seguram-me finos fios de seda.
a chuva está prestes a chegar e eu ainda não comecei a andar. em breve terei de começar a mover-me. em breve terei de desaparecer.
rasga-se-me a pele à medida que equaciono o movimento. o sangue queda, frio, sobre a terra bafienta. está quase tudo seco aqui. está quase tudo morto aqui.
se, ao menos, escutasse a tua voz, poderia quebrar os fios que ainda me seguram e começar a correr.
mas só há silêncio, hoje e sempre, aqui, por dentro deste lugar.
10/09/2014
09/07/2014
13.
escuta.
espera um pouco.
espera por mim.
passou demasiado tempo. a vida passou demasiado depressa. a vida não parou e esqueci de aprender a esperar. espera por mim.
escuta. passou mais um ano. mais um sobre todos os outros que tive de passar sem estares aqui.
hoje, cada vez mais, o tempo parece que não devia ter passado. tudo seria tão diferente se tivesses ficado. se tivesses podido escolher ter ficado. eu teria escolhido teres ficado, aqui, perto, e tudo teria sido tão diferente.
e hoje não seria tão dificil. e ontem não teria sido tão sangrento. e hoje eu poderia dormir na certeza de que amanhã respiravas para eu poder viver.
resta-me segurar-te na fraqueza de mim e não te deixar partir, mais um ano.
escuta. espera por mim.
espera por mim.
espera um pouco.
espera por mim.
passou demasiado tempo. a vida passou demasiado depressa. a vida não parou e esqueci de aprender a esperar. espera por mim.
escuta. passou mais um ano. mais um sobre todos os outros que tive de passar sem estares aqui.
hoje, cada vez mais, o tempo parece que não devia ter passado. tudo seria tão diferente se tivesses ficado. se tivesses podido escolher ter ficado. eu teria escolhido teres ficado, aqui, perto, e tudo teria sido tão diferente.
e hoje não seria tão dificil. e ontem não teria sido tão sangrento. e hoje eu poderia dormir na certeza de que amanhã respiravas para eu poder viver.
resta-me segurar-te na fraqueza de mim e não te deixar partir, mais um ano.
escuta. espera por mim.
espera por mim.
01/04/2014
Cheira a cinzas e a vazio.
Faz frio aqui.
As vozes, roucas, entoam melodias há muito esquecidas.
Nesta casa não existe amanhã. Existe apenas o que sobra da
noite quando o dia decide partir. Sobra apenas a madeira antiga a rasgar a pele
dos pés despidos.
Se ouvires com atenção, reconheces que o silêncio já não
está aqui. Que há um ruído interminável a sobrevoar toda a capacidade de
respirar e deixas de querer respirar. Às vezes deixas de querer respirar e
passas a querer ser a chuva que corre do lado de fora dos vidros, das paredes,
da madeira, e transforma a terra no lodo onde te podias deixar tombar.
Se escutares com atenção o que o vento dentro da tua memória
dita, verás que as coisas que não podem ser alteradas, são como esculturas
esculpidas no gelo que existe dentro de cada um de nós. Gelo que nenhum sol
pode derreter.
Por isso faz tanto frio aqui. Por isso não podes, nunca,
chegar a ser chuva.
Por vezes não me encontro no
lugar que ocupo. Não me reconheço na imagem projectada. Não revejo os gestos dentro
do corpo como se o mesmo fosse meu. Conto o tempo e não sei onde estive. Reconto
os passos e não sei de onde vim. Atravesso as memórias difusas, em névoa,
dentro das imagens que guardei e não tenho a certeza de serem reais. Perco-me
demasiadas vezes no caminho para ter sabido ter estado ali. Preciso do que reconheço
não poder nunca chegar a ter e iludo-me na sensação de que não sou eu quem
procura. Quero olhar para mim e juro que não me encontro aqui. Eu não sou eu nem o outro, sou qualquer
coisa de intermédio, dizia o poeta morto dentro de si mesmo. Eu não sou eu
sem ti. E essa é a única verdade do universo que eu reconheço. E tu és o único lugar
em que eu existo.
12/03/2014
Estou a olhar para ti e não te encontro.
