12/06/2015

tsel

Já não ouves o que eu digo. Já nem sabes muito bem quem eu sou, na realidade. Olho-te nos olhos e sei, como só se sabem as coisas que sabemos certas, que já não te lembras que dia é este que te corre sobre os dedos sujos. Nem o mês que delimita o tempo sábio.
Questionas, com a simplicidade dos simples, como se não tivesse qualquer importância, enquanto te treme o lábio inferior como só quem tem a certeza de estar a partir sabe fazer. A certeza de que se está a partir sem se saber parar. Sem se poder parar.
Os dias passam por ti seguros, apenas, por finos fios de imagens frustres e de sonhos conhecidos. Já não sentes o aroma que sobrevoa a tua pele nem o sabor do mar. Já não sabes em que corpo habitas, que espaço ocupas, que lugares são os teus. Olhas, com a terna sensação da queda infinita, o precipício que se abre sobre a imagem de ti e mergulhas sem medo. Como se pode temer o que não se sabe que se deve temer?
Hoje queria pegar no outono. Segurá-lo nas mãos. Verter as cores das folhas que ainda vão cair sobre a terra e ouvir cada uma a quebrar. Debaixo das minhas mãos. Debaixo dos meus pés descalços no frio da manhã. Queria pegar no que resta do outono e segurá-lo no lugar reservado às coisas mais sagradas.
Sabes, tenho o corpo plantado num leito de cardos e cada espinho se crava em mim pintado de violeta. Não podes fazer nada. Já não podes fazer nada para travar este caminho, para parar este pranto, para cessar esta tempestade aberta em nós. Terminou o tempo das coisas possíveis. Resta apenas tentar fugir. Tentar correr. Tentar fechar os olhos e fingir que tudo isto não passa de um sonho cansado.
Hoje sou eu que se esquece do dia. Comecei a desejar não saber, a ansiar esquecer, a legitimar cada infidelidade da minha memória como uma garantia que assegura a distância da tua solidão. Mas, sabes, nas minhas mãos o outono já não cabe. Tento segurá-lo em mim e, quando me olho, vejo e percebo tudo…tenho ainda as mãos vazias. Aqui só cabem os espinhos e a sujidade dos teus dedos. O silêncio que vai do lugar em que tu desapareces ao lugar em que desfaço, vai um quase nada que tem a dimensão de todos os desertos do mundo. Um deserto onde cabem todos os resquícios de todos os outonos que passaram por nós sem que tenhamos feito nada, resolvido nada, sem que nos tenhamos segurado a uma qualquer corrente, mesmo que fosse uma corrente feita de ar frio. Não te seguraste aqui. Seguiste como seguem as coisas que não pretendem, jamais, regressar.
Sei que não me queres aqui. Em verdade, sei que não me queres perto. E eu, por vezes, nos momentos em que as palavras e as ausências dilaceram toda a capacidade de inspirar, desejava quebrar-me como um vidro de cristal em milhares de estilhaços, tão infinitamente pequenos que não pudessem ser jamais vistos. Nesses momentos, perco mais uma parte do que restava de mim e olho para as mãos vazias sobre os pés frios e decido ficar. Decido permanecer como se ficar fosse o único lugar possível em mim. Ficar. Aqui, neste lugar reservado ao fim de tudo.
Talvez tu e eu não possamos mesmo ser mais do que isto. Dois copos de cristal quedados sobre a nudez da pedra fria. Talvez eu e tu não tenhamos mais lugar nenhum do que aquele que aprendemos a ocupar, sem ninguém se aperceber.
De facto, o lugar onde tu morres cada dia é o mesmo lugar exacto onde eu morro.

04/06/2015

Suffisent


Il n’y a quelqu' une possibilité de rester ici après aujourd’hui.
Il faut que je m' arrête sur mon place.

Il faut que tu t’ en vas.
Il faut qu’on deviendrons cendres et le vent peut finir avec nous.

 
Ça doit être suffit, maintenant.

01/06/2015

nada tem importância

quando aprendes a saber esperar.

31/05/2015

esCarpa


Encontro-me na fenda do abismo e, para onde quer que olhe, só vejo o cenário escarpado do meu fim de mundo. Pelas paredes das rochas infinitas, o meu sangue desenha finos rios na paisagem negra.

Vou caindo com o corpo desfeito em lágrimas, rasgando a pele em cada milímetro, partindo os ossos em cada embate, caindo,

caindo,

caindo,

a obedecer, cego, à lei da gravidade exausta.

Tenho a alma rasgada em duas partes. A parte que é de ti e a parte que é só de mim. Desfaço o toque nos dedos quando tento agarrar o que me falta encontrar e, na verdade, continuo caindo,

caindo,

caindo,

a obedecer, surdo, a uma lealdade insalubre.

Encontro-me dentro da fenda deste abismo aberto em mim e, ainda com a alma em lodo desfeita e o corpo em chagas de tristeza, tacteio a rocha na certeza desperançada de poder encontrar o rio.

27/05/2015


encontro teu corpo no embate do asfalto e sinto vontade de chorar.

oiço as vértebras a quebrarem, uma por uma, e sinto necessidade de gritar.

seguro nos dedos a tua agonia e fecho os olhos para te não ver.       

lambo o sangue na estrada quente e compreendo tudo o que terminou aqui.

inspiro a náusea, inteira dentro do meu corpo, e deixo-a cair sobre a tristeza infinda.

23/05/2015

o corpo caído como barro seco sobre a areia molhada.
as ondas do mar ainda não chegaram aqui. a maré cresce na incerteza da noite estar a chegar e vai avançando sedutora sobre o tempo que resta.
há restos de terra no corpo caído. há uma dor lancinante por dentro do movimento.
talvez hoje não deva haver movimento.
talvez hoje seja preciso parar a maré no avançar da areia.
talvez hoje seja isso apenas o necessário para sobreviver.

19/05/2015

por vezes, quase que acredito que muito do que nos mantém vivos é a certeza de haver alguém, em qualquer lugar, em qualquer momento, que se recorda de nós.

amanhã.


É simples, aquilo que descansa sobre a pele. É sereno, o gesto que nos acaricia no começo da noite. É terna, a certeza de que estamos a chegar ao lugar certo. É triste, a saudade do que ficou por ter sido em nós. É vida, tudo aquilo que dança na possibilidade de ser amanhã.

13/05/2015

partir

A dor permanece a ocupar o corpo como se não houvesse alternativa.
Sentes que a vida vai, lentamente, saindo de dentro de ti e te vai abandonando.
A dor é tudo o que sentes quando tudo o resto desaparece de ti.
O silêncio em redor deste quarto é a tua possibilidade para ouvires o que faltava.
Ouve.
Falta pouco agora.
Entoas uma prece, breve, só no movimento dos lábios e acaricias, com gestos de poesia, o ar que te circunda e abraça no frio do cair da madrugada.
Não temes nada. Olhas-te de frente e não tens medo.
Atravessas a imensidão da dor para te encontrares no lugar certo, no momento certo, no momento em que dás as mãos ao que falta e te ouves a partir.
E sorris, no silêncio de um breve e terno movimento dos teus lábios.

palavraspalavraspalavras


São cordas de aço que me prendem.  São cordas de aço que me retêm.
São aros de fogo que me consomem.  São bafos de fumo que me impedem de abrir os olhos.

