27/06/2015


Se fosses letra,
eu seria palavra.
 
Se fosses silêncio,
eu seria tempo.
 
Se tu solidão,
eu seria o espaço.
 
Se tu o mar,
eu seria maré.
 
Se tu fosses palavra,
eu seria oração.
 
Se tu fosses em ti,
eu encontrar-me-ia.

tEla


Estamos a chegar ao mesmo sítio de sempre. Andamos, andamos e regressamos sempre ao mesmo local. Aniquilamos sempre as mesmas memórias. Vazamos sempre as mesmas veias. Agarramos sempre a mesma distância. Sofremos sempre o mesmo desamor. Não importa continuar a tentar.
Pinto as tábuas no chão para saber o caminho. Se caminhar sobre a solidão da noite, talvez já não me perca, talvez já não me iluda. Talvez consiga ver os meus passos a vazar o caminho. Sem sentido. Sem significado. Uma harmoniosa desarmonia da alma no tropeçar do caminho.
Avanço, com a certeza de quem não sabe para onde ir, a temer a queda. A saber, como só quem já desapareceu sabe, que há pouco onde chegar. Não há mistérios que não terminem. Não há luares que não se repitam. Não há dores que cheguem, de facto, ao fim.
Pinto as paredes para reconhecer o lugar onde o embate termina. A parede que cai sobre as minhas asas é a mesma que te escondeu em si. Destroços sobre a tragédia da incapacidade que reside em nós, interminavelmente.
Rasgo as unhas nas tábuas e esculpo as mãos no chão. Para que a noite me conduza no caminho vazo de mim e me encontres, no final da mágoa, como uma harmoniosa tragédia caída sobre a ilusão das memórias rasgadas sobre uma alma exausta de ser, em si mesma, absolutamente nada.

23/06/2015

silÊncio

                    
                                                           choro. 
o silêncio é vertigem aberta em mim.
fecho os olhos sobre as lágrimas,
                                                   canto.
a música é magia descoberta aqui.
                                                    rezo.
arrasto a morte sobre o corpo envelhecido
aguardo que a fé consiga chegar.
                                                    choro.
fecho os olhos sobre as lágrimas
                                                    e espero.

21/06/2015

é no momento exacto
em que me olhas
que sei,
com a certeza do poema que me abraça,
que não existem mais palavras para dizer o indizível,
segredos para reconhecer o inegável,
razões para saber o icognoscível,
limites para sentir o que a fé professa.

fOgo

De novo, são as palavras que me deixam. Voltaram por breves momentos e agora iniciam o seu regresso ao lugar em que as, repetidamente, volto a enterrar.
O calor devasta o que resta da terra. Pouco vai ficar aqui depois do vento  deste tempo passar. A terra a arder na pele do tempo e tudo se imola em si mesmo num gesto triste de desespero.
Segura-me a pele enquanto eu termino de desaparecer. Enterra os teus dedos nas feridas da minha carne aberta ao sol e permite que eu seja um pouco menos do que era suposto. Vou esconder o grito, vou tolerar a dor, vou arder com o resto das cinzas.
Há um peso que não termina de me puxar de encontro a gravidade e estou certo de que a terra me vai consumir em breve. Não há nenhum vento que me leve daqui, não há sinais de que o calor possa esvair-se nas palavras e sinto não haver mais salvação possivel.
Regresso ao lugar em que me enterro e vou ficar sem palavras enquanto o fogo me devasta a alma.

15/06/2015

voo


Pára, por favor. Não precisas sair já. Aguarda um momento. Nunca te esqueças que somos muito mais do que isto. Por favor, pára. Não te movas. Não respires. Evita os lugares vazios. Esquece o que não foi. Segura este momento nas tuas mãos cheias. Toca-me. Por favor, fica. Talvez seja apenas este o tempo que resta. Sei pouco sobre isto. Sei pouco sobre a certeza de que há medo aqui. Há restos de tantas coisas, de tantos momentos. Desde há muitos anos que paro de respirar quando me olhas. Cesso de existir para te ser inteiro. Suspendo qualquer movimento a aguardar teu caminho. Mergulho dentro da tua pele de cada vez que me sorris. Sou inteiro dentro da razão de ti. O lugar onde eu acabo é no lugar de ti. O que faço é no sentido de chegar até ti, por mais longo e sinuoso que o caminho pareça ser. Não há palavras que me possas dizer que eu possa não ouvir e preciso de te ouvir para ter a certeza de estar aqui. Tens a minha alma nas tuas mãos e as tuas mãos estão neste momento, aqui, agora. Segura-me. Espera. Não partas de novo. Fica.  Por favor, pára.