Estou a olhar para mim como que a querer ver-te a ti mas parece-me que nenhum
de nós chegou a tempo. Olho para o que sobra da tua sombra em minha pele e esqueço-me
onde estou. Inalo-te inteiro dentro do meu sangue e esqueço-me de ser. De respirar.
Esqueço-me de respirar enquanto espero que chegues. És inteiro dentro de mim
porque eu sempre fui tão pouco. E tu sempre foste o que havia de melhor no
lugar que me sobrava. Espero-te há tanto tempo que já não sei quanto tempo
passou. Na verdade, a vida não parou. Na verdade, a vida não parou em mim e eu
fui morrendo. Na verdade, esqueci-me de respirar todos estes anos e agora
envelheci inteira por dentro da alma. Sempre que me encontro no meio de mim és
tu que me ocupas. Sempre que me vejo a olhar para mim são os teus olhos que
vejo e cego por não saber como te ver e como te fazer ver-me. Esqueço-me que o
lugar que reservamos ao amor morre se não nos lembrarmos de respirar. Se não
soubermos dizer as palavras que ocupam os lugares do sentimento sentido. Se não
soubermos lutar com o guerreiro silencioso que morre em cada um nós. Esqueci-me
de te dizer todas as coisas porque nunca aprendi como dizer e o que eu não digo
é sempre tão maior do que o que sei dizer. Mas na verdade, não se sabe ouvir o
que está por dentro do silêncio quando não nos encontramos no tempo certo. Esqueço-me
de respirar cada vez que te perco e morro em mim. Vivo eternamente de cada vez
que te encontro e volto aqui. A este lugar em que não te digo tudo o que te
digo e em que continuo a morrer na espera de te rever.
20/01/2014
perdoa-me. não me encontro na imagem e ti e tu não me vês.
perdoa-me. perdi-te irremediavelmente.
perdoa-me. devia ter sabido segurar-te. era a minha fortuna e não fui capaz. perdoa-me. não fui capaz.
deus sabe que tentei, como tentei, o que perdi, o que achei que tinha encontrado, o pó e as sombras, os labirintos e as espirais, os abismos e a queda eterna. perdoa-me.
não era suposto ter caido.
perdoa a minha incapacidade e o meu cansaço.
perdoa os meus olhos cegos, a minha fala selada, o meu abismo aberto sobre ti.
perdoa-me se morri cedo demais. se falhei cedo de mais. se te perdi cedo demais. mas deus estava a ver. sabe que tentei. mais ninguem me mostrou o caminho.
perdoa-me se não soube escolher o caminho certo.
eu tentei. falhei. tentei. morreste. falhei. morri.
perdoa-me.
mastigo o vidro enrolado no sangue da lingua.
lambo a aspereza da pedra enquanto a boca se dilacera.
morro de tristeza enquanto o vidro me desfaz.
a lingua enrolada na tisteza do gelo a partir. da pele a rasgar. do sal a queimar. do mar a morrer.
a morrer enquanto ondas de sangue me dilaceram por dentro e a minha boca desaparece no silêncio da chuva que parou dentro do meu corpo.
e morro.
na tristeza de estar agora aqui.
lambo a aspereza da pedra enquanto a boca se dilacera.
morro de tristeza enquanto o vidro me desfaz.
a lingua enrolada na tisteza do gelo a partir. da pele a rasgar. do sal a queimar. do mar a morrer.
a morrer enquanto ondas de sangue me dilaceram por dentro e a minha boca desaparece no silêncio da chuva que parou dentro do meu corpo.
e morro.
na tristeza de estar agora aqui.
16/12/2013
Quando olhares para mim já não me
vais encontrar. Vou ser eu aqui sem ser eu aqui. Não vou ser mais do que o que
já fui e o que deveria ter sido e o que ficou no meio do caminho. Vou ser mais
mas vou ser menos que mais. Vou ser o que sobra das coisas que não findam. Vou ser
como o sol no inverno e a chuva no verão. Vou ser eu sem ser eu. Vou ser nada
depois de mim. Vou chegar a ser o que nunca fui e não ser nada mais além do que
o que devia ter sido. Vou ficar por ser o que era para ser sem ter chegado a
ser em momento nenhum. E isso terá de ser o suficiente. Se voltares a olhar
para mim.
