18/10/2022

EsQuIÇo

Teço-me em finos fios de fogo
desenho-te em eternos fios de ferro
junto todos os fios em traços de areia pintada
na ponta do carvão 
e deixo tudo
tudo
na beira da janela
à espera 
que chegue a chuva.

14/10/2022

Não digas uma única palavra.

Temos de parar agora.

É tempo de cravar a areia dentro dos olhos. Escavar o asfalto dentro da pele. Esculpir o gelo dentro da alma. Esvaziar os lugares de todas as palavras.

Temos de parar agora.

Não digas uma única palavra.

13/10/2022

cheiro o peso da manhã em todos os cantos da tua solidão 

04/10/2022


Não questiono nada. Coloco em minhas mãos, o lugar vazio das tuas. 
Reconheço que são
tua voz e tua pele
o princípio e o fim de todas as coisas.

Minha língua entoa uma oração incompreensível que apenas eu conheço. Que não revelo a ninguém.  Como se fosses o silêncio mais bem guardado de todos os segredos. 

Respiro fundo o ar que te sustenta e reencontro-me num lugar reservado à vida. Reservado ao tempo reservado à possibilidade da vontade de ser tempo reservado para ser tempo. Um lugar de vida viva por ser um tempo breve do qual desejo que voltes sempre a partir. 

Fecho os olhos para te ver inteiro enquanto te sustenho na ponta dos dedos, enquanto me revisto do aroma da tua pele, enquanto completo a areia nos lugares esvaziados da travessia.

Rezo. Ao teu D. Sem que lhe peça nada. Rezo apenas como quem canta o silêncio, como a brisa quente de Outubro que lambe as folhas do chão e as leva a dançar, serenamente, por entre as árvores que quedam dentro de nós.

Escuto, por entre preces, a areia, a pele e o vento, todas as coisas que me não podes dizer.
Guardo todas as sílabas, todas as palavras, e deixo que repousem sobre a pele da língua, sobre a saliva dos dedos, sobre a certeza da incerteza, para poder saber tudo o que me disseste. 
Escuto. 
E
em breve
deixo tudo partir. 
 


02/10/2022

O inferno 

é 

o lugar onde 

ficam

teus olhos 

de cada vez 

que 

fecho a porta. 

Há um negrume que se instala no azul do céu de uma tarde cansada. Anuncia a certeza de que a chuva regressa, em breve. As gaivotas choram o canto dos abandonados enquanto esvoaçam, erráticas, desamparadas, num rasto de um qualquer caminho...para terra, ou para o mar? Debatem- se com a incerteza segura de que a vida é uma escolha permanente e que, por fim, termina na causalidade escolhida. Em cinza. Ou em abismo. 

Penso em ti enquanto caminho o chão de areia. Talvez seja a água que choras de dentro da pele, aquilo que te tenha transformado os pés em barro. 

29/09/2022

São sombras dos teus gestos que reencontro na chuva que me desenha a pele. 

Fecho os olhos 

e fecho as mãos. 

Deixo-te partir

mas trago-te, 

durante um momento, 

agarrado aos dedos fechados sobre as minhas mãos. 

Um momento

é o que me basta 

para suster 

a ilusão, 

consentida 

de que

é possível 

segurar(te)

a água.

E,

logo de seguida,

largar.

27/09/2022

Não sei o que causa maior temor... que me esqueças ou que eu me esqueça de ti. 

23/09/2022

R.

Morreste nas lágrimas das minhas mãos.


Neste momento, na noite ébria, queria apenas sentir teu corpo na minha língua, nas minhas mãos, na minha pele...

Não há, neste preciso momento, mais nada que me possa fazer sentido senão a incontornável ausência de tua voz.

Emana, de mim, o aroma a lima, a mosto e a fumo e é nesse lugar, sombrio de tão vivo, que me cruzo com a certeza do lugar de ti. 

E termino, nos resquícios do verão que abandona este lugar, a ansiar pelo que me não pode chegar a ser.

22/09/2022

Penso em ti. Um cavalo selvagem, sem rédeas, a correr desenfreado pelos campos e dunas e desertos e praias. Um cavalo puro, de crinas ao vento, livre. E mesmo assim, trago-te agarrado à pele.


