos, verdadeiramente, quando somos aqui?
pesam-me todas as penas do mundo.
trazem-me alivio todas as palavras que se levantam dentro do silêncio escuro que vive dentro de mim.
fico guardado por dentro do meu corpo à espera do momento certo para sair. há uma batalha incessante que acontece por dentro de mim de cada vez que abro os olhos, de cada vez que a dor se instala, de cada vez que nada em mim parece querer obedecer.
conto com as mãos dos outros que entram e que saem daqui e fazem de meu corpo o que entendem fazer. não consigo defender-me, não consigo encontrar mais de mim dentro desta jaula que me encerra. que me comprime. que faz esvair-me de mim enquanto o resto do mundo passa a correr do lado de fora.
fiquei suspenso no tempo. a verdade é que continuo a ser eu por dentro - o mesmo eu. ou talvez não o mesmo mas apenas um esquisso do que fui e uma sombra do que poderia ter sido.
ou talvez até nem pudesse ter sido grande coisa mesmo aquém deste lugar que me encerra... teria feito o quê de minha vida? chegado onde? sido quem? se não fosse isto que sou agora, seria o quê? talvez já nem sequer me lembre bem do que era antes de ter chegado aqui. os caminhos tornam-se areia e pó, humus e lama, vento e abandono. talvez já nem seja importante pensar como ontem me via mas apenas como hoje me olho. hoje sei que sou grande mas sinto-me pedaços de pedaços de pedaços de pedaços.
sei que vou morrer em mim antes de morrer da vida e que, até aí chegar, me irei inebriar de agonia até poder desaparecer... até que esta dança lenta me leve até ao final do palco.
e o medo começa a ser o que me abraça todas as noites enquanto toco com a ponta dos dedos os limites da jaula. agarro-me a estas grades com a certeza de que há liberdade do lado de fora. vejo como todos me olham como se eu eu fosse um artista da fome kafkiano. talvez seja isso em que me tornei. talvez não se tenha feito justiça e eu tenha sido, verdadeiramente, deixado no abandono da incerteza e do medo que os outros sentem da minha morte lenta. sinto que se esquecem de mim mesmo ainda de eu ter partido. que me calam mesmo enquanto eu ainda grito. que me ignoram mesmo quando eu os olho de frente.
no lugar de mim, há mais do que apenas uma solidão sem horizonte. sem linhas limítrofes. sem dimensão mensurável. no lugar de mim, há medo e há tristeza e há saudade e há arrependimento. estou dentro do escuro que vem do âmago dos lugares mais negros que podem ser lugares de ser. minhas lágrimas são a minha expiação. tuas palavras podem ser a minha salvação.
fico dentro deste lugar que me guarda, que me é, e agarro-me a uma réstia de esperança que me possa levar a um lugar menos escuro. onde o medo não me possa tocar com garras frias mas sim com dedos ternos. para ter alguma paz. para poder morrer no meu tempo.