é possível que me condenes a desaparecer,
de cada vez que me abandonas
estou parada no tempo.
o disco gira infinitamente na mesma orla. retido na ponta da agulha. a separar os acordes na imensidão do tempo. a impedir a música de o ser.
só ruído. só interferência. repetidamente.
estou suspensa no tempo.
repetidamente.
sento-me no lado mais fino da aresta deste cubo em que me encontro. não sei bem como vim aqui parar. se queres que te diga, nem sei bem onde estou. a verdade é que não consigo falar. não consigo dizer o que me rasga as vísceras enquanto a náusea me toma de assalto, minuto a minuto
_para me recordar que existo ou para me recordar que morro?_
e me faz sair o sangue, a conta gotas, como se fossem palavras, a conta gotas. uma gota depois da outra. um sangue depois do outro. devagar.
só ruído. repetidamente.
creio que fiquei presa no tempo. não presa, suspensa. não suspensa, pendurada. não pendurada, retida, não retida, emersa. não emersa, presa.
repetidamente.
depois do ruído, quando as palavras regressarem,
existo
ou morro?
je ne sais plus par où commencer.
ni où finir.
la vérité est que je ne serais, jamais, plus que cela. plus que rien. plus que la pluie que on attende sur le désert.
le désert que s' étire sur ma peau, dans mes yeux, dedans ma tristesse. ma tristesse est indélébile, proche d' infini, cristallisé par dedans mes mains, par dedans mon corps, pleinement propriétaire de mon âme.
je sais que je suis en trains de finir. il n'y a aucun chemin pour choisir maintenant. ça c'est ce qu'il y a pour mon désire... un désért sans fin.
estou de frente para o espelho a fingir que queria viver uma história de amor. escorrem pela minha pele as certezas da finitude e a angústia das coisas por terem sido coisas que não chegaram a ser senão nadas. vejo e revejo e são apenas sombras o que fica. a casa a meia luz. meus olhos às cegas.
caminho descalço e sorrio enquanto me forço a convencer-me de que é este amor o que verdadeiramente desejo. uma verdadeira história de amor. antes de morrer, quero uma vida de amor. um momento eterno em que amo e sou amado e mais nada pode ter importância. até que a vida termine e mais nada possa permanecer depois disso.
dispo-me de frente para o espelho. faz frio nas sombras desta casa. minha pele cheira a tristeza. meus dedos cheiram a sexo e a fumo. meus braços abertos não seguram a certeza que emana de dentro de minha alma e que sabe ao sabor do teu beijo, que cheira ao odor da tua verdade. forço-me a respirar-te inteira dentro do corpo para fingir que te amo.
serias o crime perfeito. forço-me a acreditar que era contigo que eu viveria a história não escrita de um amor que não desejo. serias a desculpa perfeita. a desculpa perfeita para um amor imperfeito
pois jamais me poderias amar.
se amar verdadeiramente é estar disposto a morrer pelo outro
_ como Alceste fez perante os deuses_
então que verdade existe em cada um de nós?
como pode haver verdade se sou um eu que se despoja inteiramente de si para dar o sangue, o ar, a inteireza do ser, por outrem
_ e se me despojo de mim, que valor tem realmente a minha vida _
se a entrego?
se a minha vida então nada vale
_ quando dela me desfaço_
como pode ela ser prova de amor?
sou amor se morrer por ti mas quem sou eu a jusante disso?
se eu não sou
_ou se sou nada porque de mim me deixo ir como se o eu não fosse valor para mim_
que valor podes ter tu em mim se nem de mim eu considero a validade verdadeira da existência?
se sou insignificância, como posso eu valer-te?
amar-te-ei com mais verdade
_quando morro por ti _
_ou quando te deixo ir?_
Meu corpo é feito de suor que se transforma em sangue
e
sangue que se reverte em vinho
e
vinho que regressa à uva com que te alimento a vontade.
Deixo que corras para mim
e
me desfaças em pó
e
que o pó dance no vento
e
o vento se entregue à chuva
e
a chuva me leve até ao firmamento.
