27/03/2023

Deixaste-me o sol. 

Espero que regresses antes de eu recomeçar a chover.

23/03/2023

sou o que resta do naufrágio. 

morro na solidão da madrugada, num canto deixado à sombra na praia. tal como os animais de água que perdem o rumo. como todas as coisas que naufragam no alto mar. como todas as peças que se perdem. encalhada nas rochas. 

tenho a boca cheia de água. tenho o ar cheio de água. tenho a pele encharcada. tenho os braços abertos. como todos os pássaros que morreram dentro da minha voz. de asas abertas. de mãos fechadas. com as penas negras nas letras das palavras. 

devia ter mantido o silêncio no segredo e ter aberto as mãos enquanto fechava os braços. vai fazer sempre noite dentro da água que se me arrasta no sangue. vai ser sempre sombra no lado mais recôndito da praia de calhau negro. 

sou o naufrágio do que resta. 

18/03/2023

CeRtEzA

Os pássaros deviam morrer sempre de asas abertas e olhos fechados.

14/03/2023

o anúncio da primavera grita efusiva por todos os poros

de todas as peles

de todos os lugares 

de todos os movimentos deste mundo. 


já só sinto falta do outono. 

13/03/2023

Apetece-me gritar a dor e fazer parar o tempo. 

Cheira a limões acabados de colher e a mortes acabadas de anunciar.

Sei como ruem as vidas suspensas na certeza de que não é o tempo que se move. Eu quero que seja tempo do tempo se mover e da vida poder parar. Se pudermos parar, agora, talvez a morte que te acaricia a pele possa cessar, possa deixar-te ficar.

Quero gritar até que pare a dor do tempo não parar. 

11/03/2023

Danço ao som da tua melodia.

Mas a música parou. 

04/03/2023

Que pode o melro fazer, 

andando num qualquer chão,

em fuga, 

com uma asa partida na impossibilidade do voo?


Que posso eu fazer 

com a alma enrelhada

 no interior das penas pretas 

de uma asa que já não voa?


sEntIdo

permaneço parado

nas sombras do inverno. 


seguras-me com um dedo 

para,

quase de imediato, 

me afastares com as duas mãos abertas. 


chegas aqui

no gesto lânguido das palavras mortas

para logo não estares 

nem aqui nem em lugar nenhum em que eu possa ficar parado. 


o inverno é isto.

pedires-me para me mover

mas se ousar um passo, 

um passo que seja,

nada encontro para além do abismo de frente ao vazio. 


volto atrás. 

vou recuar até me cruzar com os ventos áridos

avançar na direcção oposta

ao lugar que o inverno reserva para ti. 


estou a arder por dentro.

vou consumir o pouco 

o que resta 

antes do primeiro grito da primavera.  

25/02/2023

Juro que sou fiel 

à tua ausência 

ao teu silêncio 

a todas as formas como te libertas dos correntes da minha férrea existência.


Juro que permanecerei em silêncio enquanto 

teu grito me despir

tua boca me esquecer

tua voz me abandonar agrilhoada nas palavras sem sangue.


Despe-me

vou virar-me de costas

deixar que se esbata o que permanece depois das marcas da tinta ocre sobre as linhas de chuva de um qualquer pincel já deixado pelo tempo

pois não irá sobrar mais do que um esquiço rude da forma que me definia na linha das tuas mãos antes de me teres deixado parado no caminho.


Juro que sou fiel ao silêncio que fica por dentro da inevitabilidade da ausência de ti

enquanto as palavras pintadas de uma oração que se acorrentou ao grito que guardo dentro da boca me dançam na insanidade de se não poder ser mais do que esta ténue linha ressequida nas mãos de ferrugem onde antes havia cabido o mar inteiro. 

18/02/2023

São insignificantemente significativas as coisas que faltam. As coisas que não estão nos lugares que consideramos como certos. Que não são quando as julgamos ser. Que não estão quando estávamos absolutamente seguros de que estariam. 

São partes que faltam. Membros. Peças. Sentidos. Pele. Espaços. Lugares.

E depois, pelas coisas que faltam, as coisas que são deixam de ser as coisas que deviam ser e tudo parece, de repente, pintado nas labaredas mornas do inferno que sabemos sempre, sempre, tão próximo da pele. 

E aí, no momento em que entendes que nada pode retornar a ser o que havia já sido, tudo adquire um significado incontornável. 

13/02/2023

Tenho o inteiro do deserto 

desfeito 

dentro da boca. 

A areia a cobrir 

dentes e lingua e sede e saliva

nem um sinal da promessa.

11/02/2023

Ficam presos na garganta...


As ausências. As distâncias. As perdas. 

Os cárceres.  As lacunas. As angústias. 

As incertezas. Os desvarios. As impurezas. 

Os segredos. As obstinações. As intempéries. 

Os sacrifícios. As tristezas. Os irremediáveis. 

As culpas. As desventuras. Os erros. 

As inevitabilidades. As consequências. Os castigos. 

