27/07/2021

Sinto que me perco

de cada vez que me encontro. 


Mas já não me (re)encontro

de cada vez que me perco.

20/07/2021

dErviXe

entrego as feridas ao sal. ao quente da terra. às lâminas do mar que imagino por dentro de meus olhos. 

toco com os dedos no ar quente que a noite sopra e sinto como se estivesse a navegar na proa de um navio que me leva para longe de todos os aqui, de todos estes agora, de todos os (des)tempos. 

a maré traz por dentro um qualquer vento soprado a norte. faz as ondas dançarem num aroma lânguido que se deita com as areias do deserto plantado ao sul de minhas chagas. 

danço, como um dervixe enamorado de um qualquer Deus que se oculta de minha fé. 

pondero os passos. remeto tudo ao sabor do sal. lambo o sangue do chão e mergulho, 

a dançar, 

nas ondas que só existem dentro de meus olhos. 

morro, sem medo, quando morro enquanto estou vivo.

morro, em medo, quando morro já estando morto. 

segura meu coração com tua mão fechada. punho cerrado. toda a força que remanesce em ti condensada nesse gesto aterradoramente poético. 

o sangue escorre pelos teus dedos finos e tinge a terra quente de um vermelho quente. 

aperta até não poderes mais. 

eu já não estou aí. 

17/07/2021

noTe

Das janelas viradas a sul, 

de frente para a noite aberta,

ouço as vozes que se desprendem de corpos leves, 

estranhos, 

alheios a mim e

distantes do lugar em que me sei. 

 

Vozes que entoam risos, 

ébrios ou reais, 

melodias, sons, tons e texturas 

que não sou capaz de reconhecer e

que, 

talvez, 

não saiba sentir. 

 

Penso que talvez sejamos o que a nossa história

- tudo o que nos antecede antes de sermos nós mesmos -

nos faz ser,

nos permite ser,

nos induz a ser, 

nos ilude a ser,

e talvez tantos de nós, 

justa ou injustamente, 

não possamos nunca saber a real possibilidade da dimensão do mundo

de tudo o que é além de nós,

do que está além de cada janela aberta. 

 

Talvez sejamos todos um lugar de silêncio

e um lugar de risos, 

um espaço de tempo de parar

e um espaço de tempo para calcorrear as estradas dos caminhos da vida.

 

A verdade é que muitos paramos na beira da estrada

no fronteira limítrofe que não vemos mas sabemos,

com toda a certeza que se reconhece nas coisas imutáveis, 

estar ali. 

Deixamos de saber que

a montante, 

somos nascente e

a jusante, 

podemos ser rios a correr até aos lugares mais distantes de nós. 

 

Das janelas viradas a sul, 

de frente para a noite quente,

reconheço que existem

sempre

outras (im)possibilidades em nós. 

09/07/2021

Penso em como tudo o que se sucede aqui é vago e é vazo

é simultaneamente intenso e intensamente despido de significado

profundo como um mar, quente como as dunas de qualquer deserto mas fugaz e dificil como o vento do norte

é claro como a água da nascente que emerge do âmago da terra e turvo ao ponto de deixar tudo a saber a lodo

é de uma felicidade pueril mas que dura tão pouco no tempo. Não se sustém. Não se sustenta. Perece e não permanece.

Chegas inteiro e partes aos pedaços. Aterras em fragmentos e partes em poeira. És intensamente nada enquanto és tudo. Olhas para mim como se o lugar certo do mundo fosse neste preciso instante e, depois, todo o mundo pesa sobre o todo de ti e a dúvida remete este lugar à insuficiência da insatisfação.

Penso em como tudo isto é vazio e é vago e é cheio e é sóbrio. É tanto sem ser quase nada. É nada por ser tanto. 

Na verdade, não desejo que chegues e que partas sempre inteiro. Mas não sei pegar em tantos pedaços espalhados debaixo da pele de meus pés sem que se abram chagas que nenhuma palavra poderá pode curar.

O que seremos, verdadeiramente, quando somos aqui? 

05/07/2021

O que há em mim

O que és em ti

Não tem lugar para nos ser(mos). 

Chovem pétalas amarelas por dentro do meu peito enquanto teu beijo me encontra e me devasta inteira no calor perfeito de uma noite intensa caída aos pés de uma lua quase cheia. 

07/06/2021

Lavo o que sobra do dia de seus pés.

Beijo as palmas de suas mãos e coloco-as sobre minhas lágrimas.