Tenho as asas partidas e agora já não posso mais voar atrás de ti.

14/06/2015

mAré


São pequenas gotas de suor a segurar a pele. São pequenas gotas de sangue a segurar as lágrimas. Rasgo a pele no sal da areia e queimo o que resta da minha sanidade no que fica do teu odor. Sabemos a mar e a maresia quando o sol se põe. Sabemos a sal e a chamas quando a noite começa. Danço, inebriado, nas ondas e afogo-me na imensidão do tempo. Levo-te comigo. De cada vez que morro, levo-te comigo. Arrastas-me na solidão do inverno e perdes-me de cada vez que chego ao mar. Recordas meu nome como se fosses cego e tacteias o fim do meu corpo dentro de ti. Chega. Não suporto o teu respirar sobre a minha partida. Deixa-me. Abandona-me. A tua voz invade o meu silêncio, sem piedade, sem pudor. Não te suporto mais. São gotas de suor a percorrer-me a pele enquanto me desfaço. São sangue as palavras que já te não digo. São chamas as memórias que me castigam os dias. Sou eu despido, no sangue da areia, a desaparecer no vazar das marés na certeza de que já não vais estar mais aqui.

12/06/2015

tsel

Já não ouves o que eu digo. Já nem sabes muito bem quem eu sou, na realidade. Olho-te nos olhos e sei, como só se sabem as coisas que sabemos certas, que já não te lembras que dia é este que te corre sobre os dedos sujos. Nem o mês que delimita o tempo sábio.
Questionas, com a simplicidade dos simples, como se não tivesse qualquer importância, enquanto te treme o lábio inferior como só quem tem a certeza de estar a partir sabe fazer. A certeza de que se está a partir sem se saber parar. Sem se poder parar.
Os dias passam por ti seguros, apenas, por finos fios de imagens frustres e de sonhos conhecidos. Já não sentes o aroma que sobrevoa a tua pele nem o sabor do mar. Já não sabes em que corpo habitas, que espaço ocupas, que lugares são os teus. Olhas, com a terna sensação da queda infinita, o precipício que se abre sobre a imagem de ti e mergulhas sem medo. Como se pode temer o que não se sabe que se deve temer?
Hoje queria pegar no outono. Segurá-lo nas mãos. Verter as cores das folhas que ainda vão cair sobre a terra e ouvir cada uma a quebrar. Debaixo das minhas mãos. Debaixo dos meus pés descalços no frio da manhã. Queria pegar no que resta do outono e segurá-lo no lugar reservado às coisas mais sagradas.
Sabes, tenho o corpo plantado num leito de cardos e cada espinho se crava em mim pintado de violeta. Não podes fazer nada. Já não podes fazer nada para travar este caminho, para parar este pranto, para cessar esta tempestade aberta em nós. Terminou o tempo das coisas possíveis. Resta apenas tentar fugir. Tentar correr. Tentar fechar os olhos e fingir que tudo isto não passa de um sonho cansado.
Hoje sou eu que se esquece do dia. Comecei a desejar não saber, a ansiar esquecer, a legitimar cada infidelidade da minha memória como uma garantia que assegura a distância da tua solidão. Mas, sabes, nas minhas mãos o outono já não cabe. Tento segurá-lo em mim e, quando me olho, vejo e percebo tudo…tenho ainda as mãos vazias. Aqui só cabem os espinhos e a sujidade dos teus dedos. O silêncio que vai do lugar em que tu desapareces ao lugar em que desfaço, vai um quase nada que tem a dimensão de todos os desertos do mundo. Um deserto onde cabem todos os resquícios de todos os outonos que passaram por nós sem que tenhamos feito nada, resolvido nada, sem que nos tenhamos segurado a uma qualquer corrente, mesmo que fosse uma corrente feita de ar frio. Não te seguraste aqui. Seguiste como seguem as coisas que não pretendem, jamais, regressar.
Sei que não me queres aqui. Em verdade, sei que não me queres perto. E eu, por vezes, nos momentos em que as palavras e as ausências dilaceram toda a capacidade de inspirar, desejava quebrar-me como um vidro de cristal em milhares de estilhaços, tão infinitamente pequenos que não pudessem ser jamais vistos. Nesses momentos, perco mais uma parte do que restava de mim e olho para as mãos vazias sobre os pés frios e decido ficar. Decido permanecer como se ficar fosse o único lugar possível em mim. Ficar. Aqui, neste lugar reservado ao fim de tudo.
Talvez tu e eu não possamos mesmo ser mais do que isto. Dois copos de cristal quedados sobre a nudez da pedra fria. Talvez eu e tu não tenhamos mais lugar nenhum do que aquele que aprendemos a ocupar, sem ninguém se aperceber.
De facto, o lugar onde tu morres cada dia é o mesmo lugar exacto onde eu morro.

