Há lágrimas feitas de sangue no
resto das cinzas do que a terra tem a arder em si mesma e que o vento faz
parecer navegar sem rumo. Se fechares os olhos e vires, sentes o outono a
chegar na luz do fim do dia. Sabes o frio que vem depois do fogo e a angústia
da perda que permanece depois de tudo o que falta arder finalmente desaparecer
no vento da terra acinzentada.
19/08/2015
sanGria
Ensaio a continuidade dos gestos
no contraponto da exaustão.
Devasto a fraqueza na ilusão de
que é possível chegar um pouco – nem que seja apenas um pouco – mais longe do
que o aqui.
Confronto a imagem no espelho e
recuso a sua agonia. Recuso a sua palidez. Recuso a sua essência.
Coloco as mãos sobre o movimento
do corpo e sigo. Como se não houvesse mais nada que fosse possível esperar da
vida senão a contínua tentativa da continuidade da exaustão de todos os gestos
que dançam em mim.
cannis
Abandonado numa casa vazia. Encontras
restos do que era antes por cada canto perdido na sujidade do tempo. Procuras que
o silêncio resvale enquanto choras mas, na verdade, continua lá toda a
imensidão que vem com as coisas que estão vazas de vida.
Anseias o momento em que te abrem
a porta e te aliviam a infinitude da tristeza. Tocas, ao de leve, as mãos que
te chamam e logo te remetes à certeza de que não há outro lugar onde possas ter
lugar. Abandonas-te no abandono que caiu sobre tua pele e quase que esqueces o
motivo que te mantém vivo.
Olhas com o olhar de quem teme o
que pode vir das mãos que te não seguram e recuas. Recuas na imensidão da
insalubridade que te rodeia. E remetes-te à espera. À espera daqueles que te
abandonaram porque sabes que, um dia, regressam para ti.
14/08/2015
13/08/2015
susPensão
Estou suspenso no resquício do
silêncio que fica quando não chegas a partir. Procuro nas páginas dos livros
bafientos as memórias das coisas que me disseste de cada vez que tentavas
partir. Morreste. Morreste há tempo de mais e eu ainda te encontro em cada
fracção do pó que coloco sobre os meus livros cansados de existirem em função
da tua partida. Não faz sentido estares sem estares aqui. Talvez tenha sido eu
quem primeiro partiu mas a verdade é que te aguardo na espera dos tristes que não
sabem mais do que permanecer. Suspenso. No. Silêncio. Que. Resta. De. Cada. Vez.
Que. Deixas. De. Estar. Aqui.
Pego nas tuas palavras e vou ao âmago do erro.
Giro em torno de cada pedra que se impõe no teu caminho até
que o sentido regresse.
Exalo os odores que são no apodrecer do tempo e resvalo na
direcção que vai de encontro ao outro lugar.
Fecho os olhos no terror da noite e aguardo que o erro me
desfaça nas pedras das palavras.
01/08/2015
Não se precisa dizer
absolutamente nada. O silêncio que se faz dentro das palavras por dizer é um
lugar de conforto quando lá fora só se ouvem os restos bélicos de diálogos
vetados à existência de qualquer verdade. Não é preciso que digas seja o que
for. Na verdade, nem sequer te quero ouvir. Escusas de começar a entoar seja
que melodia for. Nem precisas dizer meu nome. Soa mal na tua voz. Perde a sua verdade.
Se ficares aqui vais desaparecer
na sombra do tempo e vais chegar apenas ao que resta quando tudo em nós nos
abandona. E isso é a única verdade possível de existir hoje, aqui.
30/07/2015
abUlia
Seguro vidros nas mãos fechadas. Só
até deixar de sentir. Só até o sangue começar a cair.
Seguro as palavras mastigadas no vento
imolado na sensação da chuva que vai começar a cair. Só até a chuva começar a
cair.
Seguro os gestos em abulia e temo
o que vai começar a cair. Só até o que vem começar a cair.
Depois posso respirar.
29/07/2015
fuGa
Um movimento incessante de
passos. Portas que se abrem e se encerram sobre si mesmas vezes e vezes sem
conta. Passos que não terminam de calcorrear a madeira deste chão cansado. Gritos
velados dentro da pele nauseabunda e o corpo a ceder ao descontrolo. Passos que
se prendem nos movimentos feridos e encarceram em definitivo a possibilidade de
fuga. A certeza da inevitabilidade da queda a devastar a intenção de uma
qualquer possível cena passível de ser outra coisa que não isto que acontece
aqui. Os passos a invadirem o silêncio e a queimar os poros da pele dos dedos
desfeitos na tinta. Tudo o que acontece aqui, agora, acontece porque os passos não são
apenas passos mas são partes pisadas de uma qualquer outra coisa que não teve
tempo de aprender a fugir a tempo.
28/07/2015
oraÇão
O vento do norte chegou aqui. O fogo
alastra sobre as colinas a rasgar o ventre da terra.
Que milagre pode ser se a terra
cessar de arder?
Este é o lugar em que o fogo
consome as gentes e os saberes. Em que tudo se perde. Em que as cinzas nos
povoam sem misericórdia.
Senhor, tende misericórdia.
Que milagre podemos ser quando
cessamos de arder?
25/07/2015
rUa
Seguras a minha mão na tua mão
enquanto me perco nas ruas desta cidade. Movimentos e gestos de gente que perduram no
tempo, que se suspendem em mim mesmo depois da sua passagem. Sinto-te no toque
de mim de cada vez que respiro, em tudo o que ouço, em tudo o que sinto e em cada quase palavra que profiro e em todos os momentos em que me movo.
Aconteces em tudo o que existe em torno de mim. Sinto-te com a certeza
das coisas que são em si mesmas nos momentos em que as vivemos e aqui estás tu
sem, na verdade, estares. És a parte de mim que eu não posso, nunca, ignorar. É
como se estivesses sempre, em cada passo do meu caminho, a segurar-me nos dedos
da tua mão.