12/11/2013
Segura-te bem. Isto
é o começo do fim. Todas as linhas de aço que te seguram estão já corroídas do
tempo e da chuva que não chegou, nunca, a cessar. Segura-te bem. O fim é o
momento que vem depois de agora.
Não precisas
temer nada do que possa vir. Não vai ser muito diferente do que viveste até
aqui. Não vais questionar. Não vais querer mais. Vai ser tudo igual.
O mesmo cubo de
onde não vais, nunca, chegar a aprender a sair. Paredes que nunca vais aprender
a deitar abaixo. Portas que nunca vais aprender a abrir. Tectos que nunca
pintaste de mais nenhuma cor que não o mais negro dos negros que a noite pode
ter.
Segura-te bem. Os
fios estão a estilhaçar o que resta do tempo que falta. Um. Dois. Mais um.
Tudo termina
muito em breve. Segura-te bem.
Não te consigo ouvir. Escutar cada movimento teu é uma parte
de mim que morre em agonia. Não tenho para onde fugir nem sequer já tenho a
força que precisava para o fazer. Perdoa-me.
Não me consigo mover desta cadeira. Respiro lenta e
brevemente. Não tenho a certeza de estar vivo. Só o caos me atravessa em
chicotes improváveis. E mais nada posso tolerar depois de hoje.
08/08/2013
in media vita, mortus sumus
olho para trás. miro a vida desenhada numa linha sinuosa,
de contornos de avanços e de recuos, de becos sem saída e de autoestradas de
vias percorridas, de veredas calcorreadas a pé descalço ao fruto de suor e de escorridas felicidades. uma linha de vida traçada ao fio de grãos de areia:
imponente e impotente ao abraço da brisa que sopra ao rés-do-chão da vida. foi.
olho para trás. e toda a linha é uma extensão desalinhada
e alinhavada com pedaços colhidos e deixados para que o peso fosse suportável.
Miguel Torga tem uma expressão invejável pela sua imagem completa: será que
desta vida fica ao menos uma baba como a do caracól que possa reluzir quando o
raio do sol nela toque? permanecer.
olho para trás. em nenhures da linha escrevi que entre a
autenticidade (a vida do espírito) e a efectividade (a vida da acção) da vida
existia um hiato tão grande que nele cabiam outras tantas vidas. somos tantos e
tão diferentes a viver a mesma vida, a aguentar a areia desta linha desalinhada
de direita – ser tantos de um e um em tantos: estou aqui sentado.
diferentemente.
olho para trás. ser é ser incomunicável: por maior e mais
alto que seja o grito existencial, ele soará sempre a silêncio. escutar.
olho para trás. há momentos em que tudo corre alucinante
de tão rapidamente que só é comparável à lentidão imóvel de outras ocasiões. a
clareira de um sorriso dá sentido à floresta inteira, porque há sorriso e há floresta
em não haver. respirar.
a meio da vida estamos mortos: olho para trás e aí miro a
extensão da linha defronte; poderia ser maior ou mais curta, mas é tão-somente a
extensão onde descansar o peso que, na tal-vez, seja incomportável ou ainda o
lugar onde erguer uma montanha de movimento. interlúdio.
tudo o que puder ser, desafiando a impossibilidade,
repousará sobre os ombros do meu mirar e desse peso farei a minha sepultura.
esperar.
23/07/2013
@
Quanto mais a corda do tempo se estica e se dilata, maior é
a lucidez do lugar nunca ter sido diferente donde fomos para sermos - morremos
novos demais e velhos de menos – e será nesta redoma que me diluo e - talvez -
eu seja mais eu do que eu.
18/07/2013
twelve
Conto os anos que passam sobre a pele dos dedos e já não
chegam. Nas mãos o tempo já passou vezes demais. Anos demais.
Há 12 anos que te guardo no medo de te poder perder. Não te
posso, nunca, perder.
07/07/2013
longE
Foram os anos que sobre nós passaram
todos estes anos.
Estamos na esquina de um largo da cidade
e cessamos de respirar.
uma apneia para nos sabermos reconhecidamente ali,
naquele lugar,
tão infinitamente longe.
todos estes anos.
Estamos na esquina de um largo da cidade
e cessamos de respirar.
uma apneia para nos sabermos reconhecidamente ali,
naquele lugar,
tão infinitamente longe.
