29/11/2021

ProFeTa

Caminhas por entre as levadas a escutar o som de chuva que as folhas deixam ao sabor do vento por entre as terras das encostas esculpidas nas rochas. Há uma estrada que atravessa montanhas e nascentes e que te leva do lugar em que te permites estar ao lugar que te aparta de tudo o que resta.

Procuras viver. Existir, só por si. não basta. Existir sem viver é, essencialmente, não existir. E o que somos, se não vivermos? De que serve percorrer todas as levadas se nunca aprendermos a respirar (n)o caminho? De que serve existirmos, se nunca nos realizarmos?

Sabes-te a atravessar um vasto deserto. São sombras, miragens, tempestades e suor o que te ocupa o sonho e a vigília. Caminhas, incessantemente, o(s) caminho(s) que te conduz(em) à vida.  A vida que subsiste por dentro da aridez ferida do deserto que persiste dentro da tua alma.

Fazes teu caminho, descalço, sobre as areias do interior desse deserto. Caminhas depressa, como se o mundo fosse terminar - sempre como se algo ou alguém te fosse trair - com uma sede que se não sacia nunca, com uma intensidade impossível de abrandar. Seja no âmago das cinzas, no contorno dos espinhos dos tojos, na fúria rasgada das ondas do oceano ou na clareza das planícies de um norte de áfrica esquecido dos olhares comuns, caminhas sempre depressa.  

És, simultaneamente, o verso e o reverso e és

lugar de água            que escapa e que encontra sempre lugar para continuar

lugar de terra            que segura e cria raízes e que soterra o que já não carece ser 

lugar de vento           que sibila, acaricia, conduz e pode levar tudo ao limite da aniquilação

lugar de fogo            que destrói, chora cinza e depois refaz para doar as asas a fenix

e todos os sinais da terra acontecem em simultâneo por dentro de ti. Caminhas, por vezes tão pesadamente leve, por entre a areia movediça de tudo o que acontece por dentro de tu'alma, no centro da terra, no vértice da náusea, no expoente da miragem, onde tudo e nada são possibilidades profundamente equidistantes.

Atravessas tudo na vida com gestos feitos de chuva, beijados a vento. Ardes intensamente, por dentro, a cada sinal da evidência da tua indelével inconstância. É ela que te sustém ou tu que te sustens nela?

Que procuras, afinal, se te encontras sempre na pressa de chegar permanentemente a um qualquer outro lugar onde ainda não tenhas estado? Reside em ti a premente necessidade visceral de estar sempre a partir, de nunca chegar, verdadeiramente, a parar. Persiste em ti a impaciente paciência dos eternos inconformados...ou  insatisfeitos?... Ou incompletos?

Talvez vivas fragmentado na crueldade poética da tua essência poeticamente cruel. Mas não serás tu, em limite,  um poema gentil a queimar as palavras de dentro e a verter para fora as palavras que te escudam do terror do mundo onde aconteces?

És além deste lugar em que cortas com tudo o que te não satisfaz mas em que, talvez seja a ti que cortas - a ti mesmo - em fragmentos cada vez mais finos, cada vez mais ínfimos, cada vez mais breves.

Se fosses mais matéria do que essência, não resistiria em ti esse lugar magnânimo reservado apenas às coisas que o mar tem por dentro. O lugar verdadeiro que reside em ti é imensamente profundo, profundamente imenso. Talvez não o vejas, talvez não o queiras verdadeiramente saber. 

Permites-te manter à tona de uma insatisfação eternamente insatisfeita

a quereres, sem querer

a não quereres, querendo

a quereres querer sem chegares a querer

e deixas de querer quando começas verdadeiramente a querer. 

Aprendeste a (sobre)viver na vida guerrilhando uma defesa constante. Talvez a tua maior consistência. Edificaste não muros mas muralhas de pedra em torno do leito de água que te habita para que os espinhos da vida não te ferissem mais a carne e o sonho. E debaixo do teu castelo há um abismo invocado pelo abismo maior, tecido nos finos fios de seda de tudo o que pandora guarda dentro de ti.

És lugar de mistério e da paixão de cristo. Lugar da terra prometida que nunca dorme na certeza angustiante da fragilidade da sua finitude. És lugar sagrado onde não permites que ninguém permaneça demasiado tempo. Um templo reservado apenas às preces mais silenciosas. 