23/07/2015
maTTina
Há um silêncio diferente quando a
dor cessa de doer. Segura as sombras com os dedos e vê o silêncio que
permanece. Inala o fumo que atravessa a madrugada e sonha com o que rasga o
tempo e se torna eterno. Não questiones a ordem de tudo o que acontece em torno
da tua solidão. Repara os erros e remete tudo para o lugar mais brando da tua angústia.
Silencia o fervor que te atravessa o respirar. Segura-te nas sombras que os
teus dedos reproduzem nas paredes brancas e evita o que não consegues ver. Recorda
cada palavra que sabes como certa e sente tudo o que o mundo te oferece. Não hesites.
A dor cessa de existir assim que a deixares de a saber em ti. Procura-te nas
memórias do tempo que já não pode ser e encontras coisas que ainda faltam. Abandona-te
nas ruas vazias da noite da cidade para te reencontrares no lugar certo. Segue,
ainda que teus pés dancem despidos sobre o asfalto aquecido pelo terror do
verão, sem parar nunca. Até chegares ao rio. Até chegares ao silencio que vem
com o início da manhã.
riEn
Je suis comme les choses que ne finissent jamais.
Tu es comme les chemins qui courent par tout.
Nous sommes comme les animaux et on ne sait jamais ce qu’on a besoin.
Je suis en train de devenir presque rien. Je suis en train de devenir comme
la pluie que ne tombe pas. Je suis tous que va finir jusque au même temps que
tu t’en vas.
Il faut pas que tu me regardes maintenant. Ce n’est pas nécessaire. Tu es tout
ce que deviendra finir demain.
Il y a une bataille entre mon âme et tes ailes. Tu es un oison et je sus seulement
la pluie en train d’arriver.
19/07/2015
Pisa-me nos
passos. Repete-me nas palavras. Ama-me nas noites finitas. Guarda-me nos
segredos mais profundos. Navega-me no deserto. Repete-me nas palavras. Transfere-me
nos gestos. Agride-me na dor. Cala-me na agonia. Aniquila-me no teu corpo
vazio. Devasta-me na embriaguez da tua solidão. Solidifica-me na minha
incapacidade. Ama-me nas noites acabadas. Entrega-me aos corvos e às marés. Dá-me
o que te resta e desaparece. Pisa-me nos passos apagados na areia que se não
move mais. Transpira o teu odor na minha pele. Move-te sobre mim até eu morrer.
Afasta-me de tudo o que não interessa para nós. Remete-me ao lugar das coisas
por saber e dá-me o que encontrares. Segura-me na tua angústia enquanto eu te
ancoro. Navega-me na minha solidão até eu me esquecer de mim. Ama-me até não
haver mais tempo. Descobre-me nas preces mudas e nas palavras velhas. Desvela-me
na invencibilidade da tua alma e deixa que eu te prometa nunca partir. Sonha-me
nas noites de chuva e ama-me na eternidade do inverno que se abre em nós. Leva-me
de cada vez que fores para regressares sempre ao lugar em que aconteces em mim.
Lava-me no rio salgado e sente as marés que te afagam na certeza de mim. Guarda-me
nos teus sonhos e ama-me. Solidifica-me na tua capacidade. Perdoa-me na dor de
ser eu em mim e lambe-me as feridas com o sal da tua alma. Respira-me de cada
vez que inalares e sente-me a ser tudo o que acontece em ti. Eleva-me ao
expoente máximo da certeza e deixa-me repousar. Acredita-me de cada vez que te
amar nas noites cegas e toca-me para te saberes infinitamente aqui. Permite-me
voar sem que te movas. Sente-me a guardar tudo o que te faz ser em ti e verás
que sou o lugar em que podes sempre voltar a terminar e a recomeçar. Canta-me
nas madrugadas em que todos os pássaros te entoam e não terás dúvidas do quanto
te amo. Cansa-me com as tuas palavras e faz-me correr sem parar. Ouve-me a
sorrir de cada vez que te vir entrar. Navega-me no deserto da minha solidão e
não permitas que me perca de ti. Embala-me na tua poesia e deixa-me ser quem sou.
Escuta-me enquanto choro e meu pranto será teu farol. Guarda-me nos teus sonhos
e existe-me. Sente-me de cada vez que te perderes e reencontrarás o caminho. Levanta-me
de cada pedra do caminho e chama-me pelo nome. Guarda-me nas tuas feridas para
que as cure sem que o chegues a saber. Respira-me de cada vez que perderes a
vontade. Afasta-me dos corvos e deixa-me nas marés. Rouba-me as estrelas e
dou-te o universo. Segura-me na tua imensidão e permite que descanse. Eleva-me
na tua agonia e deixo-te gritar até à extenuação. Segura-me nos gritos e
guardo-tos no silêncio de mim. Descobre-me nas preces cegas. Dou-te o que me
resta e permanecerei, para sempre, aqui.
17/07/2015
Nascem moribundos
mortos-vivos
pululam pelo mundo
espectros espectrum
campos da minha consciência
Quisera saber
se sou mais um
nesse mundo morto.
Raimundo, Lisboa,
2015
encontro de hoje. encontro sem sentido.
Um grito se ouviu
o comboio apitou
mortificada a alma
ao rio chegou.
Neste porto, uma palavra amiga
Oh amor! menti?
Também a ti?
Não me queiras mal assim
ainda não sei quem sou.
Raimundo, Rio de Janeiro, 1974
igReja
Cheira a flores e a corpos
mortos. As pedras no chão sem tempo revelam os seus sinais de um cansaço
profundo. Há restos de fé em todos os cantos, em cada fragmento de cada
objecto. Bancos envelhecidos na madeira do tempo evocam angústias e culpas sem
nome, sem rosto, sem saudade. Milhares de almas aqui gritaram em sofrimento e
na demanda eterna da possibilidade da salvação. Aqui, a ideia de salvação pela
fé ocupa todo o peso dos odores insuportáveis. O meu corpo morre na certeza de
que aqui não há salvação. Aqui, neste lugar escurecido pelo medo, as vozes
entoam preces desacreditadas e desanimadas. Morremos mais cedo aqui. Cheira a
flores e a mortos.
