26/05/2011

dragon slay

Podia ser a manifestação de um qualquer tipo de melodramatismo ou comédia trágica a forma como caminhavas na rua todas as noites. O teu andar era como se não soubesse que andava. Toda a magnitude do teu corpo se afastava dos outros transeuntes sem os ver, sem os saber – realmente – frente a si. Caminhavas como caminham as pessoas que perderam a esperança, que esqueceram a vontade. Era como se tivesses perdido algo que nunca conseguiste perceber, com rigor, do que se tratava.
Observei-te desta janela alta durante todo o tempo que te levaram os passos a percorrer a rua. Um ano? Uma vida? Breves minutos? Não percebi quanto tempo foi e se era uma imagem que repetia, repetidamente, na minha memória ou se era um movimento prolongado, verdadeiramente, no tempo. O certo é que te observei como se observa o vazio do céu de verão. Vi como arrastavas uma ausência presente em cada gesto, uma tristeza inerente a cada sorriso, o cansaço absorto nos movimentos que pareciam fazer doer tanto. Observei como o teu caminhar rapidamente se tornou uma força inerte. Era como se uma gravidade elevada ao expoente máximo da incapacidade para o movimento te trouxesse, de forma quase imperceptível ao olho destreinado, de encontro à terra fria. Nem sequer te apercebias do caminho. Se pudesse arriscar dizer alguma coisa sobre este assunto, ousaria referir que nem sequer querias saber o caminho que tomavas. Talvez fosse um qualquer tipo de gesto mecanizado que te levava a percorrer esta rua em particular, desta maneira em particular. Ou talvez não. De qualquer forma o conteúdo não tem importância.
- O quê?
- Estava a dizer que o conteúdo não tem importância. Já a forma, a forma é que traduz tudo o que precisamos saber.  
- A questão anterior a essa que colocas não seria saber se há algo a saber em toda esta questão?
- Não.
Segurei o corpo nos dedos inteiro enquanto te via fechar a janela. Tantos anos que passo por esta  mesma rua . Não sei bem porquê. Uma vez por um motivo esquecido pelo tempo. Outra vez por um acaso. Outra por um propósito despropositado. Outra e outra e outra sem saber porquê. Mas de todas as vezes ela permanecia nessa janela nessas águas furtadas que me conduziam de forma inevitável e recorrente, a um lugar imaginário onde havia espaço para guardar até um dragão. A janela pequena, de madeira corroída e ela detrás. Uma imagem, um vulto apenas. Não lhe compreendo os contornos do rosto ou do colo. Não lhe adivinho a cor dos cabelos. Uma presença na distância de seis andares. Esta rua, sempre a mesma, igual há tanto tempo e sempre ela ali. A olhar-me. Penso que a ver-me. A saber-me. Pode não ser mais do que uma ilusão infantil mas parece que há uma serenidade aqui e que o meu corpo me descansa na alma que desiste. Esta rua é serena na imagem dada a esta distância. Sinto que o meu corpo se podia tornar mais pesado, até mesmo cessar, se ela não estivesse a velar por mim sobre as copas das árvores que sustentam o caminho. Desvio-me para não embater no ser esvaziado de si que vem de encontro ao meu vazio. Sinto um lugar por dentro semelhante ao dele. Também me arrasto. Aqui, agora, desde há tanto tempo. Um passo semelhante ao de tantos outros. Uma ausência presente de forma incontornável. Arrasto os pés na tentativa de prolongar o momento. Para que me saibas a passar. Mais uma vez. Se pudesse dizia-te que tenho uma banda a tocar uma melodia azul na minha cabeça. O céu é um imenso vazio no verão. Deves ver melhor dai. Estás mais perto (d)aí. Olho-te na ilusão de que estás (estarás) nessa janela para ver reflectida a certeza inexacta da violência da minha existência. Podia bater à porta da tua janela se soubesse subir ás arvores sem o peso do meu corpo nos dedos.
- A questão está sempre na forma que temos. Que fazemos. Que repetimos. Que (re)criamos. Como nos movemos e como reflectimos o movimento no olhar do outro.
- Tudo o que sei sobre ti é o que leio nos teus gestos frágeis, fugidios, lentos.
- Querias dizer-me algo?
- Não. Repliquei na certeza de que não me poderias ouvir aí. Faz frio aqui em cima, sabes, como se não fosse nunca verão. A madeira está velha e cansada. O chão quase toca no tecto mas ainda cabem dragões. Asseguro-te que ainda cabem. Mas tudo vai cedendo à tentação da queda.
- Temos uma inevitável tendência para a queda, não sentes?
- Podia disparar o meu corpo desta janela. A queda definitiva.
- Até ao lugar para onde agora atravesso?
- Talvez. Mais um pouco acima, talvez. Ou uns passos abaixo. Junto à terra. De forma definitiva.
- De novo a forma.
- a forma é o lugar onde reside o sentido. Sabias?
- Então vem. Espero-te aqui. Se aí não estiveres o meu corpo cessa. Se aqui chegares, caio junto a ti.
- Pode demorar o tempo que leva um dragão a morrer.
- Volto amanhã. Com o propósito de ter um propósito para atravessar, de novo, a mesma rua.