17/09/2022

Seguro, na língua, as pontas da tua voz ferida. 

14/09/2022

 cubro meu sangue com a infinitude da tua pele.

09/09/2022

estou seguro que as minhas mãos são feitas de areia. meus pés feitos de areia. minha pele tornada areia. dá-me um pouco de água e transformo-me em barro. deixa-me aqui e partirei com o vento do deserto. 

08/09/2022

a ausência é lugar de nada

soa uma melodia qualquer por entre os silvos do vento a entoar preces por entre as folhas despidas das árvores que se cansam de aguardar pelo outono 

dança-se, numa dança sem sentido, que se vai fazendo com esse nada que passa a ser o lugar de tudo

24/08/2022

 (...)

beneath the stains of time

the feelings disappear

you are someone else

I am still right here


(..)

if I could start again

a million miles away

I would keep myself

I would find a way


Hurt

Johnny Cash

21/08/2022

OrAçãO

Segurei-te nos braços e na voz, quando tiveste medo.
Lambi-te as feridas e comi do sal, do sangue e da terra que te compunham, até voltares a ti.
Amei-te o desespero e a desesperança, tapei teu corpo gélido com minhas mãos abertas na pele, e fui a carne e a palavra no secreto silêncio que duas almas encontram na sede de deserto.
Fui teu porto, teu barco, teu abrigo, teu canto de cisne. Fui, sendo, mas sem ter nunca chegado a ser.
Estava onde tu estavas, mas tinha sempre uma asa pronta para voar. A asa que rasgarei depois.
Pousei os pés nas areias movediças do que acontece por dentro de ti e não fui capaz de fechar os olhos e me deixar ir.
Fui, sem ter chegado a poder permanecer.
Atravessei o deserto até chegar ao mar alto. É nesse lugar que me encontro agora, onde há um abismo aberto de baixo, inacabado e incerto, e fico ao sabor das ondas e à mercê das marés com a certeza incerta da constância das inconstâncias, de que me afogarei em breve, abraçada ao castigo que se me impõe a natureza fielmente cruel da minha incapacidade de me manter à tona de água. 
Segurei-me nos teus braços e na tua voz. Usei as palavras ditas e os silêncios de lugares em branco, e preenchi o remanescente das linhas com as mentiras do meu próprio poema. E agora parto, para ir buscar as penas e deixar a pele, para me afogar, sozinha, por dentro do meu firme declarado caminho.

Estás longe.

Num lugar de mar alto onde eu já não posso chegar.

Num lugar onde já não há terra para eu ter lugar. Onde já não posso ouvir-te na voz porque já não há nada que me queiras dizer. Onde minhas mãos está vazias e já não podem tocar. Onde o silêncio da distância ausente transfigurou tudo.

Já estou demasiado longe.


20/08/2022

Arranco uma asa.

Ouço te a gritar.



Arranco a outra.

18/08/2022

Cresce-me um fogo por dentro. Arde-me na voz. Arde-me no peito. Queima-me na ponta dos dedos que sinto desfazerem-se no vento que assola esta terra a oriente.

Desenho linhas que não consigo ver, usando a sombra do sangue da tua ausência...e espero que não chegue a suster-me no apelo do abismo.

Ou talvez espere chegar à orla da rocha negra dançando como um dervixe, na esperança que D me segure nos dedos de cinza e me traga de volta ao lugar anterior a este lugar que é apenas um lugar vazio. 

Sinto a crueza cruel do (des)sentido deste lugar que, por tu não estares, deixou de fazer sentido. 

Diluo meu sangue na sombra do teu, enquanto procuro nas mãos as linhas para desenhar meu passo seguinte. 

Por vezes temo não conseguir avançar pois tudo em frente, atrás, de lado, tudo o que meu olhar alcança, está a arder. Sou eu quem está a arder.

Outras vezes, sei que vou dançar até encontrar as clareiras e as linhas desenhadas com as cinzas que trago na voz, até o (des)sentido voltar a ser lugar de sentido.

O vento mantém um fogo a arder-me por dentro. Até que eu possa mudar de lugar, até um lugar fazer sentido.