15/08/2010
13/08/2010
09/08/2010
Se não te conhecesse tão bem acharia que me respondias que se pode partir de tantas maneiras como se pode ficar. Logo de seguida, com o teu sorriso traçado de ironia, dirias que se pode partir de tantas formas como se pode amar.
E como se pode amar, perguntaria eu com um ar de criança assustada.
Ah, pois bem. Olharias para mim como se o mundo fosse terminar naquele exacto segundo e esperarias que o sino da igreja desse conta das horas para me sorrires. Fecharias os olhos como quem não precisa de conhecer a luminosidade do dia para se ter sabido sempre nela, e dirias que se pode amar de tantas maneiras como se pode partir porque se pode partir de tantas maneiras como se pode amar e que se ama incondicionalmente quando se aprende a deixar partir.
E como se sabe que se ama?
Quando ficar deixa de ser possivel e a iminência da partida se torna tão dificilmente tolerável e tão inevitavelmente necessária.
estória
Tiro os olhos de ti e deixo-os cair sobre as minhas mãos. Meu punho banhado de sangue. Desenhado nos nós dos dedos, o resto de ti. Alisa. Eu. Tu. Olho as mãos paradas num tremor que sinto que se vai eternizar a partir deste preciso momento. Tremo como se fosse frio isto que me rega o corpo todo mas não. Apesar da chuva não faz frio. Apesar de tudo isto, não faz frio. Nas mãos tenho o temor e as rugas. Sim, consigo ver tudo debaixo do sangue sujo. Consigo ver as marcas do tempo que me vandaliza por dentro, que me dilacera e me desfaz com o toque sereno de uma lança afiada. Desvio os olhos para ti enquanto alguém te levanta do chão. Olho os teus pés (já descalços), e os teus joelhos (já negros), o teu vestido (já rasgado), o teu peito (já seco) e a tua boca…a tua boca…Aposto que neste momento querias que te olhasse nos olhos e eu sigo para as mãos que são minhas e onde tu já não estás. Limpo na camisa o que restou de ti e bebo o que me sobra no copo. O balcão está ainda mais conspurcado. Tu estás ainda mais pura. Mais a cheirar a chuva. As minhas mãos são a prova de que eu e tu e ela já envelhecemos. Eu nas mãos e na alma, tu no sangue e na memória, ela na distância ausente de quem não está e é um jamais contido em nós. Porque insistes em regressar sempre? Porque insistes em vir de encontro a este lugar que já não tem espaço para o que nos separou quando nos uniu para sempre? Olho-te de frente enquanto as tuas mãos choram. Levas os dedos ao cabelo baço e seguras o negro dos teus olhos como se me segurasses a traqueia. Sinto-me velho. Sinto-te a morrer. Fecho os olhos e sei que posso morrer, que devia ter sido eu a morrer, assim, como ela. Jazemos os dois. Tu e eu vivemos o fim depois do fim e não encontrámos mais o caminho de volta. Diz-me porque insistes em voltar? Porque insisto em não conseguir partir?
Enlaça teus dedos na minha traqueia enquanto as minhas mãos velhas quedam para onde antes estava o teu sangue. Não adormeças. Por favor, não adormeças.
31/07/2010
muralha
Podias ter tentado perder-te por entre as escadas que rodeiam as muralhas. Mas não.
O céu estava condensado, a suster um suspiro que se encontra na razão de se ser, simplesmente, assim.
Encontraste a tua voz no lugar da terra, na proa da traineira, na insistência do nevoeiro. Encontraste-te na música, nas gentes, na razão de uma qualquer existência.
Quiseste dizer, a quem não te vê nunca, que és o tudo que pode ser por entre as muralhas de um castelo. E isso, podendo ser o lugar mais inteiro da tua distância, pode ser o lugar mais perfeito da possibilidade da tua entrega.
E foi quando a noite caiu sobre a música e eu te ouvi nas palavras que eram minhas, e que encontraste a possibilidade de sair do caminho que há tanto atravessas só.
