09/03/2011

k

Não sei o que vou ser quando sair daqui.

Não sei quem posso vir a ser se conseguir sair daqui. Sabes que há demasiado arame farpado em torno deste lugar que me ocupa. Inteiro.

Eu mato-te e tu sabes que eu sou capaz de te matar. Se olhares para mim. Se me tocares. Se me não deixares passar. Tenho lâminas nas mãos e no corpo inteiro. Mato-te, a ti e a todos os que se puserem no meu caminho e não me deixarem gritar como eu quiser. Eu vou gritar como eu quiser. Não preciso que ninguém me diga o que fazer. Fui criado na rua. Na rua vive o mais forte. O que não tem medo. Tenho as marcas na pele para te mostrar que não tenho medo. Consegues ver? É bom que consigas ver porque é o que tenho para te mostrar.

Não te vou dizer nada que queiras ouvir. Não vou dizer nada do que queriam que eu soubesse dizer. Vou colocar o meu braço sobre a tua traqueia e vou começar a fazer força e vou fechar, devagarinho para que percebas tudo o que está a acontecer. Vou fechar.

Contas os segundos ou queres que seja eu? Conta. Vá. Conta enquanto eu faço força e tu deixas de conseguir respirar.

Estão a ver? Isto era o que queriam que eu não fizesse. Este é o meu arame farpado. O arame que me tem à volta dos olhos, à volta das mãos e dos dedos, dentro de mim. É o que sei de melhor.

Sabes tão bem quanto eu que nenhum de nós vai chegar a sair daqui. Não há espaço lá fora. Entre os meus braços e o teu respirar já há pouca coisa para nós.

Não vou ser nem um bocadinho melhor que isto com este arame farpado em volta. Vou só fechar os braços até ao fim e dizer-te adeus.

24/02/2011

No.TH.ere


Fecha os olhos. A noite deve estar quase, quase, a terminar. Apesar das janelas abertas podes fingir que não sentes o inverno a entrar. Podes fingir que eu já não me importo de te ver a tremer. Se puderes, deixa as mãos abertas para te ver a agarrar o nada que te sobrevoa o corpo como se te tivesses afogado na tua própria saliva. Talvez não devas falar tanto. Ou respirar. Talvez devas remeter todas as palavras que não chegaste a dizer para o mesmo lugarzinho do teu corpo. Podes cortar a pele se quiseres. Não me faz qualquer diferença. Podes cuspir o sangue inteiro que te leva a escrever coisas que eu não sei o que querem dizer que eu não me importo. Que eu não quero saber. Podes até segurar o ar com a tua serenidade que eu vou continuar a gritar. Fecha os olhos, merda. Tenho-te a olhar-me de frente quando sabes que já te não queria estar a ver. Desaparece. Vê se me importo que desapareças. Eu fecho os olhos porque a noite, em breve, vai acabar e eu posso finalmente saber onde estou. Aqui não vejo grande coisa…aqui não sei bem onde tenho os dedos, a pele, os olhos. Podes fingir que não vem frio daqui. Podes fingir. Não me importo mais. Agora não falas? Não tem mais saliva para me afogar? Estás aí?

Talvez seja verdade que já tenhas ido embora e eu ainda esteja aqui deitado, a fingir que não me importo que tenhas já partido com a chuva.

importance

Hoje és como o espaço que sobra nas coisas vazias.
O que resta do que resta quando já resta pouco.
O que sobra do que sobra quando nada sobra das sobras.
O que chega quando o resto se vai.
O que vai quando já coisa nenhuma chega.
A importância de se ser o lugar que se não é, é como uma revelação divina, é como uma linha preta numa folha branca, como uma palavra começada numa frase vazia, como um azulejo numa parede ferida pelo tempo, como um lápis de carvão a furar as linhas, como uma nuvem lisa a desafiar o inverno.
A questão que se encontra em se ser o que se não é e em querer ser o resto do que não sobra, é maior que o vazio que se encontra quando se arrisca abrir os olhos sobre o abismo da vida. E tudo isto, hoje, podia ter-te tido a maior importância.

15/01/2011

cao.s

Partes como se partir fosse chegar de forma inversa.
Deixas o espaço da casa da mesma forma como o encontraste. O caos caído sobre si mesmo.
Restam beatas e cinzas espalhadas na pele da madeira. Gotas e manchas, suor e sexo, lágrimas e sangue. Por entre lençóis e vidros quebrados, não ficou mais nada senão o pó.
Um caos aberto sobre si mesmo.
Há uma música a rezar o princípio da noite. A música sempre. Ligada a bramir o teu chorar em notas reproduzidas contra a necessidade inevitável do silêncio que a noite traz.
Tenho o corpo a dançar em náusea.
Tenho a náusea a dançar-me no corpo como se não tivesse mais como respirar.
Partes como se chegar não fosse mais do que este abismo aberto no caos de mim.