14/07/2015
Há um fino fio
de amargura de cada vez que fecho a porta e uma parte de mim permanece em
suspenso. Fecho os olhos para saber a culpa e o frio regressa à pele, fero e
libidinoso. Mergulho na sedução da noite vazia iludindo o corpo numa possível entrega
que mais não é do que a queda de um anjo ensaiada na vertigem de uma mentira
selada. Há uma ténue angústia marcada pela ausência de qualquer certeza. Não saber
nada é saber tudo no sentido inverso. É estar sem poder ficar. Partir sem saber
avançar. Esquecer sem conseguir lembrar. De cada vez que me ausento, de cada
vez que fecho a porta, há uma mágoa que parece não poder terminar e que me
deixa suspenso em névoa. Fecho os olhos e quedo na culpa incerta de ser apenas
minha.
12/07/2015
De novo a náusea a acariciar-me a
angústia. Eleva-se por dentro do corpo e invade a inteira dimensão da pele. Expira
de cada vez que inalo o ar apodrecido em redor desta areia. O mar parou. Não se
move. Eu parei. Nada se move. Não consigo dormir. Não encontro lugar onde
guardar a minha raiva. Consumo-me por dentro. Devasto-me na acidez da contrariedade
e desisto. Olho de frente o mar parado e desisto. Conto até três e desisto. Expiro
e desisto. Cesso. A angústia a acariciar-me na náusea. Termino enquanto sonho
com o mar.
10/07/2015
XIV
Again the dust is crawling up the space in my
mind.
I don’t want to change my memory. I can’t.
I must stand here, in the
rain, for as long has it takes.
The music is playing in my head. Over and over
again.
I can’t sleep tonight.
Not until you get here.
O mundo é um lugar reservado às
coisas que nunca terminam. Podemos avançar ou recuar, mas nada chega,
verdadeiramente, a terminar. Há um recomeçar constante. Um ciclo em
permanência. Uma viagem em torno de todos os lugares da terra. Por isso podes chegar
mais perto. Podemos mover-nos juntos, em simultâneo, no mesmo lugar do tempo. Usar
o mesmo momento, o mesmo espaço, existir como se fossemos apenas um. Chega mais
perto. Preciso respirar. Tu ensinas-me a respirar quando existes aqui. Não
tenhas medo, é só um pouco mais perto. Assim eu respiro. Assim eu sobrevivo. Aí.
Podes esperar exactamente aí. A manhã pode demorar a chegar e assim pelo menos
não nos sabemos tão absolutamente sós. O fumo cerca-nos como se não fosse mais
possível respirar na infinidade da noite. Pode alguma coisa mudar enquanto
atravessamos a parte escura da noite? Podemos ser nós mesmos perante a imensidão
da vulnerabilidade de estarmos aqui, absolutamente desprovidos de corpo e de
asas? Talvez juntos seja possível conseguir. Talvez se nos mantivermos juntos,
a manhã chegue e seja possível descansar sem medo. Se tudo no mundo está em
permanente movimento, vou segurar tudo na ponta dos dedos enquanto danço. Vou segurar-te
inteiro nos braços enquanto canto. Vou segurar-me inteiro na desordem enquanto
respiro. E se as nossas asas se encontrarem, no mesmo lugar do tempo, vamos reconhecer
os sinais, saber os passos do caminho e vamos poder avançar, sem ter medo, sem
estarmos tão sós, a caber um mundo inteiro dentro do nosso abraço.
09/07/2015
diÁlogo
- Não sei.
- O quê?
- Não sei mais o que fazer.
- Em relação a quê?
- A tudo.
- Tudo o quê?
- A isto.
- O que é isto?
- Não sei.
- Porquê?
- Não quero saber.
- Então não precisas
de saber.
- O quê?
- O que é isto.
- Porquê?
- Não sei.
- O quê?
- Nada. 07/07/2015
siLvas
Não quero ir para lado nenhum. Compreende?
Só quero ir para minha casa.
Isto que me treme nas mãos não sou eu, é ele, são eles, mas
não sou eu. Se não fossem eles, se não fosse ele, eu podia ser eu. Mas assim,
não. Assim é ele, e eles e nunca eu.
Já todos são eu menos eu.
Isto é uma tristeza
infinda. Compreende?
Não quero ir para lado nenhum.
soNNo
Estou quase a chegar. Demoro-me
na noite mais do que o que devia e depois perco-me. Acabo sempre por me perder
da noção, por me evadir do tempo. Demoro-me na intenção de ti mais do que o que
podia e depois afogo-me. Desfaço-me em mim mais do que conseguiria se quisesse,
verdadeiramente, desaparecer. Estou quase a chegar. Todos os movimentos que
faço são lentos no gesto mas cheios na vontade. São vazios no conteúdo mas
estruturados na forma. Existem sem serem. São, na verdade, sem existirem. Meros
reflexos da minha ansiedade que deposito em eventuais imagens - eventualmente
reais - da memória da infelicidade de ser o meu próprio acto falhado. Repito, para mim mesmo, que estou
quase a chegar. Lembro-me de alguém a corrigir-me as palavras – não, os erros –
não, as lacunas – não, os esboços – não, o sangue –não, as palavras mesmo e
esqueço do que deixei escrito nas paredes – não, no chão – não, no cimento-
não, na calçada onde o resto da minha dignidade desapareceu na intenção de ter
chegado a tempo de abraçar o sono.
02/07/2015
duVida
Se eu começar do
princípio, tu vais entender?
Se te explicar
tudo o que vive e o que morre em mim, tu vais conseguir escutar?
Se eu não te
disser o que te digo, tu vais saber o que falta?
Se eu te
perguntar que lugar é este em que inevitavelmente vou acabar por desaparecer,
tu saberás dizer-me?
Se eu não chegar
até ao lugar em que tu te imobilizas e te suspendes numa quase apneia, de que
terá servido tudo isto?
Talvez seja tudo
apenas um acto poético em que nos abandonamos, em breve, para recomeçar noutro
lugar reservado ao segredo do silêncio que reside, separadamente, dentro de cada um
de nós.
