Respiro pesadamente
aqui
onde o tempo não permanece
aqui.
Respiro imensamente
enquanto procuro
sem procurar
o lugar onde
por mais uma vez
me esqueci.
aqui.
Não pertenço
a este lugar
de aqui.
Respiro liminarmente
aqui
onde uma ultima vez
me perdi.
De aqui.
14/08/2017
siLênCio
Seguro nos dedos o silêncio.
Lá fora, tudo permanece num movimento incessante.
Ouço tudo que acontece fora de mim. Tudo o que permanece fora de mim.
Fecho as mãos sobre os dedos.
Silêncio.
Abro os olhos para me saber vivo. Seguro-me, imutável.
Inalo o ar pesado da tarde ardida em labaredas que não cessam nunca. Limpo as cinzas do cabelo e desfaço-me por dentro.
Seguro o silêncio na ponta dos lábios. Não digo o que sinto. Não me sinto no que fica por dizer.
Há granito nas minhas mãos queimadas. Granito que se desfaz em cinza de cada vez que me ouço por dentro.
Sento-me na distância de mim e abro as mãos.
Fecho os olhos.
Silêncio.
Lá fora, tudo permanece num movimento incessante.
Ouço tudo que acontece fora de mim. Tudo o que permanece fora de mim.
Fecho as mãos sobre os dedos.
Silêncio.
Abro os olhos para me saber vivo. Seguro-me, imutável.
Inalo o ar pesado da tarde ardida em labaredas que não cessam nunca. Limpo as cinzas do cabelo e desfaço-me por dentro.
Seguro o silêncio na ponta dos lábios. Não digo o que sinto. Não me sinto no que fica por dizer.
Há granito nas minhas mãos queimadas. Granito que se desfaz em cinza de cada vez que me ouço por dentro.
Sento-me na distância de mim e abro as mãos.
Fecho os olhos.
Silêncio.
tiNta
posso pegar na folha e chegar a lado nenhum. ler todas as palavras em todas as letras de todas as linhas e não chegar a lado nenhum. podia voltar a tentar, começar do principio, pegar pelo fim, acreditar que tudo ia mudar e, mesmo assim, não chegar a lado nenhum.
projecto-me sobre o rio e caio na água fria. faz frio aqui quando abro os olhos, quando me levanto, quando pergunto por ti e não ouço nada de volta. deixo-me cair na água com o peso inteiro do mundo sobre minha pele. deixo-me diluir na água com o peso inteiro de ti sobre o pensamento. e quase me afogo. quase me desfaço. quase que me vejo impossibilitado de começar de novo.
escrevo as palavras sobre a água do rio enquanto faz frio dentro de mim. pensei que podia começar a chorar quando a minha voz perguntou por ti. mas não. hoje não. hoje começo partindo do fim e termino (n)as palavras todas.
31/07/2017
não há espaço para existir aqui
não há espaço para existir aqui. só paredes e este corredor que meus passos excedem e que não conduz a lugar nenhum. não há espaço para respirar aqui. para gritar. para correr. para voar. as grades circundam o ar a lembrar que não é possível fugir. o tempo que se suspende no corpo a lembrar que não é possível sonhar. não há espaço para existir aqui e eu morro um pouco mais cada noite que passa. respiro um pouco menos. movo-me até não ser mais possível e acabo por me fundir no lugar que ocupo. como se fosse nada. como se em nada me transformasse. como se ao nada finalmente regressasse. não há espaço para existir aqui por isso me morro. por isso desvaneço. por isso cesso de respirar até ser absolutamente nada.
28/07/2017
vEnto
Deixei de poder escrever.
As letras
saíram das palavras e perderam o caminho de volta. Não há retorno quando tudo
cessa de respirar. Não há possibilidade de retorno quando se deixa de poder existir.
As folhas voaram no vento da
noite. Sabes que faz vento aqui? Sabes que tudo se funde com a noite quando tudo
se extingue numa espiral insane pelo vento dentro e não encontra o caminho de
volta?
Vês as minhas mãos na pele? Vês
as minhas mãos nos espinhos? Conta-me os passos enquanto me dirijo até ti. Conta-me
nos momentos em que eu quase que desapareço do teu olhar e tu perdes o caminho
de volta. Para mim. De mim. Em mim.
Deixei de te poder escrever. Escrevi-te
metade da minha vida inteira e agora não consigo mais. Cheguei ao fim do caminho.
Não encontro os passos de volta. Leva-me o vento.
Extingo-me na noite.
26/07/2017
forGive
Perdoa meu embaraço. As palavras
confundem-se dentro das vozes e as vozes confundem-se dentro dos olhos e os
olhos dentro das mãos e as mãos dentro da distância e a distância dentro de
mim. Perdoa minha angústia. Sou o que fica quando tudo termina, os restos da
pele sobre a terra molhada, as sombras das folhas que o tempo fez cair, a
penumbra dos lugares onde a luz nunca poderia ter chegado. Perdoa meu
desespero. O facto de respirar apenas porque o corpo continua a seguir, continua
a continuar a não parar a não ceder a não serenar. Perdoa a minha certeza. A de
que vou chegar ao ponto em que existir sem viver não pode mais continuar a ser
o lugar que me cabe. Perdoa quando eu partir.
25/07/2017
Toquei-me na esperança que o dia
terminasse. Contei as tábuas do caminho enquanto a chuva me macerava a ausência.
Falei incessantemente para uma parede vazia e nada do que disse chegou a fazer
sentido algum. As palavras só têm significado no escutar dos outros.
Se as palavras não forem ouvidas, de que vale serem proferidas?
escutA-me
escuta-me.
são sombras que te atravessam a pele. são restos de memorias
vividas que te invadem e te colocam no espaço caótico em que te revês.
Escuta-me.
este é o lugar em que te reconstrois, em que recomeças, em
que te podes reencontrar com quem eras antes de ti.
Escuta-me.
são apenas diabos a perseguirem-te por dentro mas tu tens
escolha. Tens onde te segurar.
Escuta-me.
não precisas de desistir agora. Estamos quase a chegar.
21/07/2017
ágUa
comecei por colocar os dedos sobre a água até deixar de ser.
perdi a pele sobre o tempo até deixar de ver.
troquei os passos pela dança até enlouquecer.
comecei no principio das coisas terminadas até ter destruído tudo
comecei por colocar a água sobre as mãos até adormecer.