Segura-me nas mãos. Vou cair.
" O Mundo é um pensamento encadeado. quando algo se consolida, os pensamentos libertam-se. quando algo se desfaz, os pensamentos encadeiam-se."

Novalis

12/01/2011

ouço o teu respirar na pele das costas e não me sinto capaz de me virar no corpo













"If at first you don’t succeed, put yourself up and try again
Try again"
Tens os lábios suspensos na marca de água onde caíram as palavras antigas. Nos pés não há soalho que não esteja apodrecido pelo tempo passado sem piedade sobre os rasgos da humidade que te cobre os cabelos. Ouço-te rezar quando fecho as janelas e impeço o resto do mundo de devastar o que resta da tua solidão. Aqui dentro não há perigo. Sabes bem que aqui dentro não há perigo.
Olho-te por detrás dos vidros e percebo que nunca compreendi – verdadeiramente  -rigorosamente nada do que te fazia mover. Sempre soube a selvajaria que acontecia dentro do teu pensar mas nunca pude saber a verdadeira dimensão das coisas que te consumiam.
Suspendi-me nas palavras que tinha para te dizer e remeti tudo ao silêncio que só as almas velhas sabem manter. As palavras, tuas, caídas longe das minhas, mais não poderiam ser do que o reflexo da nossa eterna incapacidade de ser o que restava de nós.

09/01/2011

água

Fecha-me nas mãos que são tuas feitas de água. Encerra-me no sonho que é teu feito de deserto infinito. Guarda-me nas palavras que jamais serão proferidas. Entoa-me nas preces aos deuses esquecidos. Sorri no olhar que é meu e que tens dentro de ti na certeza de que, um dia, eu vou chegar a chegar junto do lugar que tu ocupas fora de mim. Prometo que vou tentar serenar o passo e seguirei na marcha de um cavalo negro de encontro ao sol que se vai por na margem do deserto que gerámos em nós. Antes de partires, vou segurar as tuas mãos feitas de água e vou beber-te, inteiro, até mais não poder. Antes de eu partir, tentarei ter chegado a tempo da tua espera.

14/12/2010

Estava parado à porta. Frente da única porta que havia naquela casa velha.
Estava parado a esperar o tempo.
A esperar a imensidão das coisas que existem
dentro da possibilidade dentro do vazio
(das coisas).
Estava parado à porta e eu fingi que não te via.
Fingi que não eras tu ali porque de cada
vez que tentava lembrar-te em mim as memórias eram todas
difusas, confusas, profusas.
Esvaíam-se como areia por entre os dedos.
Não.
Como água ensanguentada
por entre os dedos.
No centro das mãos.
No ponto mais ínfimo da minha/tua pele.
Eras tu quem estava parado à porta
e eu segui no caminho oposto
a fugir de me saber
ali.

10/12/2010

estou seguro que o inferno começa, precisamente , aqui.

08/12/2010

empty box - morphine

tore open the package it was an empty box
no meaning to me just an empty box
sender was a woman
she said she's sending me everything I
I never gave her before
she said: Fill it up and send it back,
so I sent her back an empty box.
A big mistake, sent back an empty box
half in the shadows, half in the husky moonlight,
and half insane just a sound.

in the night I enter a valley so dark
that when I look back I can't see where I began,
I can't see my hands, I don't even know if my eyes are open.
In the morning I was by the sea
and I swam out as far as I could swim 'til I was too tired to swim anymore
and then I floated and tried to get by strength back.
Then an empty box came floating by,
an empty box and I crawled inside
half in the shadows, half in the husky moonlight
and half insane just a sound
alright

