03/01/2019

cOMo DormEm os pOmbOs

sento-me numa aresta da noite para saber o frio inteiro. tenho despidos os pés e as mãos.
sento-me no princípio da noite. a olhar o espaço que vai de mim até ao lugar em que finda o mundo. 
curvo-me sobre mim mesmo a contemplar a imensidão do vazio que subsiste dentro de cada aproximação à plenitude.
é como se faltasse sempre algo mais. qualquer coisa mais. uma inquietante imperfeita e interminável insaciabilidade.

cubro a pele das costas com as asas cansadas. escuras. feitas de pó e de luz. feitas de tudo e de nada. dos princípios e das coisas que terminam. das causas e das consequências. das feridas e dos sorrisos. asas cansadas mais ainda vivas, a pulsar por dentro, a saberem tudo por dentro.

oiço o canto da noite e permaneço imóvel, a perscrutar o sono, a evitar a vigília, a escutar-me, com todo o meu corpo curvado sobre as asas inteiras, imóvel, com os pés despidos a tocarem o arame, imóvel, em suspenso, apenas sobre um fino fio de tempo, sem temer a queda aberta sobre a possibilidade permanente de um abismo incomensurável.

sento-me como se navegasse o rio agora. suspenso no frio da madrugada. a evitar tocar as asas.em segredo. em silêncio. absolutamente imóvel como um pombo, sobre os arames da vida, coberto em si mesmo. impenetrável. seguro. como se nada pudesse, em momento algum, desfazer a sua serenidade cansada sobre as asas escurecidas na noite. 

é como dormem os pombos. assim permaneço eu. suspenso sobre um fino fio de vida. 

19/12/2018

pRaça

Respiro a humidade que abraça a noite. Penso em ti. Em mim. No que ficou por saber.
O tempo foi a lâmina que se atravessou no caminho que nos uniu. Que nos despedaçou. Que nos cravou na pele o nome de cada uma das angústias que nos definiu. 
Sinto como o frio te atravessa a pele. Sentado no jardim. A escutar o silêncio que chega quando a noite cede ao peso do mundo. Tu e eu sentados de costas, com o jardim a desvanecer na memória que nos veio a atraiçoar.
Somos lágrimas feitas da mesma areia. Areia caída do mesmo deserto. Deserto sabido em cada alma. 
Somos o mesmo lugar sem lugar. O mesmo tempo sempre sem tempo. O mesmo espaço por completar.
Tu e a sombra de mim defronte das árvores cansadas do inverno. À espera de um milagre. À espera de uma nova noite.
Eu, de frente para ti, sem que me vejas. Sem que me oiças. Sem que te apercebas que, na verdade, nunca saí do mesmo lugar. 

09/11/2018

Mapa Mundi _ mais ou menos isto

"o amor não é compaixão
o amor não é comiseração
o amor não é dedicação

o amor é franqueza
o amor é disponibilidade. 
e é tudo. "

"Mapa Mundi" - teatro
Companhia Maior
CCB

in(F)Verno

Há um odor a desenhar-me o abandono por dentro da alma. Cheira a cinzas e a morte. Sabe a fel e a desamor. Sabe ao desespero que vem quando o inverno queda sobre os ossos da terra. Há um sabor a dissolver-me por dentro enquanto a náusea me acaricia, enquanto as vísceras me atormentam e se elevam até à língua para depois cederem à gravidade que me empurra de encontro ao húmus. Sou como uma folha de plátano esquecido na rua deserta a apodrecer na chuva que parou de cair. Sou, neste exacto momento, o lugar onde reside o sofrimento inteiro enquanto as paredes se encerram. Sobre mim. Enquanto me dilacero nas tuas palavras. Enquanto me assassino na tua angústia. Enquanto o teu desespero me encurrala e o meu me faz cair. Há um desenho a abandonar-me no odor da terra. O desenho de meu corpo a desaparecer angústia de ser eu, aqui, agora, a saber que a vida está no fio ténue de uma linha de seda que este in(f)verno vai fazer, em breve, desaparecer. 

05/11/2018

aBandOno

Toca-me. Na pele. Devagar. Sem pressa. Na ponta dos dedos. Lambe-me. A pele. Sem tempo. Na ferida aberta. Segue-me. Sem correr. Na ferida do tempo. Sente-me. Sem temer. Na esperança de recomeçar. Guarda-me. Sem creres no milagre que te abençoa. Desfaz-me. Sem amor. Até te saberes em chaga. Guarda-me. Na escuridão da noite. Até te saberes perdida. Perde-me. Para sempre. No dia em que me conseguires deixar. Toca-me. Na pele. Até poderes partir.

ad EterUm

Esperei como se esperar fosse tudo o que podia fazer.
Esperei como se parar fosse apenas o que podia querer. 
Esperei como se chover fosse a única possibilidade.
Esperei como se fosse um não lugar.
Esperei como se esperar fosse tudo o que poderia ser. 
sou o lugar em que te moves
                                                  sem medo
o espaço em que te encontras
                                                  sem tempo
o momento e que sangras
                                              sem segredos
o tempo exacto em que paras para respirar

cisNe

Sento-me na beira do monte a ver a chuva cantar. A terra húmida sobre os dedos, o céu em pranto e eu a parar. Sento-me na beira de mim enquanto o monte cessa de dançar. Morrem as flores e os pássaros. Canta um cisne que só a mim é permitido ouvir. Sento-me na chuva que não cessa de cair até encontrar o abismo aberto em mim - cheio de terra por dentro, lodo e lama e húmus - e choro sem parar até aí por dentro me deixar cair. 

inoMinávEl

Há um lugar em que não te encontro. Vejo-te mas não te sei. Sei-te mas não te toco. Toco-te mas não te sinto. Sinto-te mas tu não estás. 
Há um lugar em que quedas infinitamente longe e onde eu não consigo - jamais - chegar.
Há um lugar em que não é possível eu existir contigo. Não lhe sei o nome. Não lhe encontro a origem. Desconheço como lá chegamos mas sei, como se sabem todas as coisas que queimam a alma por dentro, que é ao lugar a que este caminho nos conduz.

qImEra

pensei que podia olhar-te nos olhos sem ter medo. que podia falar-te no tempo sem ter pressa. que podia juntar as palavras mesmo sem tinta.
pensei que podias ser o lugar em que o tempo cessava e recomeçava a contar. que pegava nas peças e reconstruia os lugares. que pegava nas asas desfeitas pelo pó e retomava o voo.
pensei que serias o lugar onde me encontrava depois de me ter perdido. o espaço que me recebia sem me ter. o tempo que me sabia sem me saber.
pensei que podia olhar-me nos olhos sem ter medo. que me podias falar sem que o tempo terminasse.
mas não chegou o tempo
e o deserto não me devolveu ao caminho 
e a quimera desfez-se.

cAsa

seguras o silêncio que se apodera da casa quando ninguém está por perto. ficam os fantasmas a deambular nos espaços vazios a insistir nas memórias, a recriar os lugares antigos.
guardas o que esperas que não regresse a ti no lugar mais antigo a que consegues chegar e disfarças a tua existência com o que fica ainda por vir.
deixas-te seduzir pela tua distância até poderes esquecer que existes aqui.
desapareces, lenta e minuciosamente, enquanto a casa adormece nos braços dos que partiram na distância e se mantêm esculpidos na tua melancolia.  

oPositE

Troquei tuas mãos pelo asfalto.
Fui à procura da chuva quando o vento te trouxe do deserto e parti na direcção oposta
- não - 
errada
- não - 
oposta.
Troquei tua morte pela minha exaustão
- não - 
pela tua solidão
- não - 
pela minha eterna aniquilação. 
Perdi-me do caminho.
Perdi-me no deserto que havia dentro de ti
- e agora - 
não posso mais regressar.

