27/09/2019

anGel

é quando a luz começa a cair, no fim do dia, que me chega a memória de ti

como se tu fosses a própria luz
como se a essência de ti repousasse nos traços doirados dos restos do sol caídos sobre estes lugares que magicamente encontro
como se tivesses sido desenhado por D em tinta de oiro

caMinhO

Não adianta. Não há nenhuma asa de gaivota que te possa levar para mais longe. Não se pode fugir do destino que nos foi traçado no dia em que nos cruzámos com o mundo. 
É inevitável que tentes correr. Sentes a perna presa, a dor a recordar-te a incapacidade, os ossos a ruir, o cansaço a chorar a pele. A impossibilidade da fuga reflectida na incapacidade que te reside no corpo. 
Tens a alma aprisionada há demasiados anos. Evitas olhá-la de frente, encarar o que de mais simples e real está de frente para ti. Evitas. Ignoras. Crês que é uma bênção ignorares até que ela te esmaga de frente, olhando-te nos olhos. Pele contra pele. Beija-te a testa. Segura-te as mãos e depois dilacera-te. Desfaz-te na pele até sangrares por dentro. Até não seres nada mais para além do sangue a correr como a chuva do inverno. 
Persegues-te na tua própria sombra. Finges que percorres sonhos e vontades mas não sais do mesmo lugar. Iludes-te a sentir-te grande por dentro, assente no orgulho que te faz crescer só, mas não desarmas na vontade do innuendo. Mascaras a face e o corpo na idealização de uma construção onírica em que, quando te convenceres a ver de verdade, só encontrarás pó de cinza.
És feito de nuvens densas que descem sobre a praia emudecida. Não há nada para além do silêncio mesmo depois das marés, mesmo depois das vozes, mesmo depois dos gritos das gaivotas. 
Não adianta.
Ainda não te cumpriste. 

24/09/2019

"(...) O homem é um pássaro sem asas  -dissera-lhes Iskander -, e um pássaro é um homem sem mágoas (...)"

"Pássaros sem asas"
Louis de Bernières
2009
Editora Asa

pASsé

O passado dança sobre a pele como se a vida não tivesse, nunca, a possibilidade do fim. Enquanto caminhas por sobre a terra árida que este lugar se tornou, evitas tropeçar nas asperezas de teus arrependimentos. Tacteias, com os pés descalços, as inseguranças que te trouxeram até aqui e seguras, de cara erguida, as certezas que te completaram. O passado está vivo dentro desta casa que morre devagar. Em cada divisão, em cada fragmento de madeira, de vidro ou chão, há resquícios de ti, do que foi a tua vida, do que te trouxe até aqui. Há um odor consistente a livros velhos, linho rasgado e almas antigas. Sente-se, em cada espaço, força e maldade, amor e guerra, paixão e desesperança. Caminhas de frente para ti, na aridez de seres tudo o que és e de seres ainda tanto por ser e tão pouco que és, aqui, neste exacto momento. 

chove dentro de mim

chove na areia e chove dentro de mim.
o mar serena na brisa fria que acaricia o começo do outono. 
arrisco a olhar para trás, para o passado, para tentar perceber o agora em que me vejo
consigo sentir o odor que emana do húmus que cobre tudo o que enterrei na terra húmida.
serenamente imagino-me a caminhar sobre o lodo, sobre as folhas caídas.  
terei eu chegado antes do outono?
terei eu caído antes do prenúncio da folhagem dos freixos e das acácias?
passa um gaivota a rasgar o ar a anunciar a retirada breve do sol.
sinto a espuma de sal que chega até à nudez de meus pés e respiro tão fundo quanto me é possível.
a chuva queda mansa, abraçando-me no infortúnio que reside dentro da minha alma .
olho de frente a linha que me separa do que foi e questiono onde irei a seguir.


chove dentro de mim.