São garras de corvo que me seguram. São restos de pele no chão que se me perdem.
São palavras soltas que me destroem.  São tempestades que me devastam.

São tempestades que me apaixonam. São ossos secos que me compõem.
São memórias de outrora que me esquecem. São memórias de agora que se me desaparecem.

São angústias que reaparecem. São segredos que se descobrem.
São palavraspalavraspalavras que me despem.

São sentimentos que se perderam. São sintomas que adoecem.
São corpos que se perdem nas estradas. São ventos que afastam a bonança.

São sangue e suor e lágrimas que me fazem. São crenças desacreditadas que dançam.
São melodias de um silêncio que só pode ser eternamente atroz.  São respostas pendentes nas perguntas por fazer.

São palavraspalavrasplavras que não chegam.

São tempos que se evadem na areia do deserto.
São anjos que quedam dos precipícios.  São morreres que morrem  silenciosos dentro de nós.

São vidas inteiras que se esquecem de ser.
São palavraspalavraspalavras que faltam aqui.

São palavras que se prendem nas cordas de aço que faltam aqui.

 

03/05/2015

via





 
 
Atravesso a rua na certeza da ilusão. Não sei o caminho. Ainda assim, não paro. Não paro.
Atravesso a rua na ilusão de que o caminho certo é o que vai aparecer. Agora. Aqui em frente. Não olho para trás. Não seguro o que fica para trás.

Fecho os olhos, por um breve instante, só para me reconhecer ali. Exactamente no momento que atravessam todas as memórias de mim. Desafio o que resta da minha sanidade no calor do dia e devasto os resíduos de agonia que acordaram, há tanto tempo, em mim.
Ouço os sinos das igrejas a clamarem meu nome e confundo-me na maré de gente que me atravessa o tempo. Oiço risos de criança e reconheço quem sou no que ficou antes de mim.
Atravesso a rua na certeza de não saber por onde ir. Os meus passos avançam numa dança insane e sentem cada grão da terra como uma caricia. Toco-me para me saber, ali, naquele momento, e oiço-me rir por dentro.
Atravesso a rua na ilusão da certeza. Não sei o caminho. Mas não paro.

sogNare


Leva-me pela mão mas não te chegues demasiado perto.
Diz-me tudo o que tens a dizer sem que eu te oiça.
Toca-me profundamente quando eu me virar de costas.
Encosta tua alma à minha quando eu adormecer.
Grita-me ao ouvido tudo o que te leva a partir quando eu fechar os olhos.
Respira-me na pele quando eu não já não estiver.
Dança em mim enquanto eu corro.
Toca-me de cada vez que te sentires a morrer e eu seguro-te nos dedos sem te deixar cair.
Conta-me, em segredo, as alucinações que te invadem a alma quando não estás a dormir que eu silencio a dor.
 Leva-me pela mão que eu não te deixo cair.
espero-te na entrada. sei que, eventualmente, acabarás por chegar.
espero-te como se me esperasse a mim mesmo. cesso todos os movimentos, até o respirar, enquanto aguardo. sinto os restos da chuva a passarem sobre meus dedos mas não sinto o frio.
recordo, lentamente, os passos que demos a atravessar as ruas, como nos perdemos das ruínas de nós no pó da terra inteira, como nos deixamos chover sem ter medo algum, como nos permitimos falar até o silêncio ter espaço para chegar, como o vento entoava melodias dentro do nosso sangue, como a poesia era tudo o que a dor deixava sentir.
poderia ouvir-te falar o resto da minha vida inteira.
poderia ser eu mesmo se existir passasse a ser o que acontece a teu lado, para o resto da vida.
espero-te na entrada, onde acabarás por chegar.
espero-te como se esperar fosse reconhecer ter encontrado o lugar de nós no que faltava desta cidade. fui saber-te tão longe, mas tão aqui, no lugar onde eu começo, no lugar onde tu começas, no lugar onde nos encontramos e conseguimos ser mais do que duas solidões perdidas no tempo.
talvez, um dia, possas regressar. talvez, um dia, te reconheças na espera e chegues, aqui, a este lugar onde eu não sei ser eu sem ti.

28/04/2015

 
"Anche il viaggio piu lungo
inizia con il primo passo"

proverbio cinese
roma.

23/04/2015

mEloDia

há música nos gestos
vida nas mãos
lágrimas no rosto coberto de lama
e pó nos lábios fechados.
há música dentro do silêncio
dança dentro da alma
uma respiração lenta e demorada.
inspira.
há estrelas a rir por detrás da noite.
lugares de coisa nenhuma cheios de nadas por completar.
há caminhos que podem terminar apenas no lugar de nós,
quando nos decidirmos a saber partir.
a noite demora.
talvez seja quase manhã lá fora mas aqui,
 neste lugar reservado às coisas que se aguardam,
a noite é lenta e demora-se na pele,
demora-se nos olhos,
demora-se na incerteza do tempo.
 
talvez seja ainda noite lá fora mas aqui,
neste lugar reservado às almas que se perdem do tempo,
o dia teima em circular no sentido oposto e em desaparecer
por entre o nevoeiro que queda sobre as madrugadas mais frias do começo
da primavera.  
 
a ânsia cresce por dentro.
o tempo afunila-se nas imagens do que se espera que chegue a chegar,
sem que chegue,
e a alma demora-se na languidez da possibilidade de,
 dentro em pouco,
poder vir a ser manhã.
 

19/04/2015



chEgar


Não pares agora que a dança te abraça na lentidão dos dias. Não cedas ao cansaço agora que a luz iniciou o caminho até chegar ao lugar que fica reservado às coisas por dizer. Não partas agora que quase começaste a chegar ao lugar de ti.

Olha para a frente de cada vez que tiveres medo. Olha em frente e vê o caminho que se abre diante de ti, diante da tua sombra, diante dos teus pés despidos. Não tenhas medo. Navega as ondas como se dançasses sob o luar. Bebe a noite como se começasses a nascer. Diz todas as palavras que te magoam e chora perante o que resta do mundo.

E renasce. E recomeça. E não temas o por vir.

Não pares agora que aprendeste a dançar(-te). Não cedas agora que começaste a olhar(-te). Não partas agora que chegaste(-te) até aqui.