19/09/2018

juNho

dispo-me da angústia enquanto sangro por dentro dos teus dedos.
cais como chuva sobre minha pele. 
guardo teu odor dentro da minha alma e por dentro de minhas mãos até o dia terminar de existir por entre a memória-cada vez mais vaga - que sei ser a imagem de ti.
dispo-me de todas as imagens enquanto escorrem meus dedos na chuva do teu sangue. 

17/09/2018


rasga-me na chuva até não soçobrar nada que seja audível

fOliE

toco-te na ponta da língua.
levo os dedos até ao fim do teu delírio e quedo.
há um vazio incomensurável dentro deste teu innuendo
um abismo que te separa do lugar onde eu consigo ser o que posso ser.

toco-te na ponta dos dedos
lambo-te a pele até te desfazeres em pó, até te aniquilares em cinzas, até te encontrares inteira. de verdade.
c'est solement la folie.

c'est toi qui va dancer sur la nuit et sous cet oubliance
c'est moi qui est en train de disparaitre a cause de mon angoise.


je vais rester sur le chemin que je connais. je te vais laisser partir, a ton vide, sur mon abime, jusqu' a la folie que reste en moi. 
a verdade é
que vai sobrar muito pouco de mim
quando tu chegares ao fim

16/09/2018

esTrAda

Começo a caminhar sem ter nenhuma intenção de parar. A pele de meus pés geme sobre o asfalto enquanto o verão devora a estrada. Finjo não ouvir. Escolho não sentir.
Começo a correr a tentar desafiar o vento. Falho. Necessariamente que fracasso. Reduzo o passo. Retomo o caminho na lentidão da dor que ignoro. Carrego no peito a certeza de que não chegarei a lugar algum. Carrego-me na certeza irredutível que não tenho mais lugar aqui. Consola-me saber que posso não chegar. Que me permito não chegar.  Que escolho continuar a andar sem ter onde chegar. 
Espero que as chagas me ocupem o corpo inteiro. Que o sangue jorre até findar. Que minha pele se desfaça na estrada, até não sobrar nada de mim.
Continuo a caminhar até que a estrada tenha, sem si mesma, um fim. 

UltIma

Ouço o canto negro das gaivotas. Cheira a morte. À impossibilidade do retorno. Como se a morte fosse o lugar final. O último reduto. Igual para todos, sem excepção.
Meu corpo não se move. Desde há horas que não me consigo mover. Sei que ainda respiro. Que ainda respiro por dentro. Mas nada em mim se move. 
Tenho os olhos fechados e as mãos abertas. Espero que tudo aconteça. Espero que tudo ocorra fora de mim. Para eu não saber. Para não sentir. 
Ouço o canto negro por dentro de mim. Num bater de asas. A abraçar-me na voz. A tocar-me na alma. A invadir-me na pele. A agrilhoar-me no respirar. 
Tudo acontece, afinal, em mim. Por uma última vez. Agora que não me consigo mover é que tudo acontece em mim. Como se não houvesse outra forma. Como se deus não tivesse outra forma de me dizer que já não respiro por dentro e que tudo me chegou, num só canto, às minhas mãos abertas. Pela última vez. 

28/08/2018

cOmo Se

O tempo escorre-me na pele. Secam os lábios e os dedos no calor da insanidade. Perco-te no momento exacto em que te sinto. Perco-me na certeza de não haver retorno desta levada. 
O tempo chove-me nos dedos e no pensamento. Corro atrás de ti como se fosse a última possibilidade de te perder. Como se não houvesse alternativa e tudo se tornasse a razão única de ter chegado até aqui. 
Escorre o tempo por dentro de mim enquanto morro lentamente. Seca-me a alma no momento em que te perco em definitivo e o tempo se torna uma parte inteira da chuva que me ensandece.

cOrpUs

Meu corpo é o lugar em que respiras. em que retomas o lugar da queda sobre o teu abismo. em que te reencontras. em que te esqueces, 
por um momento efémero,
do que és antes de chegares aqui.


mAio

navegas-me na pele até eu ser só sangue.

desfazes-me no tempo até eu ser só tinta.

arrasto-me no lugar de ti até eu ser só pó.

ficas a inundar-me a alma até eu ser só angústia.

16/08/2018

NieNte

Não te reconheço no lugar em que o abismo que se abre entre o que somos me conduz ao delírio.
Escrevo as linhas que se apagaram de minhas mãos. Escrevo nas mãos que desapareceram nas linhas em que me esculpi até ser.
Não conheço este lugar de não encontro entre meu caminho e o teu. 
Não me reconheço no que é esperado de mim e não sei como ser de forma a que eu não aconteça desta forma em mim. 
Quero erguer-me sobre as labaredas do que se arrasta na minha mágoa até terminar em cinzas por sobre a terra molhada. 
Não te reconheço no lugar que resta na angústia de ser o que sou e não escrevo as palavras que podiam caber nas linhas em que desapareço.

29/07/2018

desenho-te na linha do vento. junto ao mar.
procuro encontrar a razão do momento exato em que me viste nos resquícios do que sobrava de mim.
senti o silêncio inteiro dentro da tua voz e tudo o que era o resto do mundo cessou de existir.
guardei na ponta dos dedos a memória do teu lugar para nunca me perder de mim.

soLitudiNE

desvaneço no canto triste de uma gaivota enquanto a manhã é ainda deserto
Sento-me numa aresta do tempo a imaginar o por vir.
Não espero que nada me dilacere.
Não temo o vento que me leva sobre asas sem conhecer, ao certo, o chão do meu caminho.
Vejo tudo o que o acontece em mim tão claramente como se voasse sobre a água.
A praia está deserta de memórias de mim e sou eu quem a desenha nas linhas do horizonte que cabe, por inteiro, nas minhas mãos abertas.
Inalo o sabor do tempo enquanto defino, de novo, um sentido para continuar.
Permaneço no lugar exato em que me encontrei e remeto a escuridão para o silêncio que se entrega às coisas que não sabem ser livres.
Evado-me no ruído dos outros e encontro tudo na liberdade que abraça o meu único segredo.
Desfaço-me do que fui antes de ser aqui.
Despojo-me do que resta de tudo o que não me toca.
Guardo na memória o momento exato em que tudo mudou por dentro e o mundo inteiro se tornou um lugar que só eu conheço visceralmente.
Talvez tenha construído um lugar que me sustêm nas madrugadas em que a noite me conduz tão lentamente que demoro a sentir que o deserto terminou. Mas sento-me na linha do horizonte e não temo nada do que me espera a seguir.

28/07/2018

Tocas-me na voz ate me encontrares inteiro nos fragmentos da minha tão breve existência

13/05/2018

és poema que nasce 
e desaparece

que se faz
e me desfaz

que começa no lugar exacto
em que tudo pode terminar

e que termina no momento
em que a chuva cessa de chorar.

beAst

Sento-me no silêncio escuro a ouvir a besta que respira dentro de mim.
como um lobo ensandecido. como um demónio.
como uma tempestade em que navego até me afundar por dentro.
Sento-me no escuro a mergulhar por dentro do silêncio até que nada aconteça dentro de mim.
Choro em silêncio o mar inteiro onde naufrago 
em silêncio. por dentro. no escuro. 
a tentar silenciar a besta que vive em mim e me dilacera sem piedade.

pRantO

é meu pranto que o sal das ondas esconde quando a praia inteira está a arder.
estou a arder.
por dentro.
a chegar às cinzas.
de novo.
perdi-me no caminho. 
de novo.
agora ardo como se morresse, choro como se me desvanecesse em sal, canto como se fosse hoje
a última vez.