És a obscenidade e o amor condensados num mesmo gesto. Um deserto e um oceano. A tese e antítese. Talvez seja a tua inconstância a tua maior consistência. A tua imensidão, o teu maior abismo. A tua vida, um poema por escrever em dedos de tinta feita de água.

 



14/11/2021

levas-me pela mão 

e permites que mergulhe na inconstância consistente 

de tuas águas 


mas logo me abandonas, 

à deriva nas ondas, 

a naufragar na certeza da incerteza de saber 

como regressar ao lugar que é a margem certa de mim.





11/11/2021

Estou cada vez mais distante do lugar de ti.

Dançava no ritmo da tua dança.

Livre. Leve. Inteira.

Dançava e dançava e dançava...




E depois, a música cessou.


Não é possível dançar em silêncio.



09/10/2021

Permaneço, 

em suspensão, 

na aresta mais fina do princípio da noite.

A cidade inteira decide começar a adormecer na melodia insane do grito dos pássaros que despertam todas as possibilidades,

todas as fragilidades,

de um destino condenado ao voo permanente para lugar nenhum.

Acendo um cigarro para me evadir deste lugar e mergulhar,

de olhos bem fechados, 

na imensidão que corre dentro de tua alma.

Nunca te irei pedir que venhas e sei que nunca me irás pedir nada.

Permito-me perder num tempo que, 

no fundo, 

nos é tão breve como suficiente, 

numa ambivalência indefinida que nos aproxima tanto quanto nos afasta e, 

por breves momentos, 

próximo da apneia, 

de olhos cerrados,

sinto que sou capaz de fazer quase tudo que me digas...mesmo quando não me pedes nada.

Procuro por ti no contorno da noite que teima em não ceder ao embalar do voo louco dos pássaros que sobrevoam o lugar reservado ao fumo que inalo e que deixa em minha pele o aroma das tuas mãos.

Permaneço, suspensa, enquanto permito que a memória faça o resto e me leve,

de olhos fechados,

de mãos atadas,

até ao lugar de poesia que se encontra guardada na ternura do murmúrio de tua voz.

25/09/2021

És feito de água

e escorres, 

por dentro do ruído do teu silêncio, 

tão lentamente, 

mas tão precipitadamente,

que nenhuma mão aberta

nem nenhuma mão fechada, 

te poderia, 

vez alguma,

segurar. 

24/09/2021

sinto que 

se parar de me mover

o mundo inteiro cessa

e eu não voltarei a andar

Deparo-me com o crepúsculo que descende de um lugar que ninguém sabe onde começa e que traz o anúncio de uma noite que se prevê de um breu intransponível.

Conto os dedos das mãos para me recordar do teu toque. A perfeição de teus lábios a dizerem meu nome deitados sobre a minha pele desfeita pela angústia que se esconde dentro do oceano.

Deixei que teu olhar me sussurrasse a certeza do que existe no preciso momento em que pronuncias o meu nome e me tocas com a profunda honestidade do que resta dentro de tua alma.

Conta-me uma história para eu adormecer na espera que me desfaz enquanto espero que voltes a entrar pelo cinzento que se abate sobre o portão desta casa triste e que anuncia o começo de mais outra noite de vigília. 

09/09/2021

a cidade começa a cheirar à doce melancolia do outono já anunciado no princípio de cada uma das noites em que a chuva lava as feridas da terra. 

30/08/2021

a memória do aroma de tua pele andou navegar-me a noite.

rasgou o mar de silêncio que repousava dentro de mim e devastou tudo até ao limite da ânsia. a vigília apoderou-se do kairos que insisto em evitar e ligou o que restava de mim ao lugar de calhau negro que define a insula. 

recordo o som de tua voz a lamber as chagas de minha lascívia e o sabor de teus dedos a tocar-me na alma. o sussurro das palavras que me ofertaste e tudo o que teu corpo me disse. num momento que perdura na certeza plena da sua inevitável finitude.

memorizei cada cêntimetro da tua pele e o sabor de ti insiste em permanecer, numa languidez indelével, numa dança lenta, sobre a minha limitada capacidade de sentir. 

são teus lábios o que sinto a desfazer-me por dentro.

um momento foi quanto bastou para saber. um momento foi quanto bastou para terminar. 

sento-me na janela do segredo desta noite quente de um agosto que termina e anuncia o começo do outono e reconheço a insatisfação que emana das feridas que se instalam com o silêncio que aumenta por dentro. kronos instala-se e recorda-me como o tempo é um lugar reservado às tormentas da viagem e como tão celeremente o deixamos escorrer pelos dedos de uma mão que nos toca na face e nos recorda de quem somos.

a noite leva-me de volta ao aroma de ti e fico a navegar, em mar alto, até voltar a encontrar a orla de calhau negro. 