09/04/2015

deliRium

Quando chegar, vou dizer-te que o mundo acabou. Sei que ainda não sabes, mas o mundo acabou. O que encontras dentro da tua imagem não és tu. É apenas o delírio do resquício do que foi em si e já não é mais nada. Quando chegar vou mostrar-te que, afinal, eras tu quem não estava aqui. Eras tu que não estavas no lugar certo quando o mundo morreu. Por isso não viste, por isso não soubeste. Escutas as vozes que gritam dentro de ti e perdes-te na certeza incerta de seres tu e o outro, e os outros que são em ti sem que queiras, para deixares de ser tu e passares a ser apenas aquilo que resta quando paras de sentir. Quando eu chegar não estou seguro de que te vou encontrar. Mas se o mundo morreu, tenho de chegar até ao lugar que ocupas em mim para podermos sobreviver. Vou ser a outra voz dentro de ti que te serena e te diz que, afinal, quem morreu foste tu e o mundo é tudo o que acontece lá fora, onde tu já não podes estar.

dUst


olho o mundo no caminho dos passos. o vento não cessa de me abandonar de cada vez que cedo a cair. queria poder tocar nas asas do vento e destruí-las. queria poder tocar nas  ansas do tempo e rasgá-las. como se rasga a carne, como se abrem as feridas, como se morre morrendo, como se entoa um cântico. queria poder tocar-me de cada vez que cedo à gravidade e quedo, mas o corpo fica longe da minha mão. não me toco de cada vez que me abandono e estou cada vez mais longe do lugar onde deveria estar. olho o mundo como se estivesse a cair e na verdade é o tempo que me empurra e me deserta. queria poder destruir-me no tempo como se destroem as asas de pó que navegam o vento. queria rasgar-me na certeza de que amanhã a ferida estaria aberta para depois se fechar sem ter me tocar. ou cair nas ansas do tempo e fechar as mãos tão longe do meu corpo de pó quanto fosse verdadeiramente possível.

03/04/2015

sou o lugar de coisa nenhuma. sou o lugar onde o deserto termina e o tempo consegue parar. se olhares para mim por um momento, se me vires por um só momento, vais poder compreender tudo. vais poder perceber a essência das coisas que nos compõem, que nos fazem, que nos completam. se me conseguires olhar, se me souberes ver, vais encontrar-te no fundo e mim e vais saber, com a certeza de que o deserto também termina no tempo, que foste sempre a maior dimensão de mim.
A chuva parece ter, finalmente, partido. Os dias alongam-se nas horas e a noite queda mais lenta, como se demorasse mais a chegar.
Há uma intensidade nas coisas que acontecem lá fora, diferente do que se sucede no tempo de aqui. Aqui já nada se move da mesma forma, já nada acontece, já nenhum movimento se espera.
Das janelas vê-se, primeiro, as grades; só depois o rio, só depois o céu.
Daqui, de onde eu estou, há uma grade que me separa de tudo o que acontece fora de mim e ao que eu pareço não poder chegar.
As coisas que acontecem em mim não são as coisas que podem ser fora de mim.
Aqui já não há nada intenso, nem longo, sem ser a imensidão da solidão que me ocupa no vazio. Tudo é lento, sim, mas tudo acontece sob a forma de chuva. Chove aqui dentro e não depois de aqui. A chuva parece, finalmente, ter cessado; excepto em mim.

10/09/2014

silk

seguram-me finos fios de seda.
a chuva está prestes a chegar e eu ainda não comecei a andar. em breve terei de começar a mover-me. em breve terei de desaparecer.
rasga-se-me a pele à medida que equaciono o movimento. o sangue queda, frio, sobre a terra bafienta. está quase tudo seco aqui. está quase tudo morto aqui.
se, ao menos, escutasse a tua voz, poderia quebrar os fios que ainda me seguram e começar a correr.
mas só há silêncio, hoje e sempre, aqui, por dentro deste lugar.

09/07/2014

13.

escuta.
espera um pouco.
espera por mim.
passou demasiado tempo. a vida passou demasiado depressa. a vida não parou e esqueci de aprender a esperar. espera por mim.
escuta. passou mais um ano. mais um sobre todos os outros que tive de passar sem estares aqui.
hoje, cada vez mais, o tempo parece que não devia ter passado. tudo seria tão diferente se tivesses ficado. se tivesses podido escolher ter ficado. eu teria escolhido teres ficado, aqui, perto, e tudo teria sido tão diferente.
e hoje não seria tão dificil. e ontem não teria sido tão sangrento. e hoje eu poderia dormir na certeza de que amanhã respiravas para eu poder viver.
resta-me segurar-te na fraqueza de mim e não te deixar partir, mais um ano.
escuta. espera por mim.
espera por mim.

01/04/2014


Cheira a cinzas e a vazio.
Faz frio aqui.
As vozes, roucas, entoam melodias há muito esquecidas.
Nesta casa não existe amanhã. Existe apenas o que sobra da noite quando o dia decide partir. Sobra apenas a madeira antiga a rasgar a pele dos pés despidos.
Se ouvires com atenção, reconheces que o silêncio já não está aqui. Que há um ruído interminável a sobrevoar toda a capacidade de respirar e deixas de querer respirar. Às vezes deixas de querer respirar e passas a querer ser a chuva que corre do lado de fora dos vidros, das paredes, da madeira, e transforma a terra no lodo onde te podias deixar tombar.
Se escutares com atenção o que o vento dentro da tua memória dita, verás que as coisas que não podem ser alteradas, são como esculturas esculpidas no gelo que existe dentro de cada um de nós. Gelo que nenhum sol pode derreter.

Por isso faz tanto frio aqui. Por isso não podes, nunca, chegar a ser chuva.

Por vezes não me encontro no lugar que ocupo. Não me reconheço na imagem projectada. Não revejo os gestos dentro do corpo como se o mesmo fosse meu. Conto o tempo e não sei onde estive. Reconto os passos e não sei de onde vim. Atravesso as memórias difusas, em névoa, dentro das imagens que guardei e não tenho a certeza de serem reais. Perco-me demasiadas vezes no caminho para ter sabido ter estado ali. Preciso do que reconheço não poder nunca chegar a ter e iludo-me na sensação de que não sou eu quem procura. Quero olhar para mim e juro que não me encontro aqui. Eu não sou eu nem o outro, sou qualquer coisa de intermédio, dizia o poeta morto dentro de si mesmo. Eu não sou eu sem ti. E essa é a única verdade do universo que eu reconheço. E tu és o único lugar em que eu existo.

12/03/2014


Tenho sal a correr-me na língua ferida.
As palavras escorrem por dentro de mim como ferrugem a queimar-me o sangue.
Sou o que resta da minha incapacidade de ser mais e envelheço na certeza de que o mar já não chega aqui.

Estou a olhar para ti e não te encontro. Estou a olhar para mim como que a querer ver-te a ti mas parece-me que nenhum de nós chegou a tempo. Olho para o que sobra da tua sombra em minha pele e esqueço-me onde estou. Inalo-te inteiro dentro do meu sangue e esqueço-me de ser. De respirar. Esqueço-me de respirar enquanto espero que chegues. És inteiro dentro de mim porque eu sempre fui tão pouco. E tu sempre foste o que havia de melhor no lugar que me sobrava. Espero-te há tanto tempo que já não sei quanto tempo passou. Na verdade, a vida não parou. Na verdade, a vida não parou em mim e eu fui morrendo. Na verdade, esqueci-me de respirar todos estes anos e agora envelheci inteira por dentro da alma. Sempre que me encontro no meio de mim és tu que me ocupas. Sempre que me vejo a olhar para mim são os teus olhos que vejo e cego por não saber como te ver e como te fazer ver-me. Esqueço-me que o lugar que reservamos ao amor morre se não nos lembrarmos de respirar. Se não soubermos dizer as palavras que ocupam os lugares do sentimento sentido. Se não soubermos lutar com o guerreiro silencioso que morre em cada um nós. Esqueci-me de te dizer todas as coisas porque nunca aprendi como dizer e o que eu não digo é sempre tão maior do que o que sei dizer. Mas na verdade, não se sabe ouvir o que está por dentro do silêncio quando não nos encontramos no tempo certo. Esqueço-me de respirar cada vez que te perco e morro em mim. Vivo eternamente de cada vez que te encontro e volto aqui. A este lugar em que não te digo tudo o que te digo e em que continuo a morrer na espera de te rever.