18/07/2017
antÍtese
Não tenho que fazer nada. Não tenho de me mover. Lá fora tudo acontece, tudo está em movimento e eu aqui parado. Cessei no tempo que não passa. Tudo em torno de mim se move excepto eu mesmo. Estou, talvez, na antítese do lugar que havia construído antes de chegar aqui. Tracei as linhas certas do caminho certo mas acabei aqui, neste qualquer outro lugar que me é profundamente estranho e onde não me sinto. Tacteio a pele dos pés sobre o vento frio do norte para me saber vivo. Olho a noite que abraça o céu e revejo-me no reflexo deste tempo que me olha sem me ver. Penso no espaço que vai deste lugar até ao centro do universo, até ao lugar onde se termina de respirar e perco-me nas barreiras da angústia. Tudo acontece fora de mim enquanto eu respiro na incerteza de que o ar exista, na inválida insegurança de que pode chegar o dia em que eu possa, por fim, quedar-me deste lugar e encontrar o centro da noite.
me myself & i
sou um lugar em que nada começa e em que tudo termina e não cresce, em que tudo nasce sem razão e em que não há razão em nada do que sinto e o que sinto são coisas imensamente distantes e estranhas e confusas e difusas e o que vejo são precipícios em que me quase que quedo e em que me quase que despedaço sem ter nunca começado verdadeiramente a caminhar e em que o caminho é sangue em feridas abertas ao sal das lágrimas que, em silêncio, desvelo e em que a terra que penso ter sobre os pés é apenas areia e em que os meus passos são apenas as sombras do que resta de mim quando tudo o que acontece por dentro me rouba as palavras e me desfaz a linha do pensamento e que dança dentro de mim e eu perco o norte e perco o sul e perco todos os pontos cardeais e deixo de poder contar seja com o que for, seja com quem for, e em que não encontro nada porque tudo o que está em mim está além de mim e aquilo que sofro ninguém entende nem ouve nem sente e eu não me consigo tocar nos dedos não me consigo tocar nas feridas não me consigo encontrar dentro de mim e sou um lugar em que termino sem ter chegado a começar porque de cada vez que dei lugar ao movimento, caí dentro de um vórtice dentro de uma aresta, dentro de um degelo dentro de um abismo, dentro de uma solidão tão estranha em mim, e procurei - confesso que procurei - por mim em todas as vozes em todos os ruídos em todas as pessoas que se puseram entre mim e mim e entre mim e o fim e entre mim e o começo e entre mim e outro lugar em que eu não precisasse de acordar, em que eu não precisasse de ser, em que eu não precisasse de nada para poder continuar, mas algo em mim me consome e dilacera, me termina e me assusta e me conduz a um lugar que não conheço dentro de mim e que não sei explicar e que não gosto e que me segura com garras fundas de noites inacabadas em que a única coisa que me podia salvar eram os que não estiveram não entenderam não souberam ouvir não quiseram ficar e não me agarraram nas mãos nem na alma, que me podiam ter segurado nestes finos fios de seda que ainda me prendiam à vida e por isso sou o lugar em que já nada pode começar porque tudo já teve o seu lugar e agora sou o que sou dentro de mim e não tenho as palavras que me possam libertar deste lugar em que uma parte de mim permanece sem poder fugir e outra onde me desfaço na mais absoluta solidão dentro do que resta de mim.
17/07/2017
comecei pelo fim. sangrei-me nas mãos e na alma até me diluir inteiro na chuva. comecei incessantemente a terminar no dia em que percebi que o acto de existir era superior a mim. ninguém viu quando tudo em mim ruiu pela primeira vez. quando deixei de saber sorrir. quando deixei de saber falar sobre o que acontecia em mim. comecei a terminar da primeira vez que me vi e deixei de ser eu e desde então, atravesso desertos que não terminam nunca e rasgo o meu corpo para saber que existo para além de tudo isto que não sei explicar mas que acontece em mim.
15/11/2016
inVerno
Percorro o tempo que se instalou dentro de mim com a ponta
dos dedos. Está frio lá fora – sabes que o inverno vem a chegar? – e começo a
sentir o peso da minha roupa vaza de
corpo. Pego nos restos da tua voz e coloco-os sobre o meu escutar. Estou cego –
sabes que o inverno vem a chegar? – como se vivesse na parte mais funda das
noites que não sabem terminar em nós. Tento ver-te no fundo do meu vazio e não
te encontro no corpo, não te sei na voz, não te escuto no tempo. Sei que o
inverno vem a chegar. Guardo-me na ponta dos dedos e fecho as mãos. Espero que
chegues.
luAr
Foi no segredo do luar que nasceu
no dia angustiado que comecei a rezar. Entoei todos os cânticos que não aprendi
e reservei-me no lugar mais fundo do começo da noite. Extasiei-me perante a imensidão
da luz que me atravessou e corri dentro da minha nudez a tactear o ferro do
chão. Cresceram sebes e flores no silêncio das palavras adormecidas e dancei
com os espíritos do meu passado. Gritei ao vento o meu nome e deixei-me cair
sobre o frio da madrugada. Passei o tempo inteiro de mim no relento da minha
vida. E comecei a rezar até me encontrar na voz e recomeçar o dia.
10/05/2016
Escrevo sobre linhas invisíveis na
esperança de que as letras não desapareçam na tinta.
Invade-me uma tristeza infinita
coberta de tons azuis. Sinto a dor a
dilacerar-me o peito por dentro e as vísceras a sangrar. Doí-me tudo,
inteiramente, como nunca antes.
Imagino o que o vento trará na
maré que vai chegar e tremo na imensidão da minha angústia.
Choro em silêncio o segredo da
solidão antiga. Desfaço-me num mar de lágrimas e quase me deixo ir na vaga.
Peço-te que não me deixes agora senão
perder-me-ei. Peço-te que não me deixes cair agora pois temo não voltar a
erguer-me.
Olho para o que fica de frente
com um olhar de quem já tudo viu. Permito que o passado descanse sobre um sono
antigo.
Inalo o cheiro da terra depois
da chuva e procuro os resquícios do mar na minha pele.
Respiro fundo e encontro as palavras
na tinta da terra. Procuro reencontrar o respirar enquanto sigo em frente.