19/05/2011

s.pin.e

se houvesse um rasgo de espaço entre o que em mim deve e o que em mim pode,
eu seria o que me falta conseguir ser.
se eu pudesse medir, em rigor milimétrico, o espaço exacto que vai de mim até ao que de mim não chegou a ser,
caminharia sobre as mãos toda a distância medida até me reencontrar.
se o torporeocansaçoedesfalecimentoesolidãoeador que me afoga hoje pudesse desvanecer sob o eterno inverno que parou aqui e já não parte nunca,
eu saberia andar, de novo, sem desequilíbrio na marcha, sem temor.
bastaria apenas conseguir respirar por tempo suficiente.
sem me enganar.
sem me esquecer.
e talvez todos os hiatos que persistem pudessem encontrar
um qualquer fim.


salga

Tentei saber o motivo pelo qual nunca pude andar sobre a terra molhada como os outros todos fazem. Perceber porque nunca andei sobre nada que não tivesse arestas, lâminas afiadas a beijarem a pele dos meus pés descalços.
Quando chove consigo ver melhor que o meu chão não é igual ao teu chão.
Que o meu corpo não é igual ao teu corpo.
Que a minha voz soa tão diferente da tua.
Que a minha memória dura tão menos tempo do que tu.
Sabes que o tempo não chega para eu chegar aqui a tempo de todas as vezes que assim o intento.
Nasceste da chuva – não, eu nasci da chuva – da terra – não, da lama – não, eu da lama tu da areia – não – os meus pés sobre o teu rosto molhado de mar – não, de chuva – não, de lama, de lama a salgar-te o olhar com que me tocas nas noites vazias – como esta – como eu – como o lugar que não tenho para posar os pés. O engano. Tu sabes que chego sempre aqui por engano, por me confundir de olhos fechados sobre os caminhos todos. O engano - da ausência da recordação - em que me deixei cair e agora não sei saber onde estou. Talvez não esteja em lugar nenhum enquanto te não encontrar e tu não me explicares porque é que os meus pés descalços não serenam na areia – não, na terra – e são assim, chagas abertas ao mar à espera que chova para conseguir ver o resto do caminho que – repetidamente – esqueço.

25/04/2011

caLçada

Os espaços são pequenos. Às vezes, as ruas não chegam para fazer passar tudo.
Vagueias, abandonado, pelas calçadas desfeitas desta Lisboa esquecida. Noite após noite, passas por aqui e por ali sem saberes bem para onde vais, mas a reconhecer os odores todos. Segues todas as ruas que vêm de onde estás até onde chegas e, por breves instantes, esqueces tudo o que não faz falta lembrar.
Passeias livremente agrilhoado à tua solidão. Sabes o que te espera. Conheces o retorno inteiro e deixaste de o conseguir temer.
Aceitas uma mão estranha sobre tua face envelhecida e fechas os olhos para saberes esse momento inteiro. Começas a medo e, de forma lenta e ponderada, deixas-te serenar.
Se pudesses, ficarias onde a mão que te toca te é segura. Mas não podes.
As ruas que te separam de onde estás até aqui, até este lugar exacto, são demasiado distantes.



19/04/2011













Retratos de Mulheres


"Fotografias de mulheres por três artistas distintos: Jorge Martins, Man Ray e Julião Sarmento. Até 30 de Abril na Fundação Arpad Szenes - Vieira da Silva, em Lisboa.
"The Fifty Faces of Juliet" é a série de retratos apresentada do norte-americano Man Ray (1890-1976), que foca a mulher do artista, Juliet Browner, fotografada entre 1941 e 1955.
Já Jorge Martins nunca pensou em mostrar fotografia, actividade que tem paralelamente à pintura. Nesta exposição revela " Eros cromático", um conjunto de 20 registos de modelo feminino, feitos em Paris, entre 1964 e 1073. Algumas das fotografias apresentadas foram realizadas no ateliê parisiense de Vieira da Silva.
Por fim, Julião Sarmento exibe 62 fotografias de 31 mulheres, realizadas ao longo de 42 anos. Um núcleo de imagens, sua maioria inéditas e realizadas entre os finais dos anos 60 e os dias de hoje, escolhidas pelo artista e pelo comissário Sérgio Mah.
S.Po. (PÚBLICO)"



exposição na fundação arpaz szenes - vieira da silva
vista domingo. ao sol. no jardim das amoreiras.
Não te consigo proteger. Não sei ser mais do que isto. E isto não chega. Vai ser sempre em espiral. Em queda.
Daqui até ao fim. Vai ser assim.
Não te posso proteger. Nem sequer te segurar nas mãos.
Remeto-me à sombra.
Sabes que aqui faz sempre sombra?

18/04/2011

this world looks something like this tonight

www.nasaimages.org

ecoar

Ela estava completamente nua quando entrou na sala. Trazia areia no cabelo. Trazia vidros nas mãos. Olhou para mim como se olham as coisas que não estão no sítio certo e perguntou o que eu ainda fazia ali.
Nem eu sabia. Estaria ainda ali? Quanto tempo teria passado desde que cheguei?
Lá fora ecoava o riso da tempestade que se abateu sobre a cidade. Sem aviso. Sem qualquer sinal. Que eu visse. Que tenha percebido. Assim como o que ela me dizia. Não consegui compreender e ela compreendeu que eu não havia compreendido nada e simplesmente virou as costas e saiu da sala. Não tive opção nenhuma para além de guardar as mãos no saco junto com o resto das coisas que achei que deviam, eventualmente, poder fazer falta. Guardei dois livros. Não sei quais. Era como se não tivessem capa, nem letras, palavra nenhuma, só as páginas amareladas. Penso que guardei o caderno, o relógio, as bolachas que ela tanto odeia. As chaves. E as mãos.
Olhei para o outro lado da sala para perceber se ela voltaria atrás e me diria algo que eu pudesse, realmente, entender. Mas não.
Nada.
A última imagem que poderia levar comigo era o seu cabelo cheio de areia despida. E a certeza de que o sabor do corpo dela desapareceria de mim e toda a sua dimensão se desvaneceria assim que eu tocasse a chuva.
Segurei o saco nas mãos guardadas e desci as escadas sem olhar para trás. É preciso saber deixar as coisas. Aprendi a saber deixar as coisas assim, em silêncio, no torpor da trovoada, nos corpos despidos, nos resquícios das páginas por escrever.
Desci a rua como se fizesse parte da chuva. Como se não houvesse mais nada, naquele momento e para todo o sempre, que não a certeza da chuva.