11/08/2021

Que sentido fará continuarmos a procurar o que já não podemos alcançar? 

InSulA

Vejo teus braços desenhados no contorno da orla da ilha. Como se me abraçasses quando iças as velas e partes pelos caminhos da vida.

Ouço os pássaros que sobrevoam o começo do crepúsculo e fecho os olhos.

Terá o silêncio outro sabor quando o silêncio é o reflexo da ausência?

Há já sinais de um Outono lânguido que se imiscui por dentro dos raios de luz deste Verão despido de sentido.

Queria poder ouvir-te na voz, talvez tocar-te no som das asas, mergulhar no oceano que repousa no teu olhar e esperar, por um momento, que navegássemos no mesmo lado da ilha. 

27/07/2021

Sinto que me perco

de cada vez que me encontro. 


Mas já não me (re)encontro

de cada vez que me perco.

20/07/2021

dErviXe

entrego as feridas ao sal. ao quente da terra. às lâminas do mar que imagino por dentro de meus olhos. 

toco com os dedos no ar quente que a noite sopra e sinto como se estivesse a navegar na proa de um navio que me leva para longe de todos os aqui, de todos estes agora, de todos os (des)tempos. 

a maré traz por dentro um qualquer vento soprado a norte. faz as ondas dançarem num aroma lânguido que se deita com as areias do deserto plantado ao sul de minhas chagas. 

danço, como um dervixe enamorado de um qualquer Deus que se oculta de minha fé. 

pondero os passos. remeto tudo ao sabor do sal. lambo o sangue do chão e mergulho, 

a dançar, 

nas ondas que só existem dentro de meus olhos. 

morro, sem medo, quando morro enquanto estou vivo.

morro, em medo, quando morro já estando morto. 

segura meu coração com tua mão fechada. punho cerrado. toda a força que remanesce em ti condensada nesse gesto aterradoramente poético. 

o sangue escorre pelos teus dedos finos e tinge a terra quente de um vermelho quente. 

aperta até não poderes mais. 

eu já não estou aí. 

17/07/2021

noTe

Das janelas viradas a sul, 

de frente para a noite aberta,

ouço as vozes que se desprendem de corpos leves, 

estranhos, 

alheios a mim e

distantes do lugar em que me sei. 

 

Vozes que entoam risos, 

ébrios ou reais, 

melodias, sons, tons e texturas 

que não sou capaz de reconhecer e

que, 

talvez, 

não saiba sentir. 

 

Penso que talvez sejamos o que a nossa história

- tudo o que nos antecede antes de sermos nós mesmos -

nos faz ser,

nos permite ser,

nos induz a ser, 

nos ilude a ser,

e talvez tantos de nós, 

justa ou injustamente, 

não possamos nunca saber a real possibilidade da dimensão do mundo

de tudo o que é além de nós,

do que está além de cada janela aberta. 

 

Talvez sejamos todos um lugar de silêncio

e um lugar de risos, 

um espaço de tempo de parar

e um espaço de tempo para calcorrear as estradas dos caminhos da vida.

 

A verdade é que muitos paramos na beira da estrada

no fronteira limítrofe que não vemos mas sabemos,

com toda a certeza que se reconhece nas coisas imutáveis, 

estar ali. 

Deixamos de saber que

a montante, 

somos nascente e

a jusante, 

podemos ser rios a correr até aos lugares mais distantes de nós. 

 

Das janelas viradas a sul, 

de frente para a noite quente,

reconheço que existem

sempre

outras (im)possibilidades em nós. 

09/07/2021

Penso em como tudo o que se sucede aqui é vago e é vazo

é simultaneamente intenso e intensamente despido de significado

profundo como um mar, quente como as dunas de qualquer deserto mas fugaz e dificil como o vento do norte

é claro como a água da nascente que emerge do âmago da terra e turvo ao ponto de deixar tudo a saber a lodo

é de uma felicidade pueril mas que dura tão pouco no tempo. Não se sustém. Não se sustenta. Perece e não permanece.

