29/11/2021

ProFeTa

Caminhas por entre as levadas a escutar o som de chuva que as folhas deixam ao sabor do vento por entre as terras das encostas esculpidas nas rochas. Há uma estrada que atravessa montanhas e nascentes e que te leva do lugar em que te permites estar ao lugar que te aparta de tudo o que resta.

Procuras viver. Existir, só por si. não basta. Existir sem viver é, essencialmente, não existir. E o que somos, se não vivermos? De que serve percorrer todas as levadas se nunca aprendermos a respirar (n)o caminho? De que serve existirmos, se nunca nos realizarmos?

Sabes-te a atravessar um vasto deserto. São sombras, miragens, tempestades e suor o que te ocupa o sonho e a vigília. Caminhas, incessantemente, o(s) caminho(s) que te conduz(em) à vida.  A vida que subsiste por dentro da aridez ferida do deserto que persiste dentro da tua alma.

Fazes teu caminho, descalço, sobre as areias do interior desse deserto. Caminhas depressa, como se o mundo fosse terminar - sempre como se algo ou alguém te fosse trair - com uma sede que se não sacia nunca, com uma intensidade impossível de abrandar. Seja no âmago das cinzas, no contorno dos espinhos dos tojos, na fúria rasgada das ondas do oceano ou na clareza das planícies de um norte de áfrica esquecido dos olhares comuns, caminhas sempre depressa.  

És, simultaneamente, o verso e o reverso e és

lugar de água            que escapa e que encontra sempre lugar para continuar

lugar de terra            que segura e cria raízes e que soterra o que já não carece ser 

lugar de vento           que sibila, acaricia, conduz e pode levar tudo ao limite da aniquilação

lugar de fogo            que destrói, chora cinza e depois refaz para doar as asas a fenix

e todos os sinais da terra acontecem em simultâneo por dentro de ti. Caminhas, por vezes tão pesadamente leve, por entre a areia movediça de tudo o que acontece por dentro de tu'alma, no centro da terra, no vértice da náusea, no expoente da miragem, onde tudo e nada são possibilidades profundamente equidistantes.

Atravessas tudo na vida com gestos feitos de chuva, beijados a vento. Ardes intensamente, por dentro, a cada sinal da evidência da tua indelével inconstância. É ela que te sustém ou tu que te sustens nela?

Que procuras, afinal, se te encontras sempre na pressa de chegar permanentemente a um qualquer outro lugar onde ainda não tenhas estado? Reside em ti a premente necessidade visceral de estar sempre a partir, de nunca chegar, verdadeiramente, a parar. Persiste em ti a impaciente paciência dos eternos inconformados...ou  insatisfeitos?... Ou incompletos?

Talvez vivas fragmentado na crueldade poética da tua essência poeticamente cruel. Mas não serás tu, em limite,  um poema gentil a queimar as palavras de dentro e a verter para fora as palavras que te escudam do terror do mundo onde aconteces?

És além deste lugar em que cortas com tudo o que te não satisfaz mas em que, talvez seja a ti que cortas - a ti mesmo - em fragmentos cada vez mais finos, cada vez mais ínfimos, cada vez mais breves.

Se fosses mais matéria do que essência, não resistiria em ti esse lugar magnânimo reservado apenas às coisas que o mar tem por dentro. O lugar verdadeiro que reside em ti é imensamente profundo, profundamente imenso. Talvez não o vejas, talvez não o queiras verdadeiramente saber. 

Permites-te manter à tona de uma insatisfação eternamente insatisfeita

a quereres, sem querer

a não quereres, querendo

a quereres querer sem chegares a querer

e deixas de querer quando começas verdadeiramente a querer. 

Aprendeste a (sobre)viver na vida guerrilhando uma defesa constante. Talvez a tua maior consistência. Edificaste não muros mas muralhas de pedra em torno do leito de água que te habita para que os espinhos da vida não te ferissem mais a carne e o sonho. E debaixo do teu castelo há um abismo invocado pelo abismo maior, tecido nos finos fios de seda de tudo o que pandora guarda dentro de ti.

És lugar de mistério e da paixão de cristo. Lugar da terra prometida que nunca dorme na certeza angustiante da fragilidade da sua finitude. És lugar sagrado onde não permites que ninguém permaneça demasiado tempo. Um templo reservado apenas às preces mais silenciosas. 

És a obscenidade e o amor condensados num mesmo gesto. Um deserto e um oceano. A tese e antítese. Talvez seja a tua inconstância a tua maior consistência. A tua imensidão, o teu maior abismo. A tua vida, um poema por escrever em dedos de tinta feita de água.

 



14/11/2021

levas-me pela mão 

e permites que mergulhe na inconstância consistente 

de tuas águas 


mas logo me abandonas, 

à deriva nas ondas, 

a naufragar na certeza da incerteza de saber 

como regressar ao lugar que é a margem certa de mim.





11/11/2021

Estou cada vez mais distante do lugar de ti.

Dançava no ritmo da tua dança.

Livre. Leve. Inteira.

Dançava e dançava e dançava...




E depois, a música cessou.


Não é possível dançar em silêncio.



09/10/2021

Permaneço, 

em suspensão, 

na aresta mais fina do princípio da noite.

A cidade inteira decide começar a adormecer na melodia insane do grito dos pássaros que despertam todas as possibilidades,

todas as fragilidades,

de um destino condenado ao voo permanente para lugar nenhum.

Acendo um cigarro para me evadir deste lugar e mergulhar,

de olhos bem fechados, 

na imensidão que corre dentro de tua alma.

Nunca te irei pedir que venhas e sei que nunca me irás pedir nada.

Permito-me perder num tempo que, 

no fundo, 

nos é tão breve como suficiente, 

numa ambivalência indefinida que nos aproxima tanto quanto nos afasta e, 

por breves momentos, 

próximo da apneia, 

de olhos cerrados,

sinto que sou capaz de fazer quase tudo que me digas...mesmo quando não me pedes nada.

Procuro por ti no contorno da noite que teima em não ceder ao embalar do voo louco dos pássaros que sobrevoam o lugar reservado ao fumo que inalo e que deixa em minha pele o aroma das tuas mãos.

Permaneço, suspensa, enquanto permito que a memória faça o resto e me leve,

de olhos fechados,

de mãos atadas,

até ao lugar de poesia que se encontra guardada na ternura do murmúrio de tua voz.

25/09/2021

És feito de água

e escorres, 

por dentro do ruído do teu silêncio, 

tão lentamente, 

mas tão precipitadamente,

que nenhuma mão aberta

nem nenhuma mão fechada, 

te poderia, 

vez alguma,

segurar. 

24/09/2021

sinto que 

se parar de me mover

o mundo inteiro cessa

e eu não voltarei a andar

Deparo-me com o crepúsculo que descende de um lugar que ninguém sabe onde começa e que traz o anúncio de uma noite que se prevê de um breu intransponível.

Conto os dedos das mãos para me recordar do teu toque. A perfeição de teus lábios a dizerem meu nome deitados sobre a minha pele desfeita pela angústia que se esconde dentro do oceano.

Deixei que teu olhar me sussurrasse a certeza do que existe no preciso momento em que pronuncias o meu nome e me tocas com a profunda honestidade do que resta dentro de tua alma.

Conta-me uma história para eu adormecer na espera que me desfaz enquanto espero que voltes a entrar pelo cinzento que se abate sobre o portão desta casa triste e que anuncia o começo de mais outra noite de vigília. 