Passaram 5 anos. E o rosto dela de costas para mim ainda ecoa no trovão das minhas mãos guardadas em silêncio.

13/04/2011

rigoletto

entras e sais da noite de mim como se mais que uma sombra nos meus olhos não fosses e,
de todas as vezes que chegas,
eu sei que te vou deixar partir de imediato.
e é assim que tu e eu seremos sempre:
palavras por dizer na névoa do que nos
eternamente
separa.

06/04/2011

laranjeira

Perguntas porque é que as coisas nunca são fáceis.
Cheira a flores de laranjeira mesmo aqui à porta. Mesmo aqui, no coração da cidade coberto de fumo negro. Cheira a flores de laranjeira e as pétalas quedam no avançar das asas dos melros sedentos.
Começa a primavera e tudo se mantém pouco simples. Parece que as coisas na vida não podem ser simples para alguns de nós. Como se fosse importante passar cada dificuldade como se de um teste se tratasse, como se de uma demanda nos torneássemos. Como se não houvesse, definitivamente, nenhuma outra alternativa possível.
Houve um tempo em que esperei que te tornasses em algo que se parecesse com as asas de um pássaro vestido de negro. Houve dias e noites em que iludia os sonhos, os compassos de tempo, as melodias inventadas em silêncio, numa ilusão perfeita de que eu era, e podia ser, mais do que isto que efectivamente reconhecia ser. E não era. E nunca fui. E nunca cheguei a ser. Sabes que o odor das flores destas laranjeiras acaba tão rápido. Remete-me para a infância e logo me arranca a carne da cara e me atira contra o muro de cimento que construí, dia após dia, ao longo de todos estes anos.
As coisas não são fáceis. Não podiam ser fáceis. Para ti, que arrastas uma existência mascarada pela necessidade de conseguires ser aquilo que te não compete, nem pertence, ser. Não podias querer mais do que o que te foi destinado e ainda assim insistes em remeter tudo ao carnaval insano que acontece nas ruas da tua amargura. Se olhares para dentro com os olhos de quem sabe ver, encontras o ponto exacto em que as coisas deixaram de ser simples, deixaram de ser fáceis.
Aprendemos, tão cedo, a saber deixar partir. A assimilar a perda como apenas mais uma componente de nós. A aceitar a queda como uma necessidade inevitável. A sorrir perante o que se tornava adverso e nos atingia como uma tempestade em alto mar. Estamos sempre nas vagas do mar alto a enfrentar a chuva e o vento das coisas que acontecem em nós e que ninguém vê. Sei que sabes que ninguém, por mais perto que esteja, pode ver o que acontece em ti. O que acontece quando as pétalas da flor da laranjeira caem sobre as pedras frias da calçada, levadas por asas pequenas de abelhas atarefadas ou asas grandes de pardais e melros chilreantes.
Porque é que as coisas nunca são fáceis?
Porque hoje não temos direito a que as coisas sejam fáceis mas amanhã…amanhã, pode sempre haver a simplicidade do odor a flor de laranjeiras mesmo aqui, à porta de nós.

09/03/2011

k

Não sei o que vou ser quando sair daqui.

Não sei quem posso vir a ser se conseguir sair daqui. Sabes que há demasiado arame farpado em torno deste lugar que me ocupa. Inteiro.

Eu mato-te e tu sabes que eu sou capaz de te matar. Se olhares para mim. Se me tocares. Se me não deixares passar. Tenho lâminas nas mãos e no corpo inteiro. Mato-te, a ti e a todos os que se puserem no meu caminho e não me deixarem gritar como eu quiser. Eu vou gritar como eu quiser. Não preciso que ninguém me diga o que fazer. Fui criado na rua. Na rua vive o mais forte. O que não tem medo. Tenho as marcas na pele para te mostrar que não tenho medo. Consegues ver? É bom que consigas ver porque é o que tenho para te mostrar.

Não te vou dizer nada que queiras ouvir. Não vou dizer nada do que queriam que eu soubesse dizer. Vou colocar o meu braço sobre a tua traqueia e vou começar a fazer força e vou fechar, devagarinho para que percebas tudo o que está a acontecer. Vou fechar.

Contas os segundos ou queres que seja eu? Conta. Vá. Conta enquanto eu faço força e tu deixas de conseguir respirar.

Estão a ver? Isto era o que queriam que eu não fizesse. Este é o meu arame farpado. O arame que me tem à volta dos olhos, à volta das mãos e dos dedos, dentro de mim. É o que sei de melhor.

Sabes tão bem quanto eu que nenhum de nós vai chegar a sair daqui. Não há espaço lá fora. Entre os meus braços e o teu respirar já há pouca coisa para nós.

Não vou ser nem um bocadinho melhor que isto com este arame farpado em volta. Vou só fechar os braços até ao fim e dizer-te adeus.

24/02/2011

No.TH.ere


Fecha os olhos. A noite deve estar quase, quase, a terminar. Apesar das janelas abertas podes fingir que não sentes o inverno a entrar. Podes fingir que eu já não me importo de te ver a tremer. Se puderes, deixa as mãos abertas para te ver a agarrar o nada que te sobrevoa o corpo como se te tivesses afogado na tua própria saliva. Talvez não devas falar tanto. Ou respirar. Talvez devas remeter todas as palavras que não chegaste a dizer para o mesmo lugarzinho do teu corpo. Podes cortar a pele se quiseres. Não me faz qualquer diferença. Podes cuspir o sangue inteiro que te leva a escrever coisas que eu não sei o que querem dizer que eu não me importo. Que eu não quero saber. Podes até segurar o ar com a tua serenidade que eu vou continuar a gritar. Fecha os olhos, merda. Tenho-te a olhar-me de frente quando sabes que já te não queria estar a ver. Desaparece. Vê se me importo que desapareças. Eu fecho os olhos porque a noite, em breve, vai acabar e eu posso finalmente saber onde estou. Aqui não vejo grande coisa…aqui não sei bem onde tenho os dedos, a pele, os olhos. Podes fingir que não vem frio daqui. Podes fingir. Não me importo mais. Agora não falas? Não tem mais saliva para me afogar? Estás aí?

