29/11/2021

ProFeTa

Caminhas por entre as levadas a escutar o som de chuva que as folhas deixam ao sabor do vento por entre as terras das encostas esculpidas nas rochas. Há uma estrada que atravessa montanhas e nascentes e que te leva do lugar em que te permites estar ao lugar que te aparta de tudo o que resta.

Procuras viver. Existir, só por si. não basta. Existir sem viver é, essencialmente, não existir. E o que somos, se não vivermos? De que serve percorrer todas as levadas se nunca aprendermos a respirar (n)o caminho? De que serve existirmos, se nunca nos realizarmos?

Sabes-te a atravessar um vasto deserto. São sombras, miragens, tempestades e suor o que te ocupa o sonho e a vigília. Caminhas, incessantemente, o(s) caminho(s) que te conduz(em) à vida.  A vida que subsiste por dentro da aridez ferida do deserto que persiste dentro da tua alma.

Fazes teu caminho, descalço, sobre as areias do interior desse deserto. Caminhas depressa, como se o mundo fosse terminar - sempre como se algo ou alguém te fosse trair - com uma sede que se não sacia nunca, com uma intensidade impossível de abrandar. Seja no âmago das cinzas, no contorno dos espinhos dos tojos, na fúria rasgada das ondas do oceano ou na clareza das planícies de um norte de áfrica esquecido dos olhares comuns, caminhas sempre depressa.  

És, simultaneamente, o verso e o reverso e és

lugar de água            que escapa e que encontra sempre lugar para continuar

lugar de terra            que segura e cria raízes e que soterra o que já não carece ser 

lugar de vento           que sibila, acaricia, conduz e pode levar tudo ao limite da aniquilação

lugar de fogo            que destrói, chora cinza e depois refaz para doar as asas a fenix

e todos os sinais da terra acontecem em simultâneo por dentro de ti. Caminhas, por vezes tão pesadamente leve, por entre a areia movediça de tudo o que acontece por dentro de tu'alma, no centro da terra, no vértice da náusea, no expoente da miragem, onde tudo e nada são possibilidades profundamente equidistantes.

Atravessas tudo na vida com gestos feitos de chuva, beijados a vento. Ardes intensamente, por dentro, a cada sinal da evidência da tua indelével inconstância. É ela que te sustém ou tu que te sustens nela?

Que procuras, afinal, se te encontras sempre na pressa de chegar permanentemente a um qualquer outro lugar onde ainda não tenhas estado? Reside em ti a premente necessidade visceral de estar sempre a partir, de nunca chegar, verdadeiramente, a parar. Persiste em ti a impaciente paciência dos eternos inconformados...ou  insatisfeitos?... Ou incompletos?

Talvez vivas fragmentado na crueldade poética da tua essência poeticamente cruel. Mas não serás tu, em limite,  um poema gentil a queimar as palavras de dentro e a verter para fora as palavras que te escudam do terror do mundo onde aconteces?

És além deste lugar em que cortas com tudo o que te não satisfaz mas em que, talvez seja a ti que cortas - a ti mesmo - em fragmentos cada vez mais finos, cada vez mais ínfimos, cada vez mais breves.

Se fosses mais matéria do que essência, não resistiria em ti esse lugar magnânimo reservado apenas às coisas que o mar tem por dentro. O lugar verdadeiro que reside em ti é imensamente profundo, profundamente imenso. Talvez não o vejas, talvez não o queiras verdadeiramente saber. 

Permites-te manter à tona de uma insatisfação eternamente insatisfeita

a quereres, sem querer

a não quereres, querendo

a quereres querer sem chegares a querer

e deixas de querer quando começas verdadeiramente a querer. 

Aprendeste a (sobre)viver na vida guerrilhando uma defesa constante. Talvez a tua maior consistência. Edificaste não muros mas muralhas de pedra em torno do leito de água que te habita para que os espinhos da vida não te ferissem mais a carne e o sonho. E debaixo do teu castelo há um abismo invocado pelo abismo maior, tecido nos finos fios de seda de tudo o que pandora guarda dentro de ti.

És lugar de mistério e da paixão de cristo. Lugar da terra prometida que nunca dorme na certeza angustiante da fragilidade da sua finitude. És lugar sagrado onde não permites que ninguém permaneça demasiado tempo. Um templo reservado apenas às preces mais silenciosas. 

És a obscenidade e o amor condensados num mesmo gesto. Um deserto e um oceano. A tese e antítese. Talvez seja a tua inconstância a tua maior consistência. A tua imensidão, o teu maior abismo. A tua vida, um poema por escrever em dedos de tinta feita de água.

 



14/11/2021

levas-me pela mão 

e permites que mergulhe na inconstância consistente 

de tuas águas 


mas logo me abandonas, 

à deriva nas ondas, 

a naufragar na certeza da incerteza de saber 

como regressar ao lugar que é a margem certa de mim.