21/02/2018

Seguro-te na tristeza que chega com os dias do fim da chuva.
Ouço-te no pranto do vento quente que nos persegue nos sonhos cansados.
Escrevo-te nas letras que se escondem no silêncio que grita por dentro da distância em que nos perdemos do Norte.
Seguro-te na chuva triste que segreda teu nome até não ser possível gritar mais.

18/02/2018

Ici

dou 
por
mim
a
procurar
por
ti
dentro
da
minha
solitude
enegrecida.





até sangrar.

AnGelus

Fecho o olhar sobre a tua pele. Sei quem sou quando existo em ti, quando respiro em ti, quando me vejo no teu olhar. Fecho a minha pele sob o teu olhar e sei o mundo inteiro a acontecer por dentro de mim. Sei exactamente quem és  quando me seguras por dentro até te recordares que tens de me deixar seguir.

11/11/2017

suNset

Cesso. 
Termino.
Recomeço. 
Respiro. Inalo a maré inteira. De pele descalça sobre a água gélida, tremo.
Renasço.
A areia por dentro da sombra e do sangue.
Reacendo.
Olhos fechados a ver tudo por dentro. Espaço. Tempo. O que foi. O que há de vir. Onde estou. O lugar de mim. O espaço que ocupo por dentro da alma incendiada. 
Renasço das cinzas. 
Sinto o sabor acre da minha desilusão dentro da boca, dentro da pele, inteira dentro de mim, a escorrer-me no peito, a salgar-me as palavras.
Daqui a pouco cai a noite sobre mim. Mas talvez já não seja importante, não agora. 
Ao fundo, escuto vozes que se perdem no vento frio de outono. 
A luz atravessa-me inteiro.
Espero.
Reponho a angústia no lugar certo. 
Esqueço.
Esqueço-me.
Perdoo-me.
Sinto o frio nos pés que caminharam esta vida por inteiro.
Recordo os gestos.
Reponho, mentalmente, as imagens do caminho.
Invade-me a certeza absoluta da minha solidão imensa. 
Evado-me no bater das ondas.
Renasço.
A areia a doirar na queda da tarde e o frio a crescer por dentro deste abismo.  
Esqueço-te.
Solto as palavras com um lápis de carvão e compreendo, finalmente compreendo, que não preciso ser mais do que isto que reside inteiramente em mim. 
Temo que o sangue cesse de respirar. Preciso mais tempo para descobrir o que falta. Para encontrar mais um caminho. Para desfazer uma solidão mais clara. 
Escuto o embater das ondas na areia e é o som das coisas tristes.
Recomeço.
O mar inteiro repete o meu nome e eu escuto por dentro. De olhos encerrados por dentro.
Respiro.
Esqueço. 
Perdoo.
Recomeço a partir do silêncio que faz dentro de mim. 

j'attend

Aguardo cada pormenor do dia para te encontrar.
É nos detalhes mais ínfimos de tudo o que faço o lugar em que te encontro. Quando menos espero. Quando menos quero. 
Sei-te como se sabem as feridas que não saram nunca. 
Escuto-te como o silêncio que me invade a noite.
Guardo-te como se guardam as coisas mais sagradas.
Queimo-te para que te desfaças de mim e não regresses aqui, nunca mais. 

24/10/2017

16/10/2017

Preciso falar-te. Ouvir-te na voz. Sentir-te na pele. Saber-te por dentro da alma.
Preciso escutar-te. Saborear-te nos silêncios intermináveis. Roubar-te a essência nas palavras sorridas. Perscrutar-te por dentro até encontrar a paz.
Preciso saber-te no lugar em que me desfaço. Sentir-te onde a angústia pode terminar. Guardar-te num lugar sagrado. 

14/10/2017

Não me sinto no lugar que ocupo.
Não me reconheço nesta dor, nesta angustia.
Não me sei quando me toco.
Comecei no lugar exacto do fim e não consegui avançar nem um passo.
Balanço na corda que divide o mundo de dentro e tudo o que sucede aqui e não consigo atravessar.
Sofro no silêncio dos deuses as coisas todas que não posso contar.
Estou inteira e absolutamente só.

13/10/2017

cai sobre ti o meu pensamento. pergunto-me o que pensas neste momento preciso e onde caem os teus sonhos e a tua confusão.
vejo-te a sorrir pela névoa das lágrimas que abraçam a noite e fecho os olhos por dentro. quase que te sinto por dentro.
escuto os movimentos da noite sobre a cidade enquanto anseio que o silêncio se instale aqui.
fico atento a todos os movimentos e a todos os gestos de todas as sombras até chegar a ti.
penso-te. penso em nada. penso no vazio que te incompleta e na solidão imensa que te atormenta.
aguardo até ouvir a tua voz na cidade emersa no silêncio que faz por dentro da noite que reside eternamente em ti. 

10/10/2017

Sento-me no lugar mais escuro que encontro por dentro e espero.
Tento acalmar o pensamento entorpecido pela sucessão interminável de imagens erradas.
Respiro fundo.
Conto até não me lembrar mais dos números, até ficar sem poder respirar.
Sento-me no lugar mais fundo de mim e espero.  

29/09/2017

en passant

Perscrutei todas as memórias antigas. Senti-me por dentro, como antes, no teu corpo.
Deleitei-me com as angústias esquecidas. Deixei-me ficar.
Deixei-me sangrar. Vazei-me de intenções e de realidades e silenciei a dor.
Terminei por aqui.
O passado é o lugar reservado ao que não consegui guardar.
Senti-me por dentro até desaparecer no pó.

27/09/2017

bellow

"Há pessoas que não podem esperar para se verem livres de si próprias, enquanto outras não aceitam deixar partir ninguém."

Saul Bellow
Morrem Mais de Mágoa
Quetzal
2010
pp 416

jaNela

Queria ouvir-te dizer meu nome. Queria ver-me na tua voz, nas tuas mãos, no tempo que fica entre o lugar de aqui e o lugar em que te deixei.
Havia uma janela e a tua imagem por detrás da sombra. Olhos vazos. Corpo desprovido de sentido. Pele sem pele. Desnudado perante o frio que faz na montanha em que ascendo até me desfazer em cinzas.
Guardo o tempo na certeza de que não vou poder voltar a ti. O nosso tempo terminou.
Resta-me, agora e apenas, esperar o momento em que te vou reencontrar. Em que te vou poder escutar e em que a tua solidão poderá abraçar a minha da mesma forma de antes.
Vou esperar que não partas antes de regressares até ao lugar que és em mim.

26/09/2017

maR

penso na forma como te moves.
como falas.
como o silêncio te preenche nos espaços vazios.
pego no gesto que tenho memorizado na minha pele e quase que te sinto na voz.
conto os passos que me levam de encontro ao mar e espero o momento certo para parar de respirar.

27/08/2017

obliVio

quero dizer-te que nesta praia onde nos esquecemos de ter sido, fomos tudo o que podíamos ser. mais não teria sido possível.
o mar leva o que resta do que ficou por dizer.
podes até ter esquecido os traços do meu corpo, mas jamais poderás esquecer as cicatrizes do que lhe infligiste ao longo de todos estes anos.
agora está tudo em ruína. agora está tudo a respirar sal pelas feridas e a ceder à lei da gravidade que o tempo comporta por dentro da vida. agora tudo apodrece e se desfaz nas nossas mãos.
quero dizer-te que é o mar que leva as palavras e me afoga. quero dizer-te que o tempo deixou tudo por dentro de minhas mãos e sou eu agora que ruo perante as cicatrizes de minh’alma e perante a memória do que foste.