01/07/2015
Vou lembrar-me
de tudo. Quando chegar a hora. Quando regressar o tempo. Vai ser da mesma
forma que foi sempre. Todos estes anos. Todo este tempo. Vou recordar-me
de cada fragmento da tua partida. Vou reconstruir cada passo que dei no caminho
para o meu desespero. Vou-me desfazer em pó e vou desaparecer na memória de ti.
E depois vou remeter
tudo ao lugar em que se guardam as coisas sagradas. Vou querer não recordar
nada e tu vais abraçar-me durante a noite. Como se nunca tivesses desaparecido todo este tempo.
dAnza
danço
na estável
instabilidade da vertigem
meu corpo
abraça a eternidade da
chuva que regressa inevitavel
tua alma
segura a destruição que
acontece quando enlouqueço
somos tudo o que acontece
por detrás do silêncio do que
fica
em suspenso
entre o começo e o fim
entre o aqui e o agora
entre tudo o que não
chega a poder ser e o que foi
entre o que és e o que resta de
ti em mim
na destruição que a
chuva provoca na instabilidade de ser eu aqui.
29/06/2015
ars moriendi
Não compreendo o que me dizes.
Não consigo ouvir as tuas
palavras. Agónicas, caquécticas, quase mortas. Não consigo ouvir nada do que
dizes. Não entendo nada do que fazes, do que esperas, do que queres. Também estás
cansada, Amor.
Procuro um ponto na janela, na
parede, no armário, um ponto em que não encontre o teu olhar caído sobre a miséria
da minha existência. Não quero que olhes para mim assim, percebes? Ainda não. Não
precisas gritar, ainda estou aqui. Não te ouço, mas estou aqui. Não te quero
ouvir mas ainda estou aqui.
Falo enquanto te olho nos olhos e
parece que não compreendes o que te digo. Estou há tantos dias a dizer-te que
desejo apenas descansar e te peço que me deixes descansar e tu, na tua agonia,
não me deixas descansar. Espera. Peço-te. Ouve. Imploro-te. Não quero mais
viver assim, percebes? Não posso mais viver assim. Entendes?
Fica em silêncio, apenas por um momento, e ouve o meu corpo a partir. Se me tocares nos dedos, sentes
que o meu corpo está a partir. Estou a morrer e nada do que possas dizer vai
alterar isso. Se me deres a mão em silêncio, tudo é mais fácil.
Talvez eu queira morrer,
compreendes? Talvez eu esteja cansado de habitar este corpo doente, talvez esteja
cansado de trazer o teu olhar sofrido caído sobre mim, a cobrir-me a alma, a
desamparar-me a queda.
Escuta. Não consigo ouvir nada do
que dizes. Sinto o meu corpo a desaparecer. Não sou senão a sombra do homem que
fui, quer era ontem e que amanhã, antes que o dia nasça, vou deixar de ser. Tens
de olhar para o meu silêncio se quiseres compreender o que se passa aqui, neste
lado das coisas inteiras que acontecem fora de mim. Amor, tens de parar de
falar para me ouvires. E o que eu não te digo é que estou demasiado cansado de
continuar a morrer, dia após dia e que, na verdade, só preciso descansar. Só preciso
que me ouças para podermos descansar.
Compreendes?
28/06/2015
aPerto
Enlaço as cordas nos dedos, nas
mãos, nos braços. Aperto. Com força. A pele altera o tom e os dedos gritam enquanto
procuram tua pele. Aperto. Sinto o suor a escorrer-me nas costas enquanto
imagino teu corpo a completar o meu. Aperto. As cordas a saberem a sangue. Os dedos
a saberem a suor. A tua pele a saber-me, inteiro, despejado em ti. Vazio.
Cansado. Quase a desaparecer, quase a não chegar ao lugar certo. Enlaço as cordas nos
teus dedos enquanto retomo consciência da dor em mim. O corpo a latejar, a
pele a arder, o sangue parado num pensamento suspenso na agonia. Respiro enquanto
aperto as cordas em ti. Junto aos dedos. Junto aos braços. No pescoço. Perdoa-me.
Estamos quase a desaparecer. Aperto. Sinto a minha pele a desfazer-se na tua
enquanto me seguras nos pulsos e olhas em frente. Aperto. Sinto o sangue a
latejar. Aperto. Com mais força. Até perderes a cor.
Até desaparecermos
completamente.
27/06/2015
tEla
Estamos a chegar ao mesmo sítio
de sempre. Andamos, andamos e regressamos sempre ao mesmo local. Aniquilamos sempre
as mesmas memórias. Vazamos sempre as mesmas veias. Agarramos sempre a mesma distância.
Sofremos sempre o mesmo desamor. Não importa continuar a tentar.
Pinto as tábuas no chão para saber
o caminho. Se caminhar sobre a solidão da noite, talvez já não me perca, talvez
já não me iluda. Talvez consiga ver os meus passos a vazar o caminho. Sem sentido.
Sem significado. Uma harmoniosa desarmonia da alma no tropeçar do caminho.
Avanço, com a certeza de quem não
sabe para onde ir, a temer a queda. A saber, como só quem já desapareceu sabe,
que há pouco onde chegar. Não há mistérios que não terminem. Não há luares que
não se repitam. Não há dores que cheguem, de facto, ao fim.
Pinto as paredes para reconhecer
o lugar onde o embate termina. A parede que cai sobre as minhas asas é a mesma
que te escondeu em si. Destroços sobre a tragédia da incapacidade que reside em
nós, interminavelmente.
Rasgo as unhas nas tábuas e esculpo
as mãos no chão. Para que a noite me conduza no caminho vazo de mim e me
encontres, no final da mágoa, como uma harmoniosa tragédia caída sobre a ilusão
das memórias rasgadas sobre uma alma exausta de ser, em si mesma, absolutamente
nada.
23/06/2015
silÊncio
choro.
o silêncio é vertigem aberta em mim.
fecho os olhos sobre as lágrimas,
canto.
a música é magia descoberta aqui.
rezo.
arrasto a morte sobre o corpo envelhecido
aguardo que a fé consiga chegar.
choro.
fecho os olhos sobre as lágrimas
e espero.