04/06/2015

Suffisent


Il n’y a quelqu' une possibilité de rester ici après aujourd’hui.
Il faut que je m' arrête sur mon place.

Il faut que tu t’ en vas.
Il faut qu’on deviendrons cendres et le vent peut finir avec nous.

 
Ça doit être suffit, maintenant.

01/06/2015

nada tem importância

quando aprendes a saber esperar.

31/05/2015

esCarpa


Encontro-me na fenda do abismo e, para onde quer que olhe, só vejo o cenário escarpado do meu fim de mundo. Pelas paredes das rochas infinitas, o meu sangue desenha finos rios na paisagem negra.

Vou caindo com o corpo desfeito em lágrimas, rasgando a pele em cada milímetro, partindo os ossos em cada embate, caindo,

caindo,

caindo,

a obedecer, cego, à lei da gravidade exausta.

Tenho a alma rasgada em duas partes. A parte que é de ti e a parte que é só de mim. Desfaço o toque nos dedos quando tento agarrar o que me falta encontrar e, na verdade, continuo caindo,

caindo,

caindo,

a obedecer, surdo, a uma lealdade insalubre.

Encontro-me dentro da fenda deste abismo aberto em mim e, ainda com a alma em lodo desfeita e o corpo em chagas de tristeza, tacteio a rocha na certeza desperançada de poder encontrar o rio.

27/05/2015


encontro teu corpo no embate do asfalto e sinto vontade de chorar.

oiço as vértebras a quebrarem, uma por uma, e sinto necessidade de gritar.

seguro nos dedos a tua agonia e fecho os olhos para te não ver.       

lambo o sangue na estrada quente e compreendo tudo o que terminou aqui.

inspiro a náusea, inteira dentro do meu corpo, e deixo-a cair sobre a tristeza infinda.

23/05/2015

o corpo caído como barro seco sobre a areia molhada.
as ondas do mar ainda não chegaram aqui. a maré cresce na incerteza da noite estar a chegar e vai avançando sedutora sobre o tempo que resta.
há restos de terra no corpo caído. há uma dor lancinante por dentro do movimento.
talvez hoje não deva haver movimento.
talvez hoje seja preciso parar a maré no avançar da areia.
talvez hoje seja isso apenas o necessário para sobreviver.

19/05/2015

por vezes, quase que acredito que muito do que nos mantém vivos é a certeza de haver alguém, em qualquer lugar, em qualquer momento, que se recorda de nós.

amanhã.


É simples, aquilo que descansa sobre a pele. É sereno, o gesto que nos acaricia no começo da noite. É terna, a certeza de que estamos a chegar ao lugar certo. É triste, a saudade do que ficou por ter sido em nós. É vida, tudo aquilo que dança na possibilidade de ser amanhã.

13/05/2015

partir

A dor permanece a ocupar o corpo como se não houvesse alternativa.
Sentes que a vida vai, lentamente, saindo de dentro de ti e te vai abandonando.
A dor é tudo o que sentes quando tudo o resto desaparece de ti.
O silêncio em redor deste quarto é a tua possibilidade para ouvires o que faltava.
Ouve.
Falta pouco agora.
Entoas uma prece, breve, só no movimento dos lábios e acaricias, com gestos de poesia, o ar que te circunda e abraça no frio do cair da madrugada.
Não temes nada. Olhas-te de frente e não tens medo.
Atravessas a imensidão da dor para te encontrares no lugar certo, no momento certo, no momento em que dás as mãos ao que falta e te ouves a partir.
E sorris, no silêncio de um breve e terno movimento dos teus lábios.

palavraspalavraspalavras


São cordas de aço que me prendem.  São cordas de aço que me retêm.
São aros de fogo que me consomem.  São bafos de fumo que me impedem de abrir os olhos.