Chegas inteiro e partes aos pedaços. Aterras em fragmentos e partes em poeira. És intensamente nada enquanto és tudo. Olhas para mim como se o lugar certo do mundo fosse neste preciso instante e, depois, todo o mundo pesa sobre o todo de ti e a dúvida remete este lugar à insuficiência da insatisfação.

Penso em como tudo isto é vazio e é vago e é cheio e é sóbrio. É tanto sem ser quase nada. É nada por ser tanto. 

Na verdade, não desejo que chegues e que partas sempre inteiro. Mas não sei pegar em tantos pedaços espalhados debaixo da pele de meus pés sem que se abram chagas que nenhuma palavra poderá pode curar.

O que seremos, verdadeiramente, quando somos aqui? 

05/07/2021

O que há em mim

O que és em ti

Não tem lugar para nos ser(mos). 

Chovem pétalas amarelas por dentro do meu peito enquanto teu beijo me encontra e me devasta inteira no calor perfeito de uma noite intensa caída aos pés de uma lua quase cheia. 

07/06/2021

Lavo o que sobra do dia de seus pés.

Beijo as palmas de suas mãos e coloco-as sobre minhas lágrimas.

Repito seu nome ao vento e espero pelas cinzas para recuperar a liberdade.

Deixo-o partir enquanto me despedaço. 

18/05/2021

o tempo consome o espaço que há por dentro. 

diz-me

por favor,

se respirar é,

hoje, 

um acto de contrição 

ou o caminho da salvação. 

09/05/2021

mAtEr

pesam-me todas as penas do mundo.


trazem-me alivio todas as palavras que se levantam dentro do silêncio escuro que vive dentro de mim.

06/05/2021

JAMS

fico guardado por dentro do meu corpo à espera do momento certo para sair. há uma batalha incessante que acontece por dentro de mim de cada vez que abro os olhos, de cada vez que a dor se instala, de cada vez que nada em mim parece querer obedecer. 

conto com as mãos dos outros que entram e que saem daqui e fazem de meu corpo o que entendem fazer. não consigo defender-me, não consigo encontrar mais de mim dentro desta jaula que me encerra. que me comprime. que faz esvair-me de mim enquanto o resto do mundo passa a correr do lado de fora. 

fiquei suspenso no tempo. a verdade é que continuo a ser eu por dentro - o mesmo eu. ou talvez não o mesmo mas apenas um esquisso do que fui e uma sombra do que poderia ter sido. 

ou talvez até nem pudesse ter sido grande coisa mesmo aquém deste lugar que me encerra... teria feito o quê de minha vida? chegado onde? sido quem? se não fosse isto que sou agora, seria o quê? talvez já nem sequer me lembre bem do que era antes de ter chegado aqui. os caminhos tornam-se areia e pó, humus e lama, vento e abandono. talvez já nem seja importante pensar como ontem me via mas apenas como hoje me olho. hoje sei que sou grande mas sinto-me pedaços de pedaços de pedaços de pedaços. 

sei que vou morrer em mim antes de morrer da vida e que, até aí chegar, me irei inebriar de agonia até poder desaparecer... até que esta dança lenta me leve até ao final do palco. 

e o medo começa a ser o que me abraça todas as noites enquanto toco com a ponta dos dedos os limites da jaula. agarro-me a estas grades com a certeza de que há liberdade do lado de fora. vejo como todos me olham como se eu eu fosse um artista da fome kafkiano. talvez seja isso em que me tornei. talvez não se tenha feito justiça e eu tenha sido, verdadeiramente, deixado no abandono da incerteza e do medo que os outros sentem da minha morte lenta. sinto que se esquecem de mim mesmo ainda de eu ter partido. que me calam mesmo enquanto eu ainda grito. que me ignoram mesmo quando eu os olho de frente. 

no lugar de mim, há mais do que apenas uma solidão sem horizonte. sem linhas limítrofes. sem dimensão mensurável. no lugar de mim, há medo e há tristeza e há saudade e há arrependimento. estou dentro do escuro que vem do âmago dos lugares mais negros que podem ser lugares de ser. minhas lágrimas são a minha expiação. tuas palavras podem ser a minha salvação. 

fico dentro deste lugar que me guarda, que me é, e agarro-me a uma réstia de esperança que me possa levar a um lugar menos escuro. onde o medo não me possa tocar com garras frias mas sim com dedos ternos. para ter alguma paz. para poder morrer no meu tempo. 

