07/06/2021

Lavo o que sobra do dia de seus pés.

Beijo as palmas de suas mãos e coloco-as sobre minhas lágrimas.

Repito seu nome ao vento e espero pelas cinzas para recuperar a liberdade.

Deixo-o partir enquanto me despedaço. 

18/05/2021

o tempo consome o espaço que há por dentro. 

diz-me

por favor,

se respirar é,

hoje, 

um acto de contrição 

ou o caminho da salvação. 

09/05/2021

mAtEr

pesam-me todas as penas do mundo.


trazem-me alivio todas as palavras que se levantam dentro do silêncio escuro que vive dentro de mim.

06/05/2021

JAMS

fico guardado por dentro do meu corpo à espera do momento certo para sair. há uma batalha incessante que acontece por dentro de mim de cada vez que abro os olhos, de cada vez que a dor se instala, de cada vez que nada em mim parece querer obedecer. 

conto com as mãos dos outros que entram e que saem daqui e fazem de meu corpo o que entendem fazer. não consigo defender-me, não consigo encontrar mais de mim dentro desta jaula que me encerra. que me comprime. que faz esvair-me de mim enquanto o resto do mundo passa a correr do lado de fora. 

fiquei suspenso no tempo. a verdade é que continuo a ser eu por dentro - o mesmo eu. ou talvez não o mesmo mas apenas um esquisso do que fui e uma sombra do que poderia ter sido. 

ou talvez até nem pudesse ter sido grande coisa mesmo aquém deste lugar que me encerra... teria feito o quê de minha vida? chegado onde? sido quem? se não fosse isto que sou agora, seria o quê? talvez já nem sequer me lembre bem do que era antes de ter chegado aqui. os caminhos tornam-se areia e pó, humus e lama, vento e abandono. talvez já nem seja importante pensar como ontem me via mas apenas como hoje me olho. hoje sei que sou grande mas sinto-me pedaços de pedaços de pedaços de pedaços. 

sei que vou morrer em mim antes de morrer da vida e que, até aí chegar, me irei inebriar de agonia até poder desaparecer... até que esta dança lenta me leve até ao final do palco. 

e o medo começa a ser o que me abraça todas as noites enquanto toco com a ponta dos dedos os limites da jaula. agarro-me a estas grades com a certeza de que há liberdade do lado de fora. vejo como todos me olham como se eu eu fosse um artista da fome kafkiano. talvez seja isso em que me tornei. talvez não se tenha feito justiça e eu tenha sido, verdadeiramente, deixado no abandono da incerteza e do medo que os outros sentem da minha morte lenta. sinto que se esquecem de mim mesmo ainda de eu ter partido. que me calam mesmo enquanto eu ainda grito. que me ignoram mesmo quando eu os olho de frente. 

no lugar de mim, há mais do que apenas uma solidão sem horizonte. sem linhas limítrofes. sem dimensão mensurável. no lugar de mim, há medo e há tristeza e há saudade e há arrependimento. estou dentro do escuro que vem do âmago dos lugares mais negros que podem ser lugares de ser. minhas lágrimas são a minha expiação. tuas palavras podem ser a minha salvação. 

fico dentro deste lugar que me guarda, que me é, e agarro-me a uma réstia de esperança que me possa levar a um lugar menos escuro. onde o medo não me possa tocar com garras frias mas sim com dedos ternos. para ter alguma paz. para poder morrer no meu tempo. 

Coloca tuas mãos sobre a minha face. 

Desce, peço-te...Desce e toca-me na nuca. Aproxima-me do teu desespero. Afasta-me da minha ausência. 

Respira enquanto eu grito. Grita enquanto eu inspiro. 

Inala enquanto eu fecho os olhos. 

Sorri enquanto vais. 


13/04/2021

C.

Sinto que te digo adeus ainda antes do tempo de me despedir de ti. 

É como se eu estivesse a despir-me de mim. A deixar cada uma das partes num qualquer lugar. Algumas em lugares certos, arrumados, direitos. Outras, talvez nem tanto. 

Algumas imagens começam a ficar envoltas num nevoeiro espesso que se vai apoderando de partes da minha memória. Partes de mim. Faz-me desvanecer devagar, compreendes? Uma forma lenta mas tão desesperadamente rápida, na verdade. Tudo se desfaz num ápice. Uma fracção de segundo. Uma valsa que, na verdade, não abranda mas que voa através do salão de mogno  imenso que é a minha vida. Até ter chegado aqui. 

Sinto que o cansaço e o vazio se inteiram completamente de quem eu fui, atravessam quem eu sou e remetem tudo o que ainda podia ser para um lugar que já não consigo verentenderprojectarnomear. 