São garras de corvo que me seguram. São restos de pele no chão que se me perdem.
São palavras soltas que me destroem.  São tempestades que me devastam.

São tempestades que me apaixonam. São ossos secos que me compõem.
São memórias de outrora que me esquecem. São memórias de agora que se me desaparecem.

São angústias que reaparecem. São segredos que se descobrem.
São palavraspalavraspalavras que me despem.

São sentimentos que se perderam. São sintomas que adoecem.
São corpos que se perdem nas estradas. São ventos que afastam a bonança.

São sangue e suor e lágrimas que me fazem. São crenças desacreditadas que dançam.
São melodias de um silêncio que só pode ser eternamente atroz.  São respostas pendentes nas perguntas por fazer.

São palavraspalavrasplavras que não chegam.

São tempos que se evadem na areia do deserto.
São anjos que quedam dos precipícios.  São morreres que morrem  silenciosos dentro de nós.

São vidas inteiras que se esquecem de ser.
São palavraspalavraspalavras que faltam aqui.

São palavras que se prendem nas cordas de aço que faltam aqui.

 

03/05/2015

via





 
 
Atravesso a rua na certeza da ilusão. Não sei o caminho. Ainda assim, não paro. Não paro.
Atravesso a rua na ilusão de que o caminho certo é o que vai aparecer. Agora. Aqui em frente. Não olho para trás. Não seguro o que fica para trás.

Fecho os olhos, por um breve instante, só para me reconhecer ali. Exactamente no momento que atravessam todas as memórias de mim. Desafio o que resta da minha sanidade no calor do dia e devasto os resíduos de agonia que acordaram, há tanto tempo, em mim.
Ouço os sinos das igrejas a clamarem meu nome e confundo-me na maré de gente que me atravessa o tempo. Oiço risos de criança e reconheço quem sou no que ficou antes de mim.
Atravesso a rua na certeza de não saber por onde ir. Os meus passos avançam numa dança insane e sentem cada grão da terra como uma caricia. Toco-me para me saber, ali, naquele momento, e oiço-me rir por dentro.
Atravesso a rua na ilusão da certeza. Não sei o caminho. Mas não paro.

sogNare


Leva-me pela mão mas não te chegues demasiado perto.
Diz-me tudo o que tens a dizer sem que eu te oiça.
Toca-me profundamente quando eu me virar de costas.
Encosta tua alma à minha quando eu adormecer.
Grita-me ao ouvido tudo o que te leva a partir quando eu fechar os olhos.
Respira-me na pele quando eu não já não estiver.
Dança em mim enquanto eu corro.
Toca-me de cada vez que te sentires a morrer e eu seguro-te nos dedos sem te deixar cair.
Conta-me, em segredo, as alucinações que te invadem a alma quando não estás a dormir que eu silencio a dor.
 Leva-me pela mão que eu não te deixo cair.
espero-te na entrada. sei que, eventualmente, acabarás por chegar.
espero-te como se me esperasse a mim mesmo. cesso todos os movimentos, até o respirar, enquanto aguardo. sinto os restos da chuva a passarem sobre meus dedos mas não sinto o frio.
recordo, lentamente, os passos que demos a atravessar as ruas, como nos perdemos das ruínas de nós no pó da terra inteira, como nos deixamos chover sem ter medo algum, como nos permitimos falar até o silêncio ter espaço para chegar, como o vento entoava melodias dentro do nosso sangue, como a poesia era tudo o que a dor deixava sentir.
poderia ouvir-te falar o resto da minha vida inteira.
poderia ser eu mesmo se existir passasse a ser o que acontece a teu lado, para o resto da vida.
espero-te na entrada, onde acabarás por chegar.
espero-te como se esperar fosse reconhecer ter encontrado o lugar de nós no que faltava desta cidade. fui saber-te tão longe, mas tão aqui, no lugar onde eu começo, no lugar onde tu começas, no lugar onde nos encontramos e conseguimos ser mais do que duas solidões perdidas no tempo.
talvez, um dia, possas regressar. talvez, um dia, te reconheças na espera e chegues, aqui, a este lugar onde eu não sei ser eu sem ti.