fecho os olhos
dispo a roupa
seguro os pés despidos na madeira aquecida pelo inferno do verão.
anseio teus dedos a contornarem meu nome
a desfazerem-se na minha pele.
beijo-te
no silêncio perfeito
num momento de apneia em que o mundo inteiro desaparece
por breves segundos
fecho os olhos.
mais nada existe agora.
11/07/2020
Passam por nós os anos que o tempo não permite fazer parar de correr.
A vida como que voa, como que se desfaz, como que mergulha nas brechas e farpas da madeira antiga que te edificou na memória segura da minha solidão incontornável.
Reza por mim quando teus pés tocarem nesta madeira.
Reza por mim quando chegares a casa.
Recordo a tua voz enquanto escrevo o teu nome sobre as linhas invisíveis da minha estreita capacidade de te manter viva por dentro. Fecho os olhos e toco as asas de corvo que viviam ansiosamente nas linhas do teu cabelo.
Quando chegares ao lugar em que não devias estar, recorda-te de mim. Não me permitas ficar no abandono que se sente no calor infame que invade a cidade suja.
As cordas que entoam no átrio frio da igreja conduzem-me até ao passado que deveria ter sido mais do que nos foi permitido ser.
Naquele dia, teria trocado a minha vida pela tua. Mas a verdade é que não há mais aleluias e não vais poder rezar por mim.
As palavras vão-se tornado cada vez mais o silêncio que vive dentro da noite. Vão-se transformando no absurdo do obsoleto. Na insignificância que reside dentro da insuficiência.
Talvez me afogue na minha própria angústia, em breve. Ou talvez encontre formas diferentes de respirar dentro de mim.
Questiono se estarias aqui, se eu pudesse ter trocado tua partida pela minha.
Se ficarias a aguardar por mim.
A velar por mim.
A temer por mim.
A procurar encher o vazio incomensurável que habita a noite que é inteira em mim.
Perdoa se já não sei falar contigo. Se o silêncio me abraça com tamanha força que me leva na fraqueza.
Perdoa se me esqueço de viver.
Perdoa se me continuo a agrilhoar e não sou merecedora de estar aqui.
Posso apenas prometer-te, enquanto minha voz ressoar nas paredes frias desta igreja vazia, que vou continuar o caminho como se estivesses aqui.
30/06/2020
O sol crava na pele a dor adiada pelo tempo esquecido nas coisas que ficam por dizer.
Bramem as marés que não regressam à praia do teu abandono.
As sombras dançam a dança que emana da tua voz enquanto me imolo por dentro. Até que tudo passe.
O vento canta caricias nas folhas das árvores doentes, como canções de embalar a solidão.
Na areia, hesito cravar o meu necessário sepulcro.
No azul perdido do céu que me cobre, anseio depositar minhas asas.
No fim deste tempo, terei terminado meu lugar em ti.
27/06/2020
Pode o passado devolver-nos o presente?
Um regresso a casa, às arrecuas, pode levar-nos de volta ao caminho?
Se dermos por nós a andar para trás, não estaremos, na verdade, a andar de encontro ao que vem depois?
Hoje somos, talvez, o resultado do ontem e a definição do possível amanhã. Se não soubermos regressar, recuar, voltar às origens, não nos saberemos reconhecer no lugar de agora e jamais saberemos compreender o que nos vai levar no caminho do amanhã.
Somos o que somos e somos tudo o que nos fez ser até este momento em que somos o que está por detrás do pano que cobre o palco incomensurável da vida.
Regresso a casa para me lembrar onde estou, agora, e para onde vou, depois. Às arrecuas, para chegar mais perto.
15/06/2020
rEpTo
seguro a ânsia nas mãos enquanto meu corpo inteiro se incendeia.
penso como seria fácil levar tudo até à aresta do abismo, fechar os olhos e deixar-me cair.
como seria rápido, breve, intensamente imediato, atirar tudo para o limite que vem com as coisas mais simples e ver tudo desaparecer na manifesta impossibilidade de retorno.
penso como seria tão docemente inequívoco entregar tudo nas mãos do impulso e permitir ao desejo queimar tudo. até não poder sobrar rigorosamente nada.
"Amamos mais o desejo do que o ser desejado"dizia Nietzsche. Amaremos verdadeiramente o desejado quando o desejo é o que nos consome por dentro e nos alimenta?
será o desafio de querer ter o que se deseja, o que inevitavelmente se impõe à alma?
ou pode a alma ser o que se impõe à angústia que reveste a pele do corpo?