21/06/2015
fOgo
De novo, são as
palavras que me deixam. Voltaram por breves momentos e agora iniciam o seu
regresso ao lugar em que as, repetidamente, volto a enterrar.
O calor devasta
o que resta da terra. Pouco vai ficar aqui depois do vento deste tempo passar. A terra a
arder na pele do tempo e tudo se imola em si mesmo num gesto triste de desespero.
Segura-me a pele
enquanto eu termino de desaparecer. Enterra os teus dedos nas feridas da minha
carne aberta ao sol e permite que eu seja um pouco menos do que era suposto. Vou
esconder o grito, vou tolerar a dor, vou arder com o resto das cinzas.
Há um peso que
não termina de me puxar de encontro a gravidade e estou certo de que a terra me
vai consumir em breve. Não há nenhum vento que me leve daqui, não há sinais de
que o calor possa esvair-se nas palavras e sinto não haver mais salvação possivel.
Regresso ao
lugar em que me enterro e vou ficar sem palavras enquanto o fogo me devasta a alma.
15/06/2015
voo
Pára, por favor.
Não precisas sair já. Aguarda um momento. Nunca te esqueças que somos muito
mais do que isto. Por favor, pára. Não te movas. Não respires. Evita os lugares
vazios. Esquece o que não foi. Segura este momento nas tuas mãos cheias. Toca-me.
Por favor, fica. Talvez seja apenas este o tempo que resta. Sei pouco sobre
isto. Sei pouco sobre a certeza de que há medo aqui. Há restos de tantas
coisas, de tantos momentos. Desde há muitos anos que paro de respirar quando me
olhas. Cesso de existir para te ser inteiro. Suspendo qualquer movimento a
aguardar teu caminho. Mergulho dentro da tua pele de cada vez que me sorris. Sou
inteiro dentro da razão de ti. O lugar onde eu acabo é no lugar de ti. O que
faço é no sentido de chegar até ti, por mais longo e sinuoso que o caminho
pareça ser. Não há palavras que me possas dizer que eu possa não ouvir e
preciso de te ouvir para ter a certeza de estar aqui. Tens a minha alma nas
tuas mãos e as tuas mãos estão neste momento, aqui, agora. Segura-me. Espera. Não
partas de novo. Fica. Por favor, pára.
Tenho as asas
partidas e agora já não posso mais voar atrás de ti.
14/06/2015
mAré
São pequenas gotas de suor a segurar a pele.
São pequenas gotas de sangue a segurar as lágrimas. Rasgo a pele no sal da
areia e queimo o que resta da minha sanidade no que fica do teu odor. Sabemos a
mar e a maresia quando o sol se põe. Sabemos a sal e a chamas quando a noite
começa. Danço, inebriado, nas ondas e afogo-me na imensidão do tempo. Levo-te
comigo. De cada vez que morro, levo-te comigo. Arrastas-me na solidão do
inverno e perdes-me de cada vez que chego ao mar. Recordas meu nome como se
fosses cego e tacteias o fim do meu corpo dentro de ti. Chega. Não suporto o
teu respirar sobre a minha partida. Deixa-me. Abandona-me. A tua voz invade o
meu silêncio, sem piedade, sem pudor. Não te suporto mais. São gotas de suor a
percorrer-me a pele enquanto me desfaço. São sangue as palavras que já te não
digo. São chamas as memórias que me castigam os dias. Sou eu despido, no sangue
da areia, a desaparecer no vazar das marés na certeza de que já não vais estar
mais aqui.
12/06/2015
tsel
Já não ouves o que eu digo. Já nem
sabes muito bem quem eu sou, na realidade. Olho-te nos olhos e sei, como só se
sabem as coisas que sabemos certas, que já não te lembras que dia é este que te
corre sobre os dedos sujos. Nem o mês que delimita o tempo sábio.
Questionas, com a simplicidade
dos simples, como se não tivesse qualquer importância, enquanto te treme o
lábio inferior como só quem tem a certeza de estar a partir sabe fazer. A
certeza de que se está a partir sem se saber parar. Sem se poder parar.
Os dias passam por ti seguros,
apenas, por finos fios de imagens frustres e de sonhos conhecidos. Já não
sentes o aroma que sobrevoa a tua pele nem o sabor do mar. Já não sabes em que
corpo habitas, que espaço ocupas, que lugares são os teus. Olhas, com a terna
sensação da queda infinita, o precipício que se abre sobre a imagem de ti e
mergulhas sem medo. Como se pode temer o que não se sabe que se deve temer?
Hoje queria pegar no outono.
Segurá-lo nas mãos. Verter as cores das folhas que ainda vão cair sobre a terra
e ouvir cada uma a quebrar. Debaixo das minhas mãos. Debaixo dos meus pés
descalços no frio da manhã. Queria pegar no que resta do outono e segurá-lo no
lugar reservado às coisas mais sagradas.
Sabes, tenho o corpo plantado num
leito de cardos e cada espinho se crava em mim pintado de violeta. Não podes
fazer nada. Já não podes fazer nada para travar este caminho, para parar este
pranto, para cessar esta tempestade aberta em nós. Terminou o tempo das coisas
possíveis. Resta apenas tentar fugir. Tentar correr. Tentar fechar os olhos e
fingir que tudo isto não passa de um sonho cansado.
Hoje sou eu que se esquece do
dia. Comecei a desejar não saber, a ansiar esquecer, a legitimar cada infidelidade
da minha memória como uma garantia que assegura a distância da tua solidão.
Mas, sabes, nas minhas mãos o outono já não cabe. Tento segurá-lo em mim e,
quando me olho, vejo e percebo tudo…tenho ainda as mãos vazias. Aqui só cabem
os espinhos e a sujidade dos teus dedos. O silêncio que vai do lugar em que tu
desapareces ao lugar em que desfaço, vai um quase nada que tem a dimensão de
todos os desertos do mundo. Um deserto onde cabem todos os resquícios de todos
os outonos que passaram por nós sem que tenhamos feito nada, resolvido nada,
sem que nos tenhamos segurado a uma qualquer corrente, mesmo que fosse uma
corrente feita de ar frio. Não te seguraste aqui. Seguiste como seguem as
coisas que não pretendem, jamais, regressar.
