17/07/2015


Nascem moribundos
mortos-vivos
pululam pelo mundo
espectros espectrum
campos da minha consciência
Quisera saber
se sou mais um
nesse mundo morto.

 


Raimundo, Lisboa, 2015
 
encontro de hoje. encontro sem sentido.
um poeta perdido dentro do homem dentro de si mesmo.
aqui a homenagem possivel fazer  em suas palavras.


Um grito se ouviu
o comboio apitou

mortificada a alma
ao rio chegou.

Neste porto, uma palavra amiga
Oh amor! menti?

Também a ti?
Não me queiras mal assim
ainda não sei quem sou.

 

Raimundo, Rio de Janeiro, 1974
encontro de hoje. encontro sem sentido.
um poeta perdido em si mesmo.
aqui a homenagem possivel fazer  em suas palavras.

igReja


Cheira a flores e a corpos mortos. As pedras no chão sem tempo revelam os seus sinais de um cansaço profundo. Há restos de fé em todos os cantos, em cada fragmento de cada objecto. Bancos envelhecidos na madeira do tempo evocam angústias e culpas sem nome, sem rosto, sem saudade. Milhares de almas aqui gritaram em sofrimento e na demanda eterna da possibilidade da salvação. Aqui, a ideia de salvação pela fé ocupa todo o peso dos odores insuportáveis. O meu corpo morre na certeza de que aqui não há salvação. Aqui, neste lugar escurecido pelo medo, as vozes entoam preces desacreditadas e desanimadas. Morremos mais cedo aqui. Cheira a flores e a mortos.

14/07/2015


Há um fino fio de amargura de cada vez que fecho a porta e uma parte de mim permanece em suspenso. Fecho os olhos para saber a culpa e o frio regressa à pele, fero e libidinoso. Mergulho na sedução da noite vazia iludindo o corpo numa possível entrega que mais não é do que a queda de um anjo ensaiada na vertigem de uma mentira selada. Há uma ténue angústia marcada pela ausência de qualquer certeza. Não saber nada é saber tudo no sentido inverso. É estar sem poder ficar. Partir sem saber avançar. Esquecer sem conseguir lembrar. De cada vez que me ausento, de cada vez que fecho a porta, há uma mágoa que parece não poder terminar e que me deixa suspenso em névoa. Fecho os olhos e quedo na culpa incerta de ser apenas minha.

12/07/2015


De novo a náusea a acariciar-me a angústia. Eleva-se por dentro do corpo e invade a inteira dimensão da pele. Expira de cada vez que inalo o ar apodrecido em redor desta areia. O mar parou. Não se move. Eu parei. Nada se move. Não consigo dormir. Não encontro lugar onde guardar a minha raiva. Consumo-me por dentro. Devasto-me na acidez da contrariedade e desisto. Olho de frente o mar parado e desisto. Conto até três e desisto. Expiro e desisto. Cesso. A angústia a acariciar-me na náusea. Termino enquanto sonho com o mar.

10/07/2015

XIV


Again the dust is crawling up the space in my mind.
I don’t want to change my memory. I can’t.
I must stand here, in the rain, for as long has it takes.
The music is playing in my head. Over and over again.
I can’t sleep tonight.
Not until you get here.
O mundo é um lugar reservado às coisas que nunca terminam. Podemos avançar ou recuar, mas nada chega, verdadeiramente, a terminar. Há um recomeçar constante. Um ciclo em permanência. Uma viagem em torno de todos os lugares da terra. Por isso podes chegar mais perto. Podemos mover-nos juntos, em simultâneo, no mesmo lugar do tempo. Usar o mesmo momento, o mesmo espaço, existir como se fossemos apenas um. Chega mais perto. Preciso respirar. Tu ensinas-me a respirar quando existes aqui. Não tenhas medo, é só um pouco mais perto. Assim eu respiro. Assim eu sobrevivo. Aí. Podes esperar exactamente aí. A manhã pode demorar a chegar e assim pelo menos não nos sabemos tão absolutamente sós. O fumo cerca-nos como se não fosse mais possível respirar na infinidade da noite. Pode alguma coisa mudar enquanto atravessamos a parte escura da noite? Podemos ser nós mesmos perante a imensidão da vulnerabilidade de estarmos aqui, absolutamente desprovidos de corpo e de asas? Talvez juntos seja possível conseguir. Talvez se nos mantivermos juntos, a manhã chegue e seja possível descansar sem medo. Se tudo no mundo está em permanente movimento, vou segurar tudo na ponta dos dedos enquanto danço. Vou segurar-te inteiro nos braços enquanto canto. Vou segurar-me inteiro na desordem enquanto respiro. E se as nossas asas se encontrarem, no mesmo lugar do tempo, vamos reconhecer os sinais, saber os passos do caminho e vamos poder avançar, sem ter medo, sem estarmos tão sós, a caber um mundo inteiro dentro do nosso abraço.

09/07/2015

diÁlogo


- Não sei.
- O quê?

- Não sei mais o que fazer.
- Em relação a quê?

- A tudo.
- Tudo o quê?