Oblívio tudo o que jaz perante a luz morna desta lua de outono e entrego-me à certeza de que não posso ser mais do que o pó apodrecido desta praia ferida. 

distÂncia

sinto-te na ausência mais próximo do que alguma vez antes. 
penso no que pensarás agora que o silêncio se instalou aqui e eu já não posso falar mais. 
penso no que te assola a vontade agora que a agonia começou a desaparecer. 
diz-me o que fica entre estes vales e não chega ao rio. diz-me o que repousa sobre as cinzas da terra e sobre o fogo do teu olhar. diz-me como fazes para superar a tristeza que vem quando se perde o lugar certo. ensina-me a estar nesta distância. 
o silêncio atravessa-me no tempo antes do sino tocar. ergue-se a igreja de frente para um céu que não vejo inteiro. que não sei completo. que desconheço onde termina.
em frente há tudo sem haver nada. uma descontínua continuidade de qualquer coisa que ainda não sei bem o que é, o que será, o que poderá vir a ser.
seguro na ponta dos dedos a esperança. inalo no fumo a instabilidade que chega com o desconhecido de nós. confronto-me com o pó dos dias e a névoa que caiu sobre este espaço.
seguro o silêncio na ponta dos lábios enquanto aguardo as palavras certas.

23/08/2017

fiNe

procuro as palavras para te dizer que agora já não regresso aqui. 
procuras os gestos para me mostrares que tu permaneces. aqui.
como se dois caminhos não chegassem nunca ao mesmo lugar.
como duas linhas paralelas que nunca se tocam no mesmo ponto. 
assim ficamos nós. 
como se tudo o que foi já não tivesse espaço para ser mais. 

podemos terminar aqui. 

21/08/2017

dEstitueEre

Sinto que não sei dizer o que sinto. Não sei sentir o que sinto. De cada vez que te ouço. De cada vez que as palavras que dizes me atropelam por dentro e eu deixo de sentir. De querer sentir. Sinto sem sentir. Sem poder sentir. Sinto sem saber que sinto. Não quero sentir e por isso encerro-me sobre a ausência de mim mesmo e espero. Pego nas minhas mãos em silêncio e seguro-me por dentro. São finos fios de seda que me seguram por dentro. Sinto que sei que sinto o que não sei que sinto mas que sinto sem saber como sinto, onde sinto, porque sinto e sinto que não sei sentir como se sentir não fosse mais do que a própria existência em si e se eu não sinto talvez eu não exista e tudo aconteça aqui sem que eu faça realmente parte seja do que for desta confusa circunstância em que me encontro. Sinto que não sei sentir e sinto o vazio da existência inteira que se ausenta do interior de mim. Fico destituído de quem sou de cada vez que me penso e que me confronto comigo e deixo de querer sentir. Sinto que há pouco a que me segurar de cada vez que me permito sentir. Como se sentir não fosse mais do que o acto de morrer em agonia. Guardo-me. Escudo-me. Escolho parar. Tenho as mãos em silêncio e o pensamento em fuga. Não sei onde estou. Acordo suspenso na memória do que fui e onde estive antes de chegar aqui. Surpreendo-me quando meus pés tocam neste mesmo chão e desperto para o que me espera no caminho. Não me encontro em nada do que dizes. Tuas palavras são lanças projectadas sobre a minha incapacidade de ser mais, de sentir mais, de querer mais. Confundo-me e divido-me. Atropelo-me e desfaço-me na estrada em que começo agora a caminhar. Olho em frente e procuro encontrar algo a que me possa agarrar sem ter medo de me perder. Pego no silêncio que resta em mim para recomeçar a sentir. A sentir que posso sentir sem medo do que posso sentir. Sem me confundir. Pego na ausência de mim e sinto que posso começar. De novo. A sentir-me. 

16/08/2017

aGony

Tenho medo do que sinto. Não sei descrever o que se passa dentro da minha interpretação do que acontece em mim hoje. Confundo-me nos sons e nos olhares. Cesso. Espero. Perco-me nas mãos e nos corpos. Procuro por ti no meio das multidões e do fumo. Procuro por mim por dentro até que me afogo. Espero. Recomeço. Sinto o ar desaparecer por dentro. Tudo por dentro. Como se mais nada existisse. Como se mais nada pudesse ser depois disto. Esvazio-me por completo e não compreendo o que me assola. O que me agoniza. O que me aniquila. Procuro-te no meio da multidão e encontro-me, sozinho, suspenso no tempo, a olhar para um lugar vazo de sentido, na esperança eterna de que amanhã possa ser menos difícil estar aqui. 

15/08/2017

NightiNgale

Sento-me na pedra da janela a sussurrar a solidão. A noite abraça-me na sua pele quente e tremo. Pego nos fios do tempo suspenso entre o que foi e o que me espera e entranço-me na certeza de que o tempo não vai chegar.
Tenho os pés sujos de tanto caminhar descalço. Tenho as mãos feridas de tanto tactear o espaço que vai deste lugar que agora ocupo, até ao lugar que reservei ao meu fim.
Sinto o corpo ficar dormente. Sinto a boca a secar nas palavras enroladas, inventadas, perdidas, fundidas e as esquecidas. Sento-me à janela enquanto o fumo se dissipa no ar e entra na minha pele. Cheira a noite e a solidão.  Tudo sabe a acre e a desilusão. Tento falar mas guardo-me em silêncio. Não há ninguém a ouvir.

Cheira a solidão o abraço da noite de hoje. Sabe aos fios do tempo que se enlaçam e se desfazem e se aniquilam como se mais não fossem do que um sussurro a desaparecer no lugar reservado às coisas que permanecem na ausência. 
Sento-me na noite e aguardo o momento em que me desfaço no ar. 

nAuseaR

doí-me no corpo a desesperança. 
em todos os gestos, minha ideia de mim desfaz-se no ar.
tenho pouco que esperar deste lugar. pouco por que aguardar. 
tenho a náusea a navegar-me a alma. a segurar-me na pele. a dilacerar-me por dentro. 
reside uma quase total inexistência e mim. um pensamento único invade-me cada momento do tempo e furta-me o espaço de outro caminho.
tremo de frio enquanto lá fora não chove e tudo parece arder. 
estou a desfazer-me por dentro. doí-me a náusea inteira dentro de mim.

4 waLLs

Há coisas que se movem dentro de palavras e dentro de movimentos que se repetem dentro de mim ate à exaustão. Que se repetem até à minha decadência. Palavras e sentimentos que não se podem organizar. Olho-me no espelho e não me reconheço. Penso que estou a morrer nos momentos em que o mundo inteiro me diz que estou vivo. Acredito que estou vivo quando o mundo inteiro entende que morri. Sou o que começa e acaba sem ter chegado a ser. Sou o lugar de partida, a meta, o percurso que vai daqui, deste lugar que me parece que ocupo, até um qualquer ponto em um qualquer lugar onde seria suposto eu chegar. Perdoa o meu desconforto, mas não me encontro. Nem aqui nem fora de mim. Nem neste lugar nem em nenhum outro. Há movimentos que se perpetuam dentro do que penso. Coisas que me tocam, onde eu chego com a ponta dos dedos. Coisas que e fogem e que não recupero se não cair mais fundo no abismo que se abre ininterruptamente em mim. Coisas que me definem e que em mim definham. Coisas que começam. Outras que terminam. Outras que ficam a meio caminho entre mim e o resto. Um intermediário interminável e intransponível. Um homem sentado numa cadeira dentro de quatro paredes que se tocam apenas com a pele, que se lambem com o respirar, que se encerram na voz, que definem o tamanho de dentro da minha solidão. Sou o poema e a sua antítese. Sou a teoria e sua falha. Sou a constelação e a estrela que queda e se desvia. O fogo e as cinzas. O deserto e a mar. E tudo acontece em mim a uma velocidade incontrolável e com uma força que apenas parece inabalável. Sou a sombra e a luz. A noite e a alvorada. O meio do caminho. Não chego a partir nem chego a chegar. Há coisas que se movem dentro de mim em palavras que eu não conheço, de lugares que eu não compreendo completamente e que me conduzem eternamente a uma exaustão abissal na mais profunda das solidões possíveis.  