és tu quem eu desejo ou o é o desejo que tenho por ti o que eu verdadeiramente desejo?
arrisco chegar próximo de uma prece...uma que me serene as chamas por dentro, que me devolva a mim, que me recoloque no lugar de ser.
desafio a impossibilidade da verdade materializada no momento certo e procuro forma de remeter tudo o que desejo para o lugar mais distante da minha pele.
pego no fogo que me devastava por dentro e queimo tudo,
os pensamentos
as imagens,
a ânsia,
a tentação,
a névoa,
os sentimentos,
a certeza das tuas mãos,
na distância que só quem precisa aprender a amar sabe encontrar dentro das cinzas de uma solidão esmagadoramente essencial.
os pensamentos
as imagens,
a ânsia,
a tentação,
a névoa,
os sentimentos,
a certeza das tuas mãos,
na distância que só quem precisa aprender a amar sabe encontrar dentro das cinzas de uma solidão esmagadoramente essencial.
MaTeriA
Há uma melodia que exala do ranger da madeira destas escadas velhas. Faz lembrar teu nome.
De cada vez que alguém por aqui passa nos passos,
despercebidamente,
seguro-me diante da porta. Fechada.
Antecipo-me ao vazio que só se pode encontrar perante uma porta que abre para ninguém.
De cada vez que as escadas cantam, é teu nome que eu ouço. É tua voz que eu escuto. É teu chegar que me aparece na utopia.
Fecho os olhos no momento exacto em que quem passa, não para. Em que quem passa, segue. Em que quem passa, não fica do lado que fica no lado oposto desta porta fechada.
Há uma melodia que nunca se completa.
Um chegar eternamente adiado.
Uma madeira que envelhece suspensa por dentro do ranger da minha exasperação.
07/06/2020
27/05/2020
Atravessas, descalço, a ponte de pedra que te aparta do dia que foi, em si mesmo, tumulto.
Inalas o silêncio insuportável da noite quente por dentro do corpo lânguido e sentes como as paredes brancas do quarto velho se encerram sobre ti.
Cada segundo que passa, a confirmação de que estás imerso na incontornável imensa comiseração que habita o deserto pela certeza de que nada, aí, pode chegar ao momento certo de terminar.
E é deserto o que a noite hoje te traz.
Vigil, tacteias o escuro que só se encontra por dentro das sombras que abraçam os sonhos lentos, e entoas uma qualquer prece que te possa conduzir ao lugar certo.
Ingénuo, seguras a languidez na superfície da pele enquanto as paredes desabam.
Atravessas,descalço,o deserto que se instalou, lento e quente, dentro da insónia que te beija na escuridão do quarto caído.
26/05/2020
asPeTTa
por vezes,
esperar é uma coisa doce.
outras vezes,
puro fel.
esperar,
por vezes,
é uma alegria nas mãos de uma criança que aguarda,
ansiosamente,
a sua recompensa.
e esperar,
por vezes,
é ter a alma agrilhoada em correntes de ferro
enquanto corpo se move no innuendo de uma liberdade iludida no vulto de uma quimera.
esperar,
por vezes,
é lugar onde permanece uma angústia incerta,
uma incerteza angustiante.
esperar,
outras vezes,
é um lugar devasso onde não cabe a esperança,
a paciência,
ou a compaixão.
mas,
por vezes,
é um lugar infinitamente paciente onde não cabe a pressa dos dias que se dissolvem.
esperar,
hoje,
é uma sensação que perdura pendurada na dor
a ver o tempo imenso a pesar na tão próxima
iminência
de tudo poder terminar
assim
abruptamente
e depois
ficar tanto por ter sido.
esperar é uma coisa doce.
outras vezes,
puro fel.
esperar,
por vezes,
é uma alegria nas mãos de uma criança que aguarda,
ansiosamente,
a sua recompensa.
e esperar,
por vezes,
é ter a alma agrilhoada em correntes de ferro
enquanto corpo se move no innuendo de uma liberdade iludida no vulto de uma quimera.
esperar,
por vezes,
é lugar onde permanece uma angústia incerta,
uma incerteza angustiante.
esperar,
outras vezes,
é um lugar devasso onde não cabe a esperança,
a paciência,
ou a compaixão.
mas,
por vezes,
é um lugar infinitamente paciente onde não cabe a pressa dos dias que se dissolvem.
esperar,
hoje,
é uma sensação que perdura pendurada na dor
a ver o tempo imenso a pesar na tão próxima
iminência
de tudo poder terminar
assim
abruptamente
e depois
ficar tanto por ter sido.