Talvez seja verdade que já tenhas ido embora e eu ainda esteja aqui deitado, a fingir que não me importo que tenhas já partido com a chuva.

importance

Hoje és como o espaço que sobra nas coisas vazias.
O que resta do que resta quando já resta pouco.
O que sobra do que sobra quando nada sobra das sobras.
O que chega quando o resto se vai.
O que vai quando já coisa nenhuma chega.
A importância de se ser o lugar que se não é, é como uma revelação divina, é como uma linha preta numa folha branca, como uma palavra começada numa frase vazia, como um azulejo numa parede ferida pelo tempo, como um lápis de carvão a furar as linhas, como uma nuvem lisa a desafiar o inverno.
A questão que se encontra em se ser o que se não é e em querer ser o resto do que não sobra, é maior que o vazio que se encontra quando se arrisca abrir os olhos sobre o abismo da vida. E tudo isto, hoje, podia ter-te tido a maior importância.

15/01/2011

cao.s

Partes como se partir fosse chegar de forma inversa.
Deixas o espaço da casa da mesma forma como o encontraste. O caos caído sobre si mesmo.
Restam beatas e cinzas espalhadas na pele da madeira. Gotas e manchas, suor e sexo, lágrimas e sangue. Por entre lençóis e vidros quebrados, não ficou mais nada senão o pó.
Um caos aberto sobre si mesmo.
Há uma música a rezar o princípio da noite. A música sempre. Ligada a bramir o teu chorar em notas reproduzidas contra a necessidade inevitável do silêncio que a noite traz.
Tenho o corpo a dançar em náusea.
Tenho a náusea a dançar-me no corpo como se não tivesse mais como respirar.
Partes como se chegar não fosse mais do que este abismo aberto no caos de mim.

Segura-me nas mãos. Vou cair.
" O Mundo é um pensamento encadeado. quando algo se consolida, os pensamentos libertam-se. quando algo se desfaz, os pensamentos encadeiam-se."

Novalis

12/01/2011

ouço o teu respirar na pele das costas e não me sinto capaz de me virar no corpo













"If at first you don’t succeed, put yourself up and try again
Try again"
Tens os lábios suspensos na marca de água onde caíram as palavras antigas. Nos pés não há soalho que não esteja apodrecido pelo tempo passado sem piedade sobre os rasgos da humidade que te cobre os cabelos. Ouço-te rezar quando fecho as janelas e impeço o resto do mundo de devastar o que resta da tua solidão. Aqui dentro não há perigo. Sabes bem que aqui dentro não há perigo.
Olho-te por detrás dos vidros e percebo que nunca compreendi – verdadeiramente  -rigorosamente nada do que te fazia mover. Sempre soube a selvajaria que acontecia dentro do teu pensar mas nunca pude saber a verdadeira dimensão das coisas que te consumiam.
Suspendi-me nas palavras que tinha para te dizer e remeti tudo ao silêncio que só as almas velhas sabem manter. As palavras, tuas, caídas longe das minhas, mais não poderiam ser do que o reflexo da nossa eterna incapacidade de ser o que restava de nós.

09/01/2011

água

Fecha-me nas mãos que são tuas feitas de água. Encerra-me no sonho que é teu feito de deserto infinito. Guarda-me nas palavras que jamais serão proferidas. Entoa-me nas preces aos deuses esquecidos. Sorri no olhar que é meu e que tens dentro de ti na certeza de que, um dia, eu vou chegar a chegar junto do lugar que tu ocupas fora de mim. Prometo que vou tentar serenar o passo e seguirei na marcha de um cavalo negro de encontro ao sol que se vai por na margem do deserto que gerámos em nós. Antes de partires, vou segurar as tuas mãos feitas de água e vou beber-te, inteiro, até mais não poder. Antes de eu partir, tentarei ter chegado a tempo da tua espera.

14/12/2010

Estava parado à porta. Frente da única porta que havia naquela casa velha.
Estava parado a esperar o tempo.
A esperar a imensidão das coisas que existem
dentro da possibilidade dentro do vazio
(das coisas).
Estava parado à porta e eu fingi que não te via.
Fingi que não eras tu ali porque de cada
vez que tentava lembrar-te em mim as memórias eram todas
difusas, confusas, profusas.
Esvaíam-se como areia por entre os dedos.
Não.
Como água ensanguentada
por entre os dedos.
No centro das mãos.
No ponto mais ínfimo da minha/tua pele.
Eras tu quem estava parado à porta
e eu segui no caminho oposto
a fugir de me saber
ali.

10/12/2010

estou seguro que o inferno começa, precisamente , aqui.