14/08/2017

sanGre

Caminhei descalça no asfalto quente até não poder mais sentir. 
Peguei nas palavras todas que dançavam dentro do meu pensamento e deixei-as no lugar reservado às cinzas. 
Viajei por dentro até embater numa parede inominável. Perscrutei o espaço onde o deserto se instalara e ouvi tudo o que me dizia o silêncio que me dilacerava a pele. 
Caminhei por dentro do meu pensamento até sangrar. 

Respiro pesadamente
aqui
onde o tempo não permanece 
aqui.

Respiro imensamente
enquanto procuro
sem procurar
o lugar onde
por mais uma vez
me esqueci.
aqui.

Não pertenço 
a este lugar
de aqui.

Respiro liminarmente
aqui
onde uma ultima vez
me perdi. 
De aqui. 

siLênCio

Seguro nos dedos o silêncio.
Lá fora, tudo permanece num movimento incessante.
Ouço tudo  que acontece fora de mim. Tudo o que permanece fora de mim.
Fecho as mãos sobre os dedos.
Silêncio.
Abro os olhos para me saber vivo. Seguro-me, imutável.
Inalo o ar pesado da tarde ardida em labaredas que não cessam nunca. Limpo as cinzas do cabelo e desfaço-me por dentro.
Seguro o  silêncio na ponta dos lábios. Não digo o que sinto. Não me sinto no que fica por dizer.
Há granito nas minhas mãos queimadas. Granito que se desfaz em cinza de cada vez que me ouço por dentro.
Sento-me na distância de mim e abro as mãos.
Fecho os olhos.
Silêncio.

tiNta

posso pegar na folha e chegar a lado nenhum. ler todas as palavras em todas as letras de todas as linhas e não chegar a lado nenhum. podia voltar a tentar, começar do principio, pegar pelo fim, acreditar que tudo ia mudar e, mesmo assim, não chegar a lado nenhum. 
projecto-me sobre o rio e caio na água fria. faz frio aqui quando abro os olhos, quando me levanto, quando pergunto por ti e não ouço nada de volta. deixo-me cair na água com o peso inteiro do mundo sobre minha pele. deixo-me diluir na água com o peso inteiro de ti sobre o pensamento. e quase me afogo. quase me desfaço. quase que me vejo impossibilitado de começar de novo.
escrevo as palavras sobre a água do rio enquanto faz frio dentro de mim. pensei que podia começar a chorar quando a minha voz perguntou por ti. mas não. hoje não. hoje começo partindo do fim e termino (n)as palavras todas.

31/07/2017

não há espaço para existir aqui

não há espaço para existir aqui. só paredes e este corredor que meus passos excedem e que não conduz a lugar nenhum. não há espaço para respirar aqui. para gritar. para correr. para voar. as grades circundam o ar a lembrar que não é possível fugir. o tempo que se suspende no corpo a lembrar que não é possível sonhar. não há espaço para existir aqui e eu morro um pouco mais cada noite que passa. respiro um pouco menos. movo-me até não ser mais possível e acabo por me fundir no lugar que ocupo. como se fosse nada. como se em nada me transformasse. como se ao nada finalmente regressasse. não há espaço para existir aqui por isso me morro. por isso desvaneço. por isso cesso de respirar até ser absolutamente nada.

28/07/2017

vEnto

Deixei de poder escrever. 
As letras saíram das palavras e perderam o caminho de volta. Não há retorno quando tudo cessa de respirar. Não há possibilidade de retorno quando se deixa de poder existir.

As folhas voaram no vento da noite. Sabes que faz vento aqui? Sabes que tudo se funde com a noite quando tudo se extingue numa espiral insane pelo vento dentro e não encontra o caminho de volta?

Vês as minhas mãos na pele? Vês as minhas mãos nos espinhos? Conta-me os passos enquanto me dirijo até ti. Conta-me nos momentos em que eu quase que desapareço do teu olhar e tu perdes o caminho de volta. Para mim. De mim. Em mim.


Deixei de te poder escrever. Escrevi-te metade da minha vida inteira e agora não consigo mais. Cheguei ao fim do caminho. Não encontro os passos de volta. Leva-me o vento. 
Extingo-me na noite.

26/07/2017

forGive

Perdoa meu embaraço. As palavras confundem-se dentro das vozes e as vozes confundem-se dentro dos olhos e os olhos dentro das mãos e as mãos dentro da distância e a distância dentro de mim. Perdoa minha angústia. Sou o que fica quando tudo termina, os restos da pele sobre a terra molhada, as sombras das folhas que o tempo fez cair, a penumbra dos lugares onde a luz nunca poderia ter chegado. Perdoa meu desespero. O facto de respirar apenas porque o corpo continua a seguir, continua a continuar a não parar a não ceder a não serenar. Perdoa a minha certeza. A de que vou chegar ao ponto em que existir sem viver não pode mais continuar a ser o lugar que me cabe. Perdoa quando eu partir. 

25/07/2017

Toquei-me na esperança que o dia terminasse. Contei as tábuas do caminho enquanto a chuva me macerava a ausência. Falei incessantemente para uma parede vazia e nada do que disse chegou a fazer sentido algum. As palavras só têm significado no escutar dos outros.


Se as palavras não forem ouvidas, de que vale serem proferidas?

escutA-me

escuta-me.
são sombras que te atravessam a pele. são restos de memorias vividas que te invadem e te colocam no espaço caótico em que te revês.
Escuta-me.
este é o lugar em que te reconstrois, em que recomeças, em que te podes reencontrar com quem eras antes de ti.
Escuta-me.
são apenas diabos a perseguirem-te por dentro mas tu tens escolha. Tens onde te segurar.
Escuta-me.

não precisas de desistir agora. Estamos quase a chegar. 

21/07/2017

ágUa

comecei por colocar os dedos sobre a água até deixar de ser.
perdi a pele sobre o tempo até deixar de ver.
troquei os passos pela dança até enlouquecer.
comecei no principio das coisas terminadas até ter destruído tudo
comecei por colocar a água sobre as mãos até adormecer.

18/07/2017

antÍtese

Não tenho que fazer nada. Não tenho de me mover. Lá fora tudo acontece, tudo está em movimento e eu aqui parado. Cessei no tempo que não passa. Tudo em torno de mim se move excepto eu mesmo. Estou, talvez, na antítese do lugar que havia construído antes de chegar aqui. Tracei as linhas certas do caminho certo mas acabei aqui, neste qualquer outro lugar que me é profundamente estranho e onde não me sinto. Tacteio a pele dos pés sobre o vento frio do norte para me saber vivo. Olho a noite que abraça o céu e revejo-me no reflexo deste tempo que me olha sem me ver. Penso no espaço que vai deste lugar até ao centro do universo, até ao lugar onde se termina de respirar e perco-me nas barreiras da angústia. Tudo acontece fora de mim enquanto eu respiro na incerteza de que o ar exista, na inválida insegurança de que pode chegar o dia em que eu possa, por fim, quedar-me deste lugar e encontrar o centro da noite. 