09/09/2021

a cidade começa a cheirar à doce melancolia do outono já anunciado no princípio de cada uma das noites em que a chuva lava as feridas da terra. 

30/08/2021

a memória do aroma de tua pele andou navegar-me a noite.

rasgou o mar de silêncio que repousava dentro de mim e devastou tudo até ao limite da ânsia. a vigília apoderou-se do kairos que insisto em evitar e ligou o que restava de mim ao lugar de calhau negro que define a insula. 

recordo o som de tua voz a lamber as chagas de minha lascívia e o sabor de teus dedos a tocar-me na alma. o sussurro das palavras que me ofertaste e tudo o que teu corpo me disse. num momento que perdura na certeza plena da sua inevitável finitude.

memorizei cada cêntimetro da tua pele e o sabor de ti insiste em permanecer, numa languidez indelével, numa dança lenta, sobre a minha limitada capacidade de sentir. 

são teus lábios o que sinto a desfazer-me por dentro.

um momento foi quanto bastou para saber. um momento foi quanto bastou para terminar. 

sento-me na janela do segredo desta noite quente de um agosto que termina e anuncia o começo do outono e reconheço a insatisfação que emana das feridas que se instalam com o silêncio que aumenta por dentro. kronos instala-se e recorda-me como o tempo é um lugar reservado às tormentas da viagem e como tão celeremente o deixamos escorrer pelos dedos de uma mão que nos toca na face e nos recorda de quem somos.

a noite leva-me de volta ao aroma de ti e fico a navegar, em mar alto, até voltar a encontrar a orla de calhau negro. 

11/08/2021

Que sentido fará continuarmos a procurar o que já não podemos alcançar? 

InSulA

Vejo teus braços desenhados no contorno da orla da ilha. Como se me abraçasses quando iças as velas e partes pelos caminhos da vida.

Ouço os pássaros que sobrevoam o começo do crepúsculo e fecho os olhos.

Terá o silêncio outro sabor quando o silêncio é o reflexo da ausência?

Há já sinais de um Outono lânguido que se imiscui por dentro dos raios de luz deste Verão despido de sentido.

Queria poder ouvir-te na voz, talvez tocar-te no som das asas, mergulhar no oceano que repousa no teu olhar e esperar, por um momento, que navegássemos no mesmo lado da ilha. 

27/07/2021

Sinto que me perco

de cada vez que me encontro. 


Mas já não me (re)encontro

de cada vez que me perco.

20/07/2021

dErviXe

entrego as feridas ao sal. ao quente da terra. às lâminas do mar que imagino por dentro de meus olhos. 

toco com os dedos no ar quente que a noite sopra e sinto como se estivesse a navegar na proa de um navio que me leva para longe de todos os aqui, de todos estes agora, de todos os (des)tempos. 

a maré traz por dentro um qualquer vento soprado a norte. faz as ondas dançarem num aroma lânguido que se deita com as areias do deserto plantado ao sul de minhas chagas. 

danço, como um dervixe enamorado de um qualquer Deus que se oculta de minha fé. 

pondero os passos. remeto tudo ao sabor do sal. lambo o sangue do chão e mergulho, 

a dançar, 

nas ondas que só existem dentro de meus olhos. 

morro, sem medo, quando morro enquanto estou vivo.

morro, em medo, quando morro já estando morto. 

segura meu coração com tua mão fechada. punho cerrado. toda a força que remanesce em ti condensada nesse gesto aterradoramente poético. 

o sangue escorre pelos teus dedos finos e tinge a terra quente de um vermelho quente. 

aperta até não poderes mais. 

eu já não estou aí. 

17/07/2021

noTe

Das janelas viradas a sul, 

de frente para a noite aberta,

ouço as vozes que se desprendem de corpos leves, 

estranhos, 

alheios a mim e

distantes do lugar em que me sei. 

 

Vozes que entoam risos, 

ébrios ou reais, 

melodias, sons, tons e texturas 

que não sou capaz de reconhecer e

que, 

talvez, 

não saiba sentir. 

 

Penso que talvez sejamos o que a nossa história

- tudo o que nos antecede antes de sermos nós mesmos -

nos faz ser,

nos permite ser,

nos induz a ser, 

nos ilude a ser,

e talvez tantos de nós, 

justa ou injustamente, 

não possamos nunca saber a real possibilidade da dimensão do mundo

de tudo o que é além de nós,

do que está além de cada janela aberta. 

 

Talvez sejamos todos um lugar de silêncio

e um lugar de risos, 

um espaço de tempo de parar

e um espaço de tempo para calcorrear as estradas dos caminhos da vida.

 

A verdade é que muitos paramos na beira da estrada

no fronteira limítrofe que não vemos mas sabemos,

com toda a certeza que se reconhece nas coisas imutáveis, 

estar ali. 

Deixamos de saber que

a montante, 

somos nascente e

a jusante, 

podemos ser rios a correr até aos lugares mais distantes de nós. 

 

Das janelas viradas a sul, 

de frente para a noite quente,

reconheço que existem

sempre

outras (im)possibilidades em nós. 

09/07/2021

Penso em como tudo o que se sucede aqui é vago e é vazo

é simultaneamente intenso e intensamente despido de significado

profundo como um mar, quente como as dunas de qualquer deserto mas fugaz e dificil como o vento do norte

é claro como a água da nascente que emerge do âmago da terra e turvo ao ponto de deixar tudo a saber a lodo

é de uma felicidade pueril mas que dura tão pouco no tempo. Não se sustém. Não se sustenta. Perece e não permanece.

Chegas inteiro e partes aos pedaços. Aterras em fragmentos e partes em poeira. És intensamente nada enquanto és tudo. Olhas para mim como se o lugar certo do mundo fosse neste preciso instante e, depois, todo o mundo pesa sobre o todo de ti e a dúvida remete este lugar à insuficiência da insatisfação.

Penso em como tudo isto é vazio e é vago e é cheio e é sóbrio. É tanto sem ser quase nada. É nada por ser tanto. 

Na verdade, não desejo que chegues e que partas sempre inteiro. Mas não sei pegar em tantos pedaços espalhados debaixo da pele de meus pés sem que se abram chagas que nenhuma palavra poderá pode curar.

O que seremos, verdadeiramente, quando somos aqui? 

05/07/2021

O que há em mim

O que és em ti

Não tem lugar para nos ser(mos). 

Chovem pétalas amarelas por dentro do meu peito enquanto teu beijo me encontra e me devasta inteira no calor perfeito de uma noite intensa caída aos pés de uma lua quase cheia. 

07/06/2021

Lavo o que sobra do dia de seus pés.

Beijo as palmas de suas mãos e coloco-as sobre minhas lágrimas.

Repito seu nome ao vento e espero pelas cinzas para recuperar a liberdade.

Deixo-o partir enquanto me despedaço. 

18/05/2021

o tempo consome o espaço que há por dentro. 

diz-me

por favor,

se respirar é,

hoje, 

um acto de contrição 

ou o caminho da salvação. 

09/05/2021

mAtEr

pesam-me todas as penas do mundo.


trazem-me alivio todas as palavras que se levantam dentro do silêncio escuro que vive dentro de mim.