11/11/2021

Estou cada vez mais distante do lugar de ti.

Dançava no ritmo da tua dança.

Livre. Leve. Inteira.

Dançava e dançava e dançava...




E depois, a música cessou.


Não é possível dançar em silêncio.



09/10/2021

Permaneço, 

em suspensão, 

na aresta mais fina do princípio da noite.

A cidade inteira decide começar a adormecer na melodia insane do grito dos pássaros que despertam todas as possibilidades,

todas as fragilidades,

de um destino condenado ao voo permanente para lugar nenhum.

Acendo um cigarro para me evadir deste lugar e mergulhar,

de olhos bem fechados, 

na imensidão que corre dentro de tua alma.

Nunca te irei pedir que venhas e sei que nunca me irás pedir nada.

Permito-me perder num tempo que, 

no fundo, 

nos é tão breve como suficiente, 

numa ambivalência indefinida que nos aproxima tanto quanto nos afasta e, 

por breves momentos, 

próximo da apneia, 

de olhos cerrados,

sinto que sou capaz de fazer quase tudo que me digas...mesmo quando não me pedes nada.

Procuro por ti no contorno da noite que teima em não ceder ao embalar do voo louco dos pássaros que sobrevoam o lugar reservado ao fumo que inalo e que deixa em minha pele o aroma das tuas mãos.

Permaneço, suspensa, enquanto permito que a memória faça o resto e me leve,

de olhos fechados,

de mãos atadas,

até ao lugar de poesia que se encontra guardada na ternura do murmúrio de tua voz.

25/09/2021

És feito de água

e escorres, 

por dentro do ruído do teu silêncio, 

tão lentamente, 

mas tão precipitadamente,

que nenhuma mão aberta

nem nenhuma mão fechada, 

te poderia, 

vez alguma,

segurar. 

24/09/2021

sinto que 

se parar de me mover

o mundo inteiro cessa

e eu não voltarei a andar

Deparo-me com o crepúsculo que descende de um lugar que ninguém sabe onde começa e que traz o anúncio de uma noite que se prevê de um breu intransponível.

Conto os dedos das mãos para me recordar do teu toque. A perfeição de teus lábios a dizerem meu nome deitados sobre a minha pele desfeita pela angústia que se esconde dentro do oceano.

Deixei que teu olhar me sussurrasse a certeza do que existe no preciso momento em que pronuncias o meu nome e me tocas com a profunda honestidade do que resta dentro de tua alma.

Conta-me uma história para eu adormecer na espera que me desfaz enquanto espero que voltes a entrar pelo cinzento que se abate sobre o portão desta casa triste e que anuncia o começo de mais outra noite de vigília. 

09/09/2021

a cidade começa a cheirar à doce melancolia do outono já anunciado no princípio de cada uma das noites em que a chuva lava as feridas da terra. 

30/08/2021

a memória do aroma de tua pele andou navegar-me a noite.

rasgou o mar de silêncio que repousava dentro de mim e devastou tudo até ao limite da ânsia. a vigília apoderou-se do kairos que insisto em evitar e ligou o que restava de mim ao lugar de calhau negro que define a insula. 

recordo o som de tua voz a lamber as chagas de minha lascívia e o sabor de teus dedos a tocar-me na alma. o sussurro das palavras que me ofertaste e tudo o que teu corpo me disse. num momento que perdura na certeza plena da sua inevitável finitude.

memorizei cada cêntimetro da tua pele e o sabor de ti insiste em permanecer, numa languidez indelével, numa dança lenta, sobre a minha limitada capacidade de sentir. 

são teus lábios o que sinto a desfazer-me por dentro.

um momento foi quanto bastou para saber. um momento foi quanto bastou para terminar. 

sento-me na janela do segredo desta noite quente de um agosto que termina e anuncia o começo do outono e reconheço a insatisfação que emana das feridas que se instalam com o silêncio que aumenta por dentro. kronos instala-se e recorda-me como o tempo é um lugar reservado às tormentas da viagem e como tão celeremente o deixamos escorrer pelos dedos de uma mão que nos toca na face e nos recorda de quem somos.

a noite leva-me de volta ao aroma de ti e fico a navegar, em mar alto, até voltar a encontrar a orla de calhau negro. 

11/08/2021

Que sentido fará continuarmos a procurar o que já não podemos alcançar? 

InSulA

Vejo teus braços desenhados no contorno da orla da ilha. Como se me abraçasses quando iças as velas e partes pelos caminhos da vida.

Ouço os pássaros que sobrevoam o começo do crepúsculo e fecho os olhos.

Terá o silêncio outro sabor quando o silêncio é o reflexo da ausência?

Há já sinais de um Outono lânguido que se imiscui por dentro dos raios de luz deste Verão despido de sentido.

Queria poder ouvir-te na voz, talvez tocar-te no som das asas, mergulhar no oceano que repousa no teu olhar e esperar, por um momento, que navegássemos no mesmo lado da ilha.