me myself & i

sou um lugar em que nada começa e em que tudo termina e não cresce, em que tudo nasce sem razão e em que não há razão em nada do que sinto e o que sinto são coisas imensamente distantes e estranhas e confusas e difusas e o que vejo são precipícios em que me quase que quedo e em que me quase que despedaço sem ter nunca começado verdadeiramente a caminhar e em que o caminho é sangue em feridas abertas ao sal das lágrimas que, em silêncio, desvelo e em que a terra que penso ter sobre os pés é apenas areia e em que os meus passos são apenas as sombras do que resta de mim quando tudo o que acontece por dentro me rouba as palavras e me desfaz a linha do pensamento e que dança dentro de mim e eu perco o norte e perco o sul e perco todos os pontos cardeais e deixo de poder contar seja com o que for, seja com quem for, e em que não encontro nada porque tudo o que está em mim está além de mim e aquilo que sofro ninguém entende nem ouve nem sente e eu não me consigo tocar nos dedos não me consigo tocar nas feridas não me consigo encontrar dentro de mim e sou um lugar em que termino sem ter chegado a começar porque de cada vez que dei lugar ao movimento, caí dentro de um vórtice dentro de uma aresta, dentro de um degelo dentro de um abismo, dentro de uma solidão tão estranha em mim, e procurei - confesso que procurei - por mim em todas as vozes em todos os ruídos em todas as pessoas que se puseram entre mim e mim e entre mim e o fim e entre mim e o começo e entre mim e outro lugar em que eu não precisasse de acordar, em que eu não precisasse de ser, em que eu não precisasse de nada para poder continuar, mas algo em mim me consome e dilacera, me termina e me assusta e me conduz a um lugar que não conheço dentro de mim e que não sei explicar e que não gosto e que me segura com garras fundas de noites inacabadas em que a única coisa que me podia salvar eram os que não estiveram não entenderam não souberam ouvir não quiseram ficar e não me agarraram nas mãos nem na alma, que me podiam ter segurado nestes finos fios de seda que ainda me prendiam à vida e por isso sou o lugar em que já nada pode começar porque tudo já teve o seu lugar e agora sou o que sou dentro de mim e não tenho as palavras que me possam libertar deste lugar em que uma parte de mim permanece sem poder fugir e outra onde me desfaço na mais absoluta solidão dentro do que resta de mim.

17/07/2017

comecei pelo fim. sangrei-me nas mãos e na alma até me diluir inteiro na chuva. comecei incessantemente a terminar no dia em que percebi que o acto de existir era superior a mim. ninguém viu quando tudo em mim ruiu pela primeira vez. quando deixei de saber sorrir. quando deixei de saber falar sobre o que acontecia em mim. comecei a terminar da primeira vez que me vi e deixei de ser eu e desde então, atravesso desertos que não terminam nunca e rasgo o meu corpo para saber que existo para além de tudo isto que não sei explicar mas que acontece em mim. 

15/11/2016

inVerno



Percorro o tempo que se instalou dentro de mim com a ponta dos dedos. Está frio lá fora – sabes que o inverno vem a chegar? – e começo a sentir o peso da minha roupa  vaza de corpo. Pego nos restos da tua voz e coloco-os sobre o meu escutar. Estou cego – sabes que o inverno vem a chegar? – como se vivesse na parte mais funda das noites que não sabem terminar em nós. Tento ver-te no fundo do meu vazio e não te encontro no corpo, não te sei na voz, não te escuto no tempo. Sei que o inverno vem a chegar. Guardo-me na ponta dos dedos e fecho as mãos. Espero que chegues.

luAr

Foi no segredo do luar que nasceu no dia angustiado que comecei a rezar. Entoei todos os cânticos que não aprendi e reservei-me no lugar mais fundo do começo da noite. Extasiei-me perante a imensidão da luz que me atravessou e corri dentro da minha nudez a tactear o ferro do chão. Cresceram sebes e flores no silêncio das palavras adormecidas e dancei com os espíritos do meu passado. Gritei ao vento o meu nome e deixei-me cair sobre o frio da madrugada. Passei o tempo inteiro de mim no relento da minha vida. E comecei a rezar até me encontrar na voz e recomeçar o dia.

10/05/2016


Escrevo sobre linhas invisíveis na esperança de que as letras não desapareçam na tinta.

Invade-me uma tristeza infinita coberta de tons azuis.  Sinto a dor a dilacerar-me o peito por dentro e as vísceras a sangrar. Doí-me tudo, inteiramente, como nunca antes.

Imagino o que o vento trará na maré que vai chegar e tremo na imensidão da minha angústia.

Choro em silêncio o segredo da solidão antiga. Desfaço-me num mar de lágrimas e quase me deixo ir na vaga.

Peço-te que não me deixes agora senão perder-me-ei. Peço-te que não me deixes cair agora pois temo não voltar a erguer-me.

Olho para o que fica de frente com um olhar de quem já tudo viu. Permito que o passado descanse sobre um sono antigo.

Inalo o cheiro da terra depois da chuva e procuro os resquícios do mar na minha pele.

Respiro fundo e encontro as palavras na tinta da terra. Procuro reencontrar o respirar enquanto sigo em frente.

30/04/2016


Estou apenas a aguardar que o tempo cesse de correr. Estou à espera de que os ossos cessem de ranger dentro da terra que me cobre. Estou a sentir o corpo a acinzentar enquanto o alcatrão aquece sob o calor que emana da tua raiva. Procuro as sombras que restam nas ruas que faltam para chegar a um qualquer lugar. É a última vez que te pergunto porquê. É a última vez que te digo porquê. Estou a aguardar que o tempo mude e deixe de fazer calor. Sinto o corpo a morrer na incerteza dos dias que não cessam de continuar. Os meus pés estão gelados sobre o alcatrão molhado do orvalho do início dos dias em que me sei sem verdadeiramente me reconhecer. É a última vez que te pergunto. É a última vez que te digo. Estou a sentar-me no chão vazio e a gritar no toque das tuas mãos. Vou esperar que o tempo pare e eu recomece a respirar. É a última vez que te pergunto porquê. Desvaneço com as sombras que restam nas paredes desta cidade vazia.

25/04/2016

Não preciso mais que regresses. Sei o caminho de volta.
Não recomendo que olhes para trás. Recomecei a minha marcha lenta e já ai não estou.
Não deves jamais voltar para trás. Tudo o que havia já terminou.
Tenho de recomeçar. Pegar nas pedras e na terra e reencontrar os caminhos para os lugares de mim. Reconstruir tudo. Esquecer o que resta. Recomeçar. Segurar nas minhas mãos e no meu vazio e recomeçar.do princípio. Voltar a erguer o corpo perante a chuva que cai aqui e voltar a começar. Não esperar nada. Não desejar nada. Simplesmente recomeçar.

10/04/2016

rUn


Começo a correr quando a chuva regressa. Começo a cair quando a frio recomeça. Doí-me na frente do olhar a imagem da minha ausência. Invejo o amor que reside nos corpos dos outros, nos segredos dos outros, nos segredos teus em que eu não tenho espaço nem lugar. Corro sem me mexer. Dentro de mim devasto o vento na minha velocidade aniquiladora. Nada sobra depois da minha passagem. Não tenho segredos. A verdade é que não tenho nada em mim para te entregar e não te sei dizer isso. Não me te sei dizer nada. De forma nenhuma. Vez nenhuma. Doem-me as vísceras no respirar. Desfaço-me me resquícios de cinzas de cada vez que sinto como me faz falta sentir na língua os segredos que residem na tua fragilidade. Corro a mexer-me inteiro dentro de mim e a saber-me ao sabor acre que reside nas coisas gastas pela ferrugem do tempo. Rasgo-me na certeza plena de que nunca mais poderás chegar perto de mim. Porque eu não tenho lugar no lugar de ti. Começo a correr assim que regressares.