Sei que não me queres aqui. Em
verdade, sei que não me queres perto. E eu, por vezes, nos momentos em que as
palavras e as ausências dilaceram toda a capacidade de inspirar, desejava
quebrar-me como um vidro de cristal em milhares de estilhaços, tão
infinitamente pequenos que não pudessem ser jamais vistos. Nesses momentos,
perco mais uma parte do que restava de mim e olho para as mãos vazias sobre os
pés frios e decido ficar. Decido permanecer como se ficar fosse o único lugar
possível em mim. Ficar. Aqui, neste lugar reservado ao fim de tudo.
Talvez tu e eu não possamos mesmo
ser mais do que isto. Dois copos de cristal quedados sobre a nudez da pedra
fria. Talvez eu e tu não tenhamos mais lugar nenhum do que aquele que
aprendemos a ocupar, sem ninguém se aperceber.
De facto, o lugar onde tu morres
cada dia é o mesmo lugar exacto onde eu morro.
04/06/2015
Suffisent
Il n’y a quelqu' une possibilité de rester ici après aujourd’hui.
Il faut que je m' arrête sur mon
place.
Il faut que tu t’
en vas.
Il faut qu’on deviendrons cendres et le vent peut finir avec nous.
Ça doit être suffit, maintenant.
31/05/2015
esCarpa
Encontro-me na fenda do abismo e,
para onde quer que olhe, só vejo o cenário escarpado do meu fim de mundo. Pelas
paredes das rochas infinitas, o meu sangue desenha finos rios na paisagem negra.
Vou caindo com o corpo desfeito
em lágrimas, rasgando a pele em cada milímetro, partindo os ossos em cada embate,
caindo,
caindo,
caindo,
a obedecer, cego, à lei da gravidade exausta.
Tenho a
alma rasgada em duas partes. A parte que é de ti e a parte que é só de mim. Desfaço
o toque nos dedos quando tento agarrar o que me falta encontrar e, na verdade,
continuo caindo,
caindo,
caindo,
a obedecer, surdo, a uma
lealdade insalubre.
Encontro-me
dentro da fenda deste abismo aberto em mim e, ainda com a alma em lodo desfeita
e o corpo em chagas de tristeza, tacteio a rocha na certeza desperançada de
poder encontrar o rio.
27/05/2015
encontro teu corpo no embate do asfalto e sinto vontade de chorar.
oiço as vértebras a quebrarem, uma por uma, e sinto necessidade de gritar.
seguro nos dedos a tua agonia e fecho os olhos
para te não ver.
lambo o sangue na estrada quente e compreendo tudo o que terminou aqui.
inspiro a náusea, inteira dentro do meu corpo, e deixo-a cair sobre a tristeza infinda.
23/05/2015
o corpo caído como barro seco sobre a areia molhada.
as ondas do mar ainda não chegaram aqui. a maré cresce na incerteza da noite estar a chegar e vai avançando sedutora sobre o tempo que resta.
há restos de terra no corpo caído. há uma dor lancinante por dentro do movimento.
talvez hoje não deva haver movimento.
talvez hoje seja preciso parar a maré no avançar da areia.
talvez hoje seja isso apenas o necessário para sobreviver.
as ondas do mar ainda não chegaram aqui. a maré cresce na incerteza da noite estar a chegar e vai avançando sedutora sobre o tempo que resta.
há restos de terra no corpo caído. há uma dor lancinante por dentro do movimento.
talvez hoje não deva haver movimento.
talvez hoje seja preciso parar a maré no avançar da areia.
talvez hoje seja isso apenas o necessário para sobreviver.
19/05/2015
amanhã.
É simples, aquilo que descansa
sobre a pele. É sereno, o gesto que nos acaricia no começo da noite. É terna,
a certeza de que estamos a chegar ao lugar certo. É triste, a saudade do que
ficou por ter sido em nós. É vida, tudo aquilo que dança na possibilidade de
ser amanhã.
13/05/2015
partir
A dor permanece a ocupar o corpo como se não houvesse
alternativa.
Sentes que a vida vai, lentamente, saindo de dentro de ti e
te vai abandonando.
A dor é tudo o que sentes quando tudo o resto desaparece de
ti.
O silêncio em redor deste quarto é a tua possibilidade para
ouvires o que faltava.
Ouve.
Falta pouco agora.
Entoas uma prece, breve, só no movimento dos lábios e
acaricias, com gestos de poesia, o ar que te circunda e abraça no frio do cair
da madrugada.
Não temes nada. Olhas-te de frente e não tens medo.
Atravessas a imensidão da dor para te encontrares no lugar
certo, no momento certo, no momento em que dás as mãos ao que falta e te ouves
a partir.
E sorris, no silêncio de um breve e terno movimento dos teus
lábios.
palavraspalavraspalavras
São cordas de aço que me prendem. São cordas de aço que me retêm.
São aros de fogo que me consomem. São bafos de fumo que me impedem de abrir os
olhos.
São garras de corvo que me seguram. São restos de pele no
chão que se me perdem.
São palavras soltas que me destroem. São tempestades que me devastam.
São tempestades que me apaixonam. São ossos secos que me compõem.
São memórias de outrora que me esquecem. São memórias de
agora que se me desaparecem.
São angústias que reaparecem. São segredos que se descobrem.
São palavraspalavraspalavras que me despem.
São sentimentos que se perderam. São sintomas que adoecem.
São corpos que se perdem nas estradas. São ventos que afastam
a bonança.
São sangue e suor e lágrimas que me fazem. São crenças
desacreditadas que dançam.
São melodias de um silêncio que só pode ser eternamente
atroz. São respostas pendentes nas
perguntas por fazer.
São palavraspalavrasplavras que não chegam.
São tempos que se evadem na areia do deserto.