20/01/2014


perdoa-me. não me encontro na imagem e ti e tu não me vês.
perdoa-me. perdi-te irremediavelmente.
perdoa-me. devia ter sabido segurar-te. era a minha fortuna e não fui capaz. perdoa-me. não fui capaz.
deus sabe que tentei, como tentei, o que perdi, o que achei que tinha encontrado, o pó e as sombras, os labirintos e as espirais, os abismos e a queda eterna. perdoa-me.
não era suposto ter caido.
perdoa a minha incapacidade e o meu cansaço.
perdoa os meus olhos cegos, a minha fala selada, o meu abismo aberto sobre ti.
perdoa-me se morri cedo demais. se falhei cedo de mais. se te perdi cedo demais. mas deus estava a ver. sabe que tentei. mais ninguem me mostrou o caminho.
perdoa-me se não soube escolher o caminho certo.
eu tentei. falhei. tentei. morreste. falhei. morri.
perdoa-me.
mastigo o vidro enrolado no sangue da lingua.
lambo a aspereza da pedra enquanto a boca se dilacera.
morro de tristeza enquanto o vidro me desfaz.
a lingua enrolada na tisteza do gelo a partir. da pele a rasgar. do sal a queimar. do mar a morrer.
a morrer enquanto ondas de sangue me dilaceram por dentro e a minha boca desaparece no silêncio da chuva que parou dentro do meu corpo.
e morro.
na tristeza de estar agora aqui.

16/12/2013


Quando olhares para mim já não me vais encontrar. Vou ser eu aqui sem ser eu aqui. Não vou ser mais do que o que já fui e o que deveria ter sido e o que ficou no meio do caminho. Vou ser mais mas vou ser menos que mais. Vou ser o que sobra das coisas que não findam. Vou ser como o sol no inverno e a chuva no verão. Vou ser eu sem ser eu. Vou ser nada depois de mim. Vou chegar a ser o que nunca fui e não ser nada mais além do que o que devia ter sido. Vou ficar por ser o que era para ser sem ter chegado a ser em momento nenhum. E isso terá de ser o suficiente. Se voltares a olhar para mim.

12/11/2013

Segura-te bem. Isto é o começo do fim. Todas as linhas de aço que te seguram estão já corroídas do tempo e da chuva que não chegou, nunca, a cessar. Segura-te bem. O fim é o momento que vem depois de agora.
Não precisas temer nada do que possa vir. Não vai ser muito diferente do que viveste até aqui. Não vais questionar. Não vais querer mais. Vai ser tudo igual.
O mesmo cubo de onde não vais, nunca, chegar a aprender a sair. Paredes que nunca vais aprender a deitar abaixo. Portas que nunca vais aprender a abrir. Tectos que nunca pintaste de mais nenhuma cor que não o mais negro dos negros que a noite pode ter.  
Segura-te bem. Os fios estão a estilhaçar o que resta do tempo que falta. Um. Dois. Mais um.
Tudo termina muito em breve. Segura-te bem.

Não te consigo ouvir. Escutar cada movimento teu é uma parte de mim que morre em agonia. Não tenho para onde fugir nem sequer já tenho a força que precisava para o fazer. Perdoa-me.

Não me consigo mover desta cadeira. Respiro lenta e brevemente. Não tenho a certeza de estar vivo. Só o caos me atravessa em chicotes improváveis. E mais nada posso tolerar depois de hoje.

08/08/2013

in media vita, mortus sumus


olho para trás. miro a vida desenhada numa linha sinuosa, de contornos de avanços e de recuos, de becos sem saída e de autoestradas de vias percorridas, de veredas calcorreadas a pé descalço ao fruto de suor e de escorridas felicidades. uma linha de vida traçada ao fio de grãos de areia: imponente e impotente ao abraço da brisa que sopra ao rés-do-chão da vida. foi.

olho para trás. e toda a linha é uma extensão desalinhada e alinhavada com pedaços colhidos e deixados para que o peso fosse suportável. Miguel Torga tem uma expressão invejável pela sua imagem completa: será que desta vida fica ao menos uma baba como a do caracól que possa reluzir quando o raio do sol nela toque? permanecer.

olho para trás. em nenhures da linha escrevi que entre a autenticidade (a vida do espírito) e a efectividade (a vida da acção) da vida existia um hiato tão grande que nele cabiam outras tantas vidas. somos tantos e tão diferentes a viver a mesma vida, a aguentar a areia desta linha desalinhada de direita – ser tantos de um e um em tantos: estou aqui sentado. diferentemente.

olho para trás. ser é ser incomunicável: por maior e mais alto que seja o grito existencial, ele soará sempre a silêncio. escutar.

olho para trás. há momentos em que tudo corre alucinante de tão rapidamente que só é comparável à lentidão imóvel de outras ocasiões. a clareira de um sorriso dá sentido à floresta inteira, porque há sorriso e há floresta em não haver. respirar.

a meio da vida estamos mortos: olho para trás e aí miro a extensão da linha defronte; poderia ser maior ou mais curta, mas é tão-somente a extensão onde descansar o peso que, na tal-vez, seja incomportável ou ainda o lugar onde erguer uma montanha de movimento. interlúdio.

tudo o que puder ser, desafiando a impossibilidade, repousará sobre os ombros do meu mirar e desse peso farei a minha sepultura. esperar.

23/07/2013

@


Quanto mais a corda do tempo se estica e se dilata, maior é a lucidez do lugar nunca ter sido diferente donde fomos para sermos - morremos novos demais e velhos de menos – e será nesta redoma que me diluo e - talvez - eu seja mais eu do que eu.

18/07/2013

twelve


Conto os anos que passam sobre a pele dos dedos e já não chegam. Nas mãos o tempo já passou vezes demais. Anos demais.
Há 12 anos que te guardo no medo de te poder perder. Não te posso, nunca, perder.

07/07/2013

longE

Foram os anos que sobre nós passaram
todos estes anos.
Estamos na esquina de um largo da cidade
e cessamos de respirar.
uma apneia para nos sabermos reconhecidamente ali,
naquele lugar,
tão infinitamente longe.

06/07/2013

fuga


Não há nenhum lugar para onde se possa fugir quando não se sabe onde se está. Se não sabes onde estás não podes saber, nunca, para onde vais. Assim, não podes saber por onde passar para te esqueceres que existes, pelo menos por um momento.