- A isto.
- O que é isto?

- Não sei.
- Porquê?

- Não quero saber.
- Então não precisas de saber.

- O quê?
- O que é isto.

- Porquê?
- Não sei.

- O quê?
- Nada.

07/07/2015

siLvas


Não quero ir para lado nenhum. Compreende?
Só quero ir para minha casa.
Isto que me treme nas mãos não sou eu, é ele, são eles, mas não sou eu. Se não fossem eles, se não fosse ele, eu podia ser eu. Mas assim, não. Assim é ele, e eles e nunca eu.
Já todos são eu menos eu.
 Isto é uma tristeza infinda. Compreende?
Não quero ir para lado nenhum.

soNNo

Estou quase a chegar. Demoro-me na noite mais do que o que devia e depois perco-me. Acabo sempre por me perder da noção, por me evadir do tempo. Demoro-me na intenção de ti mais do que o que podia e depois afogo-me. Desfaço-me em mim mais do que conseguiria se quisesse, verdadeiramente, desaparecer. Estou quase a chegar. Todos os movimentos que faço são lentos no gesto mas cheios na vontade. São vazios no conteúdo mas estruturados na forma. Existem sem serem. São, na verdade, sem existirem. Meros reflexos da minha ansiedade que deposito em eventuais imagens - eventualmente reais - da memória da infelicidade de ser o meu próprio acto falhado. Repito, para mim mesmo, que estou quase a chegar. Lembro-me de alguém a corrigir-me as palavras – não, os erros – não, as lacunas – não, os esboços – não, o sangue –não, as palavras mesmo e esqueço do que deixei escrito nas paredes – não, no chão – não, no cimento- não, na calçada onde o resto da minha dignidade desapareceu na intenção de ter chegado a tempo de abraçar o sono.

02/07/2015

duVida


Se eu começar do princípio, tu vais entender?

Se te explicar tudo o que vive e o que morre em mim, tu vais conseguir escutar?

Se eu não te disser o que te digo, tu vais saber o que falta?

Se eu te perguntar que lugar é este em que inevitavelmente vou acabar por desaparecer, tu saberás dizer-me?

Se eu não chegar até ao lugar em que tu te imobilizas e te suspendes numa quase apneia, de que terá servido tudo isto?

Talvez seja tudo apenas um acto poético em que nos abandonamos, em breve, para recomeçar noutro lugar reservado ao segredo do silêncio que reside, separadamente, dentro de cada um de nós.

01/07/2015


Vou lembrar-me de tudo. Quando chegar a hora. Quando regressar o tempo. Vai ser da mesma forma que foi sempre. Todos estes anos. Todo este tempo. Vou recordar-me de cada fragmento da tua partida. Vou reconstruir cada passo que dei no caminho para o meu desespero. Vou-me desfazer em pó e vou desaparecer na memória de ti. E depois vou remeter tudo ao lugar em que se guardam as coisas sagradas. Vou querer não recordar nada e tu vais abraçar-me durante a noite. Como se nunca tivesses desaparecido todo este tempo.

dAnza


danço
na estável instabilidade da vertigem
meu corpo
abraça a eternidade da chuva que regressa inevitavel
tua  alma
segura a destruição que acontece quando enlouqueço

somos tudo o que acontece
por detrás do silêncio do que fica
em suspenso
entre o começo e o fim

entre o aqui e o agora
entre tudo o que não chega a poder ser e o que foi

entre o que és e o que resta de ti em mim

 danço
na destruição que a chuva provoca na instabilidade de ser eu aqui.

29/06/2015

ars moriendi

Não compreendo o que me dizes.
Não consigo ouvir as tuas palavras. Agónicas, caquécticas, quase mortas. Não consigo ouvir nada do que dizes. Não entendo nada do que fazes, do que esperas, do que queres. Também estás cansada, Amor.
Procuro um ponto na janela, na parede, no armário, um ponto em que não encontre o teu olhar caído sobre a miséria da minha existência. Não quero que olhes para mim assim, percebes? Ainda não. Não precisas gritar, ainda estou aqui. Não te ouço, mas estou aqui. Não te quero ouvir mas ainda estou aqui.
Falo enquanto te olho nos olhos e parece que não compreendes o que te digo. Estou há tantos dias a dizer-te que desejo apenas descansar e te peço que me deixes descansar e tu, na tua agonia, não me deixas descansar. Espera. Peço-te. Ouve. Imploro-te. Não quero mais viver assim, percebes? Não posso mais viver assim. Entendes?
Fica em silêncio, apenas por um momento, e ouve o meu corpo a partir. Se me tocares nos dedos, sentes que o meu corpo está a partir. Estou a morrer e nada do que possas dizer vai alterar isso. Se me deres a mão em silêncio, tudo é mais fácil.
Talvez eu queira morrer, compreendes? Talvez eu esteja cansado de habitar este corpo doente, talvez esteja cansado de trazer o teu olhar sofrido caído sobre mim, a cobrir-me a alma, a desamparar-me a queda.
Escuta. Não consigo ouvir nada do que dizes. Sinto o meu corpo a desaparecer. Não sou senão a sombra do homem que fui, quer era ontem e que amanhã, antes que o dia nasça, vou deixar de ser. Tens de olhar para o meu silêncio se quiseres compreender o que se passa aqui, neste lado das coisas inteiras que acontecem fora de mim. Amor, tens de parar de falar para me ouvires. E o que eu não te digo é que estou demasiado cansado de continuar a morrer, dia após dia e que, na verdade, só preciso descansar. Só preciso que me ouças para podermos descansar.
Compreendes?