06/07/2013
fuga
Não há nenhum lugar para onde se
possa fugir quando não se sabe onde se está. Se não sabes onde estás não podes
saber, nunca, para onde vais. Assim, não podes saber por onde passar para te
esqueceres que existes, pelo menos por um momento.
E se não consegues esquecer-te
que existes, não consegues esquecer-te de quem és. E se te reconheces em ti sem
te saberes bem no lugar que ocupas, o mundo enfraquece em todo o seu sentido.
Não esperes que eu saiba voltar
ao lugar em que estávamos antes de chegar aqui. Já não sei o caminho de volta
porque me esqueci de tentar lembrar. Nem tu nem eu podemos fugir. Eu de mim. Tu
de ti. Eu de ti.
Não podemos mais fugir porque
nenhuma de nós sabe onde está. Não há luz nenhuma aqui.
vidRo
é como se partisses tudo em que tocas
como se todas as peças de todos os gestos
fossem meros restos de vidro
como que pisados
como que esmagados
tudo em que tocas desfaz-se perante o olhar meu que te olha
por mais que tente compreender a que lugar pertence cada fragamento,
não consigo
como se fosse um puzzle incompleto a que
infinitamente,
faltará sempre
pelo menos,
uma peça
como se todas as peças de todos os gestos
fossem meros restos de vidro
como que pisados
como que esmagados
tudo em que tocas desfaz-se perante o olhar meu que te olha
por mais que tente compreender a que lugar pertence cada fragamento,
não consigo
como se fosse um puzzle incompleto a que
infinitamente,
faltará sempre
pelo menos,
uma peça
caminho com as mãos descalças sobre os vidros de ti
rasgado a carne da pele para me saber
a quase morrer.
03/04/2013
estar estando
Estou sem estar como se estar
significasse estar estando sem ter chegado a estar porque não chego a estar no
lugar certo para se estar estando.
Se não estou não tentes que
esteja porque vou estar sem estar a estar e isso não significa nada.
Queria que estivesses a estar
estando sem teres de estar em nenhum outro lugar.
Se estivesses a estar aqui, agora,
dir-te-ia que estou a estar estando sempre a estar sem ter de voltar a estar em
nenhum outro lugar enquanto estiveres estando a estar aqui.
02/04/2013
Sento-me e aguardo. Fecho os
olhos sobre os braços e canto em vez de chorar. Espero que a noite não seja mais
dia mas o dia parece não querer terminar hoje. Guardo a confusão do mundo num
lugar quieto e ainda assim…não pára. Aguardo. A noite vem sem ter vindo porque
o corpo parece não querer ceder ao cansaço. Quero ceder ao cansaço. Sento-me e
aguardo. Coloco a iluminação no mínimo possível para provocar uma saída. Inutilmente.
Os olhos pesam sobre os braços e as feridas do dia começam a pulsar na pele. A dançar
no pensamento. A electrificar a impossibilidade de parar. Sento-me e aguardo,
em vão, que a noite me leve, quieto, até ao dia de amanhã recomeçar.
01/04/2013
é sempre inverno agora.
há uma primavera a querer começar e não há tréguas.
a chuva queda como se amanhã não houvesse mais do que a possibilidade de
continuar um dilúvio puro para lavar a terra que ficou nas mãos cansadas depois
da guerra.
hoje foi mais um dia deste dilúvio contínuo. caíram serras e montanhas dentro do mar revolto.
cairam marés dentro da areia afogada em si. caíram homens dentro das suas próprias almas.
a maré cinzenta a consumir a cidade das cidades e a sombra das sombras. as
mãos da terra e as terras das mãos.
o céu a enegrecer cada fragmento bélico no ar e a não ser possível respirar sem
medo.
não olhes para o céu agora que é da cor da terra nas tuas mãos antes do
mar chegar no resto da maré do dilúvio cansado e lavar tudo.
guarda tudo o que não queres que o inverno devaste porque já falta pouco
tempo para tudo voltar a terminar. mais uma vez.
se o dilúvio de lágrimas em que o céu se desfez terminar, já não se recuperam as almas mas volta a ser possivel respirar o ar das marés, sem medo de cair na areia e se afogar.
não olhes para o céu. agora. espera.
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