E se não consegues esquecer-te que existes, não consegues esquecer-te de quem és. E se te reconheces em ti sem te saberes bem no lugar que ocupas, o mundo enfraquece em todo o seu sentido.

Não esperes que eu saiba voltar ao lugar em que estávamos antes de chegar aqui. Já não sei o caminho de volta porque me esqueci de tentar lembrar. Nem tu nem eu podemos fugir. Eu de mim. Tu de ti. Eu de ti.

Não podemos mais fugir porque nenhuma de nós sabe onde está. Não há luz nenhuma aqui.

vidRo

é como se partisses tudo em que tocas
como se todas as peças de todos os gestos
fossem meros restos de vidro
como que pisados
como que esmagados

tudo em que tocas desfaz-se perante o olhar meu que te olha
por mais que tente compreender a que lugar pertence cada fragamento,
não consigo
como se fosse um puzzle incompleto a que
infinitamente,
faltará sempre
pelo menos,
uma peça


caminho com as mãos descalças sobre os vidros de ti
rasgado a carne da pele para me saber
a quase morrer.

03/04/2013

estar estando


Estou sem estar como se estar significasse estar estando sem ter chegado a estar porque não chego a estar no lugar certo para se estar estando.
Se não estou não tentes que esteja porque vou estar sem estar a estar e isso não significa nada.
Queria que estivesses a estar estando sem teres de estar em nenhum outro lugar.
Se estivesses a estar aqui, agora, dir-te-ia que estou a estar estando sempre a estar sem ter de voltar a estar em nenhum outro lugar enquanto estiveres estando a estar aqui.

02/04/2013


Sento-me e aguardo. Fecho os olhos sobre os braços e canto em vez de chorar. Espero que a noite não seja mais dia mas o dia parece não querer terminar hoje. Guardo a confusão do mundo num lugar quieto e ainda assim…não pára. Aguardo. A noite vem sem ter vindo porque o corpo parece não querer ceder ao cansaço. Quero ceder ao cansaço. Sento-me e aguardo. Coloco a iluminação no mínimo possível para provocar uma saída. Inutilmente. Os olhos pesam sobre os braços e as feridas do dia começam a pulsar na pele. A dançar no pensamento. A electrificar a impossibilidade de parar. Sento-me e aguardo, em vão, que a noite me leve, quieto, até ao dia de amanhã recomeçar.

01/04/2013


é sempre inverno agora.

há uma primavera a querer começar e não há tréguas.

a chuva queda como se amanhã não houvesse mais do que a possibilidade de continuar um dilúvio puro para lavar a terra que ficou nas mãos cansadas depois da guerra.

hoje foi mais um dia deste dilúvio contínuo. caíram serras e montanhas dentro do mar revolto. cairam marés dentro da areia afogada em si. caíram homens dentro das suas próprias almas.

a maré cinzenta a consumir a cidade das cidades e a sombra das sombras. as mãos da terra e as terras das mãos.

o céu a enegrecer cada fragmento bélico no ar e a não ser possível respirar sem medo.

não olhes para o céu agora que é da cor da terra nas tuas mãos antes do mar chegar no resto da maré do dilúvio cansado e lavar tudo.

guarda tudo o que não queres que o inverno devaste porque já falta pouco tempo para tudo voltar a terminar. mais uma vez.

se o dilúvio de lágrimas em que o céu se desfez terminar, já não se recuperam as almas mas volta a ser possivel respirar o ar das marés, sem medo de cair na areia e se afogar.

não olhes para o céu. agora. espera.

31/03/2013

fico em silêncio porque nunca soube dizer bem as coisas certas. guardo o silêncio dentro da minha incapacidade e deixo que tudo parta para longe do lugar onde permaneço incapaz.
perdoa a minha incapacidade.
perdoa nunca ter sabido dizer tudo o que queria ter dito há já tantos anos.
percebo que me tenhas deixado ficado aqui, no meu lugar sem lugar a ti, mas nunca soubeste porque tiveste de o fazer. eu nunca te expliquei.
todos os dias te vi e te revi, te vivi no lugar vazio que sempre tive dentro de mim. és o meu destino desde que te conheci e por ser tão pequeno face a tudo o que eras, desisti de tentar ser o que não poderia ter sido.
não te mereci. nunca te mereci e ainda hoje não mereço mas a verdade é que te não esqueço nunca e parte de mim sobrevive pela memória de ti.
guardo o que me restou bem dentro do meu lugar vazio e encho-o do que poderia ter sido. e isso terá de me bastar.
 
talvez um dia me possas reencontrar no lugar em que te deixei partir.
és o lugar onde eu acabo e não sou nada além do lugar de ti.

04/12/2012


Encontro-te no resto do carvão que guardo nas pontas dos dedos. Estive a desenhar-te na chuva enquanto esquecia a imagem de ti. Estive a ver-te caído entre as letras, entre as palavras das páginas esquecidas entre gavetas e as estantes perdidas nas ruas que te levaram para longe de ti.

Guardo-te no carvão dos dedos enquanto te escrevo no desenho do ar. Sopro o pó negro da pele sobre o papel arrefecido pelo cheiro da chuva e é o que eras que aparece escrito.

És as palavras todas que estão por dizer, por escrever, por saber. És o que falta acontecer em ti e fechas os olhos de carvão enquanto a chuva cai. Talvez possas perder o medo de ti e te reencontres nas ruas sem teres de olhar para trás.

Talvez te (re)escrevas com o carvão dos olhos na pele dos dedos e (re)saibas desenhar-te caído sobre as páginas de ti.

29/11/2012


Coloca a minha solidão sobre a tua distância
e permite-me que descanse por um minuto.

Voltei a mim para terminar em ti
e não sei mais do que isto
hoje.
se pudesse

ouvir-te-ia falar

o resto da minha vida

inteira.

24/11/2012

as mãos apertadas nos braços cerrados e a noite a cair. a emenda impossivel do erro consagrado com o silêncio de uma solidão antiga. derramar os resquicios do pó sobre a terra para lembrar como a chuva deveria cair.
as mãos cerradas sobre o abraço apertado e o reconhecimento absoluto da incapacidade total de se poder ser um pouco além do expectável.
a certeza, a infeliz certeza, de que a competência nula sobre si mergulha e invade cada fragmento da sua tentativa.
reconheço o que perdi desde que aqui regressei. reconheço e reservo o segredo do que sei ter perdido.
talvez me tenha exaurado sem saber porquê, talvez tenha entregue o corpo à sede e a alma à fome e tenha, em verdade, perdido quase tudo.
não tenho a coragem que guardava em mim enquanto frente ao deserto infinito.
não tenho a força que tinha junto ao mar de sal imenso.
não tenho a segurança que tinha no caminhar sombrio das noite bélicas.
e agora tenho medo de dormir. agora tenho medo de encontrar. agora canalizo para o lado errado de mim e não encontro a saida. não encontro o caminho. o sentido. a vontade. não encontro a noite nem o sul. invento desculpas como quem esculpe a pedra. num poço sem fundo luto desesperadamente pela tona, pela superficie.
e espero. e procuro. encerro as mãos sobre um abraço fechado
                                                                                      e canto.

