Deixaste-me o sol.
Espero que regresses antes de eu recomeçar a chover.
sou o que resta do naufrágio.
morro na solidão da madrugada, num canto deixado à sombra na praia. tal como os animais de água que perdem o rumo. como todas as coisas que naufragam no alto mar. como todas as peças que se perdem. encalhada nas rochas.
tenho a boca cheia de água. tenho o ar cheio de água. tenho a pele encharcada. tenho os braços abertos. como todos os pássaros que morreram dentro da minha voz. de asas abertas. de mãos fechadas. com as penas negras nas letras das palavras.
devia ter mantido o silêncio no segredo e ter aberto as mãos enquanto fechava os braços. vai fazer sempre noite dentro da água que se me arrasta no sangue. vai ser sempre sombra no lado mais recôndito da praia de calhau negro.
sou o naufrágio do que resta.
Apetece-me gritar a dor e fazer parar o tempo.
Cheira a limões acabados de colher e a mortes acabadas de anunciar.
Sei como ruem as vidas suspensas na certeza de que não é o tempo que se move. Eu quero que seja tempo do tempo se mover e da vida poder parar. Se pudermos parar, agora, talvez a morte que te acaricia a pele possa cessar, possa deixar-te ficar.
Quero gritar até que pare a dor do tempo não parar.
permaneço parado
nas sombras do inverno.
seguras-me com um dedo
para,
quase de imediato,
me afastares com as duas mãos abertas.
chegas aqui
no gesto lânguido das palavras mortas
para logo não estares
nem aqui nem em lugar nenhum em que eu possa ficar parado.
o inverno é isto.
pedires-me para me mover
mas se ousar um passo,
um passo que seja,
nada encontro para além do abismo de frente ao vazio.
volto atrás.
vou recuar até me cruzar com os ventos áridos
avançar na direcção oposta
ao lugar que o inverno reserva para ti.
estou a arder por dentro.
vou consumir o pouco
o que resta
antes do primeiro grito da primavera.
Juro que sou fiel
à tua ausência
ao teu silêncio
a todas as formas como te libertas dos correntes da minha férrea existência.
Juro que permanecerei em silêncio enquanto
teu grito me despir
tua boca me esquecer
tua voz me abandonar agrilhoada nas palavras sem sangue.
Despe-me
vou virar-me de costas
deixar que se esbata o que permanece depois das marcas da tinta ocre sobre as linhas de chuva de um qualquer pincel já deixado pelo tempo
pois não irá sobrar mais do que um esquiço rude da forma que me definia na linha das tuas mãos antes de me teres deixado parado no caminho.
Juro que sou fiel ao silêncio que fica por dentro da inevitabilidade da ausência de ti
enquanto as palavras pintadas de uma oração que se acorrentou ao grito que guardo dentro da boca me dançam na insanidade de se não poder ser mais do que esta ténue linha ressequida nas mãos de ferrugem onde antes havia cabido o mar inteiro.
São insignificantemente significativas as coisas que faltam. As coisas que não estão nos lugares que consideramos como certos. Que não são quando as julgamos ser. Que não estão quando estávamos absolutamente seguros de que estariam.
São partes que faltam. Membros. Peças. Sentidos. Pele. Espaços. Lugares.
E depois, pelas coisas que faltam, as coisas que são deixam de ser as coisas que deviam ser e tudo parece, de repente, pintado nas labaredas mornas do inferno que sabemos sempre, sempre, tão próximo da pele.
E aí, no momento em que entendes que nada pode retornar a ser o que havia já sido, tudo adquire um significado incontornável.
Ficam presos na garganta...
As ausências. As distâncias. As perdas.
Os cárceres. As lacunas. As angústias.
As incertezas. Os desvarios. As impurezas.
Os segredos. As obstinações. As intempéries.
Os sacrifícios. As tristezas. Os irremediáveis.
As culpas. As desventuras. Os erros.
As inevitabilidades. As consequências. Os castigos.
As sentenças. Os pesos. As fugas.
Os silêncios.