06/04/2016

guArdare


Lava-me a pele. Conta-me o segredo. Desfaz-te em cinzas. Segura-me o cabelo. Guarda-me o anjo nas costas. Grita comigo. Conta-me o segredo. Desaparece na noite. Segue o teu caminho. Limpa-me o corpo. Bebe-me o sangue. Guarda-te dos anjos. Desenha-me o segredo. Grita com o mundo inteiro. Lava-te depois. Segura-me na mão. Cai comigo. Vai sem mim. Parte e não regresses nunca este lugar de finitude. Abraça-me na noite. Sente-me partir. Esvazia-te do mundo e dos gritos. Vive a tua dor. Segue para continuares. Não olhes para trás. Não olhes para mim. Vê-me e segue. Meu anjo segue contigo. Guardo-te na solidão. Lava-me a alma. Desiste de mim. Não importa o que fizeres. Não importa o que quiseres. Este é o meu limite. Corre sobre mim. Ultrapassa-me e não olhes para trás. Conta-me o teu segredo e depois emudece. Lava-me na chuva. Lambe-me a pele cansada. Rasga a minha angústia e desfaz-te de mim. Deixa-me no rio. Deixa-me no mar. Deixa-me ao sol da manhã. Conta-me o meu segredo. Recorda-me. Evade-me. Evade-te. Não há lugar para ti neste inferno de asas abertas. Guarda-me na noite enquanto partes. Desparece de aqui. Segue para continuares e nunca, mais vez nenhuma, olhes para mim.

05/04/2016

anGoisE


Pensei em começar tudo de novo. Fechar os olhos. Deixar as sombras passarem diante de mim e recomeçar. Anjo e demónios digladiam-se dentro de mim e são as suas vozes que oiço em gritos desvairados dentro da minha solidão. Pensei em começar tudo do princípio. Voltar ao lugar onde a minha existência teve o seu primeiro sentido, em que a minha desistência teve a sua primeira vitória, em que a minha desgraça me dignificou. Queria poder começar de um lugar onde eu não estava. Na verdade, todos os lugares em que estive as vozes não me abandonaram. Na verdade, de todos os lugares em que me vi, as sombras não me deixaram. Pensei em começar de novo mas sem estar lá. Sem ser eu o começo nem o fim. Estar sem estar e ser sem ser. Percebi, no momento em que me olhei no espelho da mesma sala, na mesma casa, na mesma morte, que não se pode começar do princípio vez nenhuma. As sombras são o meu começo, a minha angústia o meu eterno fim.

23/03/2016

abSentiA


Queimo na pele a tua ausência. Sinto a tua boca mergulhada na minha distância e recordo a dimensão eterna que residia no teu beijo. Rasgo a tua voz na violência do meu pensamento. Corto o sangue que me escorre das mãos e deixo de ver a nitidez de mim. Danço absolutamente ébrio na intensidade esquecida da noite fera que me traz até ti e me deixa depois completamente só. Verto-me no asfalto e espero que alguém me dilacere e me desfaça de encontro ao gelo da estrada. Evado-me na certeza de que tuas mãos me cobriram os olhos de todas as vezes que não pude chorar-te, me calaram o grito de todas as vezes que não pude chamar-te, me seguraram o corpo de todas as vezes que me deixei cair na imensidão da insuportável solidão de ser eu mesmo dentro de mim. Queimo na pele a marca da tua ausência. Olho em redor e não vejo muito para além do nevoeiro que chega com a manhã dos dias que continuam a vir, um atrás do outro, de passos mansos e agressões atrozes. Deixa-me recordar-te até ao dia em que o meu sangue se esqueça de respirar. Deixa que teu beijo percorra todo o meu corpo e eu padeça de tanto te amar. Emolo-me na certeza de que não regressas mais a mim.  

Sossega. Hoje já chega. Não tenhas pressa. A noite já começou. Já quase que não faz frio. Ainda há gelo no chão mas quase que já não faz frio. Podes passar na sombra e esperar que o dia comece. Podes olhar para mim e mesmo que não me vejas não precisas ter receio. Vou estar no mesmo lugar em que me deixaste.

12/03/2016

"I don´t want to wait in vain for your love"


Creio que estou a chegar ao final da minha capacidade de te esperar. Queria ter podido esperar mais tempo. Queria ter podido ser melhor mas só consigo ser melhor quando estás e tu não estás aqui. Procurei-te na cidade pela noite dentro a ansiar a tua voz. Perdi-te no começo de cada rua, no virar de cada esquina, no passar de cada fracção de tempo. Perdi-te irremediavelmente da primeira vez que te toquei. Perdi-me indefinidamente da primeira vez que me olhaste. Morri na certeza de que existir era apenas em ti e por isso sou hoje o limbo do que existe aquém do que existe em ti. Queria ter podido ser melhor. Prometi que iria sempre ser melhor e não cheguei até ti. Estou a vaguear na aresta da minha capacidade e temo que não tenha mais por onde andar. Espero-te, em vão, desde que comecei a amar-te e espero-te ainda e depois e antes e sempre. Mas creio que não terei mais possibilidade de continuar. Sabes, agora que tudo em mim parece querer desaparecer, deixo de novo de ser o suficiente para te chegar. Compreendo tudo o que acontece em ti e abandono tudo o que acontece em mim na esperança eterna de que um dia possas voltar a cruzar-te comigo no começo de uma qualquer rua numa qualquer noite em que minha alma não seja apenas uma sombra de mim.

gaIvotA


Está tudo a desparecer. A desvanecer. A transparecer a antiguidade e o desespero. As paredes choram o salitre e a tinta desfaz-se na inteireza do pó que já não abandona este lugar. Caem as madeiras e os tectos. Rangem os soalhos e as desgraças. Reza-se a história e desaparecem os personagens. Aqui e ali há um resto de uma memória apagada no rastro frustre das asas de uma gaivota adoecida pelo ondular do mar. Nada faz falta aqui se não um recomeçar. Do princípio. Longe deste fim que se aproxima com a velocidade das coisas que se não desejam. Queria partir e não consigo. Meu corpo está preso nas garras do que não chegou a ser a vida que era suposto ter sido vivida. Está tudo a desvanecer. A cair. A apagar-se. Vai ficar apenas este enorme lugar onde tudo se passou como se nada tivesse sido. Cedem as madeiras e cedem os telhados sobre o voo de uma gaivota envelhecida. Gritam as ondas e grita o vento e gritam as vozes dos que morreram aqui e deixaram tudo por terminar. Cai a tinta das paredes e caem as paredes dentro de si mesmas e levam-nos consigo. As memórias são apenas pó do que restou aqui a marcar os lugares certos das coisas incertas. Queria ter podido ter a liberdade de partir para sempre e para sempre estou condenado a ser o pó deste lugar. Indefinidamente, até que a minha existência seja, serei o lugar em que tudo desvanece e queda, como uma gaivota que em pleno voo desiste de existir e desafia a gravidade até encontrar o que possa ser o seu lugar certo para a queda.  

09/03/2016


Morreste. Entendo agora que morreste. Tudo o que existia desapareceu.
Ficaram restos de sangue e de cinzas.
Desapareceste.
Para sempre.

02/03/2016

en pAssAnt


Não sei o que é este movimento que acontece em mim de cada vez que desapareço. O mundo deixa de me encontrar e eu sento-me e espero. Trespassam-me as pressas dos outros que me não vêem e me atravessam como se nada estivesse no seu caminho. Como se eu não estivesse no seu caminho. Como se eu não existisse junto deles.

De cada vez que desapareço, o mundo deixa de me saber e eu sinto a liberdade de poder ser qualquer coisa para além disto. Revejo-me fora do que existe em torno de mim e sobrevoo tudo o que acontece como se não estivesse.