24/05/2020
nasce,
no lodo,
a imensa possibilidade da vida
no lodo,
a imensa possibilidade da vida
terra, água, húmus, musgo,
restos mortais do outrora vivido agora a escorrer nas paredes frias
e lentas,
do lado mais pantanoso da vida.
escorre-nos
pelas mãos
o elixir do tempo
ferido.
os telhados anunciam o norte
as andorinhas indicam o caminho para sul.
respira,
no lodo,
a necessidade do regresso.
a casa.
18/05/2020
Teu corpo desfeito,
preso na madeira velha
sob as ondas do mar triste
que te leva na vida o último fôlego.
Teu olhar
terno e decidido,
entrega-se sem se render
e rende-se sem se entregar.
Nas arestas de Teus lábios
permanece a certeza da constância,
a constância da certeza,
o limite do amor.
Tuas mãos rodeiam as estrelas,
seguram o tempo no espaço aberto
tocam a pele do sangue
num gesto eterno de perdão.
Teu corpo
o testemunho
Tu'alma
a confirmação.
Nasce de tua dor,
paz e luz e
de teu olhar,
caminho e sentido.
Fazes-te o mar inteiro
no momento do abandono.
E regressas,
no mistério da alvorada,
com o suspiro da vida inteira por dentro.
preso na madeira velha
sob as ondas do mar triste
que te leva na vida o último fôlego.
Teu olhar
terno e decidido,
entrega-se sem se render
e rende-se sem se entregar.
Nas arestas de Teus lábios
permanece a certeza da constância,
a constância da certeza,
o limite do amor.
Tuas mãos rodeiam as estrelas,
seguram o tempo no espaço aberto
tocam a pele do sangue
num gesto eterno de perdão.
Teu corpo
o testemunho
Tu'alma
a confirmação.
Nasce de tua dor,
paz e luz e
de teu olhar,
caminho e sentido.
Fazes-te o mar inteiro
no momento do abandono.
E regressas,
no mistério da alvorada,
com o suspiro da vida inteira por dentro.
Ouve minha voz enquanto te mostro o que ficou por dentro das linhas de arame negro.
Há uma besta que brame seus anseios no lugar onde a terra encontra um braço de água.
A imagem de ti suspensa no meu olhar já vazo, é o lugar onde a tinta se derrama.
Ouve a besta que me grita no desejo e me desarma o corpo no arame que se desfez na água pintada de negro.
Sente a besta que se perde em mim.
10/05/2020
fico sentado na estrada húmida a ver minha mente desfazer-se dentro da chuva de maio.
a alvorada insistiu em levar-me pela mão até ao princípio da alegoria. até ao lugar que é o momento em que desejava,
ardentemente,
perder-me
verdadeiramente.
passei pela vida a caminhar no cristal fino da inquietude que dança rasgada sobre o basalto que se faz ser base sob meu caminho de lava e de vidro.
procurei tentar saber sempre mais do que o que era apenas visível aos olhos fechados, enquanto a água me lavava o corpo da angústia de se saber ser algo que um destino qualquer escreveu com tinta dourada nas linhas desfeitas da estrada molhada.
fico sentado com o corpo dormente enquanto a pedra se transforma em vidro,
enquanto a chuva se encontra com o fogo,
enquanto o vidro se entranha nas linhas da pele,
enquanto a minha mente se entrega ao ardor.
deixo-me a arder,
até que a história termine.
09/05/2020
sibila a água
no corpo que é estrada
na estrada que é caminho
no caminho que é lugar
no lugar que é certeza
na certeza que é tempo
no tempo que é palavra
na palavra que é segredo
no segredo que é deserto
no deserto que é possibilidade
na possibilidade que é inevitabilidade
na inevitabilidade de ser
a chuva
e da chuva saber a sangue
e do sangue saber a lágrimas
e das lágrimas saberem a distância
e da distância saber a confirmação.
sibila a chuva por dentro do vento que é noite dentro de um sonho ébrio.
no corpo que é estrada
na estrada que é caminho
no caminho que é lugar
no lugar que é certeza
na certeza que é tempo
no tempo que é palavra
na palavra que é segredo
no segredo que é deserto
no deserto que é possibilidade
na possibilidade que é inevitabilidade
na inevitabilidade de ser
a chuva
e da chuva saber a sangue
e do sangue saber a lágrimas
e das lágrimas saberem a distância
e da distância saber a confirmação.
sibila a chuva por dentro do vento que é noite dentro de um sonho ébrio.