musgo

Lembras-te quando íamos apanhar musgo?
Lembras-te de como ficávamos pequeninos, a ver-te cirandar de um lado para o outro, a preparar o ancinho, a segurar o cesto com as mãos secas e cheias de rugas, tranquilas como a casca das árvores que nos ensinavas a dizer o nome?
Nós pequeninos a ver-te terminar de preparar tudo. Na ânsia que vem pela palavra que se tanto deseja ouvir. “Vamos”, sorrias tu a falar. “Vamos!”
Subíamos a serra com pernas de flecha, quentes por dentro do peito, com magia na ponta dos dedos. Corríamos como se a serra fosse mais de que uma serra, fosse um lugar que só nós tínhamos, que só nós podíamos conhecer.
Enterrávamos as mãos pequeninas na terra fria e sentíamos o calor a chegar às faces já rosadas. De botas até ao joelho, cachecóis e gorros, segurávamos o olhar enquanto que tu, com dedos de árvore e mãos mágicas, retiravas o musgo das pedras e colocavas no cesto. Os nossos olhares suspensos no nevoeiro da manhã na certeza de que ali, naquele preciso momento, tudo o resto era possível.
Com as nossas mãos pequeninas a segurar-te as pontas do casaco e do cesto e das luvas e das cascas de árvore, caminhávamos a sorrir as palavras todas, já sem pressa, de regresso a junto da lareira.
Depois, viria o tempo de colocar o musgo sob as figurinhas de barro pintado que tentávamos descobrir quem eram, sem perguntar, a ter vergonha de perguntar as coisas que se devem saber sempre mas que se querem ouvir, vezes e vezes sem conta.
Lembras-te quando éramos assim e o mundo fazia sentido?

06/12/2010

Reduzir-se às cinzas que cabem numa gota de chuva era só o que era necessário para o dia de hoje.

29/11/2010

nEoMe

Não tenho permissão para atravessar o barro. Está coberto de listas negras e listas brancas e não posso passar. Não tenho permissão para dar nem mais um passo. As paredes estão a obrigar-me a recuar desde ontem, desde hoje, desde sempre. Sabes que nos sonhos são cobras e serpentes que passam sobre as memórias ridículas das coisas que suposto era terem acontecido? Recuo na certeza de que os pés vão falhar a velocidade certa e que vou ruir sobre a areia. Mas a neve vestiu o chão de listas negras. A parede a chegar até ao lugar onde eu juro que já não queria estar, juro, e não tenho forma de me suster de pé. Imagino que esteja frio o chão. Imagino que estejas frio no chão. Coberto de barro, não, coberto de neve. Sabes que está a nevar aqui dentro? Neva enquanto as paredes se deslocam num espaço que, rapidamente, deixo de reconhecer como meu. Tacteio tudo com a língua na aspereza da terra fria e sei que vou esquecer o meu nome e tudo o que vem antes. Não posso passar daqui. Espero que a neve trave o avançar desta corrente, não, desta parede de barro que agora me cobre os cabelos de tinta branca. Estou certo de que vou cair em breve. Juro que não queria. Tento – apesar de saber como qualquer movimento nesse sentido não só pareça ser perfeitamente ilusório, assim como é inteiramente desnecessário ou evitável de uma forma extremamente coerente dado que não é possível contornar a inevitabilidade da queda de um pé despido sobre a primeira neve – tactear com o que resta do sangue a possibilidade de me segurar seguramente na parede insegura que me tem feito recuar. Não tenho permissão para tentar mais nada. O barro está coberto de listas brancas e de listas negras e em nenhuma delas aparece, nunca mais, no meu nome.
Qual é o meu nome?

23/11/2010

chuva ardida

Estou e é como se não estivesse. Talvez não esteja mas esteja sem estar. Posso não estar, efectivamente, e isto seja tudo mero delírio. Ilusão. Memoria errada de um movimento errático. Ébrio. Vazio.
Sou o que resta da tua ausência. Sou o que sobra depois da chuva ardida. Sou o momento exacto em que as coisas param de ser. Posso até estar mas não estou.
Estou no lugar das coisas que já não estão e não sei voltar a estar nas coisas que são qualquer coisa outra que não isto.
Sou o gesto sem tempo. O tempo sem pele. A pele sem cor. A cor sem espaço. O espaço sem lugar. O lugar sem terra. A terra sem vida. A vida sem tempo.
Sou as cinzas do que queria ser e atirei-me ao mar. Estou mas é como se não estivesse.


19/11/2010

cc II

Quero dormir no lugar onde mais nada possa crescer. Quero deitar-me sobre a areia, não, sobre a terra, não, sobre húmus a apodrecer, e respirar tão fundo quanto consiga.
Quero dormir como se não houvesse mais necessidade de acordar.
Já não suporto o cheiro que as minhas unhas encontram no rasgar da parede. Já não tolero o sangue que me sai negro do cabelo quando me encontro de frente para os vidros. Já não sinto o que resta do meu caminhar nem recordo onde deixei a capacidade de andar.
Quero dormir como se não fosse preciso, nunca mais, voltar a despertar.
Não posso continuar aqui. Nesta sala só há tempo. Neste espaço só há espera. Nesta casa não há nenhum resto de mim para além desta minha sombra a rasgar a parede com as unhas abertas. Aqui só tenho a esperar o que se não pode esperar assim, desta forma. Aguardo que chegues com a pressa dos desesperados. Aguardo que me abraces com a força dos cegos. Aguardo que me beijes num beijo de anjo esquecido num qualquer lugar reservado ao limbo de mim, e me sorvas o que resta do meu respirar.
Se fechar os olhos agora sinto o cheiro podre que vem da minha pele. Talvez estejas a chegar. Talvez eu te encontre debaixo das folhas, da terra, da areia, do lugar onde já nada pode crescer.
Quero dormir e não mais voltar aqui.
Já não estou à espera de me encontrar no lugar em que te deixei. Devasto o que resta da ânsia para chegar até ti ou para que chegues aqui. Se me virem sorrir, sabem que o meu anjo chegou. Se me virem fechar os olhos e desistir saberão que ele está perto o suficiente.
Por favor, vem depressa. Não consigo mais estar aqui.