As sentenças. Os pesos. As fugas. 

Os silêncios. 


Tudo agrilhoado no lugar onde habita a voz e se enlevam todos os finos filamentos do silêncio.

04/02/2023

as cortinas continuam fechadas.

não para de chover dentro das palavras.

esqueço tudo.

escorre-me a tinta pelas mãos e não consigo segurar as letras.


em que palavra recomeça a possibilidade de um só verso do poema? 

03/02/2023

encosta a lâmina na minha pele 

dos lábios

encosta a pele da tua mão no sangue que escorre

de mim

como chuva

pela longitude dos cabelos


deixa cair a lâmina dentro do que falta até que consigas encontrar o destino do último gesto contido na incerteza de eu ainda estar aqui

encosta tua pele rasgada no asfalto ocre que exala do meu hálito e sente tudo a arrefecer com a noite


guarda as asas nas mãos

a lâmina na boca

dilacera o que resta de todas as palavras

e cobre tua pele do sangue que termina 

em mim.

 

este é

definitivamente

o derradeiro gesto 

de ti

na minha pele.

01/02/2023

que lugares são esses, os que teimas em esquecer?

que memórias são essas, as que intentas apagar?

porque viajas na viagem, se o ir é apenas encontrar a razão para voltar?


o que fica de quem és quando o calor evapora na noite e as estrelas se desvelam

tímidas

contidas

na imensidão do negrume abissal do espaço que te rodeia?


gritas no silêncio de terra

de barro vermelho


esperas ventos do norte para permitires que a tempestade de areia te cubra os olhos

a pele

o respirar.


que lugares são esses em que te devastas para te lembrares do caminho até ao lugar de ti?


talvez regresses

talvez não possas regressar

mas se o lugar voltar a ser o mesmo

o que restar de ti, já não vai lá estar.

por vezes

vê-se tudo

tão claro,

diante das mãos



até que fecham, 

de novo, 

as cortinas negras das janelas. 

11/01/2023

Por vezes,

só por vezes,

sinto-te na falta

como se fosse devastadora

a tempestade

que acontece em mim.


Preciso

regressar a ti,

apenas por um breve momento,

pelo tempo que me possas dar,

apenas o suficiente 

para eu 

voltar a respirar 

em mim.


Preciso

reter(-te) nas mãos,

só por um breve momento,

a água que me traz de volta.

04/01/2023

Limpa-me nas lágrimas.

Beija-me nos olhos.

Segura-me nas mãos.

Acende-me nas labaredas.

Apaga-me no anoitecer.

Suspende-me no tempo.

Mata-me ao amanhecer.

Recorda meu nome.

Cala-me na boca.

Repete-me no arrepender.

Desvasta-me no corpo.

Fere-me na língua.

Serena-me nas marés. 

Enrola-me na areia.

Suspende-me no tempo.

Grita-me no devir.

Diz-me que me queres.

Compreende-me na dor.

Deixa-me a queimar.

Arrepia-me no ouvir-te.

Canta-me no poema.

Faz-me partir.

Ajuda-me a chegar.

Mostra-me no caminho.

Atira-me ao mar.

Alimenta-me de ti.

Rasga-me a roupa.

Mata-me na sede.

Prolonga-me no momento.

Silencia meu grito.

Puxa-me para mais perto.

Suspende-me no tempo.

Deixa-me cair.

Volta para trás. 

Olha para mim.

Cala a minha dor.

Limpa-me nas tuas lágrimas.

Vou começar a queda com a dor suspensa nos asas dos lábios que seguram o grito em vácuo. 

Todos os passos chegam para chegar ao mesmo destino. Cair. 

O corpo sucumbe o zunido persistente que habita o interior da minha resistência. 

Minha voz não tem som. Se tentasse falar, soariam notas de um piano que se desafina no preciso momento em que embate de encontro às rochas do tempo já sido. 

Percorrem-me palavras arrepiadas pela pele do corpo. Sinto-me prestes a sangrar,  por dentro. A chorar, por fora. A cair, simplesmente a cair

02/01/2023

LadO B

o que queres de mim 

é o que habita o lado errado de quem eu sou.

a perversão. a sujidade. o odor a fel, a sexo, a cinza e a lodo. 

o que amas de mim

é o que reside no lado errado do que precisas. 

a mão que fere. o olhar que nega. a pele que arrepia. o dominar do tempo. o espaço ocupado com todos os balaustres da tua forma. as paredes pintadas de negro. as feras à solta nos dedos. os gritos obscenos velados no silêncio da indiferença. a ternura que mente. 

queres que seja o que desejas que eu não chegue a ser. 

só sendo o que não deveria ser poderei ser o que queres que seja.  

o fosso. o abismo que te invoca à queda livre até

que embates na realidade do que não te posso ser e me deixas

despido

devassado

desmembrado

no golpe fatal que repousa, 

sereno, omisso, desalmado, silencioso, 

na profundidade atroz das tuas mãos.