Fecho e abro os olhos. Não melhora. Há uma névoa que dança comigo a dança dos dias e me embala nas noites. Já não me deixa. Talvez eu já não seja apenas eu...Talvez seja eu e tudo o resto que agora parece soçobrar de mim.

Há momentos, agora, em que sinto que me desfaço em pó. Em que te digo adeus sem ser ainda tempo de partir. Perdoa-me se não te consigo dizer de outra forma o que me corrompe e arde por dentro. Perdoa se não me consigo entender de outra maneira. 

A dor passou a ser a parte mais inteira de mim e sento-me, no meu próprio palco, absolutamente só, a assistir - através de gritos emudecidos pelo segredo que reside dentro da minha angústia manietada - à queda do resto de mim. Sinto como se me estivesse a desfazer em pó. A aniquilar-me. 

Já não tenho forçavontadecapacidadecrençadesejo para parar com esta destruição massiva que acontece em mim. 

Sento-me, no público, a olhar para o palco onde permanece o resto de mim e assisto, impotentecansadotristepassivodescrente, à despedida que estou a fazer de mim mesmo enquanto te digo adeus. 

Mas deixo a noite terminar e vejo o recomeço que acontece cada manhã. 

Conto até três, conto os passos até ti, e recomeço. consigoresistopersistoacreditorecupero e adio a despedida. Agarro-me nas finas linhas da luz do sol, teço finos fios de seda que me agarram à costa, enquanto sinto as ondas retomarem à maré. Como tem de ser. Como a esperança que desenha as ondas. 

Cada dia, recupero uma parte das partes. Talvez ainda não seja pó. Talvez ainda possa estar apenas a dançar uma valsa lenta. Talvez tudo, afinal possa ir desaparecendo lentamente. E volto a querer ficar. Mais um pouco. Adio a despedida. Adio a minha ausência de mim. Recomeço. 



05/04/2021

Olho para ti. Sinto que já não sou mais capaz. 

Falho sempre. Reiteradamente. Inadvertidamente. Irremediavelmente. 

Sou lugar em que te estilhaças e são só fragmentos do que resta dos teus vidros o que me desfaz a mim. 

Olhas-me e já não entendes nenhum sentido. 

De cada vez que te deixo, há mais uma parte de mim que padece. Não sei bem quanto mais resta para morrer. Quanto mais falta para desaparecer(mos). 

Até quando vamos conseguir perseverar nesta destruição maciça?

Até quando vamos conseguir manter-nos à tona de água antes que o que falta nos leve em estilhaços de mundo? Até não sermos mais do que pó de estrela ou o começo de uma supernova que se desfaz por dentro.

Somos duas estrelas que se preparam para morrer. Devagar. 

03/04/2021

fechei todas as páginas em branco. 

compreendo, 

agora, 

que jamais te poderia escrever. 

um instante, 

apenas,

é quanto basta

para nos perdermos

definitivamente. 

02/04/2021

InsTanTe

Dou por mim sentado no silêncio da noite, à espera. 

A meu lado, arde uma vela. As chamas sibilam por dentro do negro mais negro enquanto me rendo à certeza de que não vens. Nem hoje, nem ontem, nem amanhã. Nenhuma outra noite te trará de volta aqui. 

Os instantes levaram-te, como os ventos do norte, para o lado mais oposto do lugar onde eu tacteei para poder parar. 

Talvez sejamos, no limite, duas linhas paralelas que não se encontram nunca. Talvez a linha que me desenha seja feita de lascívia e a tua te desenhe com linhas divinas. 

Ainda assim, dou por mim parado no escuro, à espera de ti. A dançar, como se meu corpo estivesse ébrio, quase como se minha consciência estivesse distante, quase como se nada disto fosse real. 

Sento-me no lugar de mim, onde me sei e reoriento. Talvez não venha a haver nenhum outro lugar para eu ficar. 

Dispo-me no instante mais negro do silêncio e entrego-me na humilhante dança do meu próprio corpo. Como se tivesses vindo. Como se estivesses aqui. Na esperança de que a noite possa trazer o lado inverso desta vigília que me afasta do meu norte. 

 beija-me os olhos. 



prometo que não respiro. 

SalVaTioN

Para quereres ficar, terias de me amar. 

Para me poderes amar, eu teria de te confirmar um amor por ti. 

Se eu to confirmasse, tu não o saberias conseguir aceitar. 

É esta a razão pela qual nunca me poderás amar. É esta a razão pela qual eu não te irei amar. 

31/03/2021

são os ventos do deserto a sul, que embalam a noite de hoje. 

o céu reveste-se de cores que nenhum poema pode saber descrever.

talvez seja silêncio o que repousa dentro do ruído que as hordas de areia desfazem nas melodias do pó. 

a noite aquece enquanto demora passar. o tempo a não ser mais do que o que medeia o lugar das arestas do deserto e as arestas de ti.

são os ventos que trazem o aroma a jasmim aberto sobre a esperança do sol que emerge da possibilidade do amanhecer.