26/07/2010
Voltaire, "Cândido e o Optimismo"
"Haverá coisa mais tola do que querer carregar continuamente um fardo que se quer a todo o custo largar por terra?”
"Quando não somos tidos em conta num mundo, encontramo-la num outro.”
“E que coisa é esse optimismo? Dizia Cacambo. – Ai! Disse Cândido, é a mania de defender que tudo está bem quando tudo está mal.”
"Todos os acontecimentos se encadearam no melhor dos mundos possíveis.”
Cândido e o Optimismo
VoltaireTinta da China
1ª Edição
2006
Dado a conhecer ao meu mundo por uma criatura sublime de um outro mundo sublime a quem muito agradeço!
um livro delicioso. imensamente bem escrito. intensamente cheio.
escrito em 1759. imperdivel para os curiosos da história.
24/07/2010
Preciso que saibas isso. Pode ser a última coisa que eu venha dizer.
As pessoas todas se afastaram daqui. Ninguém ficou para me contar uma história, para me olhar nos olhos e saber quem eu posso ser debaixo das folhas.
Consegues ver as linhas que desenhei? Foram a carvão. Consegues ver debaixo da areia? As linhas estão lá. Desenhadas com o que sobrou da madeira queimada. Com o que sobra do fogo.
Estão longe da água. Viste? Conseguiste ver?
Fica só um mais um bocadinho. Toda a gente desapareceu e agora só sobraram as dunas.
Há demasiado silêncio aqui e é quase como se eu também já não estivesse. Já não me ouço. E não posso errar outra vez no caminho. Desta vez não vou saber regressar. Estou demasiado cansado.
Lembras, quando corríamos juntos na areia? Lembras-te do dia em que deixámos de ter medo? Olhámos para debaixo das folhas e vimos o resto. Deixámos de ter medo.
Se pudesses ficar mais um bocadinho, de certeza que não haveria tanto ruído. Não havia tanto silêncio. Podias contar-me uma história.
Sabes... já não está mais ninguém para chegar. Já não há mais ninguém para partir. Eu sou a folha e tu estás além da terra.
Eu vou perder-me agora que não consigo ouvir nada. Não tenho medo desde que atravessámos as dunas a correr e era só deserto que vinha depois. Mas agora estou demasiado cansado para me recordar do caminho de volta.
As linhas, se olhares bem, vês que ficaram tortas. Será também o caminho torto? Talvez seja como a linha de água. Confuso, indeterminado, cheio de sal, de espuma, sem direcção definida. Talvez seja preciso errar no caminho. Ainda que depois não se consiga voltar.
Debaixo da terra das folhas há tudo o resto. Tu sabes.
21/07/2010
“E só por isso escrevo – para que continuadamente me reconheça vivo no escrever, para que o sondar-me desencontradamente seja ainda uma forma de me encontrar, para que o ininteligível de mim e da vida seja ainda vida e o simples inteligível dela como vida que é. “
Invocação ao meu Corpo
Bertrand
3ª Edição, 1994
Invocação ao meu Corpo
Bertrand
3ª Edição, 1994
15/07/2010
"Oficio Exacto" - Gonçalo M. Tavares
Gonçalo M.Tavares
Breves Notas Sobre o Medo
Ed. Relógio D'Água
2007
O mundo tem as cores que conseguires ver. Por todo o lado. Em cada lugar. Em cada tempo.
E talvez até se possam ver os cheiros que cada cor tem. Magnólia. Jasmim. Camélia. Sol. Chuva. Tempo.
O deserto tem a cor que se pode saber ver.
Enquanto se souber caminhar de pés descalços sobre a areia quente e sobre a terra molhada, é possível chegar a saber (quase) tudo.
14/07/2010
Aproximar-me à beira da tua sombra e ver-te sem te ver.
Tocar-te na ausência de ti e saber o teu lugar por ser.
Unir-te no que sobra de mim (como se em mim restasse alguma coisa)
Sem saber exactamente o que unir significa porque não chego a ti e é
Como se mais nada houvesse entre aquilo que nos separa e aquilo que nos colocou no mesmo lugar sem tempo.