Repito seu nome ao vento e espero pelas cinzas para recuperar a liberdade.

Deixo-o partir enquanto me despedaço. 

18/05/2021

o tempo consome o espaço que há por dentro. 

diz-me

por favor,

se respirar é,

hoje, 

um acto de contrição 

ou o caminho da salvação. 

09/05/2021

mAtEr

pesam-me todas as penas do mundo.


trazem-me alivio todas as palavras que se levantam dentro do silêncio escuro que vive dentro de mim.

06/05/2021

JAMS

fico guardado por dentro do meu corpo à espera do momento certo para sair. há uma batalha incessante que acontece por dentro de mim de cada vez que abro os olhos, de cada vez que a dor se instala, de cada vez que nada em mim parece querer obedecer. 

conto com as mãos dos outros que entram e que saem daqui e fazem de meu corpo o que entendem fazer. não consigo defender-me, não consigo encontrar mais de mim dentro desta jaula que me encerra. que me comprime. que faz esvair-me de mim enquanto o resto do mundo passa a correr do lado de fora. 

fiquei suspenso no tempo. a verdade é que continuo a ser eu por dentro - o mesmo eu. ou talvez não o mesmo mas apenas um esquisso do que fui e uma sombra do que poderia ter sido. 

ou talvez até nem pudesse ter sido grande coisa mesmo aquém deste lugar que me encerra... teria feito o quê de minha vida? chegado onde? sido quem? se não fosse isto que sou agora, seria o quê? talvez já nem sequer me lembre bem do que era antes de ter chegado aqui. os caminhos tornam-se areia e pó, humus e lama, vento e abandono. talvez já nem seja importante pensar como ontem me via mas apenas como hoje me olho. hoje sei que sou grande mas sinto-me pedaços de pedaços de pedaços de pedaços. 

sei que vou morrer em mim antes de morrer da vida e que, até aí chegar, me irei inebriar de agonia até poder desaparecer... até que esta dança lenta me leve até ao final do palco. 

e o medo começa a ser o que me abraça todas as noites enquanto toco com a ponta dos dedos os limites da jaula. agarro-me a estas grades com a certeza de que há liberdade do lado de fora. vejo como todos me olham como se eu eu fosse um artista da fome kafkiano. talvez seja isso em que me tornei. talvez não se tenha feito justiça e eu tenha sido, verdadeiramente, deixado no abandono da incerteza e do medo que os outros sentem da minha morte lenta. sinto que se esquecem de mim mesmo ainda de eu ter partido. que me calam mesmo enquanto eu ainda grito. que me ignoram mesmo quando eu os olho de frente. 

no lugar de mim, há mais do que apenas uma solidão sem horizonte. sem linhas limítrofes. sem dimensão mensurável. no lugar de mim, há medo e há tristeza e há saudade e há arrependimento. estou dentro do escuro que vem do âmago dos lugares mais negros que podem ser lugares de ser. minhas lágrimas são a minha expiação. tuas palavras podem ser a minha salvação. 

fico dentro deste lugar que me guarda, que me é, e agarro-me a uma réstia de esperança que me possa levar a um lugar menos escuro. onde o medo não me possa tocar com garras frias mas sim com dedos ternos. para ter alguma paz. para poder morrer no meu tempo. 

Coloca tuas mãos sobre a minha face. 

Desce, peço-te...Desce e toca-me na nuca. Aproxima-me do teu desespero. Afasta-me da minha ausência. 

Respira enquanto eu grito. Grita enquanto eu inspiro. 

Inala enquanto eu fecho os olhos. 

Sorri enquanto vais. 


13/04/2021

C.

Sinto que te digo adeus ainda antes do tempo de me despedir de ti. 

É como se eu estivesse a despir-me de mim. A deixar cada uma das partes num qualquer lugar. Algumas em lugares certos, arrumados, direitos. Outras, talvez nem tanto. 

Algumas imagens começam a ficar envoltas num nevoeiro espesso que se vai apoderando de partes da minha memória. Partes de mim. Faz-me desvanecer devagar, compreendes? Uma forma lenta mas tão desesperadamente rápida, na verdade. Tudo se desfaz num ápice. Uma fracção de segundo. Uma valsa que, na verdade, não abranda mas que voa através do salão de mogno  imenso que é a minha vida. Até ter chegado aqui. 

Sinto que o cansaço e o vazio se inteiram completamente de quem eu fui, atravessam quem eu sou e remetem tudo o que ainda podia ser para um lugar que já não consigo verentenderprojectarnomear. 