Não me importo que me esqueças
Meu corpo é feito da ténue memória de ti.
se me mentires, é possível que eu queira acreditar
cometo o erro de segurar as palavras contra todas as probabilidades. conto e reconto. permito que façam eco. que se repitam. que desafiem todas as leis da física. que permaneçam. que não desapareçam.
talvez eu não queira que as palavras se apaguem.
ou talvez sim.
ou talvez queira somente pegar nelas com as duas mãos, virá-las de dentro para fora, inverter o seu conteúdo, desviar o seu sentido, brincar com elas a meu belo prazer.
ou talvez não.
hoje escolho decidir mentir a mim mesmo. repetir as palavras que não ouvi cantares e sentar-me, lá fora, no frio da noite do inverno que me habita, até que possa chegar a primavera.
começo por despir a boca
depois os dedos...um a um.
fecho os olhos. quero sentir tudo, o momento em que (quase) te sinto a chegar.
desfaço-me da roupa que me cobre. o corpo arrefece quando se confronta com a noite que desce sobre o sangue e entra por dentro da pele que começa a respirar.
sento-me sobre a tua ausência. dispo-me (por fim) de mim e cubro-me de tua pele. ouço-te a sussurrar-me no ouvido as palavras melódicas da terra que te tem por dentro da alma e tudo (por dentro de mim) começa a arder.
um por um, teus dedos recontam a história dos dias em que teu barco navegou as ondas do mundo inteiro. enquanto eu esperava. por dentro da tua ausência. ancorada na orla do porto. com os pés dentro da água que te traria de volta ao aqui.
abro a boca já despida e o silêncio comporta a desonra em que me permito perder. não há nada para além de pecado neste lugar em que me permito permanecer. lânguida e sôfrega. perene e efémera. desesperada e pronta.
não permito ainda (para prolongar a doce angústia em que me desfaço) que o ar me traga de volta a mim. quero sentir o odor da tua ausência dançar sobre o fogo que arde por dentro da minha eterna devastação.
há um aroma que se suspende no ar. a maresia e a calor. a tempo e a possibilidade. a sonho e a terras distantes.
há um sabor a vontade e ao adiado. a encontros desencontrados.
há intenção de ir. desafiar tudo e, simplesmente, ir.
abro os olhos. visto-me nos dedos. silencio a tua voz da mesma forma que uma âncora beija o fundo do mar.
e deito-me (de novo) sobre as minhas próprias cinzas.
Está tudo a mudar. O espaço. O tempo. O agora. O por vir. O que foi. O que é. O que era e já não é. O que estaria para ser. O que podia ter sido. O que não chegou a ser. O que ficou. O que partiu. O que não chegou a chegar. O que nunca pôde partir. O que veio para ficar. O que ficou para vir. O que eu fui. O que tu és. O que fomos. O que o mundo era. O que o mundo é. O que a vida foi em ti. O que a vida mudou de mim. O que mudou em nós. O que ficou em nós. O que está a meu lado. O quem está a meu lado. O quem tu és. O quem eu fui contigo. O quem fui depois de ti. O que eu queria ter sido. O que vou chegar a ser. O que chegaste a ser. O que não podias ter sido. O que eu desejo. O que tu renegas. O que eu anseio. O que tu ignoras. O que eu atravesso. O que tu abraças. O que eu renego. O teu abraço. O que não podia voltar a ser. O que foi de volta. O que pôde voltar. O que ainda pode voltar. O que perdemos, os dois, nos braços do (nosso) mundo. O mundo que nos moldou. O que moldámos no mundo. O que eu posso fazer. O que tu podes dizer. O que eu disse. O que tu fizeste. O que eu disse que iria fazer. O que tu fizeste por ser. O que eu não consegui. O que tu não conseguiste. O que nós deixámos de ser. O que nos tornámos. O que passou a ser impossível. O que se tornou possível. O que morre. O que morreu. O que pode vir a morrer. O inimaginável. O que imaginámos sem saber. O inegável. O que podemos negar. O irrefutável. O que podemos contrariar. O tudo e o seu contrário inteiro. O vazio que nos assombra. O vazio que nos assombrou. O vazio que tomou conta do nosso mundo nas mãos fechadas sobre a face. O que podia ter sido um beijo. O que o vento não chegou a trazer. O que o mar não conseguiu levar de volta. O agora. O depois. O que está a chegar aqui. O que vamos ter de fazer. O que vamos perder. O que já perdemos. O definitivo. O que está a mudar. O espaço. O tempo. Tudo está a mudar.
tenho um lábio a sangrar. a pele dormente, a certeza da tua chicotada a dançar-me na memória_ou na pele?
espera um pouco. será que podes voltar_ atrás? recomeçar? voltar ao início de todas as coisas?