23/11/2012

não te reconheço quando entro na mesma casa de sempre. és tu mas não és tu.
és o que resta de ti e o que eu vejo que resta de ti.
eu já não sou eu inteiro porque perdi o que falta agora em ti.
sou o que resta do que resta do que eras.
quando entro aqui, um dia depois do outro dia, depois da noite que vem depois do dia seguinte, um dia mais do que o dia anterior, não te reconheço em nenhum deles.
olhas para mim sem olhares para mim e sei que também já não me reconheces.
e sei que vou perder, agora e nos dias que faltam, o resto que resta de ti.

14/05/2012


«Cansamo-nos de tudo, excepto de compreender. O sentido da frase é por vezes difícil de atingir.

Cansamo-nos de pensar para chegar a uma conclusão, porque quanto mais se pensa, mais se analisa, mais se distingue, menos se chega a uma conclusão.

Caímos então naquele estado de inércia em que o mais que queremos é compreender bem o que é exposto – uma atitude estática, pois que queremos compreender sem nos interessar, sem que nos importe que o compreendido seja ou não verdadeiro, sem que vajamos mais no que compreendemos senão a forma exacta do que foi exposto, a posição de beleza racional que tem para nós.

Cansamo-nos de pensar, de ter opiniões nossas, de querer pensar para agir. Não nos cansamos, porém, de ter, ainda que transitoriamente, as opiniões alheias, para o único fim de sentir o seu influxo e não seguir o seu impulso».

Fernando Pessoa, O Livro do Desassossego, p. 243

23/02/2012

Faz-me falta olhar para ti. Olhar para ti para ver o que vês em mim. Faz me falta ouvir-te dizer absolutamente nada quando chegas e quando partes. Quando olhas para mim mergulhado em silêncio e me abandonas de olhos cheios dos nadas que te e me compõem. Sou o reflexo do que vês e nunca sei o que é, só porque não me dizes rigorosamente nada. Há já tanto tempo. Faz-me falta saber-te mas a tua distância ditou o reflexo do que deixei de ser para ti e esse silêncio, o que vem daí, só a mim pertence.  

19/02/2012

ch.e.gar.a.tem.po

Pensei que dava tempo para chegar a tempo. Apesar de ter feito o tempo parar por aqueles breves segundos, não foi o suficiente. Não cheguei a tempo e isso agora é tudo com o que posso contar. Era suposto ter chovido hoje para evitar o que o verão vai trazer. Era suposto ter acontecido tudo hoje mas nada chegou a ser. Não cheguei a tempo. Como sempre.
Ainda assim quis recordar exactamente há quanto tempo ando a cavalgar este deserto e não consegui. O tempo disse-me, em tempos, quanto tempo já tinha passado pelo tempo mas esqueci. Deixei de conseguir lembrar. Como tu deixaste de conseguir lembrar.
Talvez também não tenhas conseguido chegar a tempo do tempo. E por isso não te consigas recordar mais de nada do que o tempo te trouxe e te levou.
Também pode ser que tenhas sempre chegado a tempo do tempo mas que não tenhas querido nada com o tempo porque este passou por ti sem te dizer adeus uma única vez e tu não soubeste nunca perdoar. Ainda hoje não o sabes. Embora já nem te recordes do que é que não te consegues esquecer de nunca perdoar.
Hoje parece que é já uma eternidade que fez com que o que restava do tempo me deixasse cair na areia quente. E como tu não recordas nem queres mais nenhuma vez recordar, também eu hoje me esqueci de há quanto tempo ando por aqui. Mas não teve importância, como vês. Nunca chego a tempo. E hoje, não foi possível haver qualquer excepção apesar de eu ter conseguido,
por breves ridículos momentos,
ter conseguido sossegar o tempo.

20/01/2012

aBandOn_O

Deixaste-me ficar



                                  em suspenso


num lugar que não queria conhecer


                                  à espera.






Aguardei que as noites pudessem terminar,


Pelo menos por um                       momento.


Esperei sempre que o teu regresso fosse a minha libertação

e agora encarcero-me na chuva que não chegou a cair.






Guardo cada fragmento do tempo


                                                 deste tempo todo


e coloco-o no lugar que é mais fundo em mim,


antes de me deixar                 esquecer.






Respiro no respirar de uma apneia


                                                 demorada


E seguro o último resquício da minha voz


Em silêncio.                             Sempre.





Não reconheço o lugar onde caí

e nada me resta senão segurar a distância em ambas as mãos e correr até


poder voltar a cair.                    Sem esperar.


Uma e outra vez.


Até deixar de sentir o resto              que falta.



Abandonado em mim.















rest.AR

Há restos de comida no chão. Cheira ao que ficou de ontem. Cheira a noite vazia. A esterco. São restos aqui e ali. Coisas que faltam em coisas outras que não as que não chegaram a chegar aqui. Há restos em todas as divisões desta casa. Restos de ti. Restos dos restos que restaram de mim. Em todas as paredes os sinais que só a sujidade que carrego sabe deixar dançar sobre a ideia de claridade da luz. Mas não há luz aqui. Só os restos.  

pEl.E

Estou cansado. Limpo os olhos e as mãos da terra vermelha que chegou no vento frio da tarde. Coloco os dedos fechados nas palmas e o resto nos bolsos. Abro, lenta e dolorosamente, os olhos à medida que sinto o resto a aproximar-se. Estou cansado. Tenho as pernas a ranger no soalho apodrecido. Tenho o corpo frio como o inverno que confirmo existir somente em mim. Cumpro ordens das memórias soltas que me devastam num sol quente de um deserto esquecido em terras de uma África distante. Não tenho fé. Nem tenho já tempo para a aprender. Tenho o que penso ser um qualquer fim a chegar-me aos pés e decidi não fazer absolutamente mais nada para o impedir. Nem sequer fechar os olhos. Vou queimar-me das memórias inteiras e olhar o devir de frente. E mais nada seria expectável deste deserto que amanhece na areia vermelha da minha pele.

03/01/2012

nevo.a

o corpo fundido na
incerteza escura do
nevoeiro que se abateu pela cidade
hoje.
caminho como se arrastasse
correntes presas na pele
dos ossos.
há ruidos
insuportáveis
a moldar-me os pés
a ferir-me nos olhos
a abandonar-me na terra
dos jardins vazios.
sou a névoa do nevoeiro
hoje
e abandonei-me da
na
cidade.
hoje.

20.12

o que mudou,
agora,
que um novo ano começou?

26/08/2011

Adeus

"É um adeus...

Não vale a pena sofismar a hora!

É tarde nos meus olhos e nos teus...

Agora,

O remédio é partir discretamente,

Sem palavras,

Sem lágrimas,

Sem gestos.

De que servem lamentos e protestos

Contra o destino?

Cego assassino

A que nenhum poder

Limita a crueldade,

Só o pode vencer a humanidade

Da nossa lucidez desencantada.