Vivo sem viver. Existo sem respirar. Quedo sem sequer conseguir andar. Não sei o que é isto que acontece em mim mas encerro as muralhas que durante anos construí e fecho-me na torre. Nada me toca aqui. Nada me pode ferir aqui. Olho quem passa e quem me ultrapassa com a mesma inocência com que me vejo a morrer. Sou uma sombra do que resta acontecer em mim e espero enquanto o mundo fica cego do meu respirar e me abandona na esquina da vida que fica inteiramente por viver.

nãO me Fales


Não me fales da morte enquanto aqui estou. Não me olhes como se soubesses que o meu mundo vai terminar. Não to permito. Deixa-me estar dentro deste lugar que reservei à minha sólida angústia de me saber vivo enquanto morro. Deixa-me caminhar e deixa-me correr até eu cair. Deixa-me segurar nos dedos a areia fria da praia que ainda existe em mim e deixa-me dançar como se amanhã a música não fosse terminar. Deixa-me gritar as vezes que eu quiser, o nome que eu quiser, e não me julgues. Nunca me julgues. Quero ser quem decidi ser até ao fim do que começou em mim. Não me questiones, não perguntes porquê. Deixa-me ir assim, na ilusão de que não parti e na certeza de que o mundo continuou a acontecer apesar de mim. Deixa-me sonhar na minha infinita tristeza de ter de partir, mas permite-me ainda sonhar. As vezes que eu quiser, as vezes que eu precisar, deixa.me sonhar que ainda estou aqui e que meu caminho pode ser mais longo, pode ser mais inteiro, pode ser mais do que apenas isto. Deixa-me olhar-me no espelho para me recordar quem fui, não este corpo que vejo agora aqui de fronte da minha finitude, mas aquele que bailou a vida sem ter medo de cair. Lembra-te, nunca tenhas medo de cair. Há sempre areia para te segurar nos dedos. Há sempre mar dentro de ti. Dentro de nós. Dentro do olhar que encerro e se despede em mim. Não me fales da morte enquanto ainda resiste uma réstia de vida em mim.

22/02/2016

seguro nos dedos a versão mais recente da minha sombra. a silhueta expressa na parede sou em sem ser eu mesmo mas apenas o reflexo enovoado de qualquer coisa que terei sido. falta-me a força quando me vejo reflectido nas sombras das luzes que se apagam dentro de quem podia ter chegado a ser. desfaço-me em silêncio e carpo o choro magoado de quem nunca teve a coragem para deixar o resto da sua silhueta quebrada de lado para poder partir.

31/01/2016

pRaia


Caminho dentro da minha solidão. Atravesso a praia antiga ignorando todos os gestos dos outros. Reconheço as suas vozes e assumo a surdez plena de quem já não está. Interpreto os gestos nas suas histórias de serem quem são, naquele preciso momento, e remeto tudo para um lugar fechado em que nada, para além de mim, pode acontecer. Caminho a minha solidão inteira no bater das ondas de inverno. Gaivotas caminham a meu lado como se soubessem o segredo que se me desfaz na pele. O silêncio que vem do mar abraça-me de deixa-me cair na areia. Só até que o momento cesse e eu desapareça por completo sou o segredo do que resta do caminho que atravesso. A chave para ignorar o que a vida transporta dentro destes corpos que partilham este espaço com a minha existência. Queria poder, por um momento, esquecer a minha humanidade e ser-me a espuma que a onda entrega à areia fria. E esse seria o auge da minha caminhada.

29/01/2016

é quase certo que este é o meu lugar errado. quase certo que já há muito que devia ter começado a correr. o caminho está a chegar ao fim e não há mais terra depois deste abismo aberto por ti. escavei até ao final do que pude ser e agora já nada pode permanecer imutável. agora é o tempo de tudo isto terminar de vez. e eu começar a correr.

28/01/2016

princípio do mundo


Quero silenciar as vozes que desesperam dentro da minha memória do tempo. Navegar à deriva num barco sem vela abandonado sobre as vagas na tempestade das ausências. Afogar-me na lâmina do frio da solidão que começa com o princípio da noite. Devastar-me no peso inteiro das coisas por saber. Segurar na ponta da tua pele e reconhecer-me absolutamente despido sobre a solidão da minha própria ausência.

Queria poder encontrar-me nas vozes que sussurram todos os nomes de todas as coisas dentro de mim. Segurar-me no abraço das letras caídas sobre muros ruídos nas chuvas que avassalam a minha estrutura. Desesperar-me na imensidão do vazio que se abre sobre o fim das coisas que começaram aqui. Voltar-me para dentro até me ver reflectido no espelho da água parada de uma qualquer maré fria da madrugada. Vestir-me de capim e sussurrar-me na pele a minha própria distância. Quero ser o que resta de mim até desparecer.

Quero silenciar-me dentro de mim e abandonar-me na maré. Só até reencontrar o princípio do mundo.

24/01/2016


Desta vez talvez vá começar pelo fim. Pego no término das coisas que foram e começo do princípio. Apago o quadro de ardósia e mergulho as mãos no giz. Balanço-me sobre as arestas das certezas incertas e deixo-me cair no chão.

Não importa se faz frio agora. Abro os olhos e sei o caminho. Recomeço do princípio. Desta vez não vou ter medo. Basta começar por um qualquer lado, basta acertar o passo. Não vou pedir-te para esperares por mim nem que teu passo chegue ao mesmo tempo que o meu.

Desta vez vou começar por onde devo começar. Pelo fim das coisas que podiam ter sido. Pego nelas, com a liberdade que fica nas coisas que se amam até ao fim dos dias, e farei de tudo para que não quedem, para que não cessem de existir em mim.

Desta vez talvez vá começar por mim. Talvez não olhe para trás para ouvir as mesmas melodias. Vou deixar o lugar em que me deixaste de todas as vezes em que não estavas e vou ser eu sem ser mais ninguém em mim. Desta vez vou começar em mim para chegar ao lugar em que tudo acontece.

Não importa se a maré está baixa e não importa se morro amanhã. Escondo-me por detrás da névoa que a madrugada encerra sobre si até que o dia desperte dentro do que podemos ser.

Deixa-me regressar a mim. Desta vez recomeço aqui. Nada ficará ao acaso. Nenhuma letra de nenhuma palavra cairá por terra. Desta vez eu não cairei por terra.

Sobrevivi às tempestades de areia que me assolam o deserto que existe em mim. Sobrevivi à ausência do que resta de mim e reencontrei-me nos lugares dos passos que só a dança pode devolver à minha existência. Hoje danço sobre mim e é aqui que começo.

Desta vez talvez vá começar do princípio das coisas que nunca terminaram em mim.

20/01/2016


Podes ser o lugar onde o meu fim se inicia.
Talvez possas ser o que nunca foi mais do que o que estava previsto ter sido.
Sou o lugar onde encontras o silêncio e onde existes sem cessares de respirar.
Sou o lugar onde podes sempre regressar, sem nunca chegares realmente a partir.

diVino


Ficas a planar sobre minha pele de cada vez que partes. Teu corpo fica apenso à memória de mim em ti e deleito-me no sabor que emerge da tua sede. Perdoa se não sei mais que isto. Perdoa se não preciso mais do que isto. És a melhor parte do que acontece em mim e abençoa-me Ele que te deixa depositar tuas asas sobre o meu respirar.

10/01/2016

fracÇão


Falta apenas um segundo. Depois tudo cessa.
Falta apenas menos do que um segundo e tudo termina aqui.
O teu corpo dentro do meu corpo não vai ser nada mais do que a memória vivida de um passado esquecido.
Não consigo ver para além deste escuro desta noite que sempre foi a cor que tiveste aqui.
Falta apenas o tempo de te dizer. Adeus.