Antes de tudo o resto, chegaste para partires das minhas mãos. E isso vai ter de ser o resto do que falta.
je te vais laisser disparaître.
13/07/2010
O
Segura-me os dedos das mãos enquanto me viro de costas.
Puxa a pele. Toda. Inteira. Não hesites.
Rasga tudo o que te parecer a mais. Até veres a carne toda. Até veres o osso.
Agora lambe.
Enquanto eu estiver assim não te vejo. Enquanto eu não te vejo, não preciso de ti.
Faz o que quiseres. Liberta-me as mãos. Coloca-te sobre o meu vazio e fode-me. Assim. Em silêncio. Como se eu não estivesse aqui e voltasses a ser só tu.
A noite não arrefeceu o suficiente hoje. Cala-te. Cala-te. Cala-te. Cala-te. Cala-te. Cala-te.
Segura-me as costas. O cabelo. Segura. Enquanto não te vejo não me fazes falta. Não digas nada. Devasta-me. Destrói-me. Hoje não sou mais do que isto. Enquanto não te vejo não me reconheço. Deixa-me de frente ao meu vazio e fecha as mãos sobre o teu sangue.
Aniquila-me. Agora. Cala-te.
11/07/2010
coloco as pontas dos dedos no contorno do sangue e sinto-te cair.
seguro-te no momento em que o tempo se esvai e o sentido se perde quase como que irremediavelmente.
e depois da iminência da queda chega o fragmento do tempo que
- ébrio e em nudez absoluta -
anuncia a lugar das coisas suspensas em silêncio.
escrito em out de 2006, aqui
http://rasgosdeluz.blogspot.com/
10/07/2010
Hoje olho para mim e encontro tão pouco. Olho para a ausência de ti e vejo o caminho inteiro que eu fiquei por percorrer. E talvez tenha medo. Talvez não saiba bem onde estou. Talvez não consiga reconhecer, com precisão, o lugar que ocupo aqui.
Tu não estás aqui. Não estás aqui há tanto tempo que dentro do meu sangue e da minha pele parece uma eternidade – como se a eternidade se pudesse sentir como algo de mensurável – mas foi tudo ontem. Foi só ontem. Foi hoje. Agora. Neste preciso momento em que sinto tudo a desaparecer. Em que tento segurar a fugacidade dos momentos nas mãos e não sei agarrar nada.
Tento respirar. Tu sabes que eu sempre tentei respirar como se o ar fosse aquele que só passa no cimo das montanhas. Pequeno, rarefeito, cheio de ausências.
Mas olho para mim e não vejo o que me falta. Sei que sou tudo o que não sei ser e essa é a pior parte de mim e tu, tu eras a melhor parte de mim e agora eu sou pouco. E isso, na maior parte dos dias não me chega. Na maior parte das noites não me satisfaz.
Não sou aquilo que era suposto ser. Não chego a ser aquilo que era previsto. Depois de ti deixou de haver lugar para mim.
Ainda hoje escavo com os dedos em ferida a terra e as folhas e o húmus à procura do que me falta. Às vezes tenho a certeza que não vou encontrar mais nada. Às vezes acredito que vou saber procurar melhor no dia seguinte. Às vezes não sei rigorosamente nada.
O tempo tem toda a importância que eu lhe consigo dar. Hoje sei que vai ser tudo tão magoado como tem sido até aqui. Vai sendo cada vez menos. Vai acontecendo tudo cada vez com menor incapacidade. Mas quando fecho os olhos vejo os teus. Sinto o teu cheiro como se estivesses nas minhas mãos.
Deixo de existir no dia que te perder daqui.
Mas mesmo assim não estás. Não estás aqui há muito tempo. Fiquei eu a procurar o que me falta do caminho. Fecho os olhos para acreditar que vou conseguir olhar para ti de frente e sentir que me seguras as mãos outra vez. Fecho os olhos. Conto os dedos. 9.