06/05/2021

JAMS

fico guardado por dentro do meu corpo à espera do momento certo para sair. há uma batalha incessante que acontece por dentro de mim de cada vez que abro os olhos, de cada vez que a dor se instala, de cada vez que nada em mim parece querer obedecer. 

conto com as mãos dos outros que entram e que saem daqui e fazem de meu corpo o que entendem fazer. não consigo defender-me, não consigo encontrar mais de mim dentro desta jaula que me encerra. que me comprime. que faz esvair-me de mim enquanto o resto do mundo passa a correr do lado de fora. 

fiquei suspenso no tempo. a verdade é que continuo a ser eu por dentro - o mesmo eu. ou talvez não o mesmo mas apenas um esquisso do que fui e uma sombra do que poderia ter sido. 

ou talvez até nem pudesse ter sido grande coisa mesmo aquém deste lugar que me encerra... teria feito o quê de minha vida? chegado onde? sido quem? se não fosse isto que sou agora, seria o quê? talvez já nem sequer me lembre bem do que era antes de ter chegado aqui. os caminhos tornam-se areia e pó, humus e lama, vento e abandono. talvez já nem seja importante pensar como ontem me via mas apenas como hoje me olho. hoje sei que sou grande mas sinto-me pedaços de pedaços de pedaços de pedaços. 

sei que vou morrer em mim antes de morrer da vida e que, até aí chegar, me irei inebriar de agonia até poder desaparecer... até que esta dança lenta me leve até ao final do palco. 

e o medo começa a ser o que me abraça todas as noites enquanto toco com a ponta dos dedos os limites da jaula. agarro-me a estas grades com a certeza de que há liberdade do lado de fora. vejo como todos me olham como se eu eu fosse um artista da fome kafkiano. talvez seja isso em que me tornei. talvez não se tenha feito justiça e eu tenha sido, verdadeiramente, deixado no abandono da incerteza e do medo que os outros sentem da minha morte lenta. sinto que se esquecem de mim mesmo ainda de eu ter partido. que me calam mesmo enquanto eu ainda grito. que me ignoram mesmo quando eu os olho de frente. 

no lugar de mim, há mais do que apenas uma solidão sem horizonte. sem linhas limítrofes. sem dimensão mensurável. no lugar de mim, há medo e há tristeza e há saudade e há arrependimento. estou dentro do escuro que vem do âmago dos lugares mais negros que podem ser lugares de ser. minhas lágrimas são a minha expiação. tuas palavras podem ser a minha salvação. 

fico dentro deste lugar que me guarda, que me é, e agarro-me a uma réstia de esperança que me possa levar a um lugar menos escuro. onde o medo não me possa tocar com garras frias mas sim com dedos ternos. para ter alguma paz. para poder morrer no meu tempo. 

Coloca tuas mãos sobre a minha face. 

Desce, peço-te...Desce e toca-me na nuca. Aproxima-me do teu desespero. Afasta-me da minha ausência. 

Respira enquanto eu grito. Grita enquanto eu inspiro. 

Inala enquanto eu fecho os olhos. 

Sorri enquanto vais. 


13/04/2021

C.

Sinto que te digo adeus ainda antes do tempo de me despedir de ti. 

É como se eu estivesse a despir-me de mim. A deixar cada uma das partes num qualquer lugar. Algumas em lugares certos, arrumados, direitos. Outras, talvez nem tanto. 

Algumas imagens começam a ficar envoltas num nevoeiro espesso que se vai apoderando de partes da minha memória. Partes de mim. Faz-me desvanecer devagar, compreendes? Uma forma lenta mas tão desesperadamente rápida, na verdade. Tudo se desfaz num ápice. Uma fracção de segundo. Uma valsa que, na verdade, não abranda mas que voa através do salão de mogno  imenso que é a minha vida. Até ter chegado aqui. 

Sinto que o cansaço e o vazio se inteiram completamente de quem eu fui, atravessam quem eu sou e remetem tudo o que ainda podia ser para um lugar que já não consigo verentenderprojectarnomear. 

Fecho e abro os olhos. Não melhora. Há uma névoa que dança comigo a dança dos dias e me embala nas noites. Já não me deixa. Talvez eu já não seja apenas eu...Talvez seja eu e tudo o resto que agora parece soçobrar de mim.

Há momentos, agora, em que sinto que me desfaço em pó. Em que te digo adeus sem ser ainda tempo de partir. Perdoa-me se não te consigo dizer de outra forma o que me corrompe e arde por dentro. Perdoa se não me consigo entender de outra maneira. 

A dor passou a ser a parte mais inteira de mim e sento-me, no meu próprio palco, absolutamente só, a assistir - através de gritos emudecidos pelo segredo que reside dentro da minha angústia manietada - à queda do resto de mim. Sinto como se me estivesse a desfazer em pó. A aniquilar-me. 

Já não tenho forçavontadecapacidadecrençadesejo para parar com esta destruição massiva que acontece em mim. 

Sento-me, no público, a olhar para o palco onde permanece o resto de mim e assisto, impotentecansadotristepassivodescrente, à despedida que estou a fazer de mim mesmo enquanto te digo adeus. 

Mas deixo a noite terminar e vejo o recomeço que acontece cada manhã. 

Conto até três, conto os passos até ti, e recomeço. consigoresistopersistoacreditorecupero e adio a despedida. Agarro-me nas finas linhas da luz do sol, teço finos fios de seda que me agarram à costa, enquanto sinto as ondas retomarem à maré. Como tem de ser. Como a esperança que desenha as ondas. 

Cada dia, recupero uma parte das partes. Talvez ainda não seja pó. Talvez ainda possa estar apenas a dançar uma valsa lenta. Talvez tudo, afinal possa ir desaparecendo lentamente. E volto a querer ficar. Mais um pouco. Adio a despedida. Adio a minha ausência de mim. Recomeço. 



05/04/2021

Olho para ti. Sinto que já não sou mais capaz. 

Falho sempre. Reiteradamente. Inadvertidamente. Irremediavelmente. 

Sou lugar em que te estilhaças e são só fragmentos do que resta dos teus vidros o que me desfaz a mim. 

Olhas-me e já não entendes nenhum sentido. 

De cada vez que te deixo, há mais uma parte de mim que padece. Não sei bem quanto mais resta para morrer. Quanto mais falta para desaparecer(mos). 

Até quando vamos conseguir perseverar nesta destruição maciça?

Até quando vamos conseguir manter-nos à tona de água antes que o que falta nos leve em estilhaços de mundo? Até não sermos mais do que pó de estrela ou o começo de uma supernova que se desfaz por dentro.

Somos duas estrelas que se preparam para morrer. Devagar. 

03/04/2021

fechei todas as páginas em branco. 

compreendo, 

agora, 

que jamais te poderia escrever. 

um instante, 

apenas,

é quanto basta

para nos perdermos

definitivamente. 

02/04/2021

InsTanTe

Dou por mim sentado no silêncio da noite, à espera. 

A meu lado, arde uma vela. As chamas sibilam por dentro do negro mais negro enquanto me rendo à certeza de que não vens. Nem hoje, nem ontem, nem amanhã. Nenhuma outra noite te trará de volta aqui. 

Os instantes levaram-te, como os ventos do norte, para o lado mais oposto do lugar onde eu tacteei para poder parar. 

Talvez sejamos, no limite, duas linhas paralelas que não se encontram nunca. Talvez a linha que me desenha seja feita de lascívia e a tua te desenhe com linhas divinas. 

Ainda assim, dou por mim parado no escuro, à espera de ti. A dançar, como se meu corpo estivesse ébrio, quase como se minha consciência estivesse distante, quase como se nada disto fosse real. 