Fecho e abro os olhos. Não melhora. Há uma névoa que dança comigo a dança dos dias e me embala nas noites. Já não me deixa. Talvez eu já não seja apenas eu...Talvez seja eu e tudo o resto que agora parece soçobrar de mim.

Há momentos, agora, em que sinto que me desfaço em pó. Em que te digo adeus sem ser ainda tempo de partir. Perdoa-me se não te consigo dizer de outra forma o que me corrompe e arde por dentro. Perdoa se não me consigo entender de outra maneira. 

A dor passou a ser a parte mais inteira de mim e sento-me, no meu próprio palco, absolutamente só, a assistir - através de gritos emudecidos pelo segredo que reside dentro da minha angústia manietada - à queda do resto de mim. Sinto como se me estivesse a desfazer em pó. A aniquilar-me. 

Já não tenho forçavontadecapacidadecrençadesejo para parar com esta destruição massiva que acontece em mim. 

Sento-me, no público, a olhar para o palco onde permanece o resto de mim e assisto, impotentecansadotristepassivodescrente, à despedida que estou a fazer de mim mesmo enquanto te digo adeus. 

Mas deixo a noite terminar e vejo o recomeço que acontece cada manhã. 

Conto até três, conto os passos até ti, e recomeço. consigoresistopersistoacreditorecupero e adio a despedida. Agarro-me nas finas linhas da luz do sol, teço finos fios de seda que me agarram à costa, enquanto sinto as ondas retomarem à maré. Como tem de ser. Como a esperança que desenha as ondas. 

Cada dia, recupero uma parte das partes. Talvez ainda não seja pó. Talvez ainda possa estar apenas a dançar uma valsa lenta. Talvez tudo, afinal possa ir desaparecendo lentamente. E volto a querer ficar. Mais um pouco. Adio a despedida. Adio a minha ausência de mim. Recomeço. 



05/04/2021

Olho para ti. Sinto que já não sou mais capaz. 

Falho sempre. Reiteradamente. Inadvertidamente. Irremediavelmente. 

Sou lugar em que te estilhaças e são só fragmentos do que resta dos teus vidros o que me desfaz a mim. 

Olhas-me e já não entendes nenhum sentido. 

De cada vez que te deixo, há mais uma parte de mim que padece. Não sei bem quanto mais resta para morrer. Quanto mais falta para desaparecer(mos). 

Até quando vamos conseguir perseverar nesta destruição maciça?

Até quando vamos conseguir manter-nos à tona de água antes que o que falta nos leve em estilhaços de mundo? Até não sermos mais do que pó de estrela ou o começo de uma supernova que se desfaz por dentro.

Somos duas estrelas que se preparam para morrer. Devagar. 

03/04/2021

fechei todas as páginas em branco. 

compreendo, 

agora, 

que jamais te poderia escrever. 

um instante, 

apenas,

é quanto basta

para nos perdermos

definitivamente. 

02/04/2021

InsTanTe

Dou por mim sentado no silêncio da noite, à espera. 

A meu lado, arde uma vela. As chamas sibilam por dentro do negro mais negro enquanto me rendo à certeza de que não vens. Nem hoje, nem ontem, nem amanhã. Nenhuma outra noite te trará de volta aqui. 

Os instantes levaram-te, como os ventos do norte, para o lado mais oposto do lugar onde eu tacteei para poder parar. 

Talvez sejamos, no limite, duas linhas paralelas que não se encontram nunca. Talvez a linha que me desenha seja feita de lascívia e a tua te desenhe com linhas divinas. 

Ainda assim, dou por mim parado no escuro, à espera de ti. A dançar, como se meu corpo estivesse ébrio, quase como se minha consciência estivesse distante, quase como se nada disto fosse real. 

Sento-me no lugar de mim, onde me sei e reoriento. Talvez não venha a haver nenhum outro lugar para eu ficar. 

Dispo-me no instante mais negro do silêncio e entrego-me na humilhante dança do meu próprio corpo. Como se tivesses vindo. Como se estivesses aqui. Na esperança de que a noite possa trazer o lado inverso desta vigília que me afasta do meu norte. 

 beija-me os olhos. 



prometo que não respiro. 

SalVaTioN

Para quereres ficar, terias de me amar. 

Para me poderes amar, eu teria de te confirmar um amor por ti. 

Se eu to confirmasse, tu não o saberias conseguir aceitar. 

É esta a razão pela qual nunca me poderás amar. É esta a razão pela qual eu não te irei amar.