19/09/2019

ahava

a vida urge. o tempo foge. o amor acontece. a tragédia sucede. a agonia aperta. a alma instala-se. a saudade perturba. a angústia persiste. o corpo envelhece. a voz enfraquece. a certeza desperta. a crença segura. a verdade transforma. o reflexo enegrece. a vontade aniquila. a suspensão devora. a vida urge. o tempo voa. a alma envelhece. o corpo transforma-se. o amor foge. a vaidade aperta. o tempo devassa. o amor permanece. a verdade segura. o amor. 

12/09/2019

reveLation

Procuro por ti no odor da minha pele quente.
Preciso ver-te para te saber no tempo.
Construo uma ideia de ti emersa no desejo que cresce em mim.
Idealizo, imagino-te feito de azul e de luar
de mar e de sol
de frio e de lava. 
Imagino-te sobre minha pele com a intensidade com que a tinta acaricia esta folha de papel
eu folha, tu tinta
eu pauta, tu melodia.

Sento-me na aresta da pedra a escutar teu nome nas asas do vento.
Procuro por ti no limiar do tempo até me desfazer no segredo que se revela em mim.

fEveR

a febre despe-me de frente ao espelho.
a casa está escura. não há nenhuma luz que possa entrar aqui, agora, neste preciso momento em que olho - sem ver - meu corpo desnudado.
não me reconheço. não me encontro na imagem que se reflecte na escuridão. 
a febre alivia-me o devaneio enquanto me tento segurar.
tenho os dedos emagrecidos na pele envelhecida a acariciar a parede fria.

sabes que faz frio quando está escuro?

dispo-me de frente para mim e, em delírio, encontro a certeza de ti no meu abraço. 

começo sem ti. 
a verdade é que não chego longe. 
é mais fácil dizer sem dizer. ficar em silêncio. remeter tudo para a indiferença. evitar. anular. não olhar.

se olhar para ti agora estou seguro que me perco. de verdade, me entrego sem questionar rigorosamente nada. 
começo sem ti. 
se não vieres, a verdade é que eu não vou chegar até mim. 

27/08/2019

és sede em mim,
não desejo
porque com desejo a alma sobrevive
com a sede,
não. 

tHunder

sabes bem que não há como regressar.
troveja sobre a ponte. é como se o céu se rasgasse em agonia. 
raios de luz que rasgam a noite como se fosse a carne do corpo, como se fosse o reflexo de tu' alma, como se fosse o lugar que se reserva ao que já não é. 
anuncia-se uma tempestade aqui enquanto mundo inteiro arde. 
será que o que vai sobrar de aqui é apenas sangue e cinzas?
apenas aço e carvão?
apenas lágrimas em rasgos impossíveis de luz que desfazem o negrume desta noite quente?
sabes bem que já não há como regressar ao que já não é. 
partimos em busca do mundo olvidando a tempestade que estava a crescer no interior de nós.
seguimos em busca de um sentido sem assegurar se sabíamos exactamente onde nos encontrávamos. 
emanámos da lama em perfeito desnorte sempre na demanda de um norte que se desvelasse no caminho que nos arriscámos a tactear.
perdoa-me. 
estou a arder com o resto do mundo. 
será que vai sobrar apenas cinzas do que restava da luz que havia em mim?
sabes bem que não há como regressar.

steLLa

Pego nos espaços vazios que ocupam a solidão de ser eu. Coloco-os uns sobre os outros até que não reste nenhum. Peça perante peça. Como se conjugasse um jardim labiríntico em que me pudesse perder do mundo. 
Pego na solidão que me ocupa no vazio e sigo num caminho emerso em estrelas. Neste manto negro que me cobre, só eu vejo tudo o que brilha. Pontos de luz que anunciam o fim e o recomeço, o limite e margem, o estar e a queda.
Pego no que resta da minha existência e ocupo todos os espaços com a luz que emerge de cada ponto estelar no manto interminável do céu que me toca nos cabelos. 