Antes da iniquidade

Consumada,

Um poema de líquido pudor,

Um sorriso de amor,

E mais nada".


Miguel Torga

17/08/2011

s.A.l.A.

Esperar. Esperamos nas salas de espera das salas de espera da espera. Olhamos, de olhos entreabertos, a clareza absurda das cadeiras adoecidas pelo passar do tempo e dos corpos. Esperamos a esperar o que vai chegar e fingimos que sabemos exactamente o que pretendemos esperar sem que realmente o esperemos. Caras caídas sobre os colos cansados distribuídos, sem qualquer harmonia, sobre as cadeiras dispostas em filas sem fim. O chão branco a lembrar o frio do inverno que não tarda a chegar e que demora tanto a partir. Esta é como as outras salas. Uma sala onde esperar se tornou outro lugar diferente. Uma sala onde mais não há do que o corpo de quem esperar vazio de vontade de esperar.

paradise

- não tenho vontade nenhuma de viver. por mim dava já um tiro na cabeça.

- onde é que tens a arma?
- não tenho. mas arranjo.

-queres que te vá comprar uma agora?

- quero. vai já e dou já o tiro na cabeça. à tua frente.


15/08/2011

secretum

Tenho no corpo um segredo guardado.
Rasgo cada aresta da minha pele enquanto embato de cabeça na areia molhada deste deserto em que me deixei ficar.
Não chove aqui. Não nascem flores, nem arbustos, nem nada que possa cobrir o resto das minhas cinzas.
Esta terra é negra como o sarro que as minhas mãos ocupam e tenho no corpo um segredo que ninguém pode conhecer. Cada poro respira e jorra sangue vivo. Sangue cansado. Sangue sem sangue.
Queria poder saber fazer nascer qualquer coisa desta abrupta ruptura entre o que sou e o que fui e não encontro forma. Nem geométrica, nem forma sem forma de forma nenhuma.
Amei como se amam as coisas que têm sempre que partir e fiquei na espera que elas regressassem aqui. Mas o que parte desta terra de areia não volta mais.
Tremem-me as mãos na incerteza de ser possível dormir hoje. Os ossos rangem no silêncio que só quem foi abandonado assim sabe ouvir. O silêncio é imenso. Ininterrupto. Voraz e absorve-me de toda a capacidade de respirar.
Aqui não nasce vida. Não cresce nada. Por causa deste segredo que morreu dentro da minha pele e que jamais alguém poderá chegar a saber.

10

Morri há tanto tempo que nem me lembro de ter chegado a estar vivo.
Os anos, os dias, os segundos detêm todos a exacta medida das coisas que não estão no seu lugar. A exacta medida do não haver nada. Morri morrendo sem saber que morri e aqui está o que sobrou.
A determinada altura esqueci o que me descrevia. A prepotência da humanidade em querer nomear tudo. As palavras a não serem menor que sinais, que descrições, que caminhos, que certezas, que penas e fados. Morri morrendo sem saber que estava vivo. Desde que te perdi. Não. Desde que partiste. Não. Desde que te perdiste. Partiste. Perdeste. Perdi. Já nem sei bem a palavra para nomear a tua ausência. Pensei que ia cheirar eternamente a flores aqui. No lugar em que te deixei ficar estes 10 anos. Mas já não cheira. Tenho o olfacto tão envelhecido como os cabelos que se branqueiam sobre o meu olhar cansado. Conto os anos pelos dedos das mãos. 10. 10 dedos.  Sigo-te na linha ténue de um pensamento enfraquecido pela desfragmentação do tempo e quase, quase te ouço rir. Faz-me frio dentro de mim quando insisto em negar que o tempo passou assim sobre a tua ausência de mim e eu não cesso, e eu não paro para esquecer. Às vezes queria esquecer. Às vezes queria lembrar que existe um lugar onde eu não esqueço que a dor termina. E a dor não chega a terminar nunca porque eu não chego a esquecer. Porque tenho medo de esquecer por não querer mesmo nunca, chegar a esquecer-te. Morro morrendo na certeza de que a morte me abandonou aqui quando te levou. E quando a olho nos olhos, todas as noites que me penam a adormecer, quase te ouço rir. E quase chego a recordar que há um lugar onde a solidão terminava.

10/08/2011

inquestionabilidade

Não sei porque insisto em ficar quando tudo insiste para que eu vá.
aprendi a não olhar para trás
a não ceder ao medo
a ouvir as portas que rangem e que se batem
aprendi a questionar o inquestionável e a ter sempre dúvidas
a ouvir e a escutar as palavras dos outros
a perder
aprendi a perder
a deixar partir
a saber deixar partir
a esquecer de saber sentir
a sentir e a saber esquecer
aprendi a aceitar e a não ter fé
a escrever o apocalipse
a remendar o passado e a construir a possibilidade do futuro
a saber resolver o irresolúvel
a prendi a cair e a levantar
a andar de pé descalço na areia
e sobre as fendas dos estilhaços
a roubar o fogo aos deuses e não aos homens
a tactear o começo e fim da escuridão inteira
aprendi a não olhar nunca para trás
a perdoar o mundo
a não me perdoar a mim
aprendi a não saber aprender a aceitar que o mundo é um lugar que eu não quero mais conhecer. abandono o que sobra do que conheci, cada segundo que passa, para dentro da areia do meu deserto. Encerro os lugares da memória, da vontade e da inquestionabilidade e vou quedando. Vou deixando cada pegada revelar a minha necessidade de fuga e vou, de frente para a tempestade, aprendendo a desistir de conseguir ser mais do que isto.

03/07/2011

rio.

Nasci com uma incapacidade incomensurável para amar. Tornei-me em algo abjecto, sem cor, sem carisma. Um saco plástico a boiar na sujidade do Tejo e nada mais do que isso.
A humanidade causa-me agonia. É-me insuportável escutar, ouvir, dizer, calar. É –me nauseante tolerar a presença do outro humano sobre a minha pele, a escorrer-me no suor, a doer-me nos ossos. Cansa-me. A humanidade. Tu. O outro. Eu mesmo. Nada mais que um fragmento de um nada qualquer a vaguear no sujo destas águas em que sonho que me afogo, agora mesmo, neste momento em que procuro – triste infantilidade esta – remeter-me à ilusão da solidão absoluta materializada pela possibilidade da inexistência de outros seres humanos no mesmo espaço que eu ocupo.
Valho muito pouco sobre e fora das águas deste rio cansado. Tão pouco que nada -  nem mesmo o silêncio que habita em mim- me reconhece.
Não sei bailar, não tolero o corpo em que me alojo, porque não lhe compreendo as dores e a amargura. A humanidade devasta-me. Queria poder ser água, agora, neste momento em que o rio se afoga em si mesmo.