Coloca tuas mãos sobre a minha face. 

Desce, peço-te...Desce e toca-me na nuca. Aproxima-me do teu desespero. Afasta-me da minha ausência. 

Respira enquanto eu grito. Grita enquanto eu inspiro. 

Inala enquanto eu fecho os olhos. 

Sorri enquanto vais. 


13/04/2021

C.

Sinto que te digo adeus ainda antes do tempo de me despedir de ti. 

É como se eu estivesse a despir-me de mim. A deixar cada uma das partes num qualquer lugar. Algumas em lugares certos, arrumados, direitos. Outras, talvez nem tanto. 

Algumas imagens começam a ficar envoltas num nevoeiro espesso que se vai apoderando de partes da minha memória. Partes de mim. Faz-me desvanecer devagar, compreendes? Uma forma lenta mas tão desesperadamente rápida, na verdade. Tudo se desfaz num ápice. Uma fracção de segundo. Uma valsa que, na verdade, não abranda mas que voa através do salão de mogno  imenso que é a minha vida. Até ter chegado aqui. 

Sinto que o cansaço e o vazio se inteiram completamente de quem eu fui, atravessam quem eu sou e remetem tudo o que ainda podia ser para um lugar que já não consigo verentenderprojectarnomear. 

Fecho e abro os olhos. Não melhora. Há uma névoa que dança comigo a dança dos dias e me embala nas noites. Já não me deixa. Talvez eu já não seja apenas eu...Talvez seja eu e tudo o resto que agora parece soçobrar de mim.

Há momentos, agora, em que sinto que me desfaço em pó. Em que te digo adeus sem ser ainda tempo de partir. Perdoa-me se não te consigo dizer de outra forma o que me corrompe e arde por dentro. Perdoa se não me consigo entender de outra maneira. 

A dor passou a ser a parte mais inteira de mim e sento-me, no meu próprio palco, absolutamente só, a assistir - através de gritos emudecidos pelo segredo que reside dentro da minha angústia manietada - à queda do resto de mim. Sinto como se me estivesse a desfazer em pó. A aniquilar-me. 

Já não tenho forçavontadecapacidadecrençadesejo para parar com esta destruição massiva que acontece em mim. 

Sento-me, no público, a olhar para o palco onde permanece o resto de mim e assisto, impotentecansadotristepassivodescrente, à despedida que estou a fazer de mim mesmo enquanto te digo adeus. 

Mas deixo a noite terminar e vejo o recomeço que acontece cada manhã. 

Conto até três, conto os passos até ti, e recomeço. consigoresistopersistoacreditorecupero e adio a despedida. Agarro-me nas finas linhas da luz do sol, teço finos fios de seda que me agarram à costa, enquanto sinto as ondas retomarem à maré. Como tem de ser. Como a esperança que desenha as ondas. 

Cada dia, recupero uma parte das partes. Talvez ainda não seja pó. Talvez ainda possa estar apenas a dançar uma valsa lenta. Talvez tudo, afinal possa ir desaparecendo lentamente. E volto a querer ficar. Mais um pouco. Adio a despedida. Adio a minha ausência de mim. Recomeço. 



05/04/2021

Olho para ti. Sinto que já não sou mais capaz. 

Falho sempre. Reiteradamente. Inadvertidamente. Irremediavelmente. 

Sou lugar em que te estilhaças e são só fragmentos do que resta dos teus vidros o que me desfaz a mim. 

Olhas-me e já não entendes nenhum sentido. 

De cada vez que te deixo, há mais uma parte de mim que padece. Não sei bem quanto mais resta para morrer. Quanto mais falta para desaparecer(mos). 

Até quando vamos conseguir perseverar nesta destruição maciça?

Até quando vamos conseguir manter-nos à tona de água antes que o que falta nos leve em estilhaços de mundo? Até não sermos mais do que pó de estrela ou o começo de uma supernova que se desfaz por dentro.

Somos duas estrelas que se preparam para morrer. Devagar. 

03/04/2021

fechei todas as páginas em branco. 

compreendo, 

agora, 

que jamais te poderia escrever. 

um instante, 

apenas,

é quanto basta

para nos perdermos

definitivamente. 

02/04/2021

InsTanTe

Dou por mim sentado no silêncio da noite, à espera. 