Sabes que me resta pouco. Por mais que tente. Por mais que julgue ser capaz. Sabes melhor que ninguém quem eu fui até ti. E guardas o segredo na tua pele. Nas tuas mãos fechadas. Nos teus olhos negros a desenhar-me em asas de anjos dourados. E isso vai ter de continuar a bastar-me. Mais um dia. Mais uma noite. Até eu desaparecer.
07/07/2010
03/07/2010
innuendo
01/07/2010
everything else
Tua infinidade está muito além das minhas mãos.
Só tu podes ser como o vento.
26/06/2010
Senhor, partem tão tristes
confirmação
Segredei-me nas costas da noite mas era para mim apenas que falava. Não estava mais ninguém. Por perto.
A noite deixou-me de costas para a certeza de que, afinal, nunca tinhas estado. Perto.
Eu sou o que resta da minha ausência. Tu és o que resta da minha confirmação.
25/06/2010
24/06/2010
estória VI
Alisa. Envelheceste, foram os anos que passaram, a correr caminhos acima e abaixo da tua altura. A lua subiu e desceu tantas vezes banhadas pelo sol e tantas outras se escondeu, aninhada, pela terra. Sabes que está próximo. Que é hoje, que é sempre hoje e não amanhã, e nem poderia ter sido ontem. Olhas-me ainda, vives-me ainda, para seres depois de mim. Acalentas o limite do teu corpo como um enamorado apaixonado no desejo de desejar, e sabes no gesto da carícia a fronteira. Alisa. Foi o tempo que se escorreu ao longo do teu corpo, moldando a erosão das lisas arestas das curvas desenhadas. Arrastas os teus pés no peso de os mover. Peso. Seguras-te a pretexto em cada toque dado em cada recanto. Pretexto. E o ar puro no fôlego que te insufla os pulmões. Fôlego. E são tão pequenas e tão longínquas as tuas sete vezes, os teus punhos, o meu sangue, a tua violência, o meu silêncio, a tua e a minha de tudo e de nada. Alisa. Envelheci. Fui sendo nos momentos e nas situações; fui colhendo sentidos e significados; fui guardando memórias e aspirações; fui aninhando amores odiados e desamando afectos; fui-me deixando aqui e além. Envelheci, vivi-me: quando chegar a hora estará tudo saldado e não haverá nada para morrer, a não ser a morte. Alisa. Falas tão poucas vezes comigo – dizes-me, silenciosamente – e esse teu comportamento infernal, agressivo é a presença que sempre foi a falta em mim. Esqueço. Hoje esqueço-me regularmente de esquecer, e tudo o que lembro vive na penumbra de um véu diáfano, que de tão presente chega a ser mais do que ser, aparência. Envelheceste.
23/06/2010
Jack
22/06/2010
sem título
21/06/2010
Abandono
Pode suceder-se que nada chegue a chegar aqui.
Enquanto esperava na margem do rio vi como a noite caiu sobre o mar. Eu não estava lá mas vi tudo. A maré a mover-se como só os gestos de sedução se podem mover. Eu ali a não ver porque não estava lá. Mas sabia tudo.
Pude imaginar o meu corpo deitado sobre o frio da maré da manhã. A flutuar na vertigem da ressaca que vem com a certeza do abandono.
Fui abandonado aqui. Todos os barcos partiram. Todos os portos fechados por causa das marés. Fiquei só. E é assim que (me) encontro (n)o mundo.
Sozinho. Olho de frente para quem se arrasta de costas para mim e sigo os gestos todos cinzentos pelas ruas fora.
Podia ter acontecido que eu não me tivesse apercebido de rigorosamente nada e agora estava a sorrir a olhar a água. Mas não foi assim que aconteceu. And I will blame myself for stepping inside this fucking hole. I will always blame myself .
Se tivesse conseguido, tinha-me encostado de frente a uma parede qualquer e esperava que chegasses e me devastasses com os dedos. Com a língua. Com a boca inteira. Mas nem sequer me lembro do teu nome. Nem consigo recordar a que sabe o teu odor.