Sento-me no lugar de mim, onde me sei e reoriento. Talvez não venha a haver nenhum outro lugar para eu ficar. 

Dispo-me no instante mais negro do silêncio e entrego-me na humilhante dança do meu próprio corpo. Como se tivesses vindo. Como se estivesses aqui. Na esperança de que a noite possa trazer o lado inverso desta vigília que me afasta do meu norte. 

 beija-me os olhos. 



prometo que não respiro. 

SalVaTioN

Para quereres ficar, terias de me amar. 

Para me poderes amar, eu teria de te confirmar um amor por ti. 

Se eu to confirmasse, tu não o saberias conseguir aceitar. 

É esta a razão pela qual nunca me poderás amar. É esta a razão pela qual eu não te irei amar. 

31/03/2021

são os ventos do deserto a sul, que embalam a noite de hoje. 

o céu reveste-se de cores que nenhum poema pode saber descrever.

talvez seja silêncio o que repousa dentro do ruído que as hordas de areia desfazem nas melodias do pó. 

a noite aquece enquanto demora passar. o tempo a não ser mais do que o que medeia o lugar das arestas do deserto e as arestas de ti.

são os ventos que trazem o aroma a jasmim aberto sobre a esperança do sol que emerge da possibilidade do amanhecer.

és tu o céu que regressa a casa, que calcorreia o chão descalço a sentir a areia fina a entranhar a pele e a descobrir as flores brancas que inebriam o ar pesado com que a noite se enlaça. 

talvez seja um ruído demasiado intenso o lugar de ambivalência que te habita na orla do deserto que é inteiramente silêncio em ti. 

ou talvez estejas, somente, a partir com o vento que se desfaz no poema de areia num deserto de abandono.

15/03/2021

Encontrar-te-ei quando a noite fizer silêncio por dentro da casa que me guarda. 




Mas o mundo nunca se cala. 

é possível que me condenes a desaparecer,

de cada vez que me abandonas

estou parada no tempo.

o disco gira infinitamente na mesma orla. retido na ponta da agulha. a separar os acordes na imensidão do tempo. a impedir a música de o ser. 

só ruído. só interferência. repetidamente. 

estou suspensa no tempo.

repetidamente.

sento-me no lado mais fino da aresta deste cubo em que me encontro. não sei bem como vim aqui parar. se queres que te diga, nem sei bem onde estou. a verdade é que não consigo falar. não consigo dizer o que me rasga as vísceras enquanto a náusea me toma de assalto, minuto a minuto 

_para me recordar que existo ou para me recordar que morro?_ 

e me faz sair o sangue, a conta gotas, como se fossem palavras, a conta gotas. uma gota depois da outra. um sangue depois do outro. devagar. 

só ruído. repetidamente. 

creio que fiquei presa no tempo. não presa, suspensa. não suspensa, pendurada. não pendurada, retida, não retida, emersa. não emersa, presa. 

repetidamente. 

depois do ruído, quando as palavras regressarem, 

existo

ou morro?

 


01/03/2021

je ne sais plus par où commencer. 

ni où finir.

la vérité est que je ne serais, jamais, plus que cela. plus que rien. plus que la pluie que on attende sur le désert. 

le désert que s' étire sur ma peau, dans mes yeux, dedans ma tristesse. ma tristesse est indélébile, proche d' infini, cristallisé par dedans mes mains, par dedans mon corps, pleinement propriétaire de mon âme. 

je sais que je suis en trains de finir. il n'y a aucun chemin pour choisir maintenant. ça c'est ce qu'il y a pour mon désire... un désért sans fin.


28/02/2021

estou de frente para o espelho a fingir que queria viver uma história de amor. escorrem pela minha pele as certezas da finitude e a angústia das coisas por terem sido coisas que não chegaram a ser senão nadas. vejo e revejo e são apenas sombras o que fica. a casa a meia luz. meus olhos às cegas. 

caminho descalço e sorrio enquanto me forço a convencer-me de que é este amor o que verdadeiramente desejo. uma verdadeira história de amor. antes de morrer, quero uma vida de amor. um momento eterno em que amo e sou amado e mais nada pode ter importância. até que a vida termine e mais nada possa permanecer depois disso. 

dispo-me de frente para o espelho. faz frio nas sombras desta casa. minha pele cheira a tristeza. meus dedos cheiram a sexo e a fumo. meus braços abertos não seguram a certeza que emana de dentro de minha alma e que sabe ao sabor do teu beijo, que cheira ao odor da tua verdade. forço-me a respirar-te inteira dentro do corpo para fingir que te amo. 

serias o crime perfeito. forço-me a acreditar que era contigo que eu viveria a história não escrita de um amor que não desejo. serias a desculpa perfeita. a desculpa perfeita para um amor imperfeito

 pois jamais me poderias amar. 

20/02/2021

amei-te pela primeira vez. 





e foi a última. 

17/02/2021

DùviDa

se amar verdadeiramente é estar disposto a morrer pelo outro

_ como Alceste fez perante os deuses_

então que verdade existe em cada um de nós?

como pode haver verdade se sou um eu que se despoja inteiramente de si para dar o sangue, o ar, a inteireza do ser, por outrem

_ e se me despojo de mim, que valor tem realmente a minha vida _

se a entrego?

se a minha vida então nada vale

_ quando dela me desfaço_

como pode ela ser prova de amor?

sou amor se morrer por ti mas quem sou eu a jusante disso?

se eu não sou

_ou se sou nada porque de mim me deixo ir como se o eu não fosse valor para mim_

que valor podes ter tu em mim se nem de mim eu considero a validade verdadeira da existência?

se sou insignificância, como posso eu valer-te?


amar-te-ei com mais verdade 

_quando morro por ti _

_ou quando te deixo ir?_


tÉnuE

Meu corpo é feito de suor que se transforma em sangue

e

sangue que se reverte em vinho

e

vinho que regressa à uva com que te alimento a vontade.


Deixo que corras para mim 

e

me desfaças em pó

e

que o pó dance no vento 

e

o vento se entregue à chuva 

e

a chuva me leve até ao firmamento. 


Não me importo que me esqueças

Meu corpo é feito da ténue memória de ti. 

14/02/2021

se me mentires, é possível que eu queira acreditar

cometo o erro de segurar as palavras contra todas as probabilidades. conto e reconto. permito que façam eco. que se repitam. que desafiem todas as leis da física. que permaneçam. que não desapareçam. 

talvez eu não queira que as palavras se apaguem. 

ou talvez sim.  

ou talvez queira somente pegar nelas com as duas mãos, virá-las de dentro para fora, inverter o seu conteúdo, desviar o seu sentido, brincar com elas a meu belo prazer. 

ou talvez não. 

hoje escolho decidir mentir a mim mesmo. repetir as palavras que não ouvi cantares e sentar-me, lá fora, no frio da noite do inverno que me habita, até que possa chegar a primavera. 

