26/02/2024

há uma certeza cada vez mais certa.

tudo é já demasiado incerto.

23/02/2024

EStRaDa

Se olhares em frente

no asfalto

no caminho

só se encontram corpos em sangue


esquartejados

dilacerados

devastados

aniquilados

eviscerados

sem piedade 

no cansaço negro do asfalto

sem poderem voltar a olhar para trás.


Se olhares em frente

é sangue inteiro

o que não vês 

no âmago desta estrada.

21/02/2024

STaRLiGhT

Caiu uma estrela. 
No céu aberto sob o véu negro da noite. 
Em frente do meu olhar. Negro. Caído. 
Não sei bem o que pensar sobre as estrelas que se precipitam no abismo nocturno da incomensurável vastidão celeste. 
O que, verdadeiramente, acontece às estrelas cadentes? 
Morrem? 
Desmaterializam-se? 
Desfazem-se? 
Eclodem? 
Colidem com as sombras das coisas invisíveis? 
Desistem? 
Desencontram-se do lugar onde deveriam ser e por deixarem de se reconhecer, deixam de existir? 

Talvez, no (a)final, sejamos todos estrelas. 
Destas que quedam. 
Das que se precipitam. 
Das que se desencontram. 
Das que colidem com tudo.  
Das que nunca encontram o lugar onde deveriam ser. 
Das que não voltam a brilhar. 

Vi cair uma estrela esta noite.
Diz-me...


Eras tu?

31/01/2024

alivia-me. teu abandono. alivia. ainda fere. o teu silêncio.  ainda fere. creio não poder ser de outra forma ou a forma não teria qualquer sentido. talvez ainda espere. na distância dos gestos deformados. talvez espere. mas esperar sem ficar à espera na espera é esperar sem esperar que a espera seja esperada. talvez. pesa-me. o alivio do teu abandono. pesa-me. a inglória desconsideração do teu silêncio. pesa-me o alivio que reconheço no abandono de mim. alivia-me. compreendo a ausência do significado da forma. talvez ainda fira. talvez. ou alivio-me na certeza de que vou esperar, distante, a continuidade da ferida aberta que é o alivio deste silêncio abandonado na noite.

28/01/2024

Ponho a cafeteira ao lume. Agora resta esperar. Fico, descalço, a tentar compreender o porquê de ser tão frio este mármore. Espero. Creio que estou a respirar mas não posso garantir. Não sei ao certo os movimentos que meu corpo ainda insiste em fazer. Fico, parado, à espera que algum aroma emerja dentro da minha apatia.

Sinto que a pele dos pés grita no silêncio que anuncia o vazio deste lugar. As dores mais fundas não se gritam, só se sabem. Penso em como tudo, de repente, adoeceu. As palavras atropelam-se e desferem golpes fatais sobre as bocas e as (des)esperanças. As mãos trazem veneno nos abraços ludibriosos ( ou ludibriados?) e já nenhuma parte de parte alguma quer ficar para (re)encontrar uma possibilidade que seja de (re)haver um todo. Os olhos trazem a (des)ilusão e o (des)anúncio. Temo que já não queira mais ver. Talvez também tenha chegado o mármore ao meu olhar e eu acabe a morrer de frio por dentro. 

Tenho o corpo descalço e a pele fria. Tenho o olhar cego a aguardar que este lugar fique emerso num aroma que me faça (des)acreditar que podia estar noutra parte de outro (des)lugar. 

Espero. Sorvo o café com os lábios cansados dos gritos que se (des)aconchegam dentro da boca. Compreendo agora a razão do frio que emana do mármore despido sobre meus pés (des)esperançados. 

25/01/2024

ao corpo 

invade

quando menos se espera                                                                                                                                                                                            (deseja)

toda a sua contida dor                                                                                                                                                                                              (miséria) 

em pontos específicos                                                                                                                                                                                               (cardeais) 

nos momentos                                                                                                                                                                                                        (repetidos)

mais inusitados                                                                                                                                                                                                  (deliberados) 

que se prolongam                                                                                                                                                                                                    (sustêm) 

irremediáveis                                                                                                                                                                                                           (abissais) 

até que a voz                                                                                                                                                                                                            (o grito) 

seja tudo                                                                                                                                                                                                               (somente) 

o que é possível                                                                                                                                                                                                          (ainda). 

24/01/2024

O silêncio ficou preso nos novelos atabalhoados de palavras incompletas, engasgadas do lado de dentro da garganta ferida.

Cá fora, só sobram gritos e frases desfeitas.

17/01/2024

Fui lá fora para ouvir. O vento. 

Saber que dizia o vento. Ouvir.

Abracei a tempestade e agarrei a chuva com as mãos fechadas. 

Nunca tive coragem de medir quantas coisas podem caber dentro de uma mão fechada. Nem o que pode ficar. 

Numa mão que se fecha, há grades ou liberdade? 

Vou perguntar ao vento. 

Vou arrancar a verdade à tempestade com meu abraço enferrujado, colérico, infernal. Vou tentar saber o que falta.

Nos caminhos frios da noite, cairam muros e árvores e rochas e lama e flores e carros e rios e almas. Cairam pela noite dentro, pelo vento adentro, no coração da intempérie, sem fé nem amarras nem tempo nem sombras de qualquer possibilidade de salvação. 

Vou escutar o vento. 

Saber porquê. Saber porque partem as coisas, as das mãos fechadas e as que não cabem nas mãos. 

Vou ficar cá fora, pelo vento adentro. Talvez me leve por mim afora

03/01/2024

Mastigo o tempo, engulo as ofensas, sorvo os abandonos. Não serei mais do que o fel e a bílis despojados no lodo do pântano que habita na minha mão direita

01/01/2024

rECoMeÇo

Deitas a cabeça sobre o colo da noite enquanto procuras pelas estrelas. O céu desapareceu. Não restou nada.