30/04/2016
Estou apenas a aguardar que o
tempo cesse de correr. Estou à espera de que os ossos cessem de ranger dentro
da terra que me cobre. Estou a sentir o corpo a acinzentar enquanto o alcatrão
aquece sob o calor que emana da tua raiva. Procuro as sombras que restam nas
ruas que faltam para chegar a um qualquer lugar. É a última vez que te pergunto
porquê. É a última vez que te digo porquê. Estou a aguardar que o tempo mude e
deixe de fazer calor. Sinto o corpo a morrer na incerteza dos dias que não cessam
de continuar. Os meus pés estão gelados sobre o alcatrão molhado do orvalho do início
dos dias em que me sei sem verdadeiramente me reconhecer. É a última vez que te
pergunto. É a última vez que te digo. Estou a sentar-me no chão vazio e a
gritar no toque das tuas mãos. Vou esperar que o tempo pare e eu recomece a
respirar. É a última vez que te pergunto porquê. Desvaneço com as sombras que restam
nas paredes desta cidade vazia.
25/04/2016
Tenho de recomeçar. Pegar nas pedras e na terra e reencontrar os caminhos para os lugares de mim. Reconstruir tudo. Esquecer o que resta. Recomeçar. Segurar nas minhas mãos e no meu vazio e recomeçar.do princípio. Voltar a erguer o corpo perante a chuva que cai aqui e voltar a começar. Não esperar nada. Não desejar nada. Simplesmente recomeçar.
10/04/2016
rUn
Começo a correr quando a chuva
regressa. Começo a cair quando a frio recomeça. Doí-me na frente do olhar a
imagem da minha ausência. Invejo o amor que reside nos corpos dos outros, nos
segredos dos outros, nos segredos teus em que eu não tenho espaço nem lugar. Corro
sem me mexer. Dentro de mim devasto o vento na minha velocidade aniquiladora. Nada
sobra depois da minha passagem. Não tenho segredos. A verdade é que não tenho
nada em mim para te entregar e não te sei dizer isso. Não me te sei dizer nada.
De forma nenhuma. Vez nenhuma. Doem-me as vísceras no respirar. Desfaço-me me resquícios
de cinzas de cada vez que sinto como me faz falta sentir na língua os segredos
que residem na tua fragilidade. Corro a mexer-me inteiro dentro de mim e a
saber-me ao sabor acre que reside nas coisas gastas pela ferrugem do tempo. Rasgo-me
na certeza plena de que nunca mais poderás chegar perto de mim. Porque eu não
tenho lugar no lugar de ti. Começo a correr assim que regressares.
06/04/2016
guArdare
Lava-me a pele. Conta-me o
segredo. Desfaz-te em cinzas. Segura-me o cabelo. Guarda-me o anjo nas costas. Grita
comigo. Conta-me o segredo. Desaparece na noite. Segue o teu caminho. Limpa-me
o corpo. Bebe-me o sangue. Guarda-te dos anjos. Desenha-me o segredo. Grita com
o mundo inteiro. Lava-te depois. Segura-me na mão. Cai comigo. Vai sem mim. Parte
e não regresses nunca este lugar de finitude. Abraça-me na noite. Sente-me
partir. Esvazia-te do mundo e dos gritos. Vive a tua dor. Segue para
continuares. Não olhes para trás. Não olhes para mim. Vê-me e segue. Meu anjo
segue contigo. Guardo-te na solidão. Lava-me a alma. Desiste de mim. Não importa
o que fizeres. Não importa o que quiseres. Este é o meu limite. Corre sobre
mim. Ultrapassa-me e não olhes para trás. Conta-me o teu segredo e depois
emudece. Lava-me na chuva. Lambe-me a pele cansada. Rasga a minha angústia e
desfaz-te de mim. Deixa-me no rio. Deixa-me no mar. Deixa-me ao sol da manhã. Conta-me
o meu segredo. Recorda-me. Evade-me. Evade-te. Não há lugar para ti neste
inferno de asas abertas. Guarda-me na noite enquanto partes. Desparece de aqui.
Segue para continuares e nunca, mais vez nenhuma, olhes para mim.
05/04/2016
anGoisE
Pensei em começar tudo de novo. Fechar
os olhos. Deixar as sombras passarem diante de mim e recomeçar. Anjo e demónios
digladiam-se dentro de mim e são as suas vozes que oiço em gritos desvairados
dentro da minha solidão. Pensei em começar tudo do princípio. Voltar ao lugar
onde a minha existência teve o seu primeiro sentido, em que a minha desistência
teve a sua primeira vitória, em que a minha desgraça me dignificou. Queria poder
começar de um lugar onde eu não estava. Na verdade, todos os lugares em que
estive as vozes não me abandonaram. Na verdade, de todos os lugares em que me
vi, as sombras não me deixaram. Pensei em começar de novo mas sem estar lá. Sem
ser eu o começo nem o fim. Estar sem estar e ser sem ser. Percebi, no momento
em que me olhei no espelho da mesma sala, na mesma casa, na mesma morte, que
não se pode começar do princípio vez nenhuma. As sombras são o meu começo, a
minha angústia o meu eterno fim.
23/03/2016
abSentiA
Queimo na pele a tua ausência. Sinto
a tua boca mergulhada na minha distância e recordo a dimensão eterna que
residia no teu beijo. Rasgo a tua voz na violência do meu pensamento. Corto o
sangue que me escorre das mãos e deixo de ver a nitidez de mim. Danço absolutamente
ébrio na intensidade esquecida da noite fera que me traz até ti e me deixa
depois completamente só. Verto-me no asfalto e espero que alguém me dilacere e
me desfaça de encontro ao gelo da estrada. Evado-me na certeza de que tuas mãos
me cobriram os olhos de todas as vezes que não pude chorar-te, me calaram o
grito de todas as vezes que não pude chamar-te, me seguraram o corpo de todas
as vezes que me deixei cair na imensidão da insuportável solidão de ser eu
mesmo dentro de mim. Queimo na pele a marca da tua ausência. Olho em redor e
não vejo muito para além do nevoeiro que chega com a manhã dos dias que
continuam a vir, um atrás do outro, de passos mansos e agressões atrozes. Deixa-me
recordar-te até ao dia em que o meu sangue se esqueça de respirar. Deixa que
teu beijo percorra todo o meu corpo e eu padeça de tanto te amar. Emolo-me na
certeza de que não regressas mais a mim.
Sossega. Hoje já chega. Não tenhas
pressa. A noite já começou. Já quase que não faz frio. Ainda há gelo no chão
mas quase que já não faz frio. Podes passar na sombra e esperar que o dia comece.
Podes olhar para mim e mesmo que não me vejas não precisas ter receio. Vou estar
no mesmo lugar em que me deixaste.