28/06/2015

aPerto


Enlaço as cordas nos dedos, nas mãos, nos braços. Aperto. Com força. A pele altera o tom e os dedos gritam enquanto procuram tua pele. Aperto. Sinto o suor a escorrer-me nas costas enquanto imagino teu corpo a completar o meu. Aperto. As cordas a saberem a sangue. Os dedos a saberem a suor. A tua pele a saber-me, inteiro, despejado em ti. Vazio. Cansado. Quase a desaparecer, quase a não chegar ao lugar certo. Enlaço as cordas nos teus dedos enquanto retomo consciência da dor em mim. O corpo a latejar, a pele a arder, o sangue parado num pensamento suspenso na agonia. Respiro enquanto aperto as cordas em ti. Junto aos dedos. Junto aos braços. No pescoço. Perdoa-me. Estamos quase a desaparecer. Aperto. Sinto a minha pele a desfazer-se na tua enquanto me seguras nos pulsos e olhas em frente. Aperto. Sinto o sangue a latejar. Aperto. Com mais força. Até perderes a cor.
 
 
Até desaparecermos completamente.

27/06/2015


Se fosses letra,
eu seria palavra.
 
Se fosses silêncio,
eu seria tempo.
 
Se tu solidão,
eu seria o espaço.
 
Se tu o mar,
eu seria maré.
 
Se tu fosses palavra,
eu seria oração.
 
Se tu fosses em ti,
eu encontrar-me-ia.

tEla


Estamos a chegar ao mesmo sítio de sempre. Andamos, andamos e regressamos sempre ao mesmo local. Aniquilamos sempre as mesmas memórias. Vazamos sempre as mesmas veias. Agarramos sempre a mesma distância. Sofremos sempre o mesmo desamor. Não importa continuar a tentar.
Pinto as tábuas no chão para saber o caminho. Se caminhar sobre a solidão da noite, talvez já não me perca, talvez já não me iluda. Talvez consiga ver os meus passos a vazar o caminho. Sem sentido. Sem significado. Uma harmoniosa desarmonia da alma no tropeçar do caminho.
Avanço, com a certeza de quem não sabe para onde ir, a temer a queda. A saber, como só quem já desapareceu sabe, que há pouco onde chegar. Não há mistérios que não terminem. Não há luares que não se repitam. Não há dores que cheguem, de facto, ao fim.
Pinto as paredes para reconhecer o lugar onde o embate termina. A parede que cai sobre as minhas asas é a mesma que te escondeu em si. Destroços sobre a tragédia da incapacidade que reside em nós, interminavelmente.
Rasgo as unhas nas tábuas e esculpo as mãos no chão. Para que a noite me conduza no caminho vazo de mim e me encontres, no final da mágoa, como uma harmoniosa tragédia caída sobre a ilusão das memórias rasgadas sobre uma alma exausta de ser, em si mesma, absolutamente nada.

23/06/2015

silÊncio

                    
                                                           choro. 
o silêncio é vertigem aberta em mim.
fecho os olhos sobre as lágrimas,
                                                   canto.
a música é magia descoberta aqui.
                                                    rezo.
arrasto a morte sobre o corpo envelhecido
aguardo que a fé consiga chegar.
                                                    choro.
fecho os olhos sobre as lágrimas
                                                    e espero.

21/06/2015

é no momento exacto
em que me olhas
que sei,
com a certeza do poema que me abraça,
que não existem mais palavras para dizer o indizível,
segredos para reconhecer o inegável,
razões para saber o icognoscível,
limites para sentir o que a fé professa.

fOgo

De novo, são as palavras que me deixam. Voltaram por breves momentos e agora iniciam o seu regresso ao lugar em que as, repetidamente, volto a enterrar.
O calor devasta o que resta da terra. Pouco vai ficar aqui depois do vento  deste tempo passar. A terra a arder na pele do tempo e tudo se imola em si mesmo num gesto triste de desespero.
Segura-me a pele enquanto eu termino de desaparecer. Enterra os teus dedos nas feridas da minha carne aberta ao sol e permite que eu seja um pouco menos do que era suposto. Vou esconder o grito, vou tolerar a dor, vou arder com o resto das cinzas.
Há um peso que não termina de me puxar de encontro a gravidade e estou certo de que a terra me vai consumir em breve. Não há nenhum vento que me leve daqui, não há sinais de que o calor possa esvair-se nas palavras e sinto não haver mais salvação possivel.
Regresso ao lugar em que me enterro e vou ficar sem palavras enquanto o fogo me devasta a alma.