São anjos que quedam dos precipícios. São morreres que morrem silenciosos dentro de nós.
São vidas inteiras que se esquecem de ser.
São palavraspalavraspalavras que faltam aqui.
São palavras que se prendem nas cordas de aço que faltam
aqui.
03/05/2015
via
Atravesso a rua na certeza da ilusão. Não sei o caminho. Ainda
assim, não paro. Não paro.
Atravesso a rua na ilusão de que o caminho certo é o que vai
aparecer. Agora. Aqui em frente. Não olho para trás. Não seguro o que fica para
trás.
Fecho os olhos, por um breve instante, só para me reconhecer
ali. Exactamente no momento que atravessam todas as memórias de mim. Desafio o
que resta da minha sanidade no calor do dia e devasto os resíduos de agonia que
acordaram, há tanto tempo, em mim.
Ouço os sinos das igrejas a clamarem meu nome e confundo-me
na maré de gente que me atravessa o tempo. Oiço risos de criança e reconheço
quem sou no que ficou antes de mim.
Atravesso a rua na certeza de não saber por onde ir. Os meus
passos avançam numa dança insane e sentem cada grão da terra como uma caricia. Toco-me
para me saber, ali, naquele momento, e oiço-me rir por dentro.
Atravesso a rua na ilusão da certeza. Não sei o caminho. Mas
não paro.
sogNare
Leva-me pela mão mas não te
chegues demasiado perto.
Diz-me tudo o que tens a dizer sem que eu te oiça.
Toca-me
profundamente quando eu me virar de costas.
Encosta tua alma à minha quando eu
adormecer.
Grita-me ao ouvido tudo o que te leva a partir quando eu fechar os
olhos.
Respira-me na pele quando eu não já não estiver.
Dança em mim enquanto
eu corro.
Toca-me de cada vez que te sentires a morrer e eu seguro-te nos dedos
sem te deixar cair.
Conta-me, em segredo, as alucinações que te invadem a alma
quando não estás a dormir que eu silencio a dor.
Leva-me pela mão que eu não
te deixo cair.
espero-te na entrada. sei que, eventualmente, acabarás por chegar.
espero-te como se me esperasse a mim mesmo. cesso todos os movimentos, até o respirar, enquanto aguardo. sinto os restos da chuva a passarem sobre meus dedos mas não sinto o frio.
recordo, lentamente, os passos que demos a atravessar as ruas, como nos perdemos das ruínas de nós no pó da terra inteira, como nos deixamos chover sem ter medo algum, como nos permitimos falar até o silêncio ter espaço para chegar, como o vento entoava melodias dentro do nosso sangue, como a poesia era tudo o que a dor deixava sentir.
poderia ouvir-te falar o resto da minha vida inteira.
poderia ser eu mesmo se existir passasse a ser o que acontece a teu lado, para o resto da vida.
espero-te na entrada, onde acabarás por chegar.
espero-te como se esperar fosse reconhecer ter encontrado o lugar de nós no que faltava desta cidade. fui saber-te tão longe, mas tão aqui, no lugar onde eu começo, no lugar onde tu começas, no lugar onde nos encontramos e conseguimos ser mais do que duas solidões perdidas no tempo.
talvez, um dia, possas regressar. talvez, um dia, te reconheças na espera e chegues, aqui, a este lugar onde eu não sei ser eu sem ti.
espero-te como se me esperasse a mim mesmo. cesso todos os movimentos, até o respirar, enquanto aguardo. sinto os restos da chuva a passarem sobre meus dedos mas não sinto o frio.
recordo, lentamente, os passos que demos a atravessar as ruas, como nos perdemos das ruínas de nós no pó da terra inteira, como nos deixamos chover sem ter medo algum, como nos permitimos falar até o silêncio ter espaço para chegar, como o vento entoava melodias dentro do nosso sangue, como a poesia era tudo o que a dor deixava sentir.
poderia ouvir-te falar o resto da minha vida inteira.
poderia ser eu mesmo se existir passasse a ser o que acontece a teu lado, para o resto da vida.
espero-te na entrada, onde acabarás por chegar.
espero-te como se esperar fosse reconhecer ter encontrado o lugar de nós no que faltava desta cidade. fui saber-te tão longe, mas tão aqui, no lugar onde eu começo, no lugar onde tu começas, no lugar onde nos encontramos e conseguimos ser mais do que duas solidões perdidas no tempo.
talvez, um dia, possas regressar. talvez, um dia, te reconheças na espera e chegues, aqui, a este lugar onde eu não sei ser eu sem ti.
23/04/2015
mEloDia
há música nos gestos
vida nas mãos
lágrimas no rosto coberto de lama
e pó nos lábios fechados.
há música dentro do silêncio
dança dentro da alma
uma respiração lenta e demorada.
inspira.
há estrelas a rir por detrás da noite.
lugares de coisa nenhuma cheios de nadas por completar.
há caminhos que podem terminar apenas no lugar de nós,
quando nos decidirmos a saber partir.
vida nas mãos
lágrimas no rosto coberto de lama
e pó nos lábios fechados.
há música dentro do silêncio
dança dentro da alma
uma respiração lenta e demorada.
inspira.
há estrelas a rir por detrás da noite.
lugares de coisa nenhuma cheios de nadas por completar.
há caminhos que podem terminar apenas no lugar de nós,
quando nos decidirmos a saber partir.
a noite demora.
talvez seja quase manhã lá fora mas aqui,
neste lugar reservado às coisas que se aguardam,
a noite é lenta e demora-se na pele,
demora-se nos olhos,
demora-se na incerteza do tempo.
talvez seja ainda noite lá fora mas aqui,
neste lugar reservado às almas que se perdem do tempo,
o dia teima em circular no sentido oposto e em desaparecer
por entre o nevoeiro que queda sobre as madrugadas mais frias do começo
da primavera.
a ânsia cresce por dentro.
o tempo afunila-se nas imagens do que se espera que chegue a chegar,
sem que chegue,
e a alma demora-se na languidez da possibilidade de,
dentro em pouco,
poder vir a ser manhã.