12/03/2016
"I don´t want to wait in vain for your love"
Creio que estou a chegar ao final
da minha capacidade de te esperar. Queria ter podido esperar mais tempo. Queria
ter podido ser melhor mas só consigo ser melhor quando estás e tu não estás
aqui. Procurei-te na cidade pela noite dentro a ansiar a tua voz. Perdi-te no
começo de cada rua, no virar de cada esquina, no passar de cada fracção de
tempo. Perdi-te irremediavelmente da primeira vez que te toquei. Perdi-me
indefinidamente da primeira vez que me olhaste. Morri na certeza de que existir
era apenas em ti e por isso sou hoje o limbo do que existe aquém do que existe
em ti. Queria ter podido ser melhor. Prometi que iria sempre ser melhor e não
cheguei até ti. Estou a vaguear na aresta da minha capacidade e temo que não
tenha mais por onde andar. Espero-te, em vão, desde que comecei
a amar-te e espero-te ainda e depois e antes e sempre. Mas creio que não terei
mais possibilidade de continuar. Sabes, agora que tudo em mim parece querer
desaparecer, deixo de novo de ser o suficiente para te chegar. Compreendo tudo
o que acontece em ti e abandono tudo o que acontece em mim na esperança eterna
de que um dia possas voltar a cruzar-te comigo no começo de uma qualquer rua
numa qualquer noite em que minha alma não seja apenas uma sombra de mim.
gaIvotA
Está tudo a desparecer. A desvanecer.
A transparecer a antiguidade e o desespero. As paredes choram o salitre e a tinta desfaz-se na inteireza do pó que já não abandona este lugar. Caem as
madeiras e os tectos. Rangem os soalhos e as desgraças. Reza-se a história e
desaparecem os personagens. Aqui e ali há um resto de uma memória apagada no
rastro frustre das asas de uma gaivota adoecida pelo ondular do mar. Nada faz
falta aqui se não um recomeçar. Do princípio. Longe deste fim que se aproxima
com a velocidade das coisas que se não desejam. Queria partir e não consigo. Meu
corpo está preso nas garras do que não chegou a ser a vida que era suposto ter
sido vivida. Está tudo a desvanecer. A cair. A apagar-se. Vai ficar apenas este
enorme lugar onde tudo se passou como se nada tivesse sido. Cedem as madeiras e
cedem os telhados sobre o voo de uma gaivota envelhecida. Gritam as ondas e
grita o vento e gritam as vozes dos que morreram aqui e deixaram tudo por
terminar. Cai a tinta das paredes e caem as paredes dentro de si mesmas e levam-nos
consigo. As memórias são apenas pó do que restou aqui a marcar os lugares
certos das coisas incertas. Queria ter podido ter a liberdade de partir para
sempre e para sempre estou condenado a ser o pó deste lugar. Indefinidamente,
até que a minha existência seja, serei o lugar em que tudo desvanece e queda,
como uma gaivota que em pleno voo desiste de existir e desafia a gravidade até
encontrar o que possa ser o seu lugar certo para a queda.
09/03/2016
02/03/2016
en pAssAnt
Não sei o que é este movimento
que acontece em mim de cada vez que desapareço. O mundo deixa de me encontrar e
eu sento-me e espero. Trespassam-me as pressas dos outros que me não vêem e me
atravessam como se nada estivesse no seu caminho. Como se eu não estivesse no
seu caminho. Como se eu não existisse junto deles.
De cada vez que desapareço, o
mundo deixa de me saber e eu sinto a liberdade de poder ser qualquer coisa para
além disto. Revejo-me fora do que existe em torno de mim e sobrevoo tudo o que
acontece como se não estivesse.
Vivo sem viver. Existo sem
respirar. Quedo sem sequer conseguir andar. Não sei o que é isto que acontece
em mim mas encerro as muralhas que durante anos construí e fecho-me na torre. Nada
me toca aqui. Nada me pode ferir aqui. Olho quem passa e quem me ultrapassa com
a mesma inocência com que me vejo a morrer. Sou uma sombra do que resta
acontecer em mim e espero enquanto o mundo fica cego do meu respirar e me
abandona na esquina da vida que fica inteiramente por viver.
nãO me Fales
Não me fales da morte enquanto
aqui estou. Não me olhes como se soubesses que o meu mundo vai terminar. Não to
permito. Deixa-me estar dentro deste lugar que reservei à minha sólida angústia
de me saber vivo enquanto morro. Deixa-me caminhar e deixa-me correr até eu
cair. Deixa-me segurar nos dedos a areia fria da praia que ainda existe em mim e
deixa-me dançar como se amanhã a música não fosse terminar. Deixa-me gritar as
vezes que eu quiser, o nome que eu quiser, e não me julgues. Nunca me julgues. Quero
ser quem decidi ser até ao fim do que começou em mim. Não me questiones, não
perguntes porquê. Deixa-me ir assim, na ilusão de que não parti e na certeza de
que o mundo continuou a acontecer apesar de mim. Deixa-me sonhar na minha
infinita tristeza de ter de partir, mas permite-me ainda sonhar. As vezes que
eu quiser, as vezes que eu precisar, deixa.me sonhar que ainda estou aqui e que
meu caminho pode ser mais longo, pode ser mais inteiro, pode ser mais do que
apenas isto. Deixa-me olhar-me no espelho para me recordar quem fui, não este
corpo que vejo agora aqui de fronte da minha finitude, mas aquele que bailou a
vida sem ter medo de cair. Lembra-te, nunca tenhas medo de cair. Há sempre areia
para te segurar nos dedos. Há sempre mar dentro de ti. Dentro de nós. Dentro do
olhar que encerro e se despede em mim. Não me fales da morte enquanto ainda resiste uma réstia de vida em mim.
22/02/2016
seguro nos dedos a versão mais recente da minha sombra. a silhueta expressa na parede sou em sem ser eu mesmo mas apenas o reflexo enovoado de qualquer coisa que terei sido. falta-me a força quando me vejo reflectido nas sombras das luzes que se apagam dentro de quem podia ter chegado a ser. desfaço-me em silêncio e carpo o choro magoado de quem nunca teve a coragem para deixar o resto da sua silhueta quebrada de lado para poder partir.