08/12/2010

empty box - morphine

tore open the package it was an empty box
no meaning to me just an empty box
sender was a woman
she said she's sending me everything I
I never gave her before
she said: Fill it up and send it back,
so I sent her back an empty box.
A big mistake, sent back an empty box
half in the shadows, half in the husky moonlight,
and half insane just a sound.

in the night I enter a valley so dark
that when I look back I can't see where I began,
I can't see my hands, I don't even know if my eyes are open.
In the morning I was by the sea
and I swam out as far as I could swim 'til I was too tired to swim anymore
and then I floated and tried to get by strength back.
Then an empty box came floating by,
an empty box and I crawled inside
half in the shadows, half in the husky moonlight
and half insane just a sound
alright

musgo

Lembras-te quando íamos apanhar musgo?
Lembras-te de como ficávamos pequeninos, a ver-te cirandar de um lado para o outro, a preparar o ancinho, a segurar o cesto com as mãos secas e cheias de rugas, tranquilas como a casca das árvores que nos ensinavas a dizer o nome?
Nós pequeninos a ver-te terminar de preparar tudo. Na ânsia que vem pela palavra que se tanto deseja ouvir. “Vamos”, sorrias tu a falar. “Vamos!”
Subíamos a serra com pernas de flecha, quentes por dentro do peito, com magia na ponta dos dedos. Corríamos como se a serra fosse mais de que uma serra, fosse um lugar que só nós tínhamos, que só nós podíamos conhecer.
Enterrávamos as mãos pequeninas na terra fria e sentíamos o calor a chegar às faces já rosadas. De botas até ao joelho, cachecóis e gorros, segurávamos o olhar enquanto que tu, com dedos de árvore e mãos mágicas, retiravas o musgo das pedras e colocavas no cesto. Os nossos olhares suspensos no nevoeiro da manhã na certeza de que ali, naquele preciso momento, tudo o resto era possível.
Com as nossas mãos pequeninas a segurar-te as pontas do casaco e do cesto e das luvas e das cascas de árvore, caminhávamos a sorrir as palavras todas, já sem pressa, de regresso a junto da lareira.
Depois, viria o tempo de colocar o musgo sob as figurinhas de barro pintado que tentávamos descobrir quem eram, sem perguntar, a ter vergonha de perguntar as coisas que se devem saber sempre mas que se querem ouvir, vezes e vezes sem conta.
Lembras-te quando éramos assim e o mundo fazia sentido?

06/12/2010

Reduzir-se às cinzas que cabem numa gota de chuva era só o que era necessário para o dia de hoje.

29/11/2010

nEoMe

Não tenho permissão para atravessar o barro. Está coberto de listas negras e listas brancas e não posso passar. Não tenho permissão para dar nem mais um passo. As paredes estão a obrigar-me a recuar desde ontem, desde hoje, desde sempre. Sabes que nos sonhos são cobras e serpentes que passam sobre as memórias ridículas das coisas que suposto era terem acontecido? Recuo na certeza de que os pés vão falhar a velocidade certa e que vou ruir sobre a areia. Mas a neve vestiu o chão de listas negras. A parede a chegar até ao lugar onde eu juro que já não queria estar, juro, e não tenho forma de me suster de pé. Imagino que esteja frio o chão. Imagino que estejas frio no chão. Coberto de barro, não, coberto de neve. Sabes que está a nevar aqui dentro? Neva enquanto as paredes se deslocam num espaço que, rapidamente, deixo de reconhecer como meu. Tacteio tudo com a língua na aspereza da terra fria e sei que vou esquecer o meu nome e tudo o que vem antes. Não posso passar daqui. Espero que a neve trave o avançar desta corrente, não, desta parede de barro que agora me cobre os cabelos de tinta branca. Estou certo de que vou cair em breve. Juro que não queria. Tento – apesar de saber como qualquer movimento nesse sentido não só pareça ser perfeitamente ilusório, assim como é inteiramente desnecessário ou evitável de uma forma extremamente coerente dado que não é possível contornar a inevitabilidade da queda de um pé despido sobre a primeira neve – tactear com o que resta do sangue a possibilidade de me segurar seguramente na parede insegura que me tem feito recuar. Não tenho permissão para tentar mais nada. O barro está coberto de listas brancas e de listas negras e em nenhuma delas aparece, nunca mais, no meu nome.
Qual é o meu nome?

23/11/2010

chuva ardida

Estou e é como se não estivesse. Talvez não esteja mas esteja sem estar. Posso não estar, efectivamente, e isto seja tudo mero delírio. Ilusão. Memoria errada de um movimento errático. Ébrio. Vazio.
Sou o que resta da tua ausência. Sou o que sobra depois da chuva ardida. Sou o momento exacto em que as coisas param de ser. Posso até estar mas não estou.
Estou no lugar das coisas que já não estão e não sei voltar a estar nas coisas que são qualquer coisa outra que não isto.
Sou o gesto sem tempo. O tempo sem pele. A pele sem cor. A cor sem espaço. O espaço sem lugar. O lugar sem terra. A terra sem vida. A vida sem tempo.
Sou as cinzas do que queria ser e atirei-me ao mar. Estou mas é como se não estivesse.


19/11/2010

cc II

Quero dormir no lugar onde mais nada possa crescer. Quero deitar-me sobre a areia, não, sobre a terra, não, sobre húmus a apodrecer, e respirar tão fundo quanto consiga.
Quero dormir como se não houvesse mais necessidade de acordar.
Já não suporto o cheiro que as minhas unhas encontram no rasgar da parede. Já não tolero o sangue que me sai negro do cabelo quando me encontro de frente para os vidros. Já não sinto o que resta do meu caminhar nem recordo onde deixei a capacidade de andar.
Quero dormir como se não fosse preciso, nunca mais, voltar a despertar.
Não posso continuar aqui. Nesta sala só há tempo. Neste espaço só há espera. Nesta casa não há nenhum resto de mim para além desta minha sombra a rasgar a parede com as unhas abertas. Aqui só tenho a esperar o que se não pode esperar assim, desta forma. Aguardo que chegues com a pressa dos desesperados. Aguardo que me abraces com a força dos cegos. Aguardo que me beijes num beijo de anjo esquecido num qualquer lugar reservado ao limbo de mim, e me sorvas o que resta do meu respirar.
Se fechar os olhos agora sinto o cheiro podre que vem da minha pele. Talvez estejas a chegar. Talvez eu te encontre debaixo das folhas, da terra, da areia, do lugar onde já nada pode crescer.
Quero dormir e não mais voltar aqui.
Já não estou à espera de me encontrar no lugar em que te deixei. Devasto o que resta da ânsia para chegar até ti ou para que chegues aqui. Se me virem sorrir, sabem que o meu anjo chegou. Se me virem fechar os olhos e desistir saberão que ele está perto o suficiente.
Por favor, vem depressa. Não consigo mais estar aqui.