cc

Quero morrer.
Era tudo o que tinhas para me dizer hoje.
Quero morrer. O tempo é o que mais há aqui para passar.
Foi como quando ele me disse que não queria.
O quê?
Sapatos.
Porquê?
Porque me dói nos pés.
Mas faz frio.
Não quero.
O quê?
Sapatos.
Foi como quando me disseste que não há mais nenhum sitio para ver a vida passar. Que a vida vivida a passar assim não é vida para ser vivida.
Porquê?
Porque me dói.
Onde?
Em todo o lado.
O quê?
A vida. Dói-me a vida. Devia ter morrido ali. Devia ter morrido.
Porquê?
Porque não quero.
O quê?
Viver assim a vida sem ter vida.
Quero morrer.

04/11/2010

Compreendo o porquê exacto que te leva a não chegares aqui.

[Tão louca razão que sabe não querer saber quando sabe.]

Vejo que o deserto não pode ser um lugar para quem só sabe amar o mar.

[Que há saudade do mar somente no deserto, finge:]

Percebeste, pouco depois de tocares esta areia, que o lugar de ti não podia acontecer aqui.

[e foi assim um feito des-feito]

 Não podia ser agora.

[com desfecho:]

Sei porque é que não me tocas quando me suspendo no teu respirar.

[a distância encarnada, uma ligeira travessura:]

Sei porque não me olhas quando rasgo os pulsos e escorro o sangue como se fosse chuva.

[de seres impossível várias vezes, repetida e tragicamente, acontecida gota a gota.]

Reconheço que não saibas os passos que danço quando estás de costas para o lugar onde eu ainda consigo existir.

[Respira. Sente. Respira. Pensa. Respira… e mais um pouco, a pouco.]

Sei bem porque é que eu sou ainda um deserto.

[Acordo e sei que por detrás da janela – lá fora –  há, inevitavelmente, gente.]

Sei bem que tu vais ser sempre o mar. Longe.

[E que ser gente é, paradoxalmente, evitável.]

03/11/2010

Compreendo o porquê exacto que te leva a não chegares aqui.
Vejo que o deserto não pode ser um lugar para quem só sabe amar o mar.
Percebeste, pouco depois de tocares esta areia, que o lugar de ti não podia acontecer aqui. Não podia ser agora.
Sei porque é que não me tocas quando me suspendo no teu respirar.
Sei porque não me olhas quando rasgo os pulsos e escorro o sangue como se fosse chuva. ´
Reconheço que não saibas os passos que danço quando estás de costas para o lugar onde eu ainda consigo existir.
Sei bem porque é que eu sou ainda um deserto.
Sei bem que tu vais ser sempre o mar. Longe.

31/10/2010

Podes passar a lâmina pelos meus dentes. Já não faz diferença.
Podes passar o ferro quente nas minhas costas as vezes que te apetecer. Já não tem importância.
Podes deixar-me de frente para ao muro que eu não vou abrir os olhos desta vez. É indiferente para onde me viras. Onde me deixas. Onde me abandonas.
Esquece-me quando começares a andar. Não te lembras? Já não estava aqui desta vez. Já não estava aqui desde a última vez. Já não era eu. Porque não te lembras?
Mente o resto das palavras que faltam na frase que me vai completar.
Honestamente que não quero saber o que falta porque o que falta já não vai trazer nada de novo a este resquício de tempo que guardo no sangue que me escorre da língua.
Passou tempo demais e eu agora, desde há muito tempo, que não consigo.
Confundo-me na vontade, nas palavras, nos gestos. Confundo-me na dança, atrapalho-me nos movimentos, esqueço as linhas que devia seguir e deixo cair tudo no chão. Ando dois passos tão rápido como recuo três. Agora acabou. Nem sequer vale a pena tentares de novo porque eu não vou ver nada.
Vou estar virado de frente para a merda do muro de olhos fechados à espera que o tempo acabe de me torturar.