31/01/2016
pRaia
Caminho dentro da minha solidão. Atravesso
a praia antiga ignorando todos os gestos dos outros. Reconheço as suas vozes e
assumo a surdez plena de quem já não está. Interpreto os gestos nas suas histórias
de serem quem são, naquele preciso momento, e remeto tudo para um lugar fechado
em que nada, para além de mim, pode acontecer. Caminho a minha solidão inteira
no bater das ondas de inverno. Gaivotas caminham a meu lado como se soubessem o
segredo que se me desfaz na pele. O silêncio que vem do mar abraça-me de
deixa-me cair na areia. Só até que o momento cesse e eu desapareça por completo
sou o segredo do que resta do caminho que atravesso. A chave para ignorar o que
a vida transporta dentro destes corpos que partilham este espaço com a minha existência.
Queria poder, por um momento, esquecer a minha humanidade e ser-me a espuma que
a onda entrega à areia fria. E esse seria o auge da minha caminhada.
29/01/2016
é quase certo que este é o meu lugar errado. quase certo que já há muito que devia ter começado a correr. o caminho está a chegar ao fim e não há mais terra depois deste abismo aberto por ti. escavei até ao final do que pude ser e agora já nada pode permanecer imutável. agora é o tempo de tudo isto terminar de vez. e eu começar a correr.
28/01/2016
princípio do mundo
Quero silenciar as vozes que
desesperam dentro da minha memória do tempo. Navegar à deriva num barco sem
vela abandonado sobre as vagas na tempestade das ausências. Afogar-me na lâmina
do frio da solidão que começa com o princípio da noite. Devastar-me no peso
inteiro das coisas por saber. Segurar na ponta da tua pele e reconhecer-me
absolutamente despido sobre a solidão da minha própria ausência.
Queria poder encontrar-me nas
vozes que sussurram todos os nomes de todas as coisas dentro de mim. Segurar-me
no abraço das letras caídas sobre muros ruídos nas chuvas que avassalam a minha
estrutura. Desesperar-me na imensidão do vazio que se abre sobre o fim das
coisas que começaram aqui. Voltar-me para dentro até me ver reflectido no
espelho da água parada de uma qualquer maré fria da madrugada. Vestir-me de
capim e sussurrar-me na pele a minha própria distância. Quero ser o que resta
de mim até desparecer.
Quero silenciar-me dentro de mim
e abandonar-me na maré. Só até reencontrar o princípio do mundo.
24/01/2016
Desta vez talvez vá começar pelo
fim. Pego no término das coisas que foram e começo do princípio. Apago o quadro
de ardósia e mergulho as mãos no giz. Balanço-me sobre as arestas das certezas
incertas e deixo-me cair no chão.
Não importa se faz frio agora. Abro
os olhos e sei o caminho. Recomeço do princípio. Desta vez não vou ter medo. Basta
começar por um qualquer lado, basta acertar o passo. Não vou pedir-te para
esperares por mim nem que teu passo chegue ao mesmo tempo que o meu.
Desta vez vou começar por onde
devo começar. Pelo fim das coisas que podiam ter sido. Pego nelas, com a
liberdade que fica nas coisas que se amam até ao fim dos dias, e farei de tudo
para que não quedem, para que não cessem de existir em mim.
Desta vez talvez vá começar por
mim. Talvez não olhe para trás para ouvir as mesmas melodias. Vou deixar o
lugar em que me deixaste de todas as vezes em que não estavas e vou ser eu sem
ser mais ninguém em mim. Desta vez vou começar em mim para chegar ao lugar em
que tudo acontece.
Não importa se a maré está baixa
e não importa se morro amanhã. Escondo-me por detrás da névoa que a madrugada
encerra sobre si até que o dia desperte dentro do que podemos ser.
Deixa-me regressar a mim. Desta vez
recomeço aqui. Nada ficará ao acaso. Nenhuma letra de nenhuma palavra cairá por
terra. Desta vez eu não cairei por terra.
Sobrevivi às tempestades de areia
que me assolam o deserto que existe em mim. Sobrevivi à ausência do que resta
de mim e reencontrei-me nos lugares dos passos que só a dança pode devolver à
minha existência. Hoje danço sobre mim e é aqui que começo.
Desta vez talvez vá começar do princípio
das coisas que nunca terminaram em mim.
20/01/2016
diVino
Ficas a planar sobre minha pele
de cada vez que partes. Teu corpo fica apenso à memória de mim em ti e
deleito-me no sabor que emerge da tua sede. Perdoa se não sei mais que isto. Perdoa
se não preciso mais do que isto. És a melhor parte do que acontece em mim e
abençoa-me Ele que te deixa depositar tuas asas sobre o meu respirar.
10/01/2016
fracÇão
Falta apenas um segundo. Depois tudo cessa.
Falta apenas menos do que um segundo e tudo termina aqui.
O teu corpo dentro do meu corpo não vai ser nada mais do que
a memória vivida de um passado esquecido.
Não consigo ver para além deste escuro desta noite que
sempre foi a cor que tiveste aqui.
Falta apenas o tempo de te dizer. Adeus.
29/12/2015
Perdoa-me
amor
enquanto te devasto na agonia da violência que habita em
mim.
Perdoa
amor
a distância que vai deste lugar em que me desfaço na miséria
de ser isto que não chega para te ser
Perdoa-me
amorse te afogo no fogo que emana das minhas mãos quando te violento
Perdoa
se puderestudo o que eu fui sem ter chegado a saber ser
28/12/2015
07/12/2015
sangUinae
Não consigo mais. A dor por
dentro é demasiado intensa. Sucumbo perante a agonia do corpo. Não tolero mais
tudo o que acontece em mim e o desejo de desaparecer torna-se cada vez mais premente.
De cada vez que pego na lâmina para desferir sobre mim a angústia do fim, algo
se desvanece e o acto foge do gesto e acabo por regressar ao princípio de tudo
o que recomeça. Quero deixar-me aqui e não regressar. Quero deixar de sentir e
de cada vez que a lâmina me tocar fria por dentro da carne desta pele tenho a
sensação – por mais ínfima que dure no tempo – que posso fugir de aqui. Não consigo
mais. Quando deixamos de ser o que sabemos ser é tempo de seguir. Deixo aqui a
lâmina e desfaço-me na angústia de ser eu aqui, por dentro de todos os meus
gestos.
02/12/2015
aSfalTo
Silencia as minhas mãos enquanto alastro as asas sobre o
asfalto.
Há neve a escorrer-me nos ossos. Sopra.
Crava a tua sede na minha agonia e eleva-me ao lugar
reservado aos que morrem sem saber.
Segura-me na ponta dos teus dedos de fogo enquanto refaço o
meu nome nas cinzas que permanecem debaixo do teu caminhar.
