14/11/2023

ImPaSse

Teu segredo está esculpido nas encostas de basalto. 

É negro por dentro. 

Cor do fogo por fora. 

Cor de ti nos contornos. 

Cor de vazio no peso. 

Pedra negra a desenhar as linhas impossíveis das coisas inevitaveis. 

És sarça que arde no lugar mais fundo das almas. 

Consome-te o fogo, dilacera-te a ânsia, devasta-te a solidão das insónias. 

Sentes aquele medo que se rasga nas mãos quando se deixou de ter medo. 

Aflige-te a certeza da finitude e o teres chegado com tuas mãos feitas de água ao limite da linha do mar. 

Não sabes que caminho tomar. Não queres escolher. 

Talvez , afinal, tenhas medo de ter medo e seja o medo que te impele à indecisão. 

És feito de água. E a verdade é que escorres sempre em direcção ao mar. 

És ribeiro, riacho, rio, oceano, és gota de orvalho, gota de chuva. És tempestade inteira. 

Terás de embater de frente às rochas. Espalhar na pele o negrume do orvalho e no grito a intensidade do fogo. 

Talvez tenhas de consumir o que te destrói para poderes renascer das cinzas

10/11/2023

Quero sentir na boca o frio 

e as tuas garras a arrancar o sangue quente de dentro do meu ventre

Vou agarrar a noite com os dentes para me libertar das mãos e dos pântanos que me consomem

Vou respirar o lodo com a pele dilacerada e abraçar os cardos que cavalgam o que resta dos meus sonhos 

Vou escancarar a fornalha e gritar as labaredas dentro do peito

Vou deixar que os cavalos corram desenfreados na minha liberdade condicionada a estas escaras que eu cavei com os dedos ásperos da esperança 

Quero deitar-me nos contornos de qualquer pele inscrita no carvão enquanto umas quaisquer mãos ditem o caminho da minha (re)condenação 

Quero compreender o silêncio que o fogo tem nas crinas do meu sangue

Espera...

Não...

Quero compreender nada.



27/10/2023

Morreste.

Teu corpo não podia mais. Secou. Sofreu. Desligou-se da dor. Parou. 

Tu ficaste. 

Ficas sempre. 


09/10/2023

Invejo o vinho que te acaricia os lábios 

Cobiço os dedos que seguram os copos e as palavras e os corpos e as vozes

Ambiciono os caminhos que conduzem aos lugares onde nunca se chega a chegar

Tenho sede do mar das mãos que são tuas e da fantasia que é a minha 

e seguro-me no calor errado deste outono para calar a dor

para serenar a ânsia

para alimentar a fome

para reconhecer o desenho do ar dentro do meu peito

Reconheço os grilhões onde sucumbiu a minha liberdade e o vazio em que caí na tua paixão 

Invejo, agora, os lábios que te acariciam o vinho e reconheço que já não sou digno de ter lugar

na imensidão de tuas mãos

na ruidosa calamidade do teu sentir

no caminho que conduzia ao lugar de ti.


25/08/2023

São insignificantemente significativas as coisas que faltam. As coisas que não estão nos lugares que consideramos como certos. Que não são quando as julgamos ser. Que não estão quando estávamos absolutamente seguros de que estariam.

São partes que faltam. Membros. Peças. Sentidos. Pele. Espaços. Lugares.

E depois, pelas coisas que faltam, as coisas que são deixam de ser as coisas que deviam ser e tudo parece, de repente, pintado nas labaredas mornas do inferno que sabemos sempre, sempre, tão próximo da pele.

E aí, no momento em que entendes que nada pode retornar a ser o que havia já sido, tudo adquire um significado incontornável.

09/08/2023

What do you think I would see 

if i could walk away from me?

07/08/2023

por vezes

a falta de ti

é um abismo aberto dentro da minha 

garganta 

enquanto minhas mãos percorrem 

loucas 

todas as possibilidades 

de todos os gestos 

que me aproximam da 

salvação


por vezes

a falta de ti é 

apenas

a falta de tudo

o que possa ter sido

coisa qualquer.  

31/07/2023

O único cenário que me permito vislumbrar na partida, é o manto de luzes que alumiam as encostas da Ilha e que revelam os caminhos de regresso a casa.

Talvez seja no lugar mais escuro da noite, este em que agora me encontro, que procure encontrar o que te ilumina dentro do olhar que é o meu. 

Escavo fundo o abismo que minhas mãos temem ter em ti e recuo, vagarosamente, quando entendo que não poderei encontrar lugares além destas areias que se movem incessantes. 

Pensei que iria haver chamas, labaredas, velas, candeias, lume, mas há apenas os ventos áridos devastados pelos segredos inventados das planicies ocres do deserto das mãos que são as tuas. 

Tanta água e tanta areia no mesmo lugar... Tanta luz e tanto breu...Tanto de divino como de luciferano, mesmo sendo lucifer o anjo que perdeu a luz e as asas, tu és o lugar devastado da devassa ausência de esperança. 

Perdes, a cada momento, a vontade, a tolerância, a sabedoria da espera e a vertigem da demanda. 

Corres sempre, somente, no sentido de enganar o temor de parar. 

Perdeste já o sentido das minhas mãos. Já te não fazem falta.

Eu creio ter perdido o sentido da tua alma,  as linhas da tua pele, o sabor das tuas palavras, o sentido do teu sentido.

Encontramo-nos cada vez mais longe. Tu a correr o deserto coberto de mar. Eu a escavar a luz que mergulha no âmago da noite.

Já não vamos saber encontrar o caminho de volta.

30/07/2023

A noite cai de forma lenta sobre o abandono da ilha.

Não há âncoras. Não há costa. Apenas o movimento ininterrupto das marés e dos naufrágios.

Estive sentado sobre a orla do dia a aguardar que chegasse tua voz nos indícios do vento quente.

Não há âncoras. 

Não há regressos possíveis. Quando se parte, não se regressa jamais da mesma forma. Quando se regressa, não se regressa inteiro, nunca mais.

Não há nenhuma âncora. Apenas o deserto do mar e da imaginada linha que o separa do céu.

Assim me aparto eu.

Creio que jamais saberei regressar do naufrágio deste abandono ao crepúsculo.

25/07/2023

começa do começo. 

conta a história como se contasses o ar. respira como se escrevesses as letras todas das frases inteiras. ignora a saudade que sentes. cessa o silêncio da ausência que te devasta as vísceras e cede à tentação da insanidade. repele o branco do vento e guarda a ferrugem do rancor dentro dos bolsos da pele.

começa do começo. 



onde?

16/07/2023

Se, no absurdo, nos retiram a normalidade, o que é que sobra da nós?


07/07/2023

tenho o fogo a arder e não sei como parar este corpo que se alastra

03/07/2023

Podias ter adormecido a tua voz nas minhas mãos

até eu cegar do mundo.

Tiveste sempre presas as palavras 

dentro do cansaço. 


Deixaste-me 

sempre

à deriva no mar alto 

preso aos dedos cegos

do mundo que silenciou a tua voz.

31/05/2023

canta-me numa morna

suspende-me nas notas quentes

e tristes

da velha guitarra com que choras. 


canta-me numa morna

prometo que morrerei devagar.

23/05/2023

vejo-te as lágrimas caídas sobre a madeira que reveste a mesa. 

talvez não haja, de facto, fim para o que se sofre por dentro da voz, no interior mais fino das planícies desérticas da solidão. 

a sombra das coisas que foram coisas antes de serem apenas as sombras das coisas que eram, vertem seus silêncios, em segredo, por entre os veios tristes da madeira velha. 

não há nada que nos segure a queda. nem a liberdade. nem a gravidade dos gestos. só a força dos agueiros. só a paixão do apelo quente do abismo. mas nada que nos segure nos braços. 

vejo o que permanece distante no reflexo triste das tuas lágrimas. 

não há palavras

nem gestos

nem madeira

nem água

que possa calar o silêncio das sombras. 

22/05/2023

 (...)

Darkness starts inside of things

but keeps on going when the things are gone.

(...)

Darkness Sarts by Christian Wiman

21/05/2023

Tenho-te nos braços quando acordo só e me imagino à deriva. 

Trago-te na saliva quando a apneia me reduz ao sentido da asfixia.

Levo-te nas mãos quando mergulho na altura inteira do mar que me esconde das marés. 

Guardo-te sobre a epiderme para me vestir da tua essência e conseguir respirar.

Inalo o aroma da tua voz e deixo ecoar dentro de mim toda a gravidade solene da poesia que reside na melodia de ti. 

Olho os outros que se movem na correnteza suja da cidade e penso como sou indiferente à névoa de cinza que se abate sobre o tempo.

Tenho só a pele dos braços quando acordo à deriva, no mar alto de cinzas apagado, sem me lembrar de como respirar.

09/05/2023

há fogo a devastar os silêncios

os segredos

as ausências

os erros

os infortúnios. 


há fogo a lavrar os campos

as colinas

as serras

as marés

as palavras.


há lava a cravar a pele

os dentes

as bocas

a saliva

a direcção. 


há fogo a queimar o interior

de mim

de ti

de nós

de vós

de todos. 


resta

esperar

em apneia

pelo regresso 

do prenúncio

da chuva. 

07/05/2023

pousa a mão na terra. 

a pele no alcatrão. 

os dedos no fogo e os lábios no carvão. 

pousa o corpo na terra.

o calor no chão. 

a água no tempo e o tempo na mão. 

larga o sangue na terra

e a despedida calada.


a partida 

depois de chegada

deixa de ser partida. 

28/04/2023

Procuro as palavras certas para te poder ouvir. 


Mas é somente silêncio 

aquilo que trago cerzido na voz.

21/04/2023

Choveu uma chuva sem alma
Nao lavou as ruas. 
Mas trouxe lama e lodo. 
Para cobrir o sangue. 
Para silenciar as palavras.
Para esconder os passos.
Para levar o tempo.

O que fica quando a terra secar?

19/04/2023

Ce qu'il manque c' est la pluie.

Il faut de l'eau. Pour laver le sang des rues e des rues de mon chemin.

J'ais besoin d' eau dans le sang de moi.

15/04/2023

Podes esperar?

Sei que vou demorar. Mas se puderes esperar, nem que seja um fragmento milimétrico de um segundo, talvez chegue a chegar perto...talvez eu acabe por chegar. Perto...

Podes esperar?

Até eu desaparecer?

Prometo que vou demorar. 

14/04/2023

Deixa teu veneno de frutos silvestres na ponta da minha língua.

Quero morrer emersa na agonia de ti. 

acordo

com todas as dores

de todas as preces,

vossas,

nos ossos

na carne

no sangue 


na incerteza da alma 


até nao haver

mais lugar

para doer.

12/04/2023

Paro no meio da rua só para escutar as vozes do mundo. 

Por vezes, 

meu único desejo 

é que tudo se cale.

08/04/2023

Perdoa-me, amor. 

Mas vou continuar a caminhar no lado em que se deita a sombra. No canto mais longo do jardim. Nos caminhos onde não haja outros passos. Junto das flores selvagens e das ervas que danam. No lugar onde a lama permanece porque ninguém se interessa. Onde há pó.  Onde há covardia. 

Não vou ousar os caminhos cheios de sol. Não quero estar ao calor nem a ver os pássaros que fogem. 

Não sei caminhar longe da gravilha e do lodo. Não sei caminhar os teus passos. 

Vou ficar aqui e ser aniquilada pelos leões.  Os leões só devoram aqueles que ouvem os seus rugidos e temem entrar na caverna...

30/03/2023

GaRgalHaDa nO eScUro

"O amor é 

uma palavra 

suada 

entre os meus dedos"

Ondjaki


Se o amor é uma palavra suada entre meus dedos, são minhas mãos a prova da essência que soa, ressoa e entoa quando ouso segurar-te na pele.

Trago nas mãos a palavra que te guarda do interior de minha alma. Trazes na água a antítese da tese sintetizada onde tudo é irremediavelmente intransponível. 

Se te dissesse as letras da palavra sem ser no suor dos dedos, iria chegar-te à garganta um grito ácido que se corroeria por dentro e te iria impelir à fuga para mar alto. 

Há almas que nasceram na gutural eterna insatisfação de não ser possível tolerar ser-se amado. Nem no suor dos dedos, nem no sangue das palavras, nem na profundidade dos gestos guardados no sentido das mãos…

És meu alimento quando vens. Meu naufrágio quando partes. Meu alimento quando partes. Meu naufrágio quando chegas.  Queria poder dizer-te palavras que suam como lágrimas e soam como preces. Não digo. És profeta e herege. Salvação e condenação. Bênção e pecado. Não te posso dizer. Pois queres tanto quanto não queres. Podes tanto quanto não podes. Desejas tanto quanto não desejas. Começas tanto quanto terminas. Terminas tanto quanto começas. Tens tanta vontade de chegar como a vontade que tens de partir. 

E eu permaneço na silenciosa intenção de ir em busca das estrelas que brilham na gargalhada que desperta do âmago da escuridão que te habita a alma. 



29/03/2023

Entranço o cabelo.

Dispo-me das roupas. Devagar.

Desfaço-me do dia. Sem sentir pressa.

Lavo a pele fendida nos ganchos que me sustêm até não sobrar sangue.

Deito-me no chão frio da madeira que sustenta o grito do inverno e permito-me desaparecer no som dos passos que ecoam no ranger do caminho.

Sei que não poderei mais regressar. 

Aceito. 

Fecho os olhos. 

Entrego-me ao silêncio da noite. 

Até que minha pele se funda com a agonia da madeira e nada, depois do vento do norte sibilar, possa sobrar.

27/03/2023

Deixaste-me o sol. 

Espero que regresses antes de eu recomeçar a chover.

23/03/2023

sou o que resta do naufrágio. 

morro na solidão da madrugada, num canto deixado à sombra na praia. tal como os animais de água que perdem o rumo. como todas as coisas que naufragam no alto mar. como todas as peças que se perdem. encalhada nas rochas. 

tenho a boca cheia de água. tenho o ar cheio de água. tenho a pele encharcada. tenho os braços abertos. como todos os pássaros que morreram dentro da minha voz. de asas abertas. de mãos fechadas. com as penas negras nas letras das palavras. 

devia ter mantido o silêncio no segredo e ter aberto as mãos enquanto fechava os braços. vai fazer sempre noite dentro da água que se me arrasta no sangue. vai ser sempre sombra no lado mais recôndito da praia de calhau negro. 

sou o naufrágio do que resta. 

18/03/2023

CeRtEzA

Os pássaros deviam morrer sempre de asas abertas e olhos fechados.

14/03/2023

o anúncio da primavera grita efusiva por todos os poros

de todas as peles

de todos os lugares 

de todos os movimentos deste mundo. 


já só sinto falta do outono. 

13/03/2023

Apetece-me gritar a dor e fazer parar o tempo. 

Cheira a limões acabados de colher e a mortes acabadas de anunciar.

Sei como ruem as vidas suspensas na certeza de que não é o tempo que se move. Eu quero que seja tempo do tempo se mover e da vida poder parar. Se pudermos parar, agora, talvez a morte que te acaricia a pele possa cessar, possa deixar-te ficar.

Quero gritar até que pare a dor do tempo não parar. 

11/03/2023

Danço ao som da tua melodia.

Mas a música parou. 

04/03/2023

Que pode o melro fazer, 

andando num qualquer chão,

em fuga, 

com uma asa partida na impossibilidade do voo?


Que posso eu fazer 

com a alma enrelhada

 no interior das penas pretas 

de uma asa que já não voa?


sEntIdo

permaneço parado

nas sombras do inverno. 


seguras-me com um dedo 

para,

quase de imediato, 

me afastares com as duas mãos abertas. 


chegas aqui

no gesto lânguido das palavras mortas

para logo não estares 

nem aqui nem em lugar nenhum em que eu possa ficar parado. 


o inverno é isto.

pedires-me para me mover

mas se ousar um passo, 

um passo que seja,

nada encontro para além do abismo de frente ao vazio. 


volto atrás. 

vou recuar até me cruzar com os ventos áridos

avançar na direcção oposta

ao lugar que o inverno reserva para ti. 


estou a arder por dentro.

vou consumir o pouco 

o que resta 

antes do primeiro grito da primavera.  

25/02/2023

Juro que sou fiel 

à tua ausência 

ao teu silêncio 

a todas as formas como te libertas dos correntes da minha férrea existência.


Juro que permanecerei em silêncio enquanto 

teu grito me despir

tua boca me esquecer

tua voz me abandonar agrilhoada nas palavras sem sangue.


Despe-me

vou virar-me de costas

deixar que se esbata o que permanece depois das marcas da tinta ocre sobre as linhas de chuva de um qualquer pincel já deixado pelo tempo

pois não irá sobrar mais do que um esquiço rude da forma que me definia na linha das tuas mãos antes de me teres deixado parado no caminho.


Juro que sou fiel ao silêncio que fica por dentro da inevitabilidade da ausência de ti

enquanto as palavras pintadas de uma oração que se acorrentou ao grito que guardo dentro da boca me dançam na insanidade de se não poder ser mais do que esta ténue linha ressequida nas mãos de ferrugem onde antes havia cabido o mar inteiro. 

18/02/2023

São insignificantemente significativas as coisas que faltam. As coisas que não estão nos lugares que consideramos como certos. Que não são quando as julgamos ser. Que não estão quando estávamos absolutamente seguros de que estariam. 

São partes que faltam. Membros. Peças. Sentidos. Pele. Espaços. Lugares.

E depois, pelas coisas que faltam, as coisas que são deixam de ser as coisas que deviam ser e tudo parece, de repente, pintado nas labaredas mornas do inferno que sabemos sempre, sempre, tão próximo da pele. 

E aí, no momento em que entendes que nada pode retornar a ser o que havia já sido, tudo adquire um significado incontornável. 

13/02/2023

Tenho o inteiro do deserto 

desfeito 

dentro da boca. 

A areia a cobrir 

dentes e lingua e sede e saliva

e 

nem um sinal da promessa.

11/02/2023

Ficam presos na garganta...


As ausências. As distâncias. As perdas. 

Os cárceres.  As lacunas. As angústias. 

As incertezas. Os desvarios. As impurezas. 

Os segredos. As obstinações. As intempéries. 

Os sacrifícios. As tristezas. Os irremediáveis. 

As culpas. As desventuras. Os erros. 

As inevitabilidades. As consequências. Os castigos. 

As sentenças. Os pesos. As fugas. 

Os silêncios. 


Tudo agrilhoado no lugar onde habita a voz e se enlevam todos os finos filamentos do silêncio.

04/02/2023

as cortinas continuam fechadas.

não para de chover dentro das palavras.

esqueço tudo.

escorre-me a tinta pelas mãos e não consigo segurar as letras.


em que palavra recomeça a possibilidade de um só verso do poema? 

03/02/2023

encosta a lâmina na minha pele 

dos lábios

encosta a pele da tua mão no sangue que escorre

de mim

como chuva

pela longitude dos cabelos


deixa cair a lâmina dentro do que falta até que consigas encontrar o destino do último gesto contido na incerteza de eu ainda estar aqui

encosta tua pele rasgada no asfalto ocre que exala do meu hálito e sente tudo a arrefecer com a noite


guarda as asas nas mãos

a lâmina na boca

dilacera o que resta de todas as palavras

e cobre tua pele do sangue que termina 

em mim.

 

este é

definitivamente

o derradeiro gesto 

de ti

na minha pele.

01/02/2023

que lugares são esses, os que teimas em esquecer?

que memórias são essas, as que intentas apagar?

porque viajas na viagem, se o ir é apenas encontrar a razão para voltar?


o que fica de quem és quando o calor evapora na noite e as estrelas se desvelam

tímidas

contidas

na imensidão do negrume abissal do espaço que te rodeia?


gritas no silêncio de terra

de barro vermelho


esperas ventos do norte para permitires que a tempestade de areia te cubra os olhos

a pele

o respirar.


que lugares são esses em que te devastas para te lembrares do caminho até ao lugar de ti?


talvez regresses

talvez não possas regressar

mas se o lugar voltar a ser o mesmo

o que restar de ti, já não vai lá estar.

por vezes

vê-se tudo

tão claro,

diante das mãos



até que fecham, 

de novo, 

as cortinas negras das janelas. 

11/01/2023

Por vezes,

só por vezes,

sinto-te na falta

como se fosse devastadora

a tempestade

que acontece em mim.


Preciso

regressar a ti,

apenas por um breve momento,

pelo tempo que me possas dar,

apenas o suficiente 

para eu 

voltar a respirar 

em mim.


Preciso

reter(-te) nas mãos,

só por um breve momento,

a água que me traz de volta.

04/01/2023

Limpa-me nas lágrimas.

Beija-me nos olhos.

Segura-me nas mãos.

Acende-me nas labaredas.

Apaga-me no anoitecer.

Suspende-me no tempo.

Mata-me ao amanhecer.

Recorda meu nome.

Cala-me na boca.

Repete-me no arrepender.

Desvasta-me no corpo.

Fere-me na língua.

Serena-me nas marés. 

Enrola-me na areia.

Suspende-me no tempo.

Grita-me no devir.

Diz-me que me queres.

Compreende-me na dor.

Deixa-me a queimar.

Arrepia-me no ouvir-te.

Canta-me no poema.

Faz-me partir.

Ajuda-me a chegar.

Mostra-me no caminho.

Atira-me ao mar.

Alimenta-me de ti.

Rasga-me a roupa.

Mata-me na sede.

Prolonga-me no momento.

Silencia meu grito.

Puxa-me para mais perto.

Suspende-me no tempo.

Deixa-me cair.

Volta para trás. 

Olha para mim.

Cala a minha dor.

Limpa-me nas tuas lágrimas.

Vou começar a queda com a dor suspensa nos asas dos lábios que seguram o grito em vácuo. 

Todos os passos chegam para chegar ao mesmo destino. Cair. 

O corpo sucumbe o zunido persistente que habita o interior da minha resistência. 

Minha voz não tem som. Se tentasse falar, soariam notas de um piano que se desafina no preciso momento em que embate de encontro às rochas do tempo já sido. 

Percorrem-me palavras arrepiadas pela pele do corpo. Sinto-me prestes a sangrar,  por dentro. A chorar, por fora. A cair, simplesmente a cair. 

02/01/2023

LadO B

o que queres de mim 

é o que habita o lado errado de quem eu sou.

a perversão. a sujidade. o odor a fel, a sexo, a cinza e a lodo. 

o que amas de mim

é o que reside no lado errado do que precisas. 

a mão que fere. o olhar que nega. a pele que arrepia. o dominar do tempo. o espaço ocupado com todos os balaustres da tua forma. as paredes pintadas de negro. as feras à solta nos dedos. os gritos obscenos velados no silêncio da indiferença. a ternura que mente. 

queres que seja o que desejas que eu não chegue a ser. 

só sendo o que não deveria ser poderei ser o que queres que seja.  

o fosso. o abismo que te invoca à queda livre até

que embates na realidade do que não te posso ser e me deixas

despido

devassado

desmembrado

no golpe fatal que repousa, 

sereno, omisso, desalmado, silencioso, 

na profundidade atroz das tuas mãos. 

28/12/2022

Sonhei o teu corpo despido em contra-luz na janela do jardim.

De seguida, sonhei um tigre branco que atravessou o ar e me tocou nas mãos e se deitou aos pés do tempo.

Depois, sonhei-te com uma outra mulher que sorria segura pelos fios das tuas mãos trémulas.

A seguir vi a minha sombra a atravessar o jardim, descalça, a passar sobre o pêlo do tigre que dormia na alegoria de (eu) ser uma ilusão, a arrastar os fios quebrados presos no tempo da pele, a caminhar, sorrindo, em contra-luz.

20/12/2022

POnTo

Jaz um estorninho no feio cinzento do manto de uma qualquer rua pérfida desta cidade.

Não há nenhum canto de nenhuma ave a entoar no silêncio obscuro deste dia.

Em cada lugar de cimento a desfazer-se do tempo como acontece aos ferros de ferrugem que seguram a ponte, encontro a memória de ti.

Em cada agressão da voluptuosa dinâmica da cidade cheia, deparo-me com a lembrança da tua voz.

Em cada folha caída, raiada de vermelho, tingida do receio do inverno, encontro tua pele. 

Em cada momento perdido da iminência antecipada da angústia da chuva que faz quedar todos os anjos do céu numa devastadora agonia concertada pela falência certa da humanidade, encontro tua língua.

Em todos os sabores de todos os ventos de todas as ruas e vielas tristes, ou entusiastas, perco tua mão.

Jazem os pássaros, as ruas, as folhas e os mantos de água nas minhas mãos gravosas.

12/12/2022

Os pássaros calaram suas tristezas nos bicos.

Recolhem seus corpos de asas para dentro da constatação do inverno e cessam o sangue de correr sob as penas. 

Gritam por dentro. 

Morrem lentamente, enquanto esperam, melancólicos, pelo recomeço da primavera.

11/12/2022

Quando o mundo fere, inteiro, por dentro as palavras ficam presas nas mãos.

Quando a vida grita, inteira, a tinta implode por dentro da alma e incendeia o poema. 


Somos nada

Absolutamente nada.

10/12/2022

Caminho desavinda de lugar nenhum.

Percorri as ruas vazias da minha inquietude e foi a este lugar que cheguei.

Não reconheço nada.

Não está aqui ninguém.

Há apenas o silêncio que se escuta debaixo de água e

cheiram a podre e a lixo estas ruas que desenham os traços e os troços do resto que ficou de mim.

Há sujidade por todo o lado. Minhas mãos estão cobertas de terra apodrecida, barro negro que me escorre nas veias da pele e dentro da boca.

Escavo estas ruas dentro do peito até aquietar o desassossego de quem não tem lugar.

Por tudo o que vejo,  permanece a água que escorreu das iras do tempo. Água que lava e que leva tudo o que encontra. Até o silêncio que se aquieta por dentro de si mesma. Até percorrer os caminhos e chegar, vinda de um qualquer lugar, ao lugar onde eu já não caminho.



20/11/2022

Não venho aqui ouvir os pássaros 


Venho 

lacrar a vossa ausência.

19/11/2022

VÁcuO

Recolhes-te

dentro da tua angústia 

por debaixo dos seixos negros 

na orla da costa que respira a lava que

quem 

olha de fora

não consegue 


ver.


Fechas 

teus olhos 

como quem 

fecha as mãos 

e 

ficas

virado para o interior das tuas ausências 

com a dor 

a apontar 

o caminho

que 

fica 

para 


norte.


Seguras

em silêncio 

todas as mágoas do mundo

que colide 

com todas as areias 

perdidas 

nos caminhos 

do deserto

que te devasta

por dentro

a cegueira do caminho

que 

de frente para ti

te foge das mãos 


fechadas.


Somente

o tempo

vestido do negro dos seixos

despido do silêncio do mar alto

te poderá 

trazer

de volta

ao caminho 

onde 

deixaste

teus olhos


abertos.

16/11/2022

Toca-me.

Mais uma vez.

Prometo que não fico.

Prometo

que

não volto.

 

Deito-me, despido, sobre o beiral do tempo. Conto cada dia que passou nos dias que foram noites e sei o tempo todo que estive suspenso na tua sede.

Sei a fina lâmina que me lambe o lugar escondido que tuas mãos ocuparam no interior de meu corpo vazio.

Deleito-me na sôfrega certeza (ou somente memória) da vontade de me vestir dos contornos da tua desvontade.

Intento entregar-me (nu, descalço, com labaredas a emanar dos contornos da pele), à fealdade da violência que abraça a tua ausência quebrada no lugar vulnerável da condição de se não poder ser nada para além de selvagem.

Mas tua voz é sempre o meu lugar de redenção. O lugar onde o sol repousa. Onde o mundo para de gritar.

Sorvo cada som vibrado da tua fala, cada tom a saber tornar-se nos fios com que me defino na forma inteira, e tuas palavras e o aroma de tua pele nos meus dedos, são tudo o que me alimenta.

Transcendo a essência do ar que respiras longe de mim.

Quero-te tanto quanto te não quero.

Desejo-te tanto quanto te não suporto.

 

Toco-te.

Uma última vez.

Prometo

que

não

volto.

15/11/2022

quedam

desenfreadamente

sem rédeas ou amarras

rajadas oceânicas de chuva

que limpam esta terra 

e nela desferem seus golpes impiedosos

disfarçados nos fragmentos da névoa que tudo abraça 

cegamente

no rescaldo do ruído do cinzento

e a única coisa que me podia salvar 

do dilúvio  

seria 

se o por do sol que reside dentro da tua voz 

pudesse chegar até ao aqui.



13/11/2022

 está na hora de te deixar ir

04/11/2022

Inalo o sangue que respira dentro das tuas lágrimas caídas 

e rasgo a pele do peito enquanto corro, 

despida, 

nos lábios frios da sanidade insandecida do inverno que se abate na chuva incessante que só acontece por dentro da minha alma.


03/11/2022

ManChEstEr

Toca-me

no canto mais putrido de minha pele

no ângulo mais sujo de meu abismo

no resto mais devastado da minha continuação 

na letra mais tosca da única palavra que me habita a lingua.


Diz-me tudo o que sabes 

sobre as linhas tortas do meu destino tortuoso 

sobre a cor da sombra dos meus dedos arrefecidos na queda do dia

sobre a rugosidade dos calhaus secos que me colhem a pele e me cobrem os olhos abertos


Grita

no meu ouvir

no que já não sei sentir

no que é sem ser e é por já ter sido

e

depois

peço-te



abandona-me ao vento.



19/10/2022

Deslizo

pela viagem de tua voz

até perder o norte.


Desfaço-me

na memória da tua pele

antes de atravessar o sul do deserto que acaba

precisamente

antes do lugar de mim.

18/10/2022

EsQuIÇo

Teço-me em finos fios de fogo
desenho-te em eternos fios de ferro
junto todos os fios em traços de areia pintada
na ponta do carvão 
e deixo tudo
tudo
na beira da janela
à espera 
que chegue a chuva.

14/10/2022

Não digas uma única palavra.

Temos de parar agora.

É tempo de cravar a areia dentro dos olhos. Escavar o asfalto dentro da pele. Esculpir o gelo dentro da alma. Esvaziar os lugares de todas as palavras.

Temos de parar agora.

Não digas uma única palavra.

13/10/2022

cheiro o peso da manhã em todos os cantos da tua solidão 

04/10/2022


Não questiono nada. Coloco em minhas mãos, o lugar vazio das tuas. 
Reconheço que são
tua voz e tua pele
o princípio e o fim de todas as coisas.

Minha língua entoa uma oração incompreensível que apenas eu conheço. Que não revelo a ninguém.  Como se fosses o silêncio mais bem guardado de todos os segredos. 

Respiro fundo o ar que te sustenta e reencontro-me num lugar reservado à vida. Reservado ao tempo reservado à possibilidade da vontade de ser tempo reservado para ser tempo. Um lugar de vida viva por ser um tempo breve do qual desejo que voltes sempre a partir. 

Fecho os olhos para te ver inteiro enquanto te sustenho na ponta dos dedos, enquanto me revisto do aroma da tua pele, enquanto completo a areia nos lugares esvaziados da travessia.

Rezo. Ao teu D. Sem que lhe peça nada. Rezo apenas como quem canta o silêncio, como a brisa quente de Outubro que lambe as folhas do chão e as leva a dançar, serenamente, por entre as árvores que quedam dentro de nós.

Escuto, por entre preces, a areia, a pele e o vento, todas as coisas que me não podes dizer.
Guardo todas as sílabas, todas as palavras, e deixo que repousem sobre a pele da língua, sobre a saliva dos dedos, sobre a certeza da incerteza, para poder saber tudo o que me disseste. 
Escuto. 
E
em breve
deixo tudo partir. 
 


02/10/2022

O inferno 

é 

o lugar onde 

ficam

teus olhos 

de cada vez 

que 

fecho a porta. 

Há um negrume que se instala no azul do céu de uma tarde cansada. Anuncia a certeza de que a chuva regressa, em breve. As gaivotas choram o canto dos abandonados enquanto esvoaçam, erráticas, desamparadas, num rasto de um qualquer caminho...para terra, ou para o mar? Debatem- se com a incerteza segura de que a vida é uma escolha permanente e que, por fim, termina na causalidade escolhida. Em cinza. Ou em abismo. 

Penso em ti enquanto caminho o chão de areia. Talvez seja a água que choras de dentro da pele, aquilo que te tenha transformado os pés em barro. 

29/09/2022

São sombras dos teus gestos que reencontro na chuva que me desenha a pele. 

Fecho os olhos 

e fecho as mãos. 

Deixo-te partir

mas trago-te, 

durante um momento, 

agarrado aos dedos fechados sobre as minhas mãos. 

Um momento

é o que me basta 

para suster 

a ilusão, 

consentida 

de que

é possível 

segurar(te)

a água.

E,

logo de seguida,

largar.

27/09/2022

Não sei o que causa maior temor... que me esqueças ou que eu me esqueça de ti. 

23/09/2022

R.

Morreste nas lágrimas das minhas mãos.


Neste momento, na noite ébria, queria apenas sentir teu corpo na minha língua, nas minhas mãos, na minha pele...

Não há, neste preciso momento, mais nada que me possa fazer sentido senão a incontornável ausência de tua voz.

Emana, de mim, o aroma a lima, a mosto e a fumo e é nesse lugar, sombrio de tão vivo, que me cruzo com a certeza do lugar de ti. 

E termino, nos resquícios do verão que abandona este lugar, a ansiar pelo que me não pode chegar a ser.

22/09/2022

Penso em ti. Um cavalo selvagem, sem rédeas, a correr desenfreado pelos campos e dunas e desertos e praias. Um cavalo puro, de crinas ao vento, livre. E mesmo assim, trago-te agarrado à pele.


17/09/2022

Seguro, na língua, as pontas da tua voz ferida. 

14/09/2022

 cubro meu sangue com a infinitude da tua pele.

09/09/2022

estou seguro que as minhas mãos são feitas de areia. meus pés feitos de areia. minha pele tornada areia. dá-me um pouco de água e transformo-me em barro. deixa-me aqui e partirei com o vento do deserto. 

08/09/2022

a ausência é lugar de nada

soa uma melodia qualquer por entre os silvos do vento a entoar preces por entre as folhas despidas das árvores que se cansam de aguardar pelo outono 

dança-se, numa dança sem sentido, que se vai fazendo com esse nada que passa a ser o lugar de tudo. 

24/08/2022

 (...)

beneath the stains of time

the feelings disappear

you are someone else

I am still right here


(..)

if I could start again

a million miles away

I would keep myself

I would find a way


Hurt

Johnny Cash

21/08/2022

OrAçãO

Segurei-te nos braços e na voz, quando tiveste medo.
Lambi-te as feridas e comi do sal, do sangue e da terra que te compunham, até voltares a ti.
Amei-te o desespero e a desesperança, tapei teu corpo gélido com minhas mãos abertas na pele, e fui a carne e a palavra no secreto silêncio que duas almas encontram na sede de deserto.
Fui teu porto, teu barco, teu abrigo, teu canto de cisne. Fui, sendo, mas sem ter nunca chegado a ser.
Estava onde tu estavas, mas tinha sempre uma asa pronta para voar. A asa que rasgarei depois.
Pousei os pés nas areias movediças do que acontece por dentro de ti e não fui capaz de fechar os olhos e me deixar ir.
Fui, sem ter chegado a poder permanecer.
Atravessei o deserto até chegar ao mar alto. É nesse lugar que me encontro agora, onde há um abismo aberto de baixo, inacabado e incerto, e fico ao sabor das ondas e à mercê das marés com a certeza incerta da constância das inconstâncias, de que me afogarei em breve, abraçada ao castigo que se me impõe a natureza fielmente cruel da minha incapacidade de me manter à tona de água. 
Segurei-me nos teus braços e na tua voz. Usei as palavras ditas e os silêncios de lugares em branco, e preenchi o remanescente das linhas com as mentiras do meu próprio poema. E agora parto, para ir buscar as penas e deixar a pele, para me afogar, sozinha, por dentro do meu firme declarado caminho.

Estás longe.

Num lugar de mar alto onde eu já não posso chegar.

Num lugar onde já não há terra para eu ter lugar. Onde já não posso ouvir-te na voz porque já não há nada que me queiras dizer. Onde minhas mãos está vazias e já não podem tocar. Onde o silêncio da distância ausente transfigurou tudo.

Já estou demasiado longe.


20/08/2022

Arranco uma asa.

Ouço te a gritar.



Arranco a outra.

18/08/2022

Cresce-me um fogo por dentro. Arde-me na voz. Arde-me no peito. Queima-me na ponta dos dedos que sinto desfazerem-se no vento que assola esta terra a oriente.

Desenho linhas que não consigo ver, usando a sombra do sangue da tua ausência...e espero que não chegue a suster-me no apelo do abismo.

Ou talvez espere chegar à orla da rocha negra dançando como um dervixe, na esperança que D me segure nos dedos de cinza e me traga de volta ao lugar anterior a este lugar que é apenas um lugar vazio. 

Sinto a crueza cruel do (des)sentido deste lugar que, por tu não estares, deixou de fazer sentido. 

Diluo meu sangue na sombra do teu, enquanto procuro nas mãos as linhas para desenhar meu passo seguinte. 

Por vezes temo não conseguir avançar pois tudo em frente, atrás, de lado, tudo o que meu olhar alcança, está a arder. Sou eu quem está a arder.

Outras vezes, sei que vou dançar até encontrar as clareiras e as linhas desenhadas com as cinzas que trago na voz, até o (des)sentido voltar a ser lugar de sentido.

O vento mantém um fogo a arder-me por dentro. Até que eu possa mudar de lugar, até um lugar fazer sentido. 

Queria ouvir-te.




Mas não tenho nada para te dizer.


Queria poder falar-te.



Mas não tens nada para me ouvir.

15/08/2022

Falta 

uma 

palavra.

11/08/2022

pensei que podia esquecer tudo. aceitar o que não sobrou. desfazer o que estava feito. deixar o já desfeito à sua própria sorte. preparar-me para sair. preparar-me para não regressar. acreditei que podia não regressar. mas não cheguei a sair daqui. 

Esvazio a casa. 


Dia após dia. Sem demorar. 

entrego

desfaço

elimino

esqueço

destruo

perco

cedo

dou


Remeto para qualquer lugar, mais um fragmento de mim. Um de cada vez. Mais um de cada vez. 

Não sei bem o que vai sobrar quando tudo terminar.

Agora ficam apenas as paredes

o tecto

o chão 

e as janelas fechadas na penumbra. 


Esvazio uma casa. De novo. 

Até não restar mais nada. 


08/08/2022

Estou parado no meio da estrada.

Os carros passam de ambos os lados de minhas mãos. Por dentro e por fora. E já não sinto quando me atravessam. Já não sinto nada. Parece que tudo parou na ausência. Talvez seja a tua lonjura que desfaz a minha (des)presença. Estou distante da distância de ti. Tu estás infinitamente longe de mim. 

O que nos distancia é inequivocamente maior do que o que nos poderia unir.

Fico parado no meio da estrada até escurecer. Até não haver mais carros. Até conseguir fechar as mãos e voltar a andar. 

28/07/2022

lOuCuRa

Minha maior loucura, foi amar-te. 

e se a loucura for um erro, meu maior erro foi amar-te. 

e se a loucura for um arrependimento, meu maior arrependimento foi amar-te. 

e se a loucura for dor, minha maior dor foi amar-te. 

e se a loucura for angústia, minha maior angústia foi amar-te. 

e se a loucura for solidão, minha maior solidão foi amar-te. 

e se a loucura for idiossincrasia, minha maior idiossincrasia foi amar-te. 

e se a loucura for sofrimento, meu maior sofrimento foi amar-te. 

e a loucura é, intrinsecamente, todas estas coisas. 

foste, portanto, o maior erro de um arrependimento doloroso, envolto numa angústia solitária, idiossincrática de tão sofrida. 

25/07/2022

Se embateres de frente no que te impede o caminho, ou paras ou saltas...

Se parares, deixas de poder ir.

Se saltares, onde irás parar?

Não precisas de quem eu sou no que sobra de ti.

Deixo-te ir.


Já não regresso mais aqui.


Fico pendurada

Pela pele dos dedos

Pela pele das costas

Em ganchos de carniceiro

À espera que a gravidade me rasgue

17/07/2022

Sei 

que te amo 

quando, 

em demasiados momentos, 

todos os lugares te trazem 

até mim. 


Sei 

que não te posso ter

quando, 

em todos os momentos 

de todos os lugares,

não sou capaz de

te pedir 

que venhas.

15/07/2022

Somos os espaços em branco das nossas vidas.

Nos espaços em branco há lugares que são vazios. Lugares vazios são lugares em que cabe tudo. Lugares em que tudo cabe talvez não seja possível deixar ficar nada. 

14/07/2022

O vento quente atravessa-me na noite e leva-te do que resta da memória de mim.

Nenhuma estrada encontra o caminho de volta ao lugar em que o que ficou, ardeu por dentro.

O vento leva as palavras ardidas e deposita as cinzas pelos cantos da cidade.

10/07/2022


21.


E isto é tudo o que pode ser neste espaço em branco.

08/07/2022

sei 

sem querer

o peso 

que inflige

a falta 

de ti 

no interior 

do deserto

desfeito

das minhas 

mãos 

vazias


03/07/2022

Tenho o corpo solenemente cansado mas é a vigilia que me comanda.

Queria poder fechar os olhos nos intervalos do tempo e permitir ao lugar do corpo voltar a ser lugar da vida, mas há grades negras de sonhos putridos que me calcam o tempo e me devolvem ao acordar.

Meu leito é de ferro e não amansa, nunca.

Meu corpo é de restos e assim não retoma a ser inteiro, nunca.

Minha noite tem os intervalos de mim, entre o sonho e o nada, sempre a tornar-me mais lento, mais fechado, com maiores intervalos entre o que sou e o que não sou.

É a vigilia que me comanda no segredo do silêncio da noite cansada.