podes escrever tudo na parede _ de novo _ com o sangue que me despe a boca que canta teu nome, para eu não poder esquecer o caminho de volta?
será que podes dizer o que disseste antes de dizeres o que acabaste de dizer? a dor que permanece depois da tua mão, aniquila a minha capacidade de entender o que fica por debaixo da melodia do teu grito. repetes?
fecho os olhos e sinto a voz da tua mão a desafiar o vento_ o tempo_ e a cair no lugar onde antes eu tinha um sorriso onde poderia caber o lugar inteiro do mundo...
se pudesses esperar o suficiente para eu recuperar o fôlego, eu conseguiria ouvir. sabes, é que a forma como tua voz me arrastou para o chão foi a forma como as tuas mãos puderam dizer o meu nome.
recupero parte de um fragmento que pertence à capacidade do acto de respirar. apenas uma parte.
tenho o peito a sangrar do rio que me escorre da boca despida. as tuas chicotadas permanecem a desfazer-se na minha pele até que sinto o mundo a desaparecer de debaixo de meus pés.
talvez agora já não sinta nada. já não consiga dizer nada. talvez seja melhor, apenas, dizer-te que vou parar de respirar.
Fecho os olhos para te sentir as asas.
Coloco todo o meu pensamento na ponta dos dedos.
Se respirar fundo, sinto tudo como se estivesses no lugar de mim. Acaricio tuas penas em toda a sua longitude. Deixo-me cair na sua profundidade, estendo-me inteiro no seu comprimento. Um mar marmóreo que se estende a meus pés e em que me deixo afundar sem medo da invocação do abismo. Se respirar fundo, ouço a tua voz a sair de dentro do tempo como um grito indelével que reconhece o caminho de escarpas que te traz até ao lugar em que eu me despenho.
Deito-me para te saber do meu lado e são as tuas penas - as tuas mãos - que te seguram por dentro, na alvorada que só tu permites conhecer. Permito-me a queda, ainda que apenas por breves momentos, enquanto a ebriedade que baco derrama sobre minha vontade me permite amar como se o mundo fosse terminar neste preciso momento. Deito-me a teu lado como se aqui estivesses e eu te pudesse saber no interior da tua - infinitamente - presente ausência.
Fecho a voz para te saber nas penas.
Fecho as penas sob os dedos para te saber no silêncio.
Fecho o silêncio para me saber aqui.
O momento em que tomas consciência do teu corpo, é o momento exacto em que o sentes a ceder à dor. Tal como um amante submisso cede, de imediato, a todas as provocações e todas as provações que o amado lhe solicita ou lhe impõe, em silêncio ou gritos desmedidos. É aí o momento, quando compreendes que tudo é nada e nada pode ser sempre tudo.
O momento em que sentes a certeza da agonia é quando cedes à consciência. A possibilidade da morte é o teu lugar de desprendimento. O teu lugar de arrependimento. O teu momento de solidão, absolutamente perfeito. O juízo final em que te assumes na derrota e podes serenar.
O momento em que o corpo te ocupa por inteiro e percebes que pouco podes escolher. Talvez seja a vida que te escolhe. Talvez tudo o que és, ou o que podes vir a ser, não dependa inteiramente de ti mas de onde o teu corpo te vai possa permitir ir. Te possa permitir ser. Te possa deixar fazer.
Tudo pode ser nada e nada pode ser sempre tudo. Dentro das provações. Dentro das provocações. Dentro e fora de ti.
Sonhei que me lavava no rio e que depois me deitava nua no lugar da esteira que ficava a teu lado. Eram longos os cabelos que me cobriam as costas e eram eternos os dedos com que mos escovavas. Era tua a pele que me tapava e me afastava do frio da manhã. Era teu corpo o manto único que necessitava para me esquecer de morrer. Era tua a vida que brotava do rio e que me (e)levava até onde eu parecia estar.
Sonhei o sonho que ficou entregue na noite que passou. Foi apenas isso. E nenhum rio o poderá voltar a trazer de volta.
porque é que encontramos a possibilidade da salvação nas palavras que escrevemos com o sangue da nossa provação?
porque é que nos aproximamos enquanto, na verdade, estamos cada vez mais distantes pela razão de não podermos ser, nunca, mais do que isto que já existe aqui?
pergunto-me exactamente onde é que tudo isto deve começar a terminar.