06/02/2021

pego nos cacos de tudo o que se quebrou hoje

seguro nas mãos fechadas o máximo que consigo 

mas é pouco o que cabe


04/02/2021

 chove sangue por dentro das minhas mãos

31/01/2021

começo por despir a boca

depois os dedos...um a um.

fecho os olhos. quero sentir tudo, o momento em que (quase) te sinto a chegar.

desfaço-me da roupa que me cobre. o corpo arrefece quando se confronta com a noite que desce sobre o sangue e entra por dentro da pele que começa a respirar.

sento-me sobre a tua ausência. dispo-me (por fim) de mim e cubro-me de tua pele. ouço-te a sussurrar-me no ouvido as palavras melódicas da terra que te tem por dentro da alma e tudo (por dentro de mim) começa a arder. 

um por um, teus dedos recontam a história dos dias em que teu barco navegou as ondas do mundo inteiro. enquanto eu esperava. por dentro da tua ausência. ancorada na orla do porto. com os pés dentro da água que te traria de volta ao aqui. 

abro a boca já despida e o silêncio comporta a desonra em que me permito perder. não há nada para além de pecado neste lugar em que me permito permanecer. lânguida e sôfrega. perene e efémera. desesperada e pronta. 

não permito ainda (para prolongar a doce angústia em que me desfaço) que o ar me traga de volta a mim. quero sentir o odor da tua ausência dançar sobre o fogo que arde por dentro da minha eterna devastação. 

há um aroma que se suspende no ar. a maresia e a calor. a tempo e a possibilidade. a sonho e a terras distantes. 

há um sabor a vontade e ao adiado. a encontros desencontrados. 

há intenção de ir. desafiar tudo e, simplesmente, ir. 

abro os olhos. visto-me nos dedos. silencio a tua voz da mesma forma que uma âncora beija o fundo do mar. 

e deito-me (de novo) sobre as minhas próprias cinzas. 

é quando me confronto com a minha iminente efemeridade que, num movimento 

obsceno 

de tão banal, 

inusitado

de tão ridículo, 

primário 

de tão instintivo

me questiono sobre o que ficou por ser. 

30/01/2021

Está tudo a mudar. O espaço. O tempo. O agora. O por vir. O que foi. O que é. O que era e já não é. O que estaria para ser. O que podia ter sido. O que não chegou a ser. O que ficou. O que partiu. O que não chegou a chegar. O que nunca pôde partir. O que veio para ficar. O que ficou para vir. O que eu fui. O que tu és. O que fomos. O que o mundo era. O que o mundo é. O que a vida foi em ti. O que a vida mudou de mim. O que mudou em nós. O que ficou em nós. O que está a meu lado. O quem está a meu lado. O quem tu és. O quem eu fui contigo. O quem fui depois de ti. O que eu queria ter sido. O que vou chegar a ser. O que chegaste a ser. O que não podias ter sido. O que eu desejo. O que tu renegas. O que eu anseio. O que tu ignoras. O que eu atravesso. O que tu abraças. O que eu renego. O teu abraço. O que não podia voltar a ser. O que foi de volta. O que pôde voltar. O que ainda pode voltar. O que perdemos, os dois, nos braços do (nosso) mundo. O mundo que nos moldou. O que moldámos no mundo. O que eu posso fazer. O que tu podes dizer. O que eu disse. O que tu fizeste. O que eu disse que iria fazer. O que tu fizeste por ser. O que eu não consegui. O que tu não conseguiste. O que nós deixámos de ser. O que nos tornámos. O que passou a ser impossível. O que se tornou possível. O que morre. O que morreu. O que pode vir a morrer. O inimaginável. O que imaginámos sem saber. O inegável. O que podemos negar. O irrefutável. O que podemos contrariar. O tudo e o seu contrário inteiro. O vazio que nos assombra. O vazio que nos assombrou. O vazio que tomou conta do nosso mundo nas mãos fechadas sobre a face. O que podia ter sido um beijo. O que o vento não chegou a trazer. O que o mar não conseguiu levar de volta. O agora. O depois. O que está a chegar aqui. O que vamos ter de fazer. O que vamos perder. O que já perdemos. O definitivo. O que está a mudar. O espaço. O tempo. Tudo está a mudar. 

tenho  um lábio a sangrar. a pele dormente, a certeza da tua chicotada a dançar-me na memória_ou na pele?

espera um pouco. será que podes voltar_ atrás? recomeçar? voltar ao início de todas as coisas? 

podes escrever tudo na parede _ de novo _ com o sangue que me despe a boca que canta teu nome, para eu não poder esquecer o caminho de volta? 

será que podes dizer o que disseste antes de dizeres o que acabaste de dizer? a dor que permanece depois da tua mão, aniquila a minha capacidade de entender o que fica por debaixo da melodia do teu grito. repetes?

fecho os olhos e sinto a voz da tua mão a desafiar o vento_ o tempo_ e a cair no lugar onde antes eu tinha um sorriso onde poderia caber o lugar inteiro do mundo...

se pudesses esperar o suficiente para eu recuperar o fôlego, eu conseguiria ouvir. sabes, é que a forma como tua voz me arrastou para o chão foi a forma como as tuas mãos puderam dizer o meu nome.

recupero parte de um fragmento que pertence à capacidade do acto de respirar. apenas uma parte.

tenho o peito a sangrar do rio que me escorre da boca despida. as tuas chicotadas permanecem a desfazer-se na minha pele até que sinto o mundo a desaparecer de debaixo de meus pés. 

talvez agora já não sinta nada. já não consiga dizer nada. talvez seja melhor, apenas, dizer-te que vou parar de respirar. 


26/01/2021

Can the killer in me

Tame the fire in you?

Is there nothing left to do for us?

I am sick of the chase

But I'm hungry for blood

And there's nothing I can do

(...)


 Noah & Abby Gundersen - Killer + The Sound

22/01/2021

Fecho os olhos para te sentir as asas.

Coloco todo o meu pensamento na ponta dos dedos. 

Se respirar fundo, sinto tudo como se estivesses no lugar de mim. Acaricio tuas penas em toda a sua longitude. Deixo-me cair na sua profundidade, estendo-me inteiro no seu comprimento. Um mar marmóreo que se estende a meus pés e em que me deixo afundar sem medo da invocação do abismo. Se respirar fundo, ouço a tua voz a sair de dentro do tempo como um grito indelével que reconhece o caminho de escarpas que te traz até ao lugar em que eu me despenho. 

Deito-me para te saber do meu lado e são as tuas penas - as tuas mãos - que te seguram por dentro, na alvorada que só tu permites conhecer. Permito-me a queda, ainda que apenas por breves momentos, enquanto a ebriedade que baco derrama sobre minha vontade me permite amar como se o mundo fosse terminar neste preciso momento. Deito-me a teu lado como se aqui estivesses e eu te pudesse saber no interior da tua - infinitamente - presente ausência. 

Fecho a voz para te saber nas penas. 

Fecho as penas sob os dedos para te saber no silêncio. 

Fecho o silêncio para me saber aqui. 


O momento em que tomas consciência do teu corpo, é o momento exacto em que o sentes a ceder à dor. Tal como um amante submisso cede, de imediato, a todas as provocações e todas as provações que o amado lhe solicita ou lhe impõe, em silêncio ou gritos desmedidos. É aí o momento, quando compreendes que tudo é nada e nada pode ser sempre tudo. 

O momento em que sentes a certeza da agonia é quando cedes à consciência. A possibilidade da morte é o teu lugar de desprendimento. O teu lugar de arrependimento. O teu momento de solidão, absolutamente perfeito. O juízo final em que te assumes na derrota e podes serenar. 

O momento em que o corpo te ocupa por inteiro e percebes que pouco podes escolher. Talvez seja a vida que te escolhe. Talvez tudo o que és, ou o que podes vir a ser, não dependa inteiramente de ti mas de onde o teu corpo te vai possa permitir ir. Te possa permitir ser. Te possa deixar fazer. 