21/08/2019

percorro os corredores que parecem nao poder terminar. paredes brancas. o chão frio de pedra branca. portas que se abrem mas não revelam nenhum destino. janelas fechadas no ar que se pesa nas sombras. paredes brancas a tocar no chão frio. portas fechadas que não sabem o lugar que guardam. como se nunca tivessem sabido o lugar que guardam. faz frio por dentro destas paredes mas é o corpo que gela. as sombras arrefecem o caminho por entre o que chega e o  que desaparece. faz frio aqui enquanto o suor escorre nas palmas das mãos brancas. vultos parecem passar por entre os espaços que nao findam e que se fundem nas memórias das coisas idas e das pontes submersas. faz frio enquanto a febre ensandece o corpo e tudo parece ter um outro sentido que estas portas já não revelam. guarda-se o tempo por entre as sombras pacificadoras que escondem a dor de quem aqui se entregou. faz frio enquanto arde uma lareira e o fogo transforma as sombras em cinzas e em segredos.
fico suspenso na possibilidade de um amanhã.
a verdade é que as manhãs estão submersas no nevoeiro que se abateu sobre a praia vazia.
pensei que te poderia encontrar se fechasse os olhos de novo. pensei que estarias deitada na linha do horizonte a aguardar por mim.
fico emerso na irrevogável certeza de que não voltas. que mesmo que amanhã chegue até este deserto que me vai aniquilando na medida certa da minha incapacidade, tu não vais estar.
pensei que te encontraria no lugar em que me encontro agora.
mas tu já não estás. 

19/08/2019

ciElo

há uma distância intransponível que vai de ti até mim. 
somos duas partes de um mesmo lugar que se divide em si mesmo em opostos absolutamente díspares.
somos duas linhas paralelas que seguem mas que não se encontram em ponto algum, mesmo tocando na infinitude de tudo o que é. de tudo o que se pode sentir. 
sou um lugar de heresia em que me desfaço em cinzas e de onde renasço sempre cada vez mais longe de ti.
és um lugar reservado às coisas mais sagradas na distância do qual eu jamais poderei chegar. 

ChiaMatA

Derramei-me na ponta da madeira velha. Foi depois da noite que começou. Tudo a acontecer por dentro do meu pensamento. O mar a embater na ravina. O vento a enfurecer o mar. A ravina a descer de encontro ao inferno que arde por dentro de mim. 
Vazei-me na aresta de um copo cheio. 
Dancei nas lágrimas da noite que passou pelo meu corpo sem me dizer sequer o nome. 
Não ouvi o meu nome. Chamaste por mim?
Sinto a madeira a abraçar-me no corpo. Detém-se. Contém-me. Amarra-me nas mãos, nos pés, no peito, enquanto o delírio me consome, me desfaz em chamas, me leva a embater contra a ravina, me sopra no vento ao ouvido um nome. 
Chamaste por mim?
Não ouvi meu nome.
Ouço a madeira cantar-me a noite ao ouvido. Até que a manhã me traga de volta ao mar de mim. 

14/08

A verdade é o lugar mais ambivalente de nós.
O mais doce e o mais amargo.
O mais simples de todos porém o mais complexo.
O mais definitivamente leve e inteiramente denso. 
Macio em toda a sua superfície mas áspero quando toca na pele.
Mágico e hediondo.
Perfeito e caótico.
Cheio de paz e repleto de angústia.
Perfeitamente imperfeito e irrevogavelmente perfeito.
A verdade é o lugar onde os encontramos mais despidos e mais cobertos. 
A planar e soterrados.
Junto de outros e igualmente sós.
A verdade é o lugar mais belo de toda a fealdade. 
O lado mais difícil de toda a nossa existência. 