A meu lado, arde uma vela. As chamas sibilam por dentro do negro mais negro enquanto me rendo à certeza de que não vens. Nem hoje, nem ontem, nem amanhã. Nenhuma outra noite te trará de volta aqui. 

Os instantes levaram-te, como os ventos do norte, para o lado mais oposto do lugar onde eu tacteei para poder parar. 

Talvez sejamos, no limite, duas linhas paralelas que não se encontram nunca. Talvez a linha que me desenha seja feita de lascívia e a tua te desenhe com linhas divinas. 

Ainda assim, dou por mim parado no escuro, à espera de ti. A dançar, como se meu corpo estivesse ébrio, quase como se minha consciência estivesse distante, quase como se nada disto fosse real. 

Sento-me no lugar de mim, onde me sei e reoriento. Talvez não venha a haver nenhum outro lugar para eu ficar. 

Dispo-me no instante mais negro do silêncio e entrego-me na humilhante dança do meu próprio corpo. Como se tivesses vindo. Como se estivesses aqui. Na esperança de que a noite possa trazer o lado inverso desta vigília que me afasta do meu norte. 

 beija-me os olhos. 



prometo que não respiro. 

SalVaTioN

Para quereres ficar, terias de me amar. 

Para me poderes amar, eu teria de te confirmar um amor por ti. 

Se eu to confirmasse, tu não o saberias conseguir aceitar. 

É esta a razão pela qual nunca me poderás amar. É esta a razão pela qual eu não te irei amar. 

31/03/2021

são os ventos do deserto a sul, que embalam a noite de hoje. 

o céu reveste-se de cores que nenhum poema pode saber descrever.

talvez seja silêncio o que repousa dentro do ruído que as hordas de areia desfazem nas melodias do pó. 

a noite aquece enquanto demora passar. o tempo a não ser mais do que o que medeia o lugar das arestas do deserto e as arestas de ti.

são os ventos que trazem o aroma a jasmim aberto sobre a esperança do sol que emerge da possibilidade do amanhecer.

és tu o céu que regressa a casa, que calcorreia o chão descalço a sentir a areia fina a entranhar a pele e a descobrir as flores brancas que inebriam o ar pesado com que a noite se enlaça. 

talvez seja um ruído demasiado intenso o lugar de ambivalência que te habita na orla do deserto que é inteiramente silêncio em ti. 

ou talvez estejas, somente, a partir com o vento que se desfaz no poema de areia num deserto de abandono.

15/03/2021

Encontrar-te-ei quando a noite fizer silêncio por dentro da casa que me guarda. 




Mas o mundo nunca se cala. 

é possível que me condenes a desaparecer,

de cada vez que me abandonas

estou parada no tempo.

o disco gira infinitamente na mesma orla. retido na ponta da agulha. a separar os acordes na imensidão do tempo. a impedir a música de o ser. 

só ruído. só interferência. repetidamente. 

estou suspensa no tempo.

repetidamente.

sento-me no lado mais fino da aresta deste cubo em que me encontro. não sei bem como vim aqui parar. se queres que te diga, nem sei bem onde estou. a verdade é que não consigo falar. não consigo dizer o que me rasga as vísceras enquanto a náusea me toma de assalto, minuto a minuto 

_para me recordar que existo ou para me recordar que morro?_ 

e me faz sair o sangue, a conta gotas, como se fossem palavras, a conta gotas. uma gota depois da outra. um sangue depois do outro. devagar. 

só ruído. repetidamente. 

creio que fiquei presa no tempo. não presa, suspensa. não suspensa, pendurada. não pendurada, retida, não retida, emersa. não emersa, presa. 

repetidamente. 

depois do ruído, quando as palavras regressarem, 

existo

ou morro?

 


01/03/2021

je ne sais plus par où commencer. 

ni où finir.

la vérité est que je ne serais, jamais, plus que cela. plus que rien. plus que la pluie que on attende sur le désert. 

le désert que s' étire sur ma peau, dans mes yeux, dedans ma tristesse. ma tristesse est indélébile, proche d' infini, cristallisé par dedans mes mains, par dedans mon corps, pleinement propriétaire de mon âme. 

je sais que je suis en trains de finir. il n'y a aucun chemin pour choisir maintenant. ça c'est ce qu'il y a pour mon désire... un désért sans fin.