Tudo pode ser nada e nada pode ser sempre tudo. Dentro das provações. Dentro das provocações. Dentro e fora de ti. 

Estou a arder. Em raiva. De raiva. Pela raiva. Não há água que me possa salvar. Tempo, lugar ou espaço. Vento, matéria ou chuva que faça parar isto. Estou a arder. Pela raiva. De raiva. Em raiva. E vou apodrecer inteiro, por dentro,depois de consumido pelas chamas que vivem na minha voz. 

21/01/2021

Sonhei que me lavava no rio e que depois me deitava nua no lugar da esteira que ficava a teu lado. Eram longos os cabelos que me cobriam as costas e eram eternos os dedos com que mos escovavas. Era tua a pele que me tapava e me afastava do frio da manhã. Era teu corpo o manto único que necessitava para me esquecer de morrer. Era tua a vida que brotava do rio e que me (e)levava até onde eu parecia estar.

Sonhei o sonho que ficou entregue na noite que passou. Foi apenas isso. E nenhum rio o poderá voltar a trazer de volta. 

03/01/2021

porque é que encontramos a possibilidade da salvação nas palavras que escrevemos com o sangue da nossa provação?

porque é que nos aproximamos enquanto, na verdade, estamos cada vez mais distantes pela razão de não podermos ser, nunca, mais do que isto que já existe aqui?


pergunto-me exactamente onde é que tudo isto deve começar a terminar. 

27/12/2020

DePois

É quando olho para trás, para o que ficou à nossa frente, que compreendo tudo. Compreendo que aqui não é um lugar de cântico dos cânticos antigos. Aqui é um lugar feito de quimeras pelo que o amor é bordado em pontos de nuvem e banhado em resquícios de ilusão.

Talvez, olhando agora distanciado do momento exacto em que te permiti saires de dentro de minha pele, tu não sejas mais do que um lugar místico onde permiti que a minha insanidade se repousasse pelo tempo necessário para eu (re)acordar por dentro da vida materializada na (im)possibilidade.

Eras um lugar de cântico enquanto eu sonhava num sono inquieto. 

És agora lugar de canto do cisne que parte, enquanto eu vivo. 

20/12/2020

ton odeur brule encore sur ma peau.


je suis presques a devenir en cendres par dedans. 

nOrTejO

respiro fundo enquanto atravesso a ponte. por cima do rio. por cima da neblina que acorda o nascer do dia e que traz, por dentro, um manto inteiro de possibilidades. 

sinto o vento gélido que acaricia os primeiros raios de sol. sinto o sangue a ferver por debaixo da pele que arrefece quando o vento chega até aqui. sinto o suor a percorrer-me o corpo. um tremor ligeiro que se apossa do ventre. uma angústia deliciosa. 

vou vendo como o meu lado do rio fica para trás. já não posso recuar. não há como voltar ao lugar de onde se partiu agora mesmo. quando inicias o caminho, deves manter-te no caminho. 

demoro-me neste pensamento e revejo o princípio da história. 

hesito. recomeço. suspendo. recomeço. acelero. recomeço. 

atravesso o tempo o mais depressa que consigo para poder minimizar o atraso que se adia em mim. conto chegar no tempo certo mas o tempo ilude-me na (in)certeza de estar a tempo. como a manhã que emergia do frio e finalmente acaba por se entregar nos braços do calor improvável de dezembro.  

é no teu olhar que encontro a imensidão da curiosidade. o fenómeno incompreensível da necessidade de compreender tudo o que acontece em nós. o mundo é um lugar demasiado grande para ser compreendido em todas as suas dimensões. assim como nós. assim como eu que tão pouco sou no (teu) mundo. 

meço as palavras. não quero que me saibas. 

ignoro os gestos. quero que me vejas.

sinto a leveza das cores apesar do negro que crês habitar em mim. sinto como se o mundo inteiro coubesse no teu sorriso. na palma da tua mão que hesita em tocar-me a face. 

acredito que o mundo para de respirar no momento em que me permites ver-te. se fosses um livro, terias ainda muitas páginas por abrir porque, na verdade, há mais para além do universo de pecados que te assolam e te fazem desfazeres parte do caminho. e é como se, por vezes, esse fosse o lugar do teu despotismo.

o rio desaguou em mim com a dimensão de um oceano e fiquei com tanto para compreender. ou talvez tanto para explicar. acordei, por dentro da noite que entrega o começo do dia, com um manto imenso de palavras por ouvir. a tua história em gotas de rio ou em pedaços de lixo ou em ideias de luxúria ou em espaços por preencher ou em (des)amores adiados. desaguaste em mim como um livro que precisa ser escrito. 

enquanto atravesso a ponte de regresso ao lugar de onde inicialmente segui, suspendo-me na ideia de que talvez seja em ti que falta construir uma ponte. o lado certo do teu lado do rio. o lado exacto da tua fragilidade. o manto de possibilidades que ainda permanece em ti. a ligação entre o que te faz e o que te desfaz. 

13/12/2020

inDifErenÇa

não há nenhuma semelhança entre nós. não há nada que nos aproxime porque tudo é a tese e a sua antítese. o verso e o reverso. o poema e a prosa. a água e o fogo. a madeira e o carvão. 

não te posso dizer o que sou de verdade. o que eu sou não tem lugar no que tu sabes. o que tu aceitas não tem lugar para o que eu virei a ser depois. 

porque te permites as perguntas se as perguntas trazem em si as respostas e as respostas tu as colocas nas mãos e as feres de palavras que se deixam ser moldadas na/pela/com indiferença de sentido quando o sentido parece/é tão distante, inevitavelmente oposto, do caminho em que te colocas. 

as perguntas sem resposta deixam de ser, essencialmente, toda e qualquer coisa porque sem resposta, uma pergunta deixa de existir em si mesma. as perguntas existem pela mera razão da existência da dimensão incomensurável das respostas que podem ser dadas.

respondo a todas as perguntas. mas fico a queimar por dentro quando as respostas não se ouvem pela razão apenas de não serem as do lado certo. as do sentido certo. as do caminho certo. respostas que não são ouvidas, deixam de ser respostas. fico a ouvir por fora o que se desfaz nas mãos e que depois se desfaz por dentro. 

as palavras têm o poder de nos fazer desfazer. a indiferença é hábil na condução da alma ao desvio do lugar onde as perguntas se permitem acontecer. se há indiferença, não há lugar às respostas que existem em mim. que são de mim. que sobram do que eu sou. 

não te devia ter respondido. poderia ter deixado a pergunta solitária, a navegar no caminho, até se poder desfazer com o tempo no mar inóspito das perguntas que perdem a sua razão à razão de não terem sido respondidas. 

as respostas que existem em mim, para as perguntas que possam vir, são da minha verdade e a minha verdade não te é tangível e remete à indiferença e a indiferença não me cognoscível. e assim, não seremos nunca nada mais que eu o carvão, a água, a prosa, o reverso e a antítese e tu sempre a tese, o verso, o poema, o fogo e a madeira. 


28/11/2020

rAzÃo

Não compreendo o motivo pelo qual fico suspenso nesta espera sem sentido 

pois sei 

com toda a certeza que cabe dentro das coisas certas

que nunca seria possível chegares. 