Tudo agrilhoado no lugar onde habita a voz e se enlevam todos os finos filamentos do silêncio.
encosta a lâmina na minha pele
dos lábios
encosta a pele da tua mão no sangue que escorre
de mim
como chuva
pela longitude dos cabelos
deixa cair a lâmina dentro do que falta até que consigas encontrar o destino do último gesto contido na incerteza de eu ainda estar aqui
encosta tua pele rasgada no asfalto ocre que exala do meu hálito e sente tudo a arrefecer com a noite
guarda as asas nas mãos
a lâmina na boca
dilacera o que resta de todas as palavras
e cobre tua pele do sangue que termina
em mim.
este é
definitivamente
o derradeiro gesto
de ti
na minha pele.
que lugares são esses, os que teimas em esquecer?
que memórias são essas, as que intentas apagar?
porque viajas na viagem, se o ir é apenas encontrar a razão para voltar?
o que fica de quem és quando o calor evapora na noite e as estrelas se desvelam
tímidas
contidas
na imensidão do negrume abissal do espaço que te rodeia?
gritas no silêncio de terra
de barro vermelho
esperas ventos do norte para permitires que a tempestade de areia te cubra os olhos
a pele
o respirar.
que lugares são esses em que te devastas para te lembrares do caminho até ao lugar de ti?
talvez regresses
talvez não possas regressar
mas se o lugar voltar a ser o mesmo
o que restar de ti, já não vai lá estar.
Por vezes,
só por vezes,
sinto-te na falta
como se fosse devastadora
a tempestade
que acontece em mim.
Preciso
regressar a ti,
apenas por um breve momento,
pelo tempo que me possas dar,
apenas o suficiente
para eu
voltar a respirar
em mim.
Preciso
reter(-te) nas mãos,
só por um breve momento,
a água que me traz de volta.
Limpa-me nas lágrimas.
Beija-me nos olhos.
Segura-me nas mãos.
Acende-me nas labaredas.
Apaga-me no anoitecer.
Suspende-me no tempo.
Mata-me ao amanhecer.
Recorda meu nome.
Cala-me na boca.
Repete-me no arrepender.
Desvasta-me no corpo.
Fere-me na língua.
Serena-me nas marés.
Enrola-me na areia.
Suspende-me no tempo.
Grita-me no devir.
Diz-me que me queres.
Compreende-me na dor.
Deixa-me a queimar.
Arrepia-me no ouvir-te.
Canta-me no poema.
Faz-me partir.
Ajuda-me a chegar.
Mostra-me no caminho.
Atira-me ao mar.
Alimenta-me de ti.
Rasga-me a roupa.
Mata-me na sede.
Prolonga-me no momento.
Silencia meu grito.
Puxa-me para mais perto.
Suspende-me no tempo.
Deixa-me cair.
Volta para trás.
Olha para mim.
Cala a minha dor.
Limpa-me nas tuas lágrimas.
Vou começar a queda com a dor suspensa nos asas dos lábios que seguram o grito em vácuo.
Todos os passos chegam para chegar ao mesmo destino. Cair.
O corpo sucumbe o zunido persistente que habita o interior da minha resistência.
Minha voz não tem som. Se tentasse falar, soariam notas de um piano que se desafina no preciso momento em que embate de encontro às rochas do tempo já sido.
Percorrem-me palavras arrepiadas pela pele do corpo. Sinto-me prestes a sangrar, por dentro. A chorar, por fora. A cair, simplesmente a cair.
o que queres de mim
é o que habita o lado errado de quem eu sou.
a perversão. a sujidade. o odor a fel, a sexo, a cinza e a lodo.
o que amas de mim
é o que reside no lado errado do que precisas.
a mão que fere. o olhar que nega. a pele que arrepia. o dominar do tempo. o espaço ocupado com todos os balaustres da tua forma. as paredes pintadas de negro. as feras à solta nos dedos. os gritos obscenos velados no silêncio da indiferença. a ternura que mente.
queres que seja o que desejas que eu não chegue a ser.
só sendo o que não deveria ser poderei ser o que queres que seja.
o fosso. o abismo que te invoca à queda livre até
que embates na realidade do que não te posso ser e me deixas
despido
devassado
desmembrado
no golpe fatal que repousa,
sereno, omisso, desalmado, silencioso,
na profundidade atroz das tuas mãos.