cc

Quero morrer.
Era tudo o que tinhas para me dizer hoje.
Quero morrer. O tempo é o que mais há aqui para passar.
Foi como quando ele me disse que não queria.
O quê?
Sapatos.
Porquê?
Porque me dói nos pés.
Mas faz frio.
Não quero.
O quê?
Sapatos.
Foi como quando me disseste que não há mais nenhum sitio para ver a vida passar. Que a vida vivida a passar assim não é vida para ser vivida.
Porquê?
Porque me dói.
Onde?
Em todo o lado.
O quê?
A vida. Dói-me a vida. Devia ter morrido ali. Devia ter morrido.
Porquê?
Porque não quero.
O quê?
Viver assim a vida sem ter vida.
Quero morrer.

04/11/2010

Compreendo o porquê exacto que te leva a não chegares aqui.

[Tão louca razão que sabe não querer saber quando sabe.]

Vejo que o deserto não pode ser um lugar para quem só sabe amar o mar.

[Que há saudade do mar somente no deserto, finge:]

Percebeste, pouco depois de tocares esta areia, que o lugar de ti não podia acontecer aqui.

[e foi assim um feito des-feito]

 Não podia ser agora.

[com desfecho:]

Sei porque é que não me tocas quando me suspendo no teu respirar.

[a distância encarnada, uma ligeira travessura:]

Sei porque não me olhas quando rasgo os pulsos e escorro o sangue como se fosse chuva.

[de seres impossível várias vezes, repetida e tragicamente, acontecida gota a gota.]

Reconheço que não saibas os passos que danço quando estás de costas para o lugar onde eu ainda consigo existir.

[Respira. Sente. Respira. Pensa. Respira… e mais um pouco, a pouco.]

Sei bem porque é que eu sou ainda um deserto.

[Acordo e sei que por detrás da janela – lá fora –  há, inevitavelmente, gente.]

Sei bem que tu vais ser sempre o mar. Longe.

[E que ser gente é, paradoxalmente, evitável.]

03/11/2010

Compreendo o porquê exacto que te leva a não chegares aqui.
Vejo que o deserto não pode ser um lugar para quem só sabe amar o mar.
Percebeste, pouco depois de tocares esta areia, que o lugar de ti não podia acontecer aqui. Não podia ser agora.
Sei porque é que não me tocas quando me suspendo no teu respirar.
Sei porque não me olhas quando rasgo os pulsos e escorro o sangue como se fosse chuva. ´
Reconheço que não saibas os passos que danço quando estás de costas para o lugar onde eu ainda consigo existir.
Sei bem porque é que eu sou ainda um deserto.
Sei bem que tu vais ser sempre o mar. Longe.

31/10/2010

Podes passar a lâmina pelos meus dentes. Já não faz diferença.
Podes passar o ferro quente nas minhas costas as vezes que te apetecer. Já não tem importância.
Podes deixar-me de frente para ao muro que eu não vou abrir os olhos desta vez. É indiferente para onde me viras. Onde me deixas. Onde me abandonas.
Esquece-me quando começares a andar. Não te lembras? Já não estava aqui desta vez. Já não estava aqui desde a última vez. Já não era eu. Porque não te lembras?
Mente o resto das palavras que faltam na frase que me vai completar.
Honestamente que não quero saber o que falta porque o que falta já não vai trazer nada de novo a este resquício de tempo que guardo no sangue que me escorre da língua.
Passou tempo demais e eu agora, desde há muito tempo, que não consigo.
Confundo-me na vontade, nas palavras, nos gestos. Confundo-me na dança, atrapalho-me nos movimentos, esqueço as linhas que devia seguir e deixo cair tudo no chão. Ando dois passos tão rápido como recuo três. Agora acabou. Nem sequer vale a pena tentares de novo porque eu não vou ver nada.
Vou estar virado de frente para a merda do muro de olhos fechados à espera que o tempo acabe de me torturar.


18/10/2010

apneia

Sustém-me em apneia.
Conta até três.
Fecha os olhos como se não quisesses ouvir nem mais um ruído deste mundo.
Conta até quatro.
Segue-me as linhas todas do corpo como se aqui fora fosse de dia.
Sustém-me enquanto conseguires.
É como se estivessemos submersos e tudo em volta fosse água. Sentes?
Conta até cinco.







Agora respira.

17/10/2010

lonjura


Quando a encontrei, estava sentada no cimo de um muro alto, na berma da estrada.
Não dizia uma única palavra. Não expressava nenhum som. Olhei-a como se olham as coisas que estão no cimo de nós e esperei que me olhasse de volta. Insisti até a posição do corpo me dizer para colocar os olhos sobre a terra.
Havia lama na berma. Tinha chovido toda a noite. Algo me fazia crer que ela teria ali estado o tempo inteiro que uma noite leva a passar. Debaixo da chuva. No cimo daquele muro.
Chamei-a pelo nome e recordei-me de como adoro a forma como tu dizes o meu. Sorri como quem se lembra das coisas importantes da vida e retomei a olhá-la. Chamei mais uma vez.
Ela acabou por olhar para mim e a ver-me como se vêem as coisas que se não querem ver. Olhou através do meu corpo e não ligou nenhuma importância ao facto de estar ali, parado, com os resquícios da noite de chuva nos pés e na roupa.
Percebi que tinha saído descalço de casa…há quanto tempo não saía assim? Como poderia ter-me esquecido? Como podia ainda não ter sentido o frio da lama – sim, como estava fria sob o cerco do frio de Novembro – a passear-me na pele.
Imaginei que me tocavas nos pés à medida que recomeçava, tão lentamente, a chover. Percebi que sempre fez parte de mim – ainda antes de te ver pela primeira vez – essa forma como sorris. Sempre. A parte de mim que ainda não tinha encontrado.
Percebi, quando recomeçou a chover fortemente, o motivo pelo qual ela permanecia sobre o muro, inexpressiva. É que do cimo das coisas, podemos ver mais longe e na lonjura, ela estava certa que o sol acabaria por chegar.
Soube o lugar de ti enquanto retomava o caminho de regresso a casa. De pés despidos sobre a berma desta estrada fria, reconheço-me no cimo do muro, a olhar a distância e a saber por certo que, um dia, também tu acabarás por chegar.