Sento-me sobre ti
a segurar o mundo por dentro
da extremidade mais distante
na pele
Abraço-te sob o corpo
enquanto o tempo se torna água
e a água se torna finitude
na pele
Toco-te nos lábios
e sinto-te por dentro a navegar
o lado mais estranho que me habita
na pele
Guardo teu nome
dentro da fé
que fica a suster-se aqui.
Despida.
a segurar o mundo por dentro
da extremidade mais distante
na pele
Abraço-te sob o corpo
enquanto o tempo se torna água
e a água se torna finitude
na pele
Toco-te nos lábios
e sinto-te por dentro a navegar
o lado mais estranho que me habita
na pele
Guardo teu nome
dentro da fé
que fica a suster-se aqui.
Despida.
02/05/2020
deSencoNtro
podia começar a história que te queria contar, pelas letras que se cumprem na palavra em que te guardo.
escolho começar exactamente no lugar em que te confirmo. no lugar onde agora descanso o sentido. na margem certa do rio.
podia dizer-te que debaixo desta luz,
morna e terna,
consigo ver tudo melhor. aqui, neste lugar onde tu eras só tu e mais ninguém tinhas que ser, e eu era só eu mas era, ainda, a possibilidade do lugar onde o rio poderia repousar.
morna e terna,
consigo ver tudo melhor. aqui, neste lugar onde tu eras só tu e mais ninguém tinhas que ser, e eu era só eu mas era, ainda, a possibilidade do lugar onde o rio poderia repousar.
se for um lugar de encontro o que eu verdadeiramente procuro, porque é que não consigo parar de caminhar?
pode o encontro encontrar-se no caminho daquele que não cessa de caminhar?
pode o caminho levar ao encontro mesmo se o encontro se desencontrar no caminho?
posso pedir que o caminho possa mudar e que o cansaço possa não vencer a guerra que acontece em mim de cada vez que o fogo me faz recuar, mas a verdade é que o caminho não cessa de ser caminho e a demanda não cessa de ser o caminho em si.
podia começar a história do que acontece em mim, deitando-me sob a luz de tuas mãos, mas aqui, nesse preciso lugar, reside a certeza de que
se me tocares me desfaço em cinzas
e
se me segurares me emolo até desaparecer
e só restaria a possibilidade eterna que permanece imóvel na linha ténue que divide a verdade, do lugar que reservei ao inferno que habito.
se o verdadeiro significado reside no aprender a tocar os limites mais profundos da vida vivida, onde fica a possibilidade do encontro do lugar certo para o encontro se o encontro é, na verdade, tudo o que acontece em mim enquanto navego os limites das arestas do caminho de minha vida sem nunca tocar o fogo que arde nas margens do rio que desagua nas tuas mãos abertas.
29/04/2020
tira-me da roupa,
amor.
despe-me até eu ficar desprovido de tudo o que me é em demasia.
roda em torno de mim até que a fúria da vida se encha inteira de minha mansidão e aprenda a parar.
preenche-me de noite. depois vaza-me até caber o dia inteiro dentro das ruas que são teus olhos e o meu sonho.
descobre-me,
amor,
até que reste pouco
que meu tempo já está surdo e quase, mesmo quase, a chegar ao seu fim.
seu eu morrer,
amor,
segura-me na alma,
respira-me na ausência,
despede-te de mim em risos e melodias,
leva meu corpo por dentro da tua memória até que só sobre o pó e eu permaneça inteiro do lado que fica aquém do conflito do momento que me fez saber a verdade do mundo.
tira-me de dentro de mim,
amor,
e faz-me livre enquanto beijas a minha vida.
deslizo para a linha do porto que me amansa
e o rio diz-me que faz falta o mar por dentro.
resvalo na incerteza do amor à memória do que não esqueço
e o mar canta-me um poema de abandono.
mergulho na boca inteira do mundo que sonhei
e o tempo abandona-me na falta do poema.
dispo-me do que faltava antes de ter chegado
e invento a antítese de meu desespero.
é vã e lisa a linha da mansidão do porto
onde meu rio repousa até o mar ser tudo o que fica da memória de um abraço.
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