19/04/2015
chEgar
Não pares agora que a dança te
abraça na lentidão dos dias. Não cedas ao cansaço agora que a luz iniciou o
caminho até chegar ao lugar que fica reservado às coisas por dizer. Não partas
agora que quase começaste a chegar ao lugar de ti.
Olha para a frente de cada vez
que tiveres medo. Olha em frente e vê o caminho que se abre diante de ti,
diante da tua sombra, diante dos teus pés despidos. Não tenhas medo. Navega as ondas
como se dançasses sob o luar. Bebe a noite como se começasses a nascer. Diz todas
as palavras que te magoam e chora perante o que resta do mundo.
E renasce. E recomeça. E não
temas o por vir.
Não pares agora que aprendeste a
dançar(-te). Não cedas agora que começaste a olhar(-te). Não partas agora que
chegaste(-te) até aqui.
09/04/2015
deliRium
Quando chegar, vou dizer-te que o
mundo acabou. Sei que ainda não sabes, mas o mundo acabou. O que encontras
dentro da tua imagem não és tu. É apenas o delírio do resquício do que foi em si
e já não é mais nada. Quando chegar vou mostrar-te que, afinal, eras tu quem
não estava aqui. Eras tu que não estavas no lugar certo quando o mundo morreu. Por
isso não viste, por isso não soubeste. Escutas as vozes que gritam dentro de ti
e perdes-te na certeza incerta de seres tu e o outro, e os outros que são em ti
sem que queiras, para deixares de ser tu e passares a ser apenas aquilo que
resta quando paras de sentir. Quando eu chegar não estou seguro de que te vou
encontrar. Mas se o mundo morreu, tenho de chegar até ao lugar que ocupas em
mim para podermos sobreviver. Vou ser a outra voz dentro de ti que te serena e
te diz que, afinal, quem morreu foste tu e o mundo é tudo o que acontece lá
fora, onde tu já não podes estar.
dUst
olho o mundo no caminho dos passos. o vento não
cessa de me abandonar de cada vez que cedo a cair. queria poder tocar nas asas
do vento e destruí-las. queria poder tocar nas ansas do tempo e rasgá-las.
como se rasga a carne, como se abrem as feridas, como se morre morrendo, como
se entoa um cântico. queria poder tocar-me de cada vez que cedo à gravidade e
quedo, mas o corpo fica longe da minha mão. não me toco de cada vez que me
abandono e estou cada vez mais longe do lugar onde deveria estar. olho o mundo
como se estivesse a cair e na verdade é o tempo que me empurra e me deserta. queria
poder destruir-me no tempo como se destroem as asas de pó que navegam o vento. queria
rasgar-me na certeza de que amanhã a ferida estaria aberta para depois se
fechar sem ter me tocar. ou cair nas ansas do tempo e fechar as mãos tão longe
do meu corpo de pó quanto fosse verdadeiramente possível.
03/04/2015
sou o lugar de coisa nenhuma. sou o lugar onde o deserto termina e o tempo consegue parar. se olhares para mim por um momento, se me vires por um só momento, vais poder compreender tudo. vais poder perceber a essência das coisas que nos compõem, que nos fazem, que nos completam. se me conseguires olhar, se me souberes ver, vais encontrar-te no fundo e mim e vais saber, com a certeza de que o deserto também termina no tempo, que foste sempre a maior dimensão de mim.
A chuva parece ter, finalmente, partido. Os dias alongam-se nas horas e a noite queda mais lenta, como se demorasse mais a chegar.
Há uma intensidade nas coisas que acontecem lá fora, diferente do que se sucede no tempo de aqui. Aqui já nada se move da mesma forma, já nada acontece, já nenhum movimento se espera.
Das janelas vê-se, primeiro, as grades; só depois o rio, só depois o céu.
Daqui, de onde eu estou, há uma grade que me separa de tudo o que acontece fora de mim e ao que eu pareço não poder chegar.
As coisas que acontecem em mim não são as coisas que podem ser fora de mim.
Aqui já não há nada intenso, nem longo, sem ser a imensidão da solidão que me ocupa no vazio. Tudo é lento, sim, mas tudo acontece sob a forma de chuva. Chove aqui dentro e não depois de aqui. A chuva parece, finalmente, ter cessado; excepto em mim.
Há uma intensidade nas coisas que acontecem lá fora, diferente do que se sucede no tempo de aqui. Aqui já nada se move da mesma forma, já nada acontece, já nenhum movimento se espera.
Das janelas vê-se, primeiro, as grades; só depois o rio, só depois o céu.
Daqui, de onde eu estou, há uma grade que me separa de tudo o que acontece fora de mim e ao que eu pareço não poder chegar.
As coisas que acontecem em mim não são as coisas que podem ser fora de mim.
Aqui já não há nada intenso, nem longo, sem ser a imensidão da solidão que me ocupa no vazio. Tudo é lento, sim, mas tudo acontece sob a forma de chuva. Chove aqui dentro e não depois de aqui. A chuva parece, finalmente, ter cessado; excepto em mim.
10/09/2014
silk
seguram-me finos fios de seda.
a chuva está prestes a chegar e eu ainda não comecei a andar. em breve terei de começar a mover-me. em breve terei de desaparecer.
rasga-se-me a pele à medida que equaciono o movimento. o sangue queda, frio, sobre a terra bafienta. está quase tudo seco aqui. está quase tudo morto aqui.
se, ao menos, escutasse a tua voz, poderia quebrar os fios que ainda me seguram e começar a correr.
mas só há silêncio, hoje e sempre, aqui, por dentro deste lugar.
a chuva está prestes a chegar e eu ainda não comecei a andar. em breve terei de começar a mover-me. em breve terei de desaparecer.
rasga-se-me a pele à medida que equaciono o movimento. o sangue queda, frio, sobre a terra bafienta. está quase tudo seco aqui. está quase tudo morto aqui.
se, ao menos, escutasse a tua voz, poderia quebrar os fios que ainda me seguram e começar a correr.
mas só há silêncio, hoje e sempre, aqui, por dentro deste lugar.
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