07/08/2019

rEbElo

Estou a morrer, sabes? 
Ainda no outro dia toquei na morte. Segurei-lhe a pele da face com as minhas duas mãos. Toquei-a na ponta dos dedos, no âmago da alma. Senti tudo o que vivi na vida. Naquele momento a minha vida ficou imensamente grande num tempo imensamente insuficiente. Naqueles breves segundos  olhei-a de frente para me ver. A mim. Inteiramente a mim. Sem qualquer dúvida, sem qualquer anseio. 
Senti-me triste, sabes? Infinitamente triste. 
Pensei que fosse mais fácil partir. A verdade é que sinto que meu corpo me trai, me abandona, me encerra. 
A verdade e que me dói respirar, me dói não poder falar, me angustia que tu não me entendas. Queria poder explicar-te tudo, sabes? Dizer-te hoje que não entendo porque me sinto no limite do cansaço. 
Não precisas dizer que vai correr tudo bem, não precisas de dizer que tenho de parar de tentar dizer-te tudo. A verdade é que eu não quero parar, entendes? Não quero desistir. Estou assim, tão desoladamente triste porque o meu corpo se está a despedir de mim e está a levar-me aos poucos.
Sinto a minha mente a abandonar-me também. Compreendes como isto é uma traição? 
Consegues ver como tudo isto e uma injustiça? Não quero que consideres que não é justo eu morrer porque o é. É justo para todos nós. Nascer, viver, morrer. E eu tive a bênção de nascer, o prazer de viver e reservo-me no direito devido de morrer. 
Só queria que pudesse partir inteiro dentro de mim, sabes? Que tivesse as ideias no lugar certo, as mãos na dimensão certa, a alma na serenidade certa Consegues ver como já nada disso acontece em mim?
Queria dizer-te tudo isto e não posso. Meu corpo está a abandonar-me na alma e eu já não te consigo dizer nada. Nem pela voz nem pela tinta. 
Peço-te que fiques. Que não me deixes ficar só. Ninguém deve morrer a sentir-se só, sabes? 
Perdoa-me se te peço tanto. 
Queria partir comigo inteiro dentro de mim. Mas vou partir em fragmentos de mim. Pequenas partes que vão indo até que eu termine.
Preciso que fiques aqui para confirmares que todas as partes de mim me acompanham, compreendes?

06/08/2019

vAle

olha para mim.                                  sou o reflexo da tua sede.
repete as palavras da tua oração.   em voz alta.                      até que eu ouça.
canta para mim.              contra o vento que ecoa no primeiro rasgo da manhã.
diz-me tudo o que guardas por dentro da tua condescendência. até que eu entenda. 
senta-te no lugar onde começa o fim da noite.  sou o que resta da tua certeza.  
olha para mim. sou o reflexo da noite que amanhece na tua prece.
           

04/08/2019

auReo

Estou preso dentro do meu corpo. Não me consigo mover. De cada vez que me enfrento, perco. Cada luta que travo, por dentro, comigo aflito por dentro da minha pele, comigo perdido por dentro da minha ilusão, comigo escondido por dentro da minha solidão. Estou parado dentro de mim. Sinto o sangue a correr, a pele a respirar, a angústia a permanecer. Dói-me no peito e nos olhos a certeza incerta que tenho de mim. Receio partir. Temo cair num lugar de onde não consiga voltar. Esqueço-me das palavras, dos gestos, das vozes, das certezas. Esqueço-me de tudo quando a dor me ocupa por inteiro enquanto grito sem que ninguém me consiga ouvir. As paredes, aqui, nesta sala, demasiado brancas, demasiado frias, eternamente desprovidas de vida. Não me reconheço neste corpo que me aprisiona, nesta voz que me silencia de cada vez que tento cantar, nestas mãos que não tocam se não em ar e pó das paredes que ficam quando o dia termina. Pergunto como posso continuar quando tudo me impele à queda. Como vencer o cansaço que me devasta de cada vez que tento respirar. Estou infinitamente preso dentro de mim a ver-me partir.