28/08/2018

cOmo Se

O tempo escorre-me na pele. Secam os lábios e os dedos no calor da insanidade. Perco-te no momento exacto em que te sinto. Perco-me na certeza de não haver retorno desta levada. 
O tempo chove-me nos dedos e no pensamento. Corro atrás de ti como se fosse a última possibilidade de te perder. Como se não houvesse alternativa e tudo se tornasse a razão única de ter chegado até aqui. 
Escorre o tempo por dentro de mim enquanto morro lentamente. Seca-me a alma no momento em que te perco em definitivo e o tempo se torna uma parte inteira da chuva que me ensandece.

cOrpUs

Meu corpo é o lugar em que respiras. em que retomas o lugar da queda sobre o teu abismo. em que te reencontras. em que te esqueces, 
por um momento efémero,
do que és antes de chegares aqui.


mAio

navegas-me na pele até eu ser só sangue.

desfazes-me no tempo até eu ser só tinta.

arrasto-me no lugar de ti até eu ser só pó.

ficas a inundar-me a alma até eu ser só angústia.

16/08/2018

NieNte

Não te reconheço no lugar em que o abismo que se abre entre o que somos me conduz ao delírio.
Escrevo as linhas que se apagaram de minhas mãos. Escrevo nas mãos que desapareceram nas linhas em que me esculpi até ser.
Não conheço este lugar de não encontro entre meu caminho e o teu. 
Não me reconheço no que é esperado de mim e não sei como ser de forma a que eu não aconteça desta forma em mim. 
Quero erguer-me sobre as labaredas do que se arrasta na minha mágoa até terminar em cinzas por sobre a terra molhada. 
Não te reconheço no lugar que resta na angústia de ser o que sou e não escrevo as palavras que podiam caber nas linhas em que desapareço.

29/07/2018

desenho-te na linha do vento. junto ao mar.
procuro encontrar a razão do momento exato em que me viste nos resquícios do que sobrava de mim.
senti o silêncio inteiro dentro da tua voz e tudo o que era o resto do mundo cessou de existir.
guardei na ponta dos dedos a memória do teu lugar para nunca me perder de mim.

soLitudiNE

desvaneço no canto triste de uma gaivota enquanto a manhã é ainda deserto
Sento-me numa aresta do tempo a imaginar o por vir.
Não espero que nada me dilacere.
Não temo o vento que me leva sobre asas sem conhecer, ao certo, o chão do meu caminho.
Vejo tudo o que o acontece em mim tão claramente como se voasse sobre a água.
A praia está deserta de memórias de mim e sou eu quem a desenha nas linhas do horizonte que cabe, por inteiro, nas minhas mãos abertas.
Inalo o sabor do tempo enquanto defino, de novo, um sentido para continuar.
Permaneço no lugar exato em que me encontrei e remeto a escuridão para o silêncio que se entrega às coisas que não sabem ser livres.
Evado-me no ruído dos outros e encontro tudo na liberdade que abraça o meu único segredo.
Desfaço-me do que fui antes de ser aqui.
Despojo-me do que resta de tudo o que não me toca.
Guardo na memória o momento exato em que tudo mudou por dentro e o mundo inteiro se tornou um lugar que só eu conheço visceralmente.
Talvez tenha construído um lugar que me sustêm nas madrugadas em que a noite me conduz tão lentamente que demoro a sentir que o deserto terminou. Mas sento-me na linha do horizonte e não temo nada do que me espera a seguir.

28/07/2018

Tocas-me na voz ate me encontrares inteiro nos fragmentos da minha tão breve existência

13/05/2018

és poema que nasce 
e desaparece

que se faz
e me desfaz

que começa no lugar exacto
em que tudo pode terminar

e que termina no momento
em que a chuva cessa de chorar.

beAst

Sento-me no silêncio escuro a ouvir a besta que respira dentro de mim.
como um lobo ensandecido. como um demónio.
como uma tempestade em que navego até me afundar por dentro.
Sento-me no escuro a mergulhar por dentro do silêncio até que nada aconteça dentro de mim.
Choro em silêncio o mar inteiro onde naufrago 
em silêncio. por dentro. no escuro. 
a tentar silenciar a besta que vive em mim e me dilacera sem piedade.

pRantO

é meu pranto que o sal das ondas esconde quando a praia inteira está a arder.
estou a arder.
por dentro.
a chegar às cinzas.
de novo.
perdi-me no caminho. 
de novo.
agora ardo como se morresse, choro como se me desvanecesse em sal, canto como se fosse hoje
a última vez.

21/02/2018

Seguro-te na tristeza que chega com os dias do fim da chuva.
Ouço-te no pranto do vento quente que nos persegue nos sonhos cansados.
Escrevo-te nas letras que se escondem no silêncio que grita por dentro da distância em que nos perdemos do Norte.
Seguro-te na chuva triste que segreda teu nome até não ser possível gritar mais.