Há neve a corroer-me a pele. Sopra.
A estrada percorre todas as
direcções possíveis e ainda não conheço o caminho que escolhi.
As minhas asas cobrem o asfalto
coberto de gelo e as minhas mãos gritam pelo silêncio que vem de ti.
Sopra o resto das minhas cinzas e
guarda-me no teu caminhar.
23/11/2015
chEmin
Vejo-te atravessar a recta que te
define no sentido descendente. Há um rasgo de agonia que te preenche os passos
erguidos das cinzas. Falas para ouvires o som da tua própria voz e sentes as
palavras a desvanecerem no sentido que desaparece de encontro ao silêncio que
chega com o fim da noite. Sentes as vísceras a queimar-te nas cinzas abertas do
corpo enquanto olhas o nascer do dia a erguer-se de dentro da tua pele. Fechas os
olhos na ilusão de poderes desaparecer mas logo a dor te recorda como o teu
corpo ainda aqui está a tentar renascer das cinzas do incêndio repetido que
acontece em ti quando consegues medir o tamanho imenso do deserto que te ocupa
no interior do caminho.
E não desistes, nunca, de
continuar a andar.
frEdo
Faz frio enquanto danço
e quando fecho os olhos.
Faz frio quando grito
e quando guardo a dimensão inteira do teu silêncio na palma
da minha mão.
Faz frio quando sinto
tuas mãos a ameaçarem a estabilidade da minha pele.
Salvaguardo o meu silêncio enquanto espero que anoiteça.
Encerro o corpo dentro de mim
e danço.
Faz frio enquanto danço.
15/11/2015
no reTurn
Sou o silêncio que te reveste a
pele
a maré que retorna ao
principio da noite
o assobio que te colhe na alma
a magia das estrelas que cedem
à queda
Segura-me na mão enquanto
atravessamos o rio
Segura-me nos passos enquanto
seguimos este deserto
e talvez possamos não chegar a
regressar.
10/11/2015
nuDez
Dispo-me enquanto
a noite arrefece.
A pele dos meus
pés toca o ranger da madeira. Levemente.
Sento-me, sem
nada a tocar no corpo, no chão junto à janela virada para a rua. Lá fora ainda
não faz tanto frio como dentro de aqui. Reconheço a pele a lutar contra tudo o
que sente vindo desta janela. Uma aragem incessante a colocar à prova a
sanidade.
Arrasto as mãos pelo odor do meu cabelo. Pouso-as sobre a cegueira dos meus olhos e desço, pelo resto do meu corpo até as pousar sobre a solidão da tua ausência.
O chão ecoa os teus passos. Consigo vê-los na perfeição através das linhas rasgadas na madeira. Sei que minha pele começou a sangrar enterrada sobre as farpas do passado vivido aqui, sobre esta madeira que canta as canções mais antigas.
A casa não fala enquanto a noite se põe. Não cheguei a despertar nenhuma luz pelo que rapidamente o meu pensamento fica tão cego quanto meu olhar. Penso no que penso e encontro já muito pouco. Um pensamento vazio num corpo despido sob o olhar do inverno. Um pensamento inebriado pela intensidade da tua partida.
Encaro a agonia de frente. Sinto as mãos a partirem para o lugar mais quente deste corpo. Coloco um dedo sobre os lábios do deserto aberto em mim e canto o canto dos cisnes pelo interior da noite que me abraça, inteiro, na possibilidade da sua finitude e penso que te irei encontrar. Depois. No interior da minha despedida.
09/11/2015
memÓria
Recordo-te no odor das urzes na
montanha. Sinto o teu corpo no toque da rocha. Ouço o vento pronunciar – baixinho – o nome que te define. Percorro-te
nas linhas da tua face com os dedos a tocar na água do rio. Corre sobre mim a
névoa das tuas manhãs e o sossego da noite que só acontece em ti. Recordo-te em
todos os momentos do dia embora nunca te encontre. Calcorreio os contornos dos
teus passos e conduzo-me – em silêncio
– até junto do lugar que foi em ti. Guardo-te nos gestos – devagarinho – como se te tocasse ao de leve e entoo o silêncio que
habita em ti. Seguro-me nos gritos – suavemente
– e sossego os meus medos na memória de ti. E ser assim, o que resta de ti em
mim, é só o que é necessário para chegar até amanhã.
efémeRo
A noite começa com a agonia dos
dias. Chove ininterruptamente desde que nasci. Nem um dia sequer a chuva parou
de cair sobre o que restava de mim. A noite começa com o fim dos dias
sobrepostos na mesma cor. Sempre na mesma cor. Sempre no mesmo lugar. Iniciei uma
tentativa de fuga que me persegue há vários anos, décadas, eternidades. Tudo em
mim é eterno. E efémero. Tudo em mim fica enquanto parte. Tudo em mim parte por
não poder nunca ficar demasiado tempo a chover.
Doí-me o corpo quando me sinto na
alma. O respirar é sonoro, vagaroso, sem ternura. O corpo balanceia na certeza
incerta de continuar a correr, embora parado, embora o tempo tenha cessado na
mesma cor dos mesmos dias sem fim.
Talvez seja a eternidade que
habita em mim que me permite sobreviver à torrente de água que me segue todos
os dias em todas as noites. Talvez seja a efemeridade que espero que aconteça
em mim que me impele a continuar, sem parar, a correr na tentativa desenfreada
de um dia conseguir escapar a esta chuva eterna.
A noite começa na agonia das
noites em que a chuva não cessa de cair sobre os corpos perdidos no respirar
lento.