Bebes o vinho que a ilha entrançou na minha boca e seguras um cigarro como se fosse um segredo. Inalas a verdade da mentira, guarda-la fundo, bem fundo, onde tudo arde sem morrer.

Entendes agora que o inevitável é não precisar começar de novo

30/12/2023

EnD

You can try to save me from everything...



But you can never save me from myself.

28/12/2023

perdoa

amor

mas não aprendi como se colhem os seixos 

feitos de matérias invisiveis

feitos de silêncio 

que deixas caídos 

nas orlas espancadas das praias

dessas que só encontram lugar 

nesse lugar

onde se fecham

as tuas mãos

e se dilacera

o teu coração. 

27/12/2023

Quero pegar neste cavalo ensandecido que galopa a minha mente e largá-lo nesse lugar deserto que é teu sentir.

Reconheço que tenho a boca conspurcada, as palavras sujas, a tinta que me corre nos dedos contaminada e talvez, apenas talvez, queira violentar-te, (ab)usar a tua pele, permitir tua pomba voar sobre o que restar de mim e jamais compreender teu desejo.

Talvez queira que não pares mais aqui. Que escorras sobre mim e me abandones no deserto. 

Talvez escolha morrer da sede do que vinha depois e não deixar cair a dignidade das penas sobre a maré vazia.

Vou deixar que este cavalo galgue a incerteza das areias e caia, em silêncio, sobre o abismo da minha solidão

26/12/2023

Sinto que há uma besta alada de angústia a percorrer-me inteiro por dentro do sangue. Não sei como nomeá-la, não lhe reconheço a forma, não chego a entender os contornos dos seus limites nem consigo segurar o exacto momento em que começou a voar em mim. Mas traz nas suas asas um sabor às coisas que findam antes do tempo. Parece trazer um fim sem que me tenha sido permitido, sequer, um rasgo de princípio. Ela navega-me ao ponto de não conseguir voltar a tocar terra firme. 

Tudo é areia. Tudo é água. Já nada parece ser seguro e eu não tenho asas.

As sombras da noite parecem resvalar nas arestas dessa angústia e invadem, de asas abertas, as portas dos meus sonhos.

Já nem sei bem de onde vem o fogo, o fumo, o suor, este aroma a sexo aberto sobre a minha fantasia moribunda.

Quero parar e esperar por mais. Saber até onde posso chegar. Talvez saber onde poderei respirar. Saber, exactamente, onde vou terminar. De olhos fechados. De mãos abertas sobre o barro. 

Acabo por permitir que esta besta veleje por mim adentro, até eu já não me recordar mais do que trouxe a este lugar. 





23/12/2023

Pego no fogo com a ponta da lingua. Rememorizo teus dedos a navegarem sem vela sobre meu ventre vazio.

Quando encontro estrelas, reencontro o aroma da tua pele. 

E é aí que permaneço até terminar a noite

17/12/2023

Repito uma memória de ti

no vestido que tuas mãos despiram na minha pele

nas palavras desobedientes que te correram dos dedos

num caminho que nos levava a nenhum lugar.


Por vezes

repito o sabor da tua indiferença na boca

para poder parar todas as palavras

de imediato

como um poema antigo.

12/12/2023

PaRáBoLa

um leitor ávido tem de ler todas as palavras do livro. até ao fim. completar a história. 

quando um livro não termina de contar a história, um leitor ávido pode tornar-se um leitor paciente. um leitor paciente, no entanto, se a história não chega nas palavras a contar o principio do seu fim, pode vir a tornar-se impaciente. 

o que pode fazer um leitor impacientemente a aguardar o final da história que o livro lhe entregou?


és água. eu sou deserto. e é apenas nessa medida que necessito de que existas em mim. não almejo nenhum oásis, não creio que possam coexistir na natureza que me baliza. preciso apenas das gotas que servem à terra o respirar. e, se não correr nenhuma água sobre a minha pele gretada, perecerei mais rapidamente na secura agreste que me assiste. mas sigo agarrada aos ventos e permaneço a rodear dentro da areia quente até chegar ao final de mim. 

07/12/2023

Pega na minha voz 

e grita.  


Segura o meu silêncio 

e reza.


Come da minha carne 

e arrepende-te.


Separa as minhas partes 

e funde-te.


Mascara as minhas falhas 

e encontra-te.


Invade o meu abismo 

e sossega.


Escuta o meu abandono 

e adormece. 




05/12/2023

Diz-me

pode a dor superar a cor do fim do dia?

pode o corpo sucumbir quando o dia terminar?

poderemos, alguma vez, esquecer tudo o que dia devastou em nós?


O Outono começa a criar raízes dentro das minhas mãos,

nos sulcos da minha pele que já se cansa tanto,

na tormenta crescente dos dias minguantes que são já tantos caídos em cima deste corpo que parece ter perdido o Norte.

 

Caminho pelo princípio da possibilidade de reencontrar a cor bela do final dos dias…a noite é uma amante fera que vem agora aniquilar todas as cores tão ferozmente rápido…

Com a noite chega esta tristeza que me abraça e me não larga mais,

com a tristeza vem a dor que angustia cada fragmento da minha alma,

com a dor regressam os fins de tarde que partiram dentro das memórias que inadvertidamente se vão obliviando…

 

Diz-me

pode Deus edificar um castelo nestas minhas mãos? Pode Deus assentar pedra por dentro desta minha permanente ausência?

 

Diz-me

quando esta dor poderá terminar de doer…

quando o outono poderá terminar dentro de mim…

quando poderei voltar a encontrar o Norte das palavras e a direcção do caminho?