07/10/2010

Prelúdio

Parar entre dois mundos: tudo é feito do ser da aparência, a aparência de ser. É vazio atrás de vazio, mentira atrás de mentira, jogo atrás de jogo, manipulação atrás de manipulação, disfarce atrás de disfarce, logro de logro, adulação de adulação, aniquilação de aniquilação, inverdade de inverdade – é uma vazante mal cheirosa e viçosa de nada. Tiramos prazer de nada, sorrimos face a nada, abraçamos nada, adormecemos com nada, acordamos para nada, vivemos de nada. Esta pauperricidade que nos invadiu e percorre o nosso ser em vez de sangue, que usa o pulsar cordial na pujança da vitalidade é a nudez e é feia, para além de crua e de desproporcionada, é asco feito nojo. Nojentos que a morte não dignifica e a vida perpetua.

Onde está a lucerna que tantos e tão antigos proclamaram acerca da humanidade? Que é feito dessa faísca que chispa da fogueira anímica e sustém o universo, no cantar de Orfeu? A conversão euridiciana será sempre a nossa fatalidade e a esperança somente repousa em Cronos, que nos devora, inimbuchável, da nossa miséria feia e de asco.

ra.va.ge.

Se pudesse, segredava-te no corpo que me dói tudo aquilo que deixei acabar aqui. E, logo de seguida, gritava-te dentro do vazio que sobra em mim, até sangrares nos dedos. Colocava meu escutar sobre a tua boca e esperava que fechasses os olhos e dissesses…
dissesses…
que…dissesses…
Levava os dedos ao teu olhar fechado para que me visses a desaparecer e dissesses…e…
Despia a roupa toda na noite gelada – faz frio aqui, lembras-te? – e esperava que abrisses a boca para me veres quebrar e dissesses…
Se pudesse, segredava-te nos dedos a que sabe o meu sangue e não esperava, mais, que me olhasses nos olhos e fechasses a boca no silêncio sepulcral que só tu podes saber.
Se pudesse, obrigava-te a gritares dentro do meu vazio que já não há mais nada que me possa doer. Que dissesses…
que dissesses…
que
agora
não
vai
doer.

Mas só estou eu aqui. Lembras-te?

04/10/2010

"9 Crimes"

(Damien Rice feat. Lisa Hannigan)

Leave me out with the waste
This is not what I do
It's the wrong kind of place
To be thinking of you
It's the wrong time
For somebody new
It's a small crime
And I've got no excuse

Is that alright?
Give my gun away when it's loaded
Is that alright?
If u don't shoot it how am I supposed to hold it
Is that alright?
Give my gun away when it's loaded
Is that alright
With you?

Leave me out with the waste
This is not what I do
It's the wrong kind of place
To be cheating on you
It's the wrong time
She's pulling me through
It's a small crime
And I've got no excuse

Is that alright?
I give my gun away when it's loaded
Is that alright?
If you dont shoot it, how am I supposed to hold it
Is that alright?
I give my gun away when it's loaded
Is that alright
Is that alright with you?

Is that alright?
Is that alright?
Is that alright with you?
Is that alright?
Is that alright?
Is that alright with you?

No...
“Se o vento passar por aqui, amanhã, diz-lhe que não estou.
Diz-lhe que já parti.
Diz-lhe, por favor, que já não vou voltar mais. “


03/10/2010





As casas estão tapadas com panos pretos nas janelas. Cheira a cinzas. Cheira a solidão quando atravesso a rua.
Os passos estão parados. As pessoas amontoam-se junto à berma. Não na estrada. Permanecem na berma na esperança vã de que algo os venha tocar nas faces arrefecidas. Cada um mais só de que o outro. Juntos, no mesmo espaço fingido, e ninguém se entreolha.
Faz frio aqui. Faz frio antes de chegar à água. Atravesso as ruas sozinho. Mais ninguém vem. Mais ninguém olha o resto do caminho.
Junto ao rio, todas as pedras escorrem sal como se o sal fosse tinta como se a tinta fosse pele.
A possibilidade do sonho é uma arma dirigida ao pano preto que me cobre os olhos. O dentro. Esvazio-me enquanto ouço a água a avançar.  

Cobre-me com panos pretos e encerra as janelas. Não quero mais atravessar nenhuma rua.



02/10/2010


tenho,
nas mãos,
um poço
vazio,
sem fundo,
onde
me deixo
cair.


27/09/2010

na voz
a aspereza dos dias
sós.

nas mãos
o desencontro dos escombros
ternos.

nos olhos
a desventura esperançada despedaçada do sorriso
aventurado.

na chuva
a melodia do mais brando e cruel
silêncio.

no andar
a tentativa de fuga do esgar do fogo
vazio.

no mar
a possibilidade segura de não mais
respirar.

na porta
a certeza única do caminho a não fazer
jamais.