26/05/2011

dragon slay

Podia ser a manifestação de um qualquer tipo de melodramatismo ou comédia trágica a forma como caminhavas na rua todas as noites. O teu andar era como se não soubesse que andava. Toda a magnitude do teu corpo se afastava dos outros transeuntes sem os ver, sem os saber – realmente – frente a si. Caminhavas como caminham as pessoas que perderam a esperança, que esqueceram a vontade. Era como se tivesses perdido algo que nunca conseguiste perceber, com rigor, do que se tratava.
Observei-te desta janela alta durante todo o tempo que te levaram os passos a percorrer a rua. Um ano? Uma vida? Breves minutos? Não percebi quanto tempo foi e se era uma imagem que repetia, repetidamente, na minha memória ou se era um movimento prolongado, verdadeiramente, no tempo. O certo é que te observei como se observa o vazio do céu de verão. Vi como arrastavas uma ausência presente em cada gesto, uma tristeza inerente a cada sorriso, o cansaço absorto nos movimentos que pareciam fazer doer tanto. Observei como o teu caminhar rapidamente se tornou uma força inerte. Era como se uma gravidade elevada ao expoente máximo da incapacidade para o movimento te trouxesse, de forma quase imperceptível ao olho destreinado, de encontro à terra fria. Nem sequer te apercebias do caminho. Se pudesse arriscar dizer alguma coisa sobre este assunto, ousaria referir que nem sequer querias saber o caminho que tomavas. Talvez fosse um qualquer tipo de gesto mecanizado que te levava a percorrer esta rua em particular, desta maneira em particular. Ou talvez não. De qualquer forma o conteúdo não tem importância.
- O quê?
- Estava a dizer que o conteúdo não tem importância. Já a forma, a forma é que traduz tudo o que precisamos saber.  
- A questão anterior a essa que colocas não seria saber se há algo a saber em toda esta questão?
- Não.
Segurei o corpo nos dedos inteiro enquanto te via fechar a janela. Tantos anos que passo por esta  mesma rua . Não sei bem porquê. Uma vez por um motivo esquecido pelo tempo. Outra vez por um acaso. Outra por um propósito despropositado. Outra e outra e outra sem saber porquê. Mas de todas as vezes ela permanecia nessa janela nessas águas furtadas que me conduziam de forma inevitável e recorrente, a um lugar imaginário onde havia espaço para guardar até um dragão. A janela pequena, de madeira corroída e ela detrás. Uma imagem, um vulto apenas. Não lhe compreendo os contornos do rosto ou do colo. Não lhe adivinho a cor dos cabelos. Uma presença na distância de seis andares. Esta rua, sempre a mesma, igual há tanto tempo e sempre ela ali. A olhar-me. Penso que a ver-me. A saber-me. Pode não ser mais do que uma ilusão infantil mas parece que há uma serenidade aqui e que o meu corpo me descansa na alma que desiste. Esta rua é serena na imagem dada a esta distância. Sinto que o meu corpo se podia tornar mais pesado, até mesmo cessar, se ela não estivesse a velar por mim sobre as copas das árvores que sustentam o caminho. Desvio-me para não embater no ser esvaziado de si que vem de encontro ao meu vazio. Sinto um lugar por dentro semelhante ao dele. Também me arrasto. Aqui, agora, desde há tanto tempo. Um passo semelhante ao de tantos outros. Uma ausência presente de forma incontornável. Arrasto os pés na tentativa de prolongar o momento. Para que me saibas a passar. Mais uma vez. Se pudesse dizia-te que tenho uma banda a tocar uma melodia azul na minha cabeça. O céu é um imenso vazio no verão. Deves ver melhor dai. Estás mais perto (d)aí. Olho-te na ilusão de que estás (estarás) nessa janela para ver reflectida a certeza inexacta da violência da minha existência. Podia bater à porta da tua janela se soubesse subir ás arvores sem o peso do meu corpo nos dedos.
- A questão está sempre na forma que temos. Que fazemos. Que repetimos. Que (re)criamos. Como nos movemos e como reflectimos o movimento no olhar do outro.
- Tudo o que sei sobre ti é o que leio nos teus gestos frágeis, fugidios, lentos.
- Querias dizer-me algo?
- Não. Repliquei na certeza de que não me poderias ouvir aí. Faz frio aqui em cima, sabes, como se não fosse nunca verão. A madeira está velha e cansada. O chão quase toca no tecto mas ainda cabem dragões. Asseguro-te que ainda cabem. Mas tudo vai cedendo à tentação da queda.
- Temos uma inevitável tendência para a queda, não sentes?
- Podia disparar o meu corpo desta janela. A queda definitiva.
- Até ao lugar para onde agora atravesso?
- Talvez. Mais um pouco acima, talvez. Ou uns passos abaixo. Junto à terra. De forma definitiva.
- De novo a forma.
- a forma é o lugar onde reside o sentido. Sabias?
- Então vem. Espero-te aqui. Se aí não estiveres o meu corpo cessa. Se aqui chegares, caio junto a ti.
- Pode demorar o tempo que leva um dragão a morrer.
- Volto amanhã. Com o propósito de ter um propósito para atravessar, de novo, a mesma rua.

19/05/2011

s.pin.e

se houvesse um rasgo de espaço entre o que em mim deve e o que em mim pode,
eu seria o que me falta conseguir ser.
se eu pudesse medir, em rigor milimétrico, o espaço exacto que vai de mim até ao que de mim não chegou a ser,
caminharia sobre as mãos toda a distância medida até me reencontrar.
se o torporeocansaçoedesfalecimentoesolidãoeador que me afoga hoje pudesse desvanecer sob o eterno inverno que parou aqui e já não parte nunca,
eu saberia andar, de novo, sem desequilíbrio na marcha, sem temor.
bastaria apenas conseguir respirar por tempo suficiente.
sem me enganar.
sem me esquecer.
e talvez todos os hiatos que persistem pudessem encontrar
um qualquer fim.


salga

Tentei saber o motivo pelo qual nunca pude andar sobre a terra molhada como os outros todos fazem. Perceber porque nunca andei sobre nada que não tivesse arestas, lâminas afiadas a beijarem a pele dos meus pés descalços.
Quando chove consigo ver melhor que o meu chão não é igual ao teu chão.
Que o meu corpo não é igual ao teu corpo.
Que a minha voz soa tão diferente da tua.
Que a minha memória dura tão menos tempo do que tu.
Sabes que o tempo não chega para eu chegar aqui a tempo de todas as vezes que assim o intento.
Nasceste da chuva – não, eu nasci da chuva – da terra – não, da lama – não, eu da lama tu da areia – não – os meus pés sobre o teu rosto molhado de mar – não, de chuva – não, de lama, de lama a salgar-te o olhar com que me tocas nas noites vazias – como esta – como eu – como o lugar que não tenho para posar os pés. O engano. Tu sabes que chego sempre aqui por engano, por me confundir de olhos fechados sobre os caminhos todos. O engano - da ausência da recordação - em que me deixei cair e agora não sei saber onde estou. Talvez não esteja em lugar nenhum enquanto te não encontrar e tu não me explicares porque é que os meus pés descalços não serenam na areia – não, na terra – e são assim, chagas abertas ao mar à espera que chova para conseguir ver o resto do caminho que – repetidamente – esqueço.