és tu o céu que regressa a casa, que calcorreia o chão descalço a sentir a areia fina a entranhar a pele e a descobrir as flores brancas que inebriam o ar pesado com que a noite se enlaça. 

talvez seja um ruído demasiado intenso o lugar de ambivalência que te habita na orla do deserto que é inteiramente silêncio em ti. 

ou talvez estejas, somente, a partir com o vento que se desfaz no poema de areia num deserto de abandono.

15/03/2021

Encontrar-te-ei quando a noite fizer silêncio por dentro da casa que me guarda. 




Mas o mundo nunca se cala. 

é possível que me condenes a desaparecer,

de cada vez que me abandonas

estou parada no tempo.

o disco gira infinitamente na mesma orla. retido na ponta da agulha. a separar os acordes na imensidão do tempo. a impedir a música de o ser. 

só ruído. só interferência. repetidamente. 

estou suspensa no tempo.

repetidamente.

sento-me no lado mais fino da aresta deste cubo em que me encontro. não sei bem como vim aqui parar. se queres que te diga, nem sei bem onde estou. a verdade é que não consigo falar. não consigo dizer o que me rasga as vísceras enquanto a náusea me toma de assalto, minuto a minuto 

_para me recordar que existo ou para me recordar que morro?_ 

e me faz sair o sangue, a conta gotas, como se fossem palavras, a conta gotas. uma gota depois da outra. um sangue depois do outro. devagar. 

só ruído. repetidamente. 

creio que fiquei presa no tempo. não presa, suspensa. não suspensa, pendurada. não pendurada, retida, não retida, emersa. não emersa, presa. 

repetidamente. 

depois do ruído, quando as palavras regressarem, 

existo

ou morro?

 


01/03/2021

je ne sais plus par où commencer. 

ni où finir.

la vérité est que je ne serais, jamais, plus que cela. plus que rien. plus que la pluie que on attende sur le désert. 

le désert que s' étire sur ma peau, dans mes yeux, dedans ma tristesse. ma tristesse est indélébile, proche d' infini, cristallisé par dedans mes mains, par dedans mon corps, pleinement propriétaire de mon âme. 

je sais que je suis en trains de finir. il n'y a aucun chemin pour choisir maintenant. ça c'est ce qu'il y a pour mon désire... un désért sans fin.


28/02/2021

estou de frente para o espelho a fingir que queria viver uma história de amor. escorrem pela minha pele as certezas da finitude e a angústia das coisas por terem sido coisas que não chegaram a ser senão nadas. vejo e revejo e são apenas sombras o que fica. a casa a meia luz. meus olhos às cegas. 

caminho descalço e sorrio enquanto me forço a convencer-me de que é este amor o que verdadeiramente desejo. uma verdadeira história de amor. antes de morrer, quero uma vida de amor. um momento eterno em que amo e sou amado e mais nada pode ter importância. até que a vida termine e mais nada possa permanecer depois disso. 

dispo-me de frente para o espelho. faz frio nas sombras desta casa. minha pele cheira a tristeza. meus dedos cheiram a sexo e a fumo. meus braços abertos não seguram a certeza que emana de dentro de minha alma e que sabe ao sabor do teu beijo, que cheira ao odor da tua verdade. forço-me a respirar-te inteira dentro do corpo para fingir que te amo. 

serias o crime perfeito. forço-me a acreditar que era contigo que eu viveria a história não escrita de um amor que não desejo. serias a desculpa perfeita. a desculpa perfeita para um amor imperfeito

 pois jamais me poderias amar. 

20/02/2021

amei-te pela primeira vez. 





e foi a última. 

17/02/2021

DùviDa

se amar verdadeiramente é estar disposto a morrer pelo outro

_ como Alceste fez perante os deuses_

então que verdade existe em cada um de nós?

como pode haver verdade se sou um eu que se despoja inteiramente de si para dar o sangue, o ar, a inteireza do ser, por outrem

_ e se me despojo de mim, que valor tem realmente a minha vida _

se a entrego?

se a minha vida então nada vale

_ quando dela me desfaço_

como pode ela ser prova de amor?

sou amor se morrer por ti mas quem sou eu a jusante disso?

se eu não sou

_ou se sou nada porque de mim me deixo ir como se o eu não fosse valor para mim_

que valor podes ter tu em mim se nem de mim eu considero a validade verdadeira da existência?

se sou insignificância, como posso eu valer-te?


amar-te-ei com mais verdade 

_quando morro por ti _

_ou quando te deixo ir?_