20/09/2010

10/09/2010

devolutus

Ainda me lembro de ti, quando atravessavas a noite até ao fundo para me encontrares. Atravessavas as ruas ébrias e sujas e cheias para chegares até mim. Fosse a que horas da noite fosse, tu perscrutavas a escuridão até me veres.

Ainda me lembro da forma como as tuas mãos me seguravam no vazio e de como eu quase aprendi a fechar os olhos. Por entre o que restava do suor e do dia, a tua língua a saber-me as palavras que eu podia não dizer.

Às vezes consigo lembrar a que sabia o cheiro de ti, do teu corpo, do teu hálito quente a padronizar-me a pele. Se tentar com vontade, consigo chegar até à memória das noites de verão quente em que os nossos restos se fundiam, se diluíam, se consumiam como se o mundo fosse terminar aqui. Aí. Depois de nós.

Se quisesse, lembrar-me-ia do teu nome, dos contornos da tua face, da languidez dos teus dedos.

Se pudesses chegar ao fim desta noite, depois das ruas que são vazias antes de mim, gostaria de saber que nome te lembrarias de me chamar.

06/09/2010

pra.ia

A praia está deserta. Deserta como as terras do sul daquele continente onde já não vais há demasiado tempo. Deserta como os lugares que perdem a vida e os sonhos. Deserta como os espaços que deixam de se ocupar, como as bocas que deixam de rir. Se fechares os olhos sentes a água a desaparecer no céu. Sei que já não faz calor, não, o verão já chegou ao fim. Ainda assim, a água desaparece no ar. Quase, mas mesmo quase, como se nunca estivesse estado lá. Aqui. Ali. Neste lugar reservado, hoje e para todo o sempre, ao deserto abandonado e só que há em ti.

estilhaço

Não consigo falar contigo.
Está aqui uma parede
de betão,
não,
de ferro,
não,
de aço,
não,
de fogo,
não,
de lama,
entre as minhas palavras e a tua capacidade de escuta.

Estou cansado.
Quero que saibas que estou cansado e que esta noite vou desistir sem tu saberes que eu desisti.
Estou tão exausto que não sinto os pés, não preencho a pele, não reconheço os restos dos meus restos.
Esta é a noite em que eu desisto de continuar a tentar. Não sei mais. Ninguém me estende as mãos à terra e me faz compreender. Ninguém transpõe o muro que
talvez,
de certa forma,
não seja o teu,
mas
o meu,
e o meu seja,
de certa forma,
idealmente,
muito maior que o teu.

Estou cansado.
Tenho lágrimas feitas de sal a escorrer-me nas chagas que me são os olhos.
Não quero ouvir mais nada hoje.
Não quero ver mais nada esta noite.

Sabes,
quero que saibas que desisti de tudo
mas não o vais saber.
Não,
não queres saber.
Não,
não vais saber do muro,
não vais escutar nada,
enquanto eu partir,
enquanto eu me desfizer
em lama,
não,
em fogo,
não,
em aço,
não,
em ferro,
não,
em betão,
não,
em chuva.
Enquanto eu não me desfizer em chuva.

05/09/2010


Levamos uma vida inteira a tentar saber quem somos.
Perscrutamos cada parte do caminho, devastamos o corpo e a alma na demanda de uma qualquer razão,
de um sentido consentido,
de um porto para atracar.
Mas é no momento exacto em que nos reconhecemos,
ainda que sem espelho,
ainda que sem imagem,
e nos sabemos,
que quedamos como aves padecidas em pleno voo
e quedamos
e quedamos
e quedamos
sem nada a amortecer a queda,
até embatermos na terra fria.

22/08/2010

borboletário de lisboa






a serenidade em estado puro.
obrigada pela companhia, flôr de lótus.

19/08/2010



Na imagem do fumo da cigarrilha a abandonar a janela deste carro e a desvanecer no ar fica a certeza de que desaparecer revela o único continuar possível.

15/08/2010

Não quero que faças nada.
Não quero sequer que me fales ou que olhes para mim. Que tentes. Que procures.
Deixa.
Deixa-me.
Já me abandonaste há tanto tempo que é absurdo ainda estares aqui.
Não me procures nos restos de comida nem de pó.
Já não estou neste lugar há tanto tempo que já nem me lembro bem a que cheiras.
Sabes que no infinito as linhas paralelas não se tocam. Sabes que no infinito não há mais do que buracos negros e nós chegamos a ver o fim disso que não tem fim sem precisar lá chegarmos.
Se pudesse já estava com o resto do corpo largado na terra húmida.
Se pudesse já não estava aqui e já não respirava.
E se pudesse ser de outra forma já nem te lembrarias meu nome eu já não teria nada por que esperar.

jardim botânico - museu de história natural











13/08/2010

Um gesto de dança e eu seria vento.
Um movimento certo e eu chegaria ao fim.
Uma só noite e teria sabido o mar.

09/08/2010

De quantas formas se pode partir?

Se não te conhecesse tão bem acharia que me respondias que se pode partir de tantas maneiras como se pode ficar. Logo de seguida, com o teu sorriso traçado de ironia, dirias que se pode partir de tantas formas como se pode amar.

E como se pode amar, perguntaria eu com um ar de criança assustada.

Ah, pois bem. Olharias para mim como se o mundo fosse terminar naquele exacto segundo e esperarias que o sino da igreja desse conta das horas para me sorrires. Fecharias os olhos como quem não precisa de conhecer a luminosidade do dia para se ter sabido sempre nela, e dirias que se pode amar de tantas maneiras como se pode partir porque se pode partir de tantas maneiras como se pode amar e que se ama incondicionalmente quando se aprende a deixar partir.

E como se sabe que se ama?

Quando ficar deixa de ser possivel e a iminência da partida se torna tão dificilmente tolerável e tão inevitavelmente necessária.