Tudo podia ter sido de maneira diferente se eu tivesse estado no sítio certo. Agora não estava aqui. Não estaria aqui. Tudo teria sido bem mais simples e provavelmente ainda me lembraria de ti.
Todos os barcos partiram. Estou despido de frente a esta parede, cinzenta, e as tuas mãos não chegam. Acontece que tu não conseguiste chegar aqui. Acontece que nada chegou a chegar aqui, ao sítio onde eu sabia que já não estava mas onde ainda me encontro absolutamente só.
Podia ter acontecido tudo de outra maneira. Mas não fui capaz de mais.
20/06/2010
Day Old Hate - City and Colour
And I know its fun to pretend
Now blank stares and empty threats
Are all I have, they're all I have.
So drown me and if you can
Or we could just have conversation.
And I fall, I fall, I fall down
But I found you, before I drift away
Now you still speak of day old hate
Though your whole world has gone up into flames
And isn't it great to find that you're really worth nothing
And how safe it is to feel safe.
So drown me and if you can
Or we could just have conversation.
And I fall, I fall, I fall down
But I found you, before I drift away
The things we do just to stay alive
The things we do just to stay alive
The things we do just to stay alive
The things we do just to keep ourselves alive
The Death of Me - EP - 2004
18/06/2010
milimetrico (05/2007)
Pensa. Quando a dor for quase a rasgar. Aperta. Quando o tempo estiver a chegar. Cessa. Quando a lua aparecer. Cobre. Quando os restos não importarem. Grita. Quando os mortos te tocarem. Sorri. Quando a chuva não parar de cair. Dança. Quando o sangue parar de escorrer. Guarda. Quando os riscos forem desenho. Esculpe. Quando todos os pássaros levantarem voo. Pousa. Quando o vento levar tudo. Continua. Quando as palavras faltarem. Escreve. Quando tudo deixar de ser suficiente. Procura. Quando nada chegar a ti. Escava. Quando te perderes. Sente. Quando encontrares. Esquece. Quando começares a sentir. Sossega. Quando tudo acalmar. Naufraga. Quando as marés descerem. Navega. Quando os barcos partirem do porto. Mergulha. Quando chegares à ilha. Submerge. Quando te sentires chegar a terra. Voa. Quando tiveres de partir. Espera. Enquanto puderes esperar. Prepara. Quando puderes ficar. Segue. Quando tiveres de chorar. Adia. Quando não conseguires esperar mais. Agarra. Quando fizer falta. Segura. Quando voltar a fazer falta. Chama. Quando faltar um milimetro para caires. Chora.
15/06/2010
15/06
e 9 são os anos que não passam. foi tudo ontem. foi como se fosse, como se tivesse sido, tudo hoje. agora. vai ser sempre assim por todos os anos que faltam para mim.
sometimes I wish I could have also been there.
14/06/2010
13/06/2010
refúgio de domingo

12/06/2010
passado
Não te encontrei onde esperava encontrar-te.
Não viste nada do que esperava que tivesses visto.
Estavas exactamente no mesmo lugar onde te deixei ficar e não onde queria que estivesses.
Olhaste para mim sem me veres e não respiraste. Não o suficiente.
Não encontraste reduto possível. Olhaste a porta e saíste. Como da primeira vez. Como se nada pudesse mudar. Como se fosse a única coisa que sabes fazer.
E eu fiquei a olhar-te partir de costas voltadas para a tua ausência e a saber que não me encontro no lugar onde esperava já ter chegado.
10/06/2010
cheiro a chuva
Das portadas brancas abertas sobre a sala cheia de fumo, cheira a chuva.
A terra molhada a dar o sinal e a levantar a possibilidade de se sentir a liberdade de ser qualquer coisa mais do que o resto que não interessa já continuar a ser. Chuva.
A sala cheia de sombras. De cigarros acesos a desafiar a lei da gravidade e a subir ao tecto que parecia não terminar. Meia-luz. Meia voz. Gente a olhar de frente um qualquer fado escrito nas teclas de um piano ao fundo. Ao fundo o piano que, também ele, cheira a chuva quando encontra uns quaisquer dedos furtivos a desafiar o silêncio com a alma inteira. Uma voz a encher a sala enquanto as sombras todas tentam silenciar as coisas todas que se não podem dizer quando se olha de frente para o que é belo. Tão simplesmente belo.