Não compreendo porque me permito o engano perfeitamente desenganado

e me alimento dele para respirar um breve momento mais

enquanto invento motivos para me esquecer de parar.


Não compreendo porque este lugar chegou até ao espaço de ti

que sentido nenhum fazes dentro de mim

mas que o olhar por dentro de tua voz me tocou como se fosse ferro 

e eu 

apenas fosse feito de pó. 

 

Compreendo 

agora 

porque me permito permanecer a dançar nesta doce ilusão porque é enquanto a (des)verdade me mantiver à tona 

eu me suspendo num lugar em que é permitido continuar a respirar.

16/11/2020

eScaRpa

Desenho te na linha das escarpas

de frente para o lugar onde as ondas chegam 

para gritar -

para cantar - 

para erodir - 

para esculpir -

para devastar - 

para recriar - 

para afogar - 

para libertar - 

a rebentação das ondas que suportam o impacto da tua ausência nas rochas que enegrecem no sabor do sal.

aguardo que olhes para mim. não. que me vejas. não. que me saibas. não. que me reconheças. 

lanço-te do cume das rochas e assisto à tua queda. não verto nenhuma lágrima. não fecho os olhos. apenas sigo no grito das ondas, atrás de ti.

lambe a morte de dentro da minha vontade e conta-me uma história de adormecer. 

eu só queria que pudesses tirar-me de dentro de mim. uma vez apenas. seria o suficiente. 

o mundo não pára lá fora. sabes bem que nada pode parar. 

sabes também como a vida tem apenas um destino e que no caminho até lá não podemos deixar de seguir. em frente. 

leva a vontade de dentro da minha morte e adormece a lado da minha vigília. 

15/11/2020

Aspettami

fico à espera. 

de encontrar. de saber. de chegar. de confirmar. de entender. de parar. 

espero enquanto esperar for a forma de te encontrar. de me saber. de sermos, de certa forma, uma e a mesma única coisa. como se eu só pudesse ser, verdadeiramente, depois de te encontrar. 

fico à espera na esperança de chegar até ao lugar certo do caminho que não escolho, que me escolhe, que me espera na espera em que me encontro perdido. talvez esteja à espera para me encontrar. para saber o resto que falta de mim. para assegurar. para deixar de estar sempre a sentir-me suspenso nos teus dedos sem que realmente me saiba nas tuas mãos. 

vou na demanda mas permaneço parado. quieto. num tumulto insaciável que aguarda serenar. porque te sei e porque espero a esperar saber esperar da maneira certa. fico à espera do teu encontro mas não te tenho ainda em mim da forma como espero poder esperar ser a certa. a única forma certa de esperar.  

talvez não espere o que espero mas sim o que esperava esperar quando a espera se torna profundamente tudo o que sou. ou talvez eu seja tudo o que posso ser sem ser ainda, ou ter já sido, e a espera do que se pode encontrar, depois de mim, seja o que me consolida na espera(nça) de chegar a ser exactamente o que sou suposto ser. em ti. depois de ti. contigo. sem mim? comigo?

fico à espera. de entender tudo o que falta entender. de confirmar o que falta confirmar. de chegar onde é suposto eu estar. de saber o que eu sou. de encontrar as tuas mãos. de parar junto a ti. 


14/11/2020

NoRTada

procura por mim no vento que vem de norte



estarei no lugar das ondas. 

11/11/2020

 A vida começa a terminar no momento exacto em que compreendes o significado que reside dentro da impossibilidade. 

10/11/2020

 Há um cavalo negro a correr desenfreado por dentro do meu peito. 

08/11/2020

EucaliPto

 As paredes exalam um aroma a eucalipto que escorre na ponta da tinta em que alguém escreveu o lugar do mundo.

Corro, descalço, com a pele a beijar a lama fria, enquanto o inverno encontra o lugar certo dentro do poema que se faz em mim.

Meu corpo parece permanecer parado no mesmo lugar enquanto, na verdade, corre até a pele cair em lágrimas quentes de suor que lavam a certeza da queda premente. 

O chão permite-se cobrir das folhas vermelhas que se precipitam dos plátanos cansados que seguram as orlas do jardim, enquanto cantam o último suspiro. Como se fossem cisnes preparados para partir.

As paredes em torno deste jardim contam uma história. Basta que feches os olhos, que abras as asas e o peito, e poderás ler tudo o que ainda não foi escrito. Como uma viagem que se começa. Como um poema que ainda só se sente. Como um caminho que, temerosamente, se enceta. 

Tudo a exalar, na pele que navega os lugares de lama, o aroma triste de um eucalipto que chora. 

26/10/2020

gritas

(sem que percebas)

e é só lodo que te sai na voz.

gritas

(sem que sintas)

e é só fel que te lambe os lábios gretados.

morres

(sem que saibas)

no lodo que apodrece no grito que te dilacera inteiro por dentro.

seguras tua mão na minha como se temesses ficar sem chão. minha pele diz-te que não há futuro possível aqui. tua voz diz-me que teu corpo mente perfeitamente na ilusão da noite que arrefece quando o outono se deita sobre o espaço que sobra entre o que falta dentro da (im)possibilidade.

05/10/2020

Em breves momentos, a praia fica deserta. De tempo. De pessoas. De restos. 

Permanecem, aqui e ali, apenas os poucos corpos que resistem ao ar que arrefece a pele. Rapidamente se transformam em vultos que se deslocam no aro dourado que acaricia a areia enquanto o sol, lento e lascivo, se recolhe por entre a rocha negra. 

No mar, afogam-se orações e memórias.

Deixas que tuas mãos mergulhem no toque salgado das palavras de abandono entoadas no segredo do silêncio do crepúsculo. 

Gaivotas chegam em voo raso, lento, sereno, para descansar do calor tórrido que fervilha nos horrores que residem nas entranhas da cidade. Deitam-se sobre o lugar em que o calor se demora a abandonar a areia fina, mesmo junto ao silêncio que preenche o vazio que salga o interior de tuas mãos. 

Não há medo nem temor aqui. 

O deserto que cabe dentro de ti, é tão fundo quanto o mar. Tão lento quanto o bailado do sol na areia.Tão serenamente dilacerante quanto o voo triste das gaivotas cansadas. 

Em breves momentos, a praia fica deserta. Já não há medo aqui.

escavo

por mim adentro

e

é apenas um silêncio

estéril

o que se pode encontrar.


silêncio feito terra 

árida

desfeita

na severidade do deserto.


nada mais

a encontrar.

 cala-te.

já não suporto o odor da tua voz a desenlaçar-me o sangue. 

03/09/2020

No vento que chega com o fim do dia, sinto como a voracidade de baco toma posse do lugar que antes era o lugar de mim. Flutuo na pele. Desloco-me do corpo e vagueio, noite adentro, como se desenhasse o mar inteiro nas mãos que te (quase) tocam. Entoo uma melodia que mais se parece com uma oração. Repito teu nome como se a palavra pudesse ser a única salvação possível quando é o ar que se desloca de dentro do corpo. Danço na apneia que começa precisamente no lugar onde te deixei da última vez. As palavras seguem nas ondas das marés que entoam a canção que se deixa a repousar na pele. Termino o dia com o corpo vazio e ébrio, na ânsia de se poder salvar no caminho de regresso ao lugar em que sou (quase) eu. 

31/08/2020

 tocas-me com a voz caída sobre o chão. 

