Por vezes.
A irremediabilidade da tua ausência.
Bate-me de frente.
A qualquer momento.
Sem piedade.
Trazemos sempre.
Quem morre.
Pregado numa cruz.
Dentro do peito.
Na espera.
Do momento certo.
Para fazer.
Tudo arder.
É o vinho que me escorre nas lágrimas e no sangue e me inebria o sentido das palavras e a rudeza dos caminhos.
Há,porém, uma indiferença na cacimba que anuncia a possibilidade de chuva por de dentro da noite.
E todos os anuncios de possibilidades são, de certa forma, anuncios de vida.
Mesmo que escorram lágrimas dentro do sangue. Mesmo que corra vinho dentro das veias. Mesmo que tu nao estejas no lugar das mãos. Mesmo que o mar seja feito dos teus olhos. Mesmo que a areia seja fruto do teu corpo. Mesmo que as minhas mãos nao segurem nada para além de agua,
água que é sangue
sangue que é lágrima
lágrima que é ausência.
ausência que é um acto de amor
amor que é cacimba a anunciar a possibilidade
possibilidade que é uma espera
espera que é razão
razão que é sentido
sentido que é caminho
caminho que é perdição
perdição que é o lugar de ti,
em mim,
irremediavelmente.
encontro-te em lugar nenhum. na verdade não estás aqui. ou eu não estou no lugar certo. qualquer uma das possibilidades é uma possibilidade possível.
não sei bem qual foi a ideia das mãos que deixaram o corpo e te levaram até ao lugar inverso daquele em que gostarias de chegar enquanto eu saí à procura de qualquer coisa que, para te ser sincero, não faço ideia o que era e só encontro sombras nos gritos das asas dos pássaros que são atropelados pela loucura dos carros que não deixam a cidade respirar. cada vez gosto menos de aqui estar. estou cansado deste ruído todo e o que invade cada fragmento das minhas artérias, dos poros da minha pele, das lâminas da minha angústia.
sinto que morri pouco depois de teres saído daqui. na verdade, acho que cessei de respirar. juro. não estou a respirar. podes colocar a mão sobre o meu peito. podes percorrer-me as costas despidas no frio de janeiro. nada. nem uma réstia de sopro. nem uma réstia de luz. nada que se assemelha, minimamente, a uma realidade viva. sinto-me como uma gaivota atropelada a bater as asas na esperança de conseguir voar antes da morte a abraçar.
por dentro, estou da cor com que a cidade despertou hoje. não. na verdade, com a cor do manto enevoado com que a cidade se deitou e com que dormiu toda a noite. isto é tudo um erro, sabes. um profundo e perfeito erro. e vamos cair de um lugar qualquer que nem sequer sabemos nomear.
reencontro-me no vórtice de um qualquer lugar, num qualquer fragmento de tempo de que ambos partimos, à procura de algo que fica sempre longe da possibilidade de se ser em nós. até cedermos ao lado do verso em que caímos de forma inversa. talvez um lugar de coisa nenhuma. talvez lugar nenhum.
Meu corpo adensa-se na névoa que cobre o inverso da noite.
Sinto tua mão a subir pelo meu ventre,
pelo meu tronco,
pelo meu peito,
até parar,
segura e firme,
no meu pescoço.
Deleito-me na ausência e sinto o fogo que te arde mas te não consome.
Permito-me terminar num êxtase de cinzas até a noite voltar a ser verso.
Venho aqui para ouvir os pássaros.
Depois, talvez, os sinos.
E depois, ainda, o que resta por dentro de mim.
Não há silêncio de verdade nos lugares onde procuramos o silêncio. Há outro volume de sons. Outra textura. Outra dor. Mas há sempre um qualquer ruído por dentro. Uma qualquer voz. Um murmúrio de qualquer coisa.
Tocam os sinos, cantam os pássaros,
ou será que gritam?
Ouço o resfolhar de asas e cantos entre as árvores enquanto o vento as acaricia ao de leve.
Ouvem-se os restos da cidade na curta distância que vai deste lugar até aos sons que saltam entre o telhado dos sinos e a copa dos pinheiros.
Há vida aqui, talvez, no lugar do murmúrio de silêncio que guarda os que já partiram.
não há razões, nem porquês, nem motivos.
talvez sejamos meramente o que podemos ser. as imperfeições, os fragmentos rasgados no ar, as palavras não ditas, os sentimentos não sentidos, as sequências inconsequentes de nadas ou tudos permanentes.
começamos e terminamos sempre no mesmo lugar. da mesma forma. num tempo diferente.
o mar embate nas ondas enquanto entoa uma melodia que nem sempre conseguimos ouvir. as ondas desta noite definem o nome do teu abismo. contorna as linhas da costa que te desfaz. grita dentro de mim o que não és capaz de me dizer.
talvez haja uma redenção na forma como não dizemos tudo o que deveríamos. uma forma de pacificar a nossa relação com um qualquer deus que nos espera do lado oposto ao lugar em que sabemos estar vivos. para lá das ondas. para longe das linhas. fora das melodias.
não há razões. nem porquês. nem motivos.
somos pouco mais do que quase nada e isso terá de ser o suficiente.
Seguro as palavras nos fios dos versos e as preces suspendo-as nos fios das palavras.
O tempo é um lugar estranho. Emerso na tristeza, o tempo cessa de ser tempo e passa a ser apenas memória de tempo.
Seguro a memória da mesma forma desde o início do tempo da sua ausência. E nada parece mudar. Tudo permanece preso por fios estranhos, suspenso nas palavras soltas de uma prece qualquer.