18/02/2018

Ici

dou 
por
mim
a
procurar
por
ti
dentro
da
minha
solitude
enegrecida.





até sangrar.

AnGelus

Fecho o olhar sobre a tua pele. Sei quem sou quando existo em ti, quando respiro em ti, quando me vejo no teu olhar. Fecho a minha pele sob o teu olhar e sei o mundo inteiro a acontecer por dentro de mim. Sei exactamente quem és  quando me seguras por dentro até te recordares que tens de me deixar seguir.

11/11/2017

suNset

Cesso. 
Termino.
Recomeço. 
Respiro. Inalo a maré inteira. De pele descalça sobre a água gélida, tremo.
Renasço.
A areia por dentro da sombra e do sangue.
Reacendo.
Olhos fechados a ver tudo por dentro. Espaço. Tempo. O que foi. O que há de vir. Onde estou. O lugar de mim. O espaço que ocupo por dentro da alma incendiada. 
Renasço das cinzas. 
Sinto o sabor acre da minha desilusão dentro da boca, dentro da pele, inteira dentro de mim, a escorrer-me no peito, a salgar-me as palavras.
Daqui a pouco cai a noite sobre mim. Mas talvez já não seja importante, não agora. 
Ao fundo, escuto vozes que se perdem no vento frio de outono. 
A luz atravessa-me inteiro.
Espero.
Reponho a angústia no lugar certo. 
Esqueço.
Esqueço-me.
Perdoo-me.
Sinto o frio nos pés que caminharam esta vida por inteiro.
Recordo os gestos.
Reponho, mentalmente, as imagens do caminho.
Invade-me a certeza absoluta da minha solidão imensa. 
Evado-me no bater das ondas.
Renasço.
A areia a doirar na queda da tarde e o frio a crescer por dentro deste abismo.  
Esqueço-te.
Solto as palavras com um lápis de carvão e compreendo, finalmente compreendo, que não preciso ser mais do que isto que reside inteiramente em mim. 
Temo que o sangue cesse de respirar. Preciso mais tempo para descobrir o que falta. Para encontrar mais um caminho. Para desfazer uma solidão mais clara. 
Escuto o embater das ondas na areia e é o som das coisas tristes.
Recomeço.
O mar inteiro repete o meu nome e eu escuto por dentro. De olhos encerrados por dentro.
Respiro.
Esqueço. 
Perdoo.
Recomeço a partir do silêncio que faz dentro de mim. 

j'attend

Aguardo cada pormenor do dia para te encontrar.
É nos detalhes mais ínfimos de tudo o que faço o lugar em que te encontro. Quando menos espero. Quando menos quero. 
Sei-te como se sabem as feridas que não saram nunca. 
Escuto-te como o silêncio que me invade a noite.
Guardo-te como se guardam as coisas mais sagradas.
Queimo-te para que te desfaças de mim e não regresses aqui, nunca mais. 

24/10/2017

16/10/2017

Preciso falar-te. Ouvir-te na voz. Sentir-te na pele. Saber-te por dentro da alma.
Preciso escutar-te. Saborear-te nos silêncios intermináveis. Roubar-te a essência nas palavras sorridas. Perscrutar-te por dentro até encontrar a paz.
Preciso saber-te no lugar em que me desfaço. Sentir-te onde a angústia pode terminar. Guardar-te num lugar sagrado. 

14/10/2017

Não me sinto no lugar que ocupo.
Não me reconheço nesta dor, nesta angustia.
Não me sei quando me toco.
Comecei no lugar exacto do fim e não consegui avançar nem um passo.
Balanço na corda que divide o mundo de dentro e tudo o que sucede aqui e não consigo atravessar.
Sofro no silêncio dos deuses as coisas todas que não posso contar.
Estou inteira e absolutamente só.

13/10/2017

cai sobre ti o meu pensamento. pergunto-me o que pensas neste momento preciso e onde caem os teus sonhos e a tua confusão.
vejo-te a sorrir pela névoa das lágrimas que abraçam a noite e fecho os olhos por dentro. quase que te sinto por dentro.
escuto os movimentos da noite sobre a cidade enquanto anseio que o silêncio se instale aqui.
fico atento a todos os movimentos e a todos os gestos de todas as sombras até chegar a ti.
penso-te. penso em nada. penso no vazio que te incompleta e na solidão imensa que te atormenta.
aguardo até ouvir a tua voz na cidade emersa no silêncio que faz por dentro da noite que reside eternamente em ti. 

10/10/2017

Sento-me no lugar mais escuro que encontro por dentro e espero.
Tento acalmar o pensamento entorpecido pela sucessão interminável de imagens erradas.
Respiro fundo.
Conto até não me lembrar mais dos números, até ficar sem poder respirar.
Sento-me no lugar mais fundo de mim e espero.