é asfalto velho o que nos rodeia. 

podia haver terra e árvores mas não. nada mais do que a pele a colar no asfalto e a esperança a rasgar-se na pele enquanto caminhas até mim. 

fecho os olhos. pego na lâmina que guardo dentro das mãos e desfaço-te. dura um momento breve por isso não receies. prometo que não demoro. prometo que desfaço tudo num instante. prometo que não vai sobrar nada de ti sobre a estrada vazia no calor que fica do sol de agosto. 

toco-te com o sangue a cair-me das mãos sobre teu corpo velho caído sobre o chão que é só asfalto. 

16/08/2020

Suspendo o tempo na espera que o tempo possa ter tempo de ser tempo.

Espero o tempo à espera de me tornar o lugar que espera pelo tempo que não espera.

Espero, suspenso no tempo, a ser espera de poder vir a ser um lugar a tempo. 

10/08/2020

pOinT

 há um silêncio que cresce em mim

permanece sobre mim

respira por mim

quando chego até ao lugar em que tu estás. 

Sento-me na madeira enegrecida pelo tempo ido e descarrego, aos pés, tudo o que me soterrava no caminho até aqui. 

Olho em volta com o olhar de quem aprendeu a poder ver o que há além do que é aqui - a ver o que há de divino - e esqueço todos os que me circundam. 

Escuto as pessoas, reparo nas suas sombras à luz da vela, escuto as suas vozes sussurradas, imagino os suspiros das suas angústias e da expiação dos seus pecados - latim orado na boca de quem sorri perante todas as coisas do mundo. 

Sinto o cheiro velho que as igrejas trazem dentro de si - no seu âmago visceral - como se fossem lugares que nunca terminam e onde o tempo - por mais que se deseje - nunca passa. 

Oiço o ranger da pedra e o frio da madeira. Sinto - nas mãos - as lágrimas que quedam por dentro enquanto meu corpo parece mais leve dentro de si mesmo. Um corpo na ilusão de ser - naquele momento - menos puído, menos flagelado.

Escolho olhar-me de longe do olhar dos outros que vêm o que querem ver. Algo em mim quer perecer como Tu - aqui a meu lado - guardado aos pés de tua mãe - sozinho - no caminho mais terno e tenebroso da humanidade. E nós todos a olhar-te, a sentir-te, a saber-te por perto, mesmo não estando aqui - ou em qualquer lugar em que possamos repousar os pés feridos. 

Quero acreditar que guardas em ti todos os que já partiram de mim. Quero acreditar que o teu abraço terá espaço para me receber, terá tempo para me escutar - mesmo enquanto o meu silêncio for tudo o que seja possível existir em mim - e paciência para esperar que eu possa parar de chorar - por dentro. 

Queria poder ser mais do que o que perante ti hoje represento, que perante o que se passa no meu mundo, significo. Queria poder ter sido melhor, ter feito mais, perdoado mais de mim. Queria poder estar - hoje - perante Ti sem lágrimas nas mãos, sem feridas na alma, sem a dor a pesar-me no corpo. Queria ter podido vir ver-te a dançar e a cantar - sem medos. 

Mas nada disso encontrarás em mim.

Estou despido sobre as cobertas do mundo. 

Estou integralmente despojado na madeira antiga e fundo-me com as suas rugas e suas asperezas, seus desesperos e suas esperas. Sou a parte mais negra do granito que acompanha os passos do chão desta casa. 

Perdoa-me mas não sei ser mais do que isto. Procura em mim - se quiseres - a certeza de que o medo não ocupará mais espaço na minha alma enquanto eu me sustenho na pureza da incerteza que faz de nós as tuas - o resto eterno das tuas  - mágoas. 

Perdoa por não conseguir ser mais, por não ter podido ser mais.

Permaneço quieto a olhar o segredo que as paredes sussurram dentro de si. Guardo-o em mim - no lugar mais fundo de minh'alma - para que nunca o venha a esquecer. Seguro o tempo nas mãos frias e percebo que o tempo não pode ser mais do que o que se espera que venha a ser. 

Sento-me, na Tua presença, despido de mim, com as mãos cheias de lágrimas e imploro - enquanto implodo - que um dia - talvez um dia - eu possa chegar até onde é suposto ser. 


Igreja das Carmelitas

Porto 

Março /2017


08/08/2020

 se começasse de novo,

neste preciso momento,

não saberia por onde ir.

reCogNitiOn

reconheço que não sou mais do que a evidência da tua humildade

que venho de um lugar que estava reservado nas coisas que pertencem ao passado 

- talvez não se deva voltar ao passado -

onde foste buscar-me pela mão

agora

deixas-me suspenso no limite da folha

quase a cair da tinta

da letra insegura da palavra de um poema que não chega a ser escrito.


reconheço que não sou mais do que um lugar de abandono

mas foste tu quem me deixou humilhado na suspensão do passado revivido na palavra quente na tinta negra nos dedos de uma ilusão. 

17/07/2020

o calor expande-se
como asas negras,
dentro do meu peito.

15/07/2020

You've been so long
Well it's been so long
And I've been putting out fire with gasoline
Putting out fire with gasoline

Cat People
Putting out fire with gasoline

11/07/2020

fecho os olhos
dispo a roupa
seguro os pés despidos na madeira aquecida pelo inferno do verão. 

anseio teus dedos a contornarem meu nome
a desfazerem-se na minha pele.

beijo-te
no silêncio perfeito 
num momento de apneia em que o mundo inteiro desaparece
por breves segundos

fecho os olhos.
mais nada existe agora. 
Passam por nós os anos que o tempo não permite fazer parar de correr. 
A vida como que voa, como que se desfaz, como que mergulha nas brechas e farpas da madeira antiga que te edificou na memória segura da minha solidão incontornável. 
Reza por mim quando teus pés tocarem nesta madeira. 
Reza por mim quando chegares a casa. 
Recordo a tua voz enquanto escrevo o teu nome sobre as linhas invisíveis da minha estreita capacidade de te manter viva por dentro. Fecho os olhos e toco as asas de corvo que viviam ansiosamente nas linhas do teu cabelo. 
Quando chegares ao lugar em que não devias estar, recorda-te de mim. Não me permitas ficar no abandono que se sente no calor infame que invade a cidade suja. 
As cordas que entoam no átrio frio da igreja conduzem-me até ao passado que deveria ter sido mais do que nos foi permitido ser. 
Naquele dia, teria trocado a minha vida pela tua. Mas a verdade é que não há mais aleluias e não vais poder rezar por mim. 
As palavras vão-se tornado cada vez mais o silêncio que vive dentro da noite. Vão-se transformando no absurdo do obsoleto. Na insignificância que reside dentro da insuficiência. 
Talvez me afogue na minha própria angústia, em breve. Ou talvez encontre formas diferentes de respirar dentro de mim.
Questiono se estarias aqui, se eu pudesse ter trocado tua partida pela minha. 
Se ficarias a aguardar por mim.
A velar por mim.
A temer por mim. 
A procurar encher o vazio incomensurável que habita a noite que é inteira em mim. 
Perdoa se já não sei falar contigo. Se o silêncio me abraça com tamanha força que me leva na fraqueza. 
Perdoa se me esqueço de viver.
Perdoa se me continuo a agrilhoar e não sou merecedora de estar aqui. 
Posso apenas prometer-te, enquanto minha voz ressoar nas paredes frias desta igreja vazia, que vou continuar o caminho como se estivesses aqui.