Cheira a chuva.
Cheirou a chuva toda a noite. E a chuva foi o que se entranhou na pele. Foi o que se entranhou na alma.
E hoje ainda cheira a chuva. E à noite ainda vai cheirar a chuva.
E isso é tudo o que importa quando se olha pelas portadas brancas abertas sobre todas as salas.
07/06/2010
des.er.to.
O caminho vinha de um céu vermelho que mais ninguém conseguia ver.
Teu corpo a mover-se, lentamente, no cair do dia sobre o deserto quente.
Teu vulto a escudar-se de outros antes de embater contra as rochas. Tua sombra a segredar-te esconderijos onde ninguém mais que não conheça a necessidade da fuga pode, vez alguma, saber chegar.
Sombras, sombras, a rodearem-te a pele e os contornos do rosto e a certeza dos gestos certos por desfazer.
Mais uns minutos e já não chegavas a tempo. As ruas começaram a fechar-se sobre si mesmas e a vida a parar no tempo que não chegou.
Passos de dança lançados no vento de olhos fechados como se não houvesse, já, mais nada para ver.
Um deserto inteiro aberto sobre as ruas. Sobre a noite. Sobre o tempo.
Um deserto inteiro aberto em ti onde a areia não se move de encontro ao resto. A areia parada de frente para o tempo.
As ruas inteiras fechadas sobre o que não chega nunca. As ruas fechadas na certeza de não terem lugar para onde ir.
Talvez, na verdade, não haja nem segredos nem promessas guardados nas esquinas. Nas calçadas. Na sujidade do chão.
Talvez, de verdade, não estejam milagres a aguardar a sua vez nas chuvas cinzentas.
Talvez, em definitivo, não fiquem marcas na areia dos passos que se ousam ensaiar de frente para o calor. Talvez a areia não chegue a ser mais do que essas sombras paradas sobre os pés, sobre olhos, sobre os restos do que resta.
Mas no cair da tarde, de olhos fechados a dançar sob o vento, pode haver lugar a um céu vermelho que ninguém vê.
Se voltares a chegar tarde, não pares de encontro às sombras mas de frente para o tempo. E o deserto aberto em si mesmo vai encontrar um limite que não tem limite nas ruas que sempre tiveram lugares diferentes para onde ir.
02/06/2010
rio
Havia um rio à volta destas casas. Era um rio largo. Era um rio cheio.
Desde que as chuvas pararam a água, aqui, nunca mais correu. Tentei fechar os olhos e ver o que faltava mas não encontrava o lugar certo das coisas. Já não encontrava o lugar.
Havia um rio à minha volta. É um rio agora seco. É um rio sem corrente.
Desde que eu parei que a água não corre. E agora eu sou o deserto, aqui, aberto à volta destas casas. Desta terra. E já não há lugar ao lugar que era certo das coisas.
31/05/2010
tu
Foste sempre tu.
Em todos os dias. Em todas as noites.
Sempre.
E serás. Tu. Até não haver mais eu.
ruido
Um grito dentro da minha surdez.
Um grito fora do meu espaço de silêncio.
Um acto de violência. Uma condenação.
Um grito e eu perdi o que me restava da esperança.
E compreendo agora, neste preciso momento em que o silêncio é tudo o que pode acontecer em todo este ruído, que não posso, nunca mais, esperar por nada.
15/05/2010
dante
Não há inevitabilidade maior que o regresso depois da partida. Não há inevitabilidade mais cruel.
O mundo insiste em dilacerar o que resta da minha pele e das minhas sombras. Se não estivesse prestes a morrer do cansaço, morreria da queda imensa aberta em mim.
Não posso dizer nem mais uma palavra hoje. Estou dentro de uma chama dantesca. E daqui não parece ser possível partir.