07/10/2015
SadNess
Se fosse possível
descrever a tristeza que sinto
hoje aqui,
dentro de ti,
diria que foi o poema
que morreu
e o mundo inteiro se revestiu de negro.
viTae
Encosta
o teu peito à minha mão. Vamos tentar respirar juntos. Estou a morrer por
dentro. Não digas a ninguém mas o meu corpo está doente, está a cair, está sem
fé. Encosta o teu peito ao meu peito e vamos sobreviver juntos. Guarda o que
restar da tua esperança e segura-me com a ponta da tua língua. Abraça-me
enquanto me tocas por dentro e me fazes sentir vivo. Encosta a tua mão à minha
testa e beija-me por dentro, no lugar onde só tu sabes chegar, onde só tu podes
chegar. Vamos partir juntos mas tu ficas enquanto eu já não vou poder
regressar. Encosta a tua pele à minha coragem e ouve-me a partir. Depois vive o
que nos faltou viver.
seGunDo
Leva apenas um segundo a
desentorpecer a revolução visceral que acontece dentro de ti. Leva apenas um
segundo se puderes aguardar. Começo por retirar a carne das unhas. Depois rasgo-te
o peito com a navalha que me veleja a pele. A seguir corto-te o que restar do
cabelo até perderes a força. Depois ajoelho-me nas tuas costas e peço-te perdão
baixinho, em segredo, para que quase não me possas ouvir enquanto a dor te doer
em todos os cantos da tua violência. Entoo uma melodia de embalar enquanto te
flagelo com as lanças que me consomem os pensamentos. Cubro-te com um pano
negro para esconder o sangue enquanto gritas por dentro. Transformas-te no
animal que tens escondido dentro da tua angústia depois de todo o tempo que
navegou por entre nós. Recordas os mortos que te fazem falta e cais de joelhos
a meu lado. Podemos chorar aqui que ninguém nos ouve. Podemos acabar de
dilacerar o que resta de nós nesta vida morrida sem ter sido vivida. Perdemos demasiado
tempo a tentar perceber o porquê de sermos assim. Perdemos demasiado tempo. Resta
apenas um segundo. Um segundo para nos refazermos dentro da miséria que reside
em nós e a recomeçar a tentar viver.
27/09/2015
ilHa
O tempo tem sido
gentil aqui.
Nenhuma intempérie
atravessou as mesmas veredas do que eu. Desci sobre o centro da terra,
calcorreando os seixos negros antigos sob os pés descalços.
Senti a terra correr como uma corsa liberta à
gravidade das montanhas. A água escorria sobre os socalcos roubados às escarpas
infinitas. Lá em cima, no cume mais a norte, o mar cantou para embalar as
nuvens que embatem e se esbatem nos picos.
Havia água a
escorrer em cada canto. A terra inteira a mergulhar na água, na sua demanda ou
no seu afastamento. Acabei por me quedar
nas levadas junto com as folhas que anunciavam um outono antecipado.
O tempo foi
gentil aqui.
Sobrevoei as
escarpas negras e escarlates e as cinzas esconsas. Carreguei o corpo no basalto
e desfiz-me na praia. Contei os seixos negros que me acariciavam na pele e
roubei a liberdade ao sol nas asas de um francelho.
Abandonei-me
como só o mar sem fim permite e esqueci o continente.
Por breves momentos, o
tempo foi gentil comigo.
16/09/2015
Começa a fazer frio quando ficamos sós. A chuva instala-se a
aguardar o momento certo para iniciar a sua queda. A chuva, ao contrário dos
anjos, não tem direito a ter asas. Cai directa, no sentido pressentido da
gravidade de todas as coisas que são. Direita à terra, directa sobre o que fica
quando o que nos faz ser termina.
11/09/2015
09/09/2015
Diz-me o que vês quando olhas
para a terra aquecida sobre teu andar. O que sabes quando ouves o que o mar
traz no começo da manhã. Sim, é na certeza incerta do que chega com o começo da
manhã que te olho e me alimento da inevitável fuga. Se era isto que querias,
podias tê-lo dito antes. Podias tê-lo dito a tempo. Agora sou eu que caminho
mas a terra está arrefecida sobre as minhas penas. Sobre o meu (des)fado. Sobre as
minhas raízes em ruptura com a equilibrada agonia do teu desamor. Cada parte do
meu corpo se desfaz em vento quando me abandonas, lento e entorpecido, caído sob
o segredo das noites inebriantes de verão e desfeito sobre a terra (des)aquecida
sobre o andar da tua partida.
03/09/2015
01/09/2015
Escovo-te no cabelo o olhar
triste dos dias que não findam. Deixo que as mãos abracem o teu corpo enquanto
inspiras um segredo sagrado. De pele despida sobre o chão frio, caminhas sobre
as pedras como quem caminha sobre o fogo e não conhece a ânsia de chegar.
Sentes-te a queimar e ainda assim intentas dançar sobre as arestas da tua
sanidade. Tua pele a arder no corpo frio e sentes absolutamente nada. Olhas-me
na tristeza dos dias que se fundem nas noites eternas e soltas o cabelo sobre o
corpo desnudado. Deixas-te respirar no vazio da partida e segredas-me ao ouvido
o quanto as minhas mãos te são sagradas.
31/08/2015
Respira-me na pele e toca-me. Aperta a minha solidão contra
a tua agonia e devasta-me na chuva.
O resto não importa. Deixa que a maré suba até engolir a
praia inteira.
Arrasta-me na tua insensatez e evade-me num resquício onírico
sem tempo para terminar.
Lambe-me na pele as cicatrizes da minha tristeza e podes
depois rasgar a carne na tua boca. Prometo que não vai doer.
Dilacera-me.
Respira-me na tua alma e salva-me.
Devasta-me.
Vira-me de costas e sente-me a gritar no silêncio da noite
vazia.
Aniquila-me.
Olha-me de frente e perde-me no tempo.
O resto não importa.
Deixa que o mundo inteiro termine enquanto nos desfazemos na
chuva.
gIn
Está a terminar o tempo.
Estou aqui a ver a minha vida a
terminar. Em redor de mim amontoam-se corpos deformados sob a minha imaginação.
Sinto o ácido a correr-me nas veias, a descer-me na garganta, a aniquilar-me (n)as
palavras. Pouco de mim resta agora que a vida está a terminar.
Olho para o espelho que me colocam
em frente e repenso o passado. O que vivi, o que soube saber em mim, o que
destrui, ao que faltei e que podia ter sido.
Remeto-me aos lugares mais
distantes da pessoa que fui e acredito que não foi o suficiente. Não fiquei
vivo tempo que chegasse para tudo o que me faltava.
Bebi a minha vida em noites
devassas e devastadas. Sorvi o orvalho da manhã e a tristeza das noites. Dormi com
a certeza de que outro corpo me guardava e também enfrentei o terror da solidão,
vezes e vezes sem conta.
Deixei-te. A ti e aos outros para
ser só eu e olha no que me tornei. Um corpo moribundo e imóvel sobre esta cama
nefasta. A desfazer-me. A morrer-me. A desaparecer-me.
Está a terminar o tempo. Tenho um
gin tónico deitado sobre o copo que me abraça na solidão deste corpo. Sabes que quem
sabe que o seu corpo vai morrer, assim tão em breve, consegue conhecer os limites mais improváveis
da mais terrível das solidões passíveis de existirem dentro de nós.
Recordo o teu abraço e abraço-me em
mim.
Estou a terminar. Agora não tenho medo mas não tenho mais
ninguém aqui.
Terminou o tempo.
Vou terminar hoje o que tínhamos começado.
Vou deixar este lugar
e cessar tudo. De uma só vez.
Não precisas tentar dissuadir-me. Não há mais nada porque
continuar.
Não adianta segurares-me na insensatez do teu desespero. Não
vou olhar(-te) para trás.
Vou terminar o que começámos hoje. De uma só vez.
19/08/2015
incênDio
Há lágrimas feitas de sangue no
resto das cinzas do que a terra tem a arder em si mesma e que o vento faz
parecer navegar sem rumo. Se fechares os olhos e vires, sentes o outono a
chegar na luz do fim do dia. Sabes o frio que vem depois do fogo e a angústia
da perda que permanece depois de tudo o que falta arder finalmente desaparecer
no vento da terra acinzentada.
sanGria
Ensaio a continuidade dos gestos
no contraponto da exaustão.
Devasto a fraqueza na ilusão de
que é possível chegar um pouco – nem que seja apenas um pouco – mais longe do
que o aqui.
Confronto a imagem no espelho e
recuso a sua agonia. Recuso a sua palidez. Recuso a sua essência.
Coloco as mãos sobre o movimento
do corpo e sigo. Como se não houvesse mais nada que fosse possível esperar da
vida senão a contínua tentativa da continuidade da exaustão de todos os gestos
que dançam em mim.
cannis
Abandonado numa casa vazia. Encontras
restos do que era antes por cada canto perdido na sujidade do tempo. Procuras que
o silêncio resvale enquanto choras mas, na verdade, continua lá toda a
imensidão que vem com as coisas que estão vazas de vida.
Anseias o momento em que te abrem
a porta e te aliviam a infinitude da tristeza. Tocas, ao de leve, as mãos que
te chamam e logo te remetes à certeza de que não há outro lugar onde possas ter
lugar. Abandonas-te no abandono que caiu sobre tua pele e quase que esqueces o
motivo que te mantém vivo.
Olhas com o olhar de quem teme o
que pode vir das mãos que te não seguram e recuas. Recuas na imensidão da
insalubridade que te rodeia. E remetes-te à espera. À espera daqueles que te
abandonaram porque sabes que, um dia, regressam para ti.
14/08/2015
13/08/2015
susPensão
Estou suspenso no resquício do
silêncio que fica quando não chegas a partir. Procuro nas páginas dos livros
bafientos as memórias das coisas que me disseste de cada vez que tentavas
partir. Morreste. Morreste há tempo de mais e eu ainda te encontro em cada
fracção do pó que coloco sobre os meus livros cansados de existirem em função
da tua partida. Não faz sentido estares sem estares aqui. Talvez tenha sido eu
quem primeiro partiu mas a verdade é que te aguardo na espera dos tristes que não
sabem mais do que permanecer. Suspenso. No. Silêncio. Que. Resta. De. Cada. Vez.
Que. Deixas. De. Estar. Aqui.
Pego nas tuas palavras e vou ao âmago do erro.
Giro em torno de cada pedra que se impõe no teu caminho até
que o sentido regresse.
Exalo os odores que são no apodrecer do tempo e resvalo na
direcção que vai de encontro ao outro lugar.
Fecho os olhos no terror da noite e aguardo que o erro me
desfaça nas pedras das palavras.
01/08/2015
Não se precisa dizer
absolutamente nada. O silêncio que se faz dentro das palavras por dizer é um
lugar de conforto quando lá fora só se ouvem os restos bélicos de diálogos
vetados à existência de qualquer verdade. Não é preciso que digas seja o que
for. Na verdade, nem sequer te quero ouvir. Escusas de começar a entoar seja
que melodia for. Nem precisas dizer meu nome. Soa mal na tua voz. Perde a sua verdade.
Se ficares aqui vais desaparecer
na sombra do tempo e vais chegar apenas ao que resta quando tudo em nós nos
abandona. E isso é a única verdade possível de existir hoje, aqui.
30/07/2015
abUlia
Seguro vidros nas mãos fechadas. Só
até deixar de sentir. Só até o sangue começar a cair.
Seguro as palavras mastigadas no vento
imolado na sensação da chuva que vai começar a cair. Só até a chuva começar a
cair.
Seguro os gestos em abulia e temo
o que vai começar a cair. Só até o que vem começar a cair.
Depois posso respirar.
29/07/2015
fuGa
Um movimento incessante de
passos. Portas que se abrem e se encerram sobre si mesmas vezes e vezes sem
conta. Passos que não terminam de calcorrear a madeira deste chão cansado. Gritos
velados dentro da pele nauseabunda e o corpo a ceder ao descontrolo. Passos que
se prendem nos movimentos feridos e encarceram em definitivo a possibilidade de
fuga. A certeza da inevitabilidade da queda a devastar a intenção de uma
qualquer possível cena passível de ser outra coisa que não isto que acontece
aqui. Os passos a invadirem o silêncio e a queimar os poros da pele dos dedos
desfeitos na tinta. Tudo o que acontece aqui, agora, acontece porque os passos não são
apenas passos mas são partes pisadas de uma qualquer outra coisa que não teve
tempo de aprender a fugir a tempo.
28/07/2015
oraÇão
O vento do norte chegou aqui. O fogo
alastra sobre as colinas a rasgar o ventre da terra.
Que milagre pode ser se a terra
cessar de arder?
Este é o lugar em que o fogo
consome as gentes e os saberes. Em que tudo se perde. Em que as cinzas nos
povoam sem misericórdia.
Senhor, tende misericórdia.
Que milagre podemos ser quando
cessamos de arder?
25/07/2015
rUa
Seguras a minha mão na tua mão
enquanto me perco nas ruas desta cidade. Movimentos e gestos de gente que perduram no
tempo, que se suspendem em mim mesmo depois da sua passagem. Sinto-te no toque
de mim de cada vez que respiro, em tudo o que ouço, em tudo o que sinto e em cada quase palavra que profiro e em todos os momentos em que me movo.
Aconteces em tudo o que existe em torno de mim. Sinto-te com a certeza
das coisas que são em si mesmas nos momentos em que as vivemos e aqui estás tu
sem, na verdade, estares. És a parte de mim que eu não posso, nunca, ignorar. É
como se estivesses sempre, em cada passo do meu caminho